Igreja Confessante

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Selo postal alemão: Karl Barth (1886–1968).
Selo postal alemão: Friedrich Gustav Emil Martin Niemöller (1892–1984).

Igreja Confessante ou Igreja Confessional (Alemão: Bekennende Kirche) foi um movimento cristão minoritário[1] de resistência ao Partido Nazista na Alemanha.

Em 1933, o Gleichschaltung forçou as Igrejas Protestