Terra Sonâmbula

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Disambig grey.svg Nota: Para o filme, veja Terra Sonâmbula (filme).
Terra Sonâmbula
Autor(es) Mia Couto
Idioma Português
País Moçambique
Série Outras Margens, No 5
Editora Portugal Editorial Caminho
Lançamento 1992
Páginas 206
ISBN 978-972-21-0790-7
Cronologia
Cronicando
Estórias Abensonhadas

Terra Sonâmbula é um romance escrito por Mia Couto publicado em 1992.

A obra foi publicada em Portugal pela Editorial Caminho em 1993. Ganhou o Prêmio Nacional de Ficção da Associação dos Escritores Moçambicanos (1995) e foi considerado um dos doze melhores livros africanos do século XX por um júri criado pela Feira do Livro do Zimbábue. Foi reeditado no Brasil pela Companhia das Letras – é um romance em abismo, escrito numa prosa poética que remete a Guimarães Rosa. Couto se vale também de recursos do realismo animista e da arte narrativa tradicional africana para compor esta bela fábula.

O foco narrativo da obra demonstra uma mescla, ou seja, ora é narrado em terceira pessoa, ora em primeira. Alguns termos locais são utilizados na linguagem da obra, marcando a oralidade. Além das descrições, o discurso indireto é muito utilizado, com inclusão da fala dos personagens.

Contexto Histórico[editar | editar código-fonte]

Portugal foi a metrópole de vários países, entre eles um país que se localiza no sudeste africano e até hoje sua língua oficial é o Português. Moçambique foi encontrado por Portugueses em 1498, logo após a chegada, a coroa portuguesa começou a explorar os minerais e mão de obra do local. A colonização de povoamento começa no fim do século XVI com objetivo de proteger o país de invasões Holandesas. A ocupação colonial não foi pacífica, moçambicanos impuseram diversas revoltas e lutas de resistência levando moçambique a guerra de independência.

Guerra de Independência: inicio no dia 25 de setembro de 1964, final no dia 8 de setembro de 1974. Esta guerra foi um conflito armado entre a FRELIMO (Frente de Libertação de Moçambique, movimento nacionalista armado) e as Forças Armadas de Portugal. O início guerra acontece com um ataque no posto administrativo de Chai e terminou com um cessar fogo. A guerra acabou com a assinatura do "Acordo de Lusaca". Esse acordo aconteceu no dia 7 de setembro de 1974 e com ele o Estado Português reconheceu o direito do povo de Moçambique a independência. Então, foi estabelecido um governo provisório composto por representantes da FRELIMO e do governo português, até que no dia 25 de junho de 1975, foi proclamada oficialmente a independência do país.

A Guerra Civil Moçambicana aconteceu no dia 30 de Maio de 1976 e terminou 15 anos, 11 meses e 5 dias depois, no dia 4 de Outubro de 1992. A causa deste conflito foi a divergência de ideais políticos entre os partidos FRELIMO (Frente de Libertação de Moçambique) e a RENAMO (Resistência Nacional Moçambicana). Eles são respectivamente uma partido socialista e o outro capitalista. Um dos pontos mais marcantes da guerra foi a implementação de minas terrestres nas estradas, postas pelos dois partidos políticos. Consequente a guerra 1 milhão de pessoas morreram e 3 milhões se refugiaram. Além disso, a situação econômica de Moçambique estava extremamente instável. Muitas emigrações, e danificação de terra diminuindo assim a produção agrícola, principal setor da economia do país também foram resíduos deste conflito armado.

Hoje o país tem 29,5 milhões de pessoas, sua área total é de 801 590 km², sua capital é Maputo. Moçambique é dotado de ricos e extensos recursos naturais. A economia do país é baseada principalmente na agricultura, mas o sector industrial, principalmente na fabricação de alimentos, bebidas, produtos químicos, alumínio e petróleo, está crescendo. O sector de turismo do país também está em crescimento.

O objetivo central da obra é revelar os horrores e desgraças que envolveram a guerra no país. Os conflitos, o cotidiano, os sonhos, a esperança e a luta pela sobrevivência são os pontos mais relevantes do enredo.

Enredo[editar | editar código-fonte]

Muidinga é um menino que sofreu de amnésia e foi resgatado por Tuahir, ele é um velho que passa seu tempo ensinando a Muidinga novamente tudo sobre o mundo. Eles estão fugindo dos conflitos da Guerra Civil em Moçambique.

Um machimbombo que fora incendiado vira o abrigo de Tuahir e Muidinga, em fuga da Guerra Civil devastadora que grassa por toda parte em Moçambique. O veículo está cheio de corpos queimados. Mas há também um outro corpo à beira da estrada, junto a este corpo Muidinga encontra os “cadernos de Kindzu”, o longo diário do morto em questão. Dentre outras coisas, o Kindzu conta sobre seu pai que era um pescador e sofria de sonambulismo e alcoolismo. Além disso, Kindzu menciona sobre os problemas da falta de recursos que sua família sofria, a morte de seu pai, a relação carnal que tem com Farida e o início da guerra. Kindzu vai relatando em seu diário momentos de sua vida. Da mesma forma, ele fugiu da Guerra Civil no país.[1]

Atenção: o texto seguinte pode conter spoilers

A partir daí, duas histórias são narradas paralelamente: a viagem de Tuahir e Muidinga e, em flashback, o percurso de Kindzu em busca dos Naparamas, guerreiros tradicionais, abençoados pelos feiticeiros, que são, aos olhos do garoto, a única esperança contra os senhores da guerra. Adiante, Tuahir e Muidinga caíram numa armadilha e foram feitos prisioneiros por um velho chamado Siqueleto. No entanto, logo eles foram libertados. Por fim, Siqueleto, um dos sobreviventes de sua aldeia, se mata. Tuahir revela a Muidinga que ele foi levado a um feiticeiro para que sua memória fosse apagada e com isso evitar muitos sofrimentos. Tuahir tem a ideia de construir um barco para seguirem a viagem pelo mar.[2]

