Tagebuch einer Verlorenen (1929)

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Tagebuch einer Verlorenen
Diário de Uma Garota Perdida /
Diário de Uma Pecadora
 (BR)
Pôster alemão do filme
 Alemanha
1929 •  pb •  125 min 
Direção Georg Wilhelm Pabst
Roteiro Margarete Böhme
Rudolf Leonhardt
Baseado em Tagebuch einer Verlorenen (1905), de Margarete Böhme
Elenco Louise Brooks
Fritz Rasp
André Roanne
Josef Ravensky
Franziska Kinz
Género Drama
Música Otto Stenzel
Cinematografia Sepp Allgeier
Fritz Arno Wagner
Lançamento Áustria 27 de setembro de 1929
Alemanha 15 de outubro de 1929
Idioma Mudo, com legendas em alemão
Página no IMDb (em inglês)

Tagebuch einer Verlorenen (Pt/Br: Diário de uma Garota Perdida) é um filme mudo alemão de 1929 dirigido por Georg Wilhelm Pabst. Este foi o segundo e último filme de Pabst com Louise Brooks, e como sua primeira colaboração (A Caixa de Pandora, 1929), é considerado um filme clássico. É filmado em preto e branco, e várias versões do filme variam de 79 minutos a 116 minutos de duração. Foi baseado no controverso romance best-seller do mesmo nome, Tagebuch einer Verlorenen (1905) de Margarete Böhme. Uma versão anterior, dirigida em 1918 por Richard Oswald, é agora considerada perdida.

Enredo[editar | editar código-fonte]

Thymian Henning (Louise Brooks) é a inocente e ingênua filha do farmacêutico Robert Henning (Josef Rovenský), que acabará de ganhar de presente um diário. Um dia sua governanta, Elisabeth (Sybille Schmitz), vai embora de repente e acaba se suicidando. O motivo? Seu pai a engravidou. Quando o corpo dela é trazido para a farmácia mais tarde naquele dia, em um aparente suicídio por afogamento, Thymian fica desolada. O assistente do pai de Thymian, Meinert (Fritz Rasp), promete explicar tudo para ela mais tarde naquela noite, mas, em vez disso, tira proveito dela, que também acaba ficando grávida. Thymian dá a luz a uma linda menina chamada Erika, mas a rejeita. Embora Thymian se recuse a falar o nome do pai da bebê ilegítima, os parentes descobrem pelo seu diário e decidem que a melhor solução é que ela se case com Meinert. Quando ela se recusa porque não o ama, eles dão a bebê para uma parteira e enviam Thymian para um reformatório rigoroso para garotas rebeldes, dirigida por uma mulher tirânica (Valeska Gert) e seu assistente (Andrews Engelmann).

Enquanto isso, o amigo de Thymian, Conde Nicolas Osdorff (André Roanne), um jovem playboy, é rejeitado e deixado sem dinheiro por seu tio rico, Conde Elder Osdorff (Arnold Korff), depois de não conseguir se adequar a nenhuma função ditada por ele. Thymian implora para seu amigo tentar persuadir seu pai a levá-la de volta, mas o pai de Thymian havia se casado com a nova governanta, Meta (Franziska Kinz), que controlava tudo na casa e não queria ter que dividir o carinho de Robert com a enteada.

No reformatório, Thymian, faz amizade com uma moça chamada Erika (Edith Meinhard). As garotas formam uma aliança. Quando a inspetora descobre o diário de Thymian e tentá tirá-lo dela, todas as meninas trabalham em conjunto para que a outra não consiga por as mãos nele. É neste mesmo momento que garotas dominam a mulher e Thymian e a amiga Erika escapam do reformatório. Quando Thymian vai ver seu bebê dela, acaba descobrindo que a criança acabou de morrer. Depois de vagar triste pelas ruas, ela reencontra Erika, que está trabalhando em um pequeno bordel de classe alta. Sem rumo, Thymian também se torna uma prostituta. Ironicamente, é neste período de sua vida que a garota conhece companheirismo e paz. Depois de algum tempo, por acaso, Thymian encontra seu pai, Meta e Meinert, em um clube. Seu pai fica chocado quando percebe o que ela se tornou, mas Meta e Meinhert o levam embora. Ela nunca mais o vê.

Três anos depois, quando o pai de Thymian morre, na esperança de receber uma fortuna, a moça decide ir em busca de um novo futuro e para isso decide casar-se com Conde Osdorff. Depois de pensar sobre isso, ele concorda. Quando descobre que Meinert comprou sua parte na farmácia de seu pai e está para por Meta e a filha dela - sua meia-irmã - na rua, Thymian vai ao socorro delas para que essas não enfrentem o mesmo destino que foi imposto à ela e dá o dinheiro recebido na venda. Osdorff, que havia contado com o dinheiro para reconstruir uma vida para si mesmo também, quando descobre o que Thymian fez, se suicida jogando-se pela janela. Seu tio, inconsolável, decide resolver as coisas cuidando de Thymian. Ele a apresenta a sociedade como sua sobrinha, Condessa Osdorff.

