Procópio d'Ogum

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Procópio Xavier de Souza (1880 - 29/11/1958) foi sacerdote de candomblé (mussurumi / igbomina / Ijexá / jeje / queto) iniciado pela sacerdotisa Marcolina da Cidade da Palha[1] , de quem recebeu o nome religioso Ògúnjobí (Aquele que Ògún ajudou a gerar)[2] . Procópio era um homem de Obatalá (Babá Ajalá), que "entregou" seu "ori" a Ogum. Seu templo era conhecido como Ilê Ogunjá, situado no Baixão, antigo Matatu Grande, em Salvador (fundado por volta de 1906). Seu templo foi construído no Vale do Gunokô (espaço consagrado ao culto de Babá Igunnukô), ancestral tapa (nupe) cultuado pelos alufás mussurumis e igbominas (processos de hibridizações afro-brasileiras).


Vida Religiosa[editar | editar código-fonte]

Procópio, no final do século XIX, foi iniciado para o ancestral Ogum[3] , pela sacerdotisa Marcolina da Cidade de Palha. Após, esse período, abriu seu próprio templo dedicado a seu éborá: Ilê Ogunjá.

O número de pessoas iniciadas, além da famosa feijoada anual oferecida na festa de Ogum (patrono do terreiro), que mais tarde ficou conhecida como "feijão do Procópio", bastante contribuiu para o reconhecimento do terreiro. Donald Pierson cita uma festa com 208 espectadores no interior da casa e, aproximadamente, outros duzentos "que movimentavam-se do lado de fora do barracão"[4] .

Outro fator fundamental para o seu reconhecimento foi o fato de ter participado da legitimação da religião dos orixás (do candomblé), durante a perseguição às religiões afro-brasileiras promovida pelas autoridades do Estado Novo.

No filme Tenda dos Milagres, de Nelson Pereira dos Santos, no qual aparece um trecho de sua história, o personagem Procópio d'Ogum é interpretado pelo babalorixá Luís Alves de Assis, mais conhecido como "Luís da Muriçoca".

Nesse período, o Ilê Ogunjá foi invadido pela polícia baiana, sob a supervisão do famoso delegado Pedrito Gordo. Procópio foi preso e espancado. O jornalista Antônio Monteiro foi uma das pessoas que ajudou na libertação de Procópio. Tal acontecimento - Caso Pedrito - registrou o nome de Procópio na história popular baiana, chegando mesmo a fazer parte de uma letra de samba de roda:

Esse caso conferiu-lhe notórias citações em obras de ficção. "Tenda dos Milagres", de Jorge Amado, é um bom exemplo. Jorge Amado, que foi apresentado a Procópio pelo etnólogo Edison Carneiro, recebeu das mãos do sacerdote seu primeiro título na religiosidade afro-brasileira: ogã de Oxóssi. Assim Jorge se tornou um protetor do Ilê de Ogunjá. Jorge Amado e Carybé foram famosos que tomaram bori com Ogunjobi.

Feijoada de Ogum[editar | editar código-fonte]

Sobre a feijoada, conta-se: "Um dia Procópio estava comendo em sua casa. Chegou um filho de santo, com quem ele tinha brigado. Então, Procópio manda ele embora com outra briga. Com isso, comete um grande erro para o candomblé: negar comida a um filho de santo. O santo pegou Procópio e falou que ele estava multado. Na semana seguinte, ele deveria fazer uma feijoada no terreiro convidando todo o mundo" (Entrevista realizada com Mãezinha - afilhada de Procópio, por Ricardo Oliveira de Freitas). Colocava-se uma esteira no chão, na ponta da esteira a panela de barro com a feijoada. Todos deveriam, ali, comê-la. Ao tocarem na comida, todas as filhas de santo "caíam no santo". Não era uma feijoada como costumeira, mas uma feijoada com preparos, temperos e carnes especiais.

Profundo conhecedor das ervas, possuía uma quitanda (herbário) no Gravatá, perto de sua residência. Possuía profunda relação com o terreiro do Alaketu, tendo auxiliado Dona Dionísia (mãe de santo àquela época) na iniciação religiosa de dezenas de "barcos", entre estes o barco da iyalorixá do terreiro, Olga Francisca Régis (Olga de Alaketu) e Tia Delinha d'Ogum (com casa no bairro de Miguel Couto, em Nova Iguaçu), de quem foi Pai Pequeno.