No último caderno de Kindzu, ele narra o momento em que encontra um ônibus queimado e sente a morte. Chegou a ver um menino com seus cadernos na mão, o filho de Farida que ele tanto procurava: Gaspar. Assim, podemos concluir que Gaspar era, na verdade, o garoto que sofreu amnésia: Muidinga.[3]

Personagens principais[editar | editar código-fonte]

Personagens dos capítulos[editar | editar código-fonte]

• Muidinga: protagonista da história, é reconhecido como o miúdo, ele tem amnésia e está em busca de sua família. • Tuahir: velho sábio que guia Muidinga depois da guerra. • Siqueleto: último sobrevivente de uma aldeia.• Nhamataca: antigo colega de trabalho de Tuahir.

Personagens dos cadernos de Kindzu[editar | editar código-fonte]

• Kindzu: protagonista da história, escreveu seu diário encontrado por Muidinga, apaixonado por Farida. • Farida: historia de vida sofrida, filho chamado Gaspar, apaixonada por Kindzu • Taimo: pai de Kindzu, sofre de sonambulismo. • Junhito: irmão caçula de Kindzu, vive com as galinhas. • Dona Virgínia e Romão Pinto: portugueses que Farida os considera seus pais. • Estêvão Jonas: administrador • Assane: antigo secretário administrador da região de Matimati • Quintino: guia de Kindzu.

Análises[editar | editar código-fonte]

Identidade[editar | editar código-fonte]

A obra Terra Sonâmbula de Mia Couto revela-se de extrema importância para a análise da construção da identidade pois questiona a dependência política e cultural em que se encontram os povos africanos colonizados pela Europa. Não é gratuito o fato de que a identidade, bem como a ideia da existência de um país, se mostra no livro como uma busca pessoal e não como algo simplesmente herdado.[4] O país onde o conto se passa teve a sua independência recentemente e está passando por uma Guerra Civil, é como se o próprio país estivesse passando por uma crise de identidade.

A crise de identidade também está presente nos acontecimentos da história, personagens como Muidinga e Kindzu estão em busca de sua propria personalidade. Muidinga sofreu amnésia e ele está a procura de seus pais. Kindzu, por outro lado, já foi chamado de "sem raça" e um dos motivos de que ele saiu de casa foi buscar quem ele era.

Realismo fantástico[editar | editar código-fonte]

Mia Couto acrescenta um toque de fantasia e surrealismo no romance, mesclando assim a realidade com a fantasia (realismo mágico). Um aspecto interesante dessa obra que mostra o realismo mágico é o modo como tudo é ambientado. A natureza se mostra presente em todos os capítulos (através da personificação), quase como se fosse o único elemento a possuir vida realmente. Em várias passagens ela se mostra única e onipotente, capaz de se renovar de todas as desgraças. Punindo ou recompensando as pessoas conforme suas escolhas. Mia utiliza o realismo fantástico para a construção da psique das personagens.[5]

Sobre o autor[editar | editar código-fonte]

História[editar | editar código-fonte]

Mia Couto é um autor de Moçambique, nascido em 5 de julho de 1955, e com apenas 14 anos ele possuía diversos poemas publicados em revistas locais. Ele cursou faculdade de medicina, mas após três anos ele abandonou o curso para dedicar-se ao jornalismo. Além de ser considerado um dos escritores mais importantes de Moçambique, ele já teve seus livros vendidos em 22 países, e traduzido para mais de 6 línguas diferentes.

Vocabulário[editar | editar código-fonte]

Mia Couto usa palavras inventadas em seu livro, pode-se perceber no primeiro capítulo o uso da palavra "desdelicado" que significa cantar baixo, "timaca" que significa confusão e "agordalhando" que significa com olhar de inveja. A narrativa mostra-se muito arraigada às origens locais, pois apresenta o vocabulário de Moçambique nesse difícil período, além de ilustrar, nas identidades das personagens, a força que a guerra tem em descompletar.

“Invento palavras para que digam coisas que nenhuma outra diz” Couto, Mia.[6]

Prêmios[editar | editar código-fonte]

Prêmio Vergílio Ferreira (1999, pelo conjunto da obra); Prêmio União Latina de Literaturas Românicas (2007); Prêmio Camões (2013). Além dos prêmios já citados Mia Couto é o único escritor africano que é membro da Academia Brasileira de Letras, ele foi eleito em 1998 para a cadeira n.º 5, e até hoje encontra-se sócio correspondente.

Referências

  1. «Resumo de Terra Sonâmbula». Toda Matéria. Consultado em 10 de novembro de 2020 
  2. «Resumo de Terra Sonâmbula». Toda Matéria. Consultado em 10 de novembro de 2020 
  3. «Resumo de Terra Sonâmbula». Toda Matéria. Consultado em 10 de novembro de 2020 
  4. Rabello, Mariana Clark Peres (2 de dezembro de 2011). «A construção da identidade em Terra sonâmbula, de Mia Couto». Cadernos CESPUC de Pesquisa Série Ensaios (21): 64–71. ISSN 2358-3231. Consultado em 15 de novembro de 2020 
  5. www.jayrus.art.br http://www.jayrus.art.br/Apostilas/LiteraturaAfricana/Mia_Couto_Terra_Sonambula.htm. Consultado em 15 de novembro de 2020  Em falta ou vazio |título= (ajuda)
  6. «Mia Couto: "Invento palavras para que digam coisas que nenhuma outra diz"». GQ. Consultado em 10 de novembro de 2020 
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