Em um estranho giro do destino, Thymian é convidada a se tornar a diretora do mesmo reformatório onde ela mesma já foi mantida. Quando sua velha amiga Erika é levada de volta ao reformatório e trazida aos diretores como um "caso especialmente difícil", Thymian denuncia a escola e a leva embora. Conde Osdorff dá sua última palavra quando está saindo: "Um pouco mais de amor e ninguém se perderia neste mundo".

Elenco[editar | editar código-fonte]

Recebimento[editar | editar código-fonte]

O filme causou escândalo entre os conservadores da Igreja Evangélica Alemã, tendo sido banido de diversas cidades ao redor da Boêmia. Considerada pornográfica, a obra sofreu censura e cortes significativos tiveram de ser feitos para que retornasse às salas de cinema. Os inúmeros cortes tornaram o erotismo da obra mais sugestivo do que explícito. A cena da sedução e estupro, concebida para ser uma dança, foi dirigida, segundo Brooks, como “uma série de manobras sutis, quase mudas, entre uma garota inocente e um homem imprudente”. A expressão psicopática do ator Fritz Rasp reforça a densa atmosfera que permeia a cena.[1]

Outros momentos do filme foram particularmente chocantes para as audiências do fim de 1920: a morte da governanta durante um aborto; a diretora do reformatório, uma lésbica sádica (interpretada por Valeska Gert) que toca gongo enquanto observa as moças da instituição fazerem exercícios físicos (Louise Brooks chama este momento de "cena do orgasmo"); e a famosa cena do bordel, em que Thymian arqueia seu pescoço em submissão sexual.[2]

Após os devidos cortes, o filme foi relançado em 6 de janeiro de 1930. Os críticos, porém, não reagiram bem a nova versão censurada, que, para eles, fazia pouco sentido. Segundo o roteirista Rudolf Leonhardt, “sequências inteiras foram cortadas sem misericórdia. Em uma versão, se me lembro bem, eles cortaram 450 metros, e mesmo nessa ou em outra versão, fizeram mais 45 cortes... O filme chega ao fim pouco depois do meio do nosso roteiro, de forma inconclusiva e incompreensiva. Eu assisti sozinho em um cinema em Paris e, no final, permaneci sentado porque pensei que o filme estivesse quebrado.”[3]

As origens literárias de "Diário de Uma Garota Perdida"[editar | editar código-fonte]

O roteiro de Diário de Uma Garota Perdida é livremente baseado no romance Tagebuch einer Verlorenen (traduzido nos EUA e Reino Unido como Diary of a Lost One), de Margarete Böhme, publicado pela primeira vez na Alemanha em 1905. Ao contrário do que se pensa, o filme de Pabst não é a primeira adaptação cinematográfica da obra: o livro já havia originado um filme em 1918, estrelando o então jovem ator Conrad Veidt (de O Gabinete do Dr. Caligari e Casablanca). Esta primeira versão encontra-se, atualmente, perdida. Narrado em primeira pessoa pela personagem principal, o romance inicia-se na década de 1890. Nele, acompanhamos a plangente vida da jovem Thymian, suas alegrias enquanto menina e sua tragédia ao ser relegada a condição de marginalidade, e forçada, por circunstâncias da vida, à prostituição como forma de sobrevivência.

Embora hoje esquecido, Tagebuch einer Verlorenen é apontado como um dos mais consagrados best-sellers da primeira metade do século 20. A obra foi traduzida para 14 línguas, e, no fim da década de 1920, havia vendido mais de 120 mil cópias ao redor da Europa e América. Escrito em forma de diário, o livro teve sua autoria contestada: a autora Margarete Böhme apresentava-se apenas como a editora de um diário que havia chegado às suas mãos. Para alguns, a personagem Thymian teria, realmente, existido.

Para o crítico e ensaísta Walter BenjaminTagebuch einer Verlorenen é “um inventário completo do comércio sexual”.[4] De maneira crua, a obra desnuda a hipocrisia e a falsa-moralidade cristã, que, ainda nos dias de hoje, reprime e sacrifica mulheres. “Não há dúvidas de que a mulher deve ser livre para fazer o que quiser com seu corpo”, escreve Böhme. “Por que deve-se estabelecer um tribunal de opinião pública para esmagá-la em um abismo de infâmia e desprezo?”.[5] Durante a Alemanha Nazista, devido ao seu conteúdo revelador, o  livro foi tirado de catálogo, só sendo publicado novamente em 1988. Somente em 2010 a obra foi reeditada e relançada de forma independente nos EUA por Thomaz Gladysz, fundador da Louise Brooks Society. Uma rara edição norte-americana publicada em 1908 encontra-se disponível para domínio público no Internet Archive (clique aqui para ter acesso).[2]

Referências[editar | editar código-fonte]

  1. Diary of a Lost Girl Review (1929) | Roger Ebert 
  2. a b Diário de uma Garota Perdida: Estupro, prostituição e condição feminina no cinema dos anos 20. Rafaella Britto 2 de janeiro de 2017
  3. Thomas Gladysz - A dense, intense Diary of a Lost Girl 
  4. Huffington Post - A Lost Girl, a Fake Diary and a Forgotten Author
  5. BÖHME,  Margaret. Diary of a Lost One, p. 159.

Links externos[editar | editar código-fonte]