Eram terreiros irmãos e por isso possuíam casas especiais para abrigar os irmãos da comunidade visitante. Essa parceria entre os dois terreiros fez com que objetos rituais do Terreiro do Alaketu, que estavam em temporada no Ilê Ogunjá, fossem apreendidos pela polícia de Pedrito como peças do terreiro de Procópio, o que comprova a imensa familiaridade entre Procópio e Dionísia Francisca Régis.

Procópio também mantinha boas relações com o Bogum, em Cachoeiras, no qual participou de iniciações. Um exemplo disso é a participação da iniciação de um "barco", que continha Roxinha de Oxum, conhecida como dofona de Vitória, Maria de Azonsu e Luiza Franquelina da Rocha.

Além da polícia, Procópio d'Ogum também não era aceito por alguns templos religiosos (axés), na Bahia. Era odiado e pejorativamente considerado homossexual, simplesmente porque, segundo esses axés hegemônicos, homem somente poderia ser ogan, e não iniciado para elegun (rodante). No entanto, por ser conhecido como "brigão", embora fosse uma pessoa tranquila, impunha respeito com energia (Procópio: notório homossexual, segundo o Grupo Atobá.)[5] . Após o falecimento de sua sacerdotisa igbomina, tentou se unir e seguir as normas de outras instituições hegemônicas na Bahia. Por isso, passou a se intitular "keto". Todavia, foi sua derrocada (embora sua popularidade) já que o mesmo não era bem-visto por essas "casas de axé".

Segundo o inventário de Procópio, ele faleceu em 29 de novembro de 1958, com 78 anos. Deixou dois filhos adotivos: Hélio de Souza Oliveira (1932 - 07/11/1962) e Edna Souza Santos (eram filhos de um "ogam" da casa de Procópio). Segundo o espólio de Procópio, Edna é sua única herdeira viva.

Vicente de Matatu[6] foi quem realizou o cerimonial de axexê de Procópio e de Hélio. Seu filho adotivo Hélio de Souza Oliveira (assobá e artista plástico) morreu aos 30 anos de idade, por morte estranha (doença), após abrir as portas do Ilê Ogunjá e mostrar ao público tudo o que lá havia (na ocasião do filme do Glauber Rocha) . Todo o enorme espaço sagrado do templo (Vale d'Ogunjá) foi invadido e tomado, e muitos pertences sagrados foram queimados.

Iniciados, afilhados e filhos[editar | editar código-fonte]

  • Iyá Davina
  • Manoel do Ògún / Manoel da Caixa d'Àgua
  • Arnaldo Babaribô (primo-irmão)
  • Hélio Souza de Oliveira (filho adotivo)
  • Theóphilo Pereira (Ogan)
  • Olga de Alaketu (afilhada)
  • Delinha d'Ogum (afilhada)
  • Iyatu
  • Edna Souza Santos (filha adotiva)


Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. LOPES, 2004, p.544.
  2. PENNA, 2001, p17.
  3. Informação popular: Procópio cultuava Obatalá como se fosse seu "carrego". Ele haveria nascido regido pelo orixá Babá Ajalá, porém, por ser elegun (rodante), foi iniciado para Ogum.
  4. PIERSON, 1971, p 325.
  5. Uma confraria dos igbominas no Brasil, por Fábio R. Penna. 2011.
  6. Informação de cunho popular: Procópio era de Babá Ajalá. Todavia por ser elegun (rodante), foi iniciado para Ogum.


Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • AMADO, Jorge. Tenda dos Milagres. São Paulo: Cia das Letras, 2008.
  • PIERSON, Donald. Brancos e Prêtos na Bahia. 2 ed.. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1971.
  • LOPES, Nei. Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana. Rio de Janeiro: Selo Negro, 2004.
  • PENNA, Antonio dos Santos. Mérìndilogun Kawrí - Os Dezesseis Búzios. Rio de Janeiro: A. Santos Penna, 2001
  • PENNA, Fábio Rodrigo. Um confraria dos igbominas no Brasil. Rio de Janeiro. F. R. Penna, 2011.
  • FREITAS, Ricardo Oliveira de. Procópio d'Ogum e o Ilê Ogunjá. Encarte. CD Ilê Omolu Oxum. Coleção Documentos Sonoros. LACED/Museu Nacional da UFRJ/PETROBRAS. 2004.
  • PUNZO, Marcella. Le grandi madri del Brasile. Roma: Editori internazionali Riuniti. 2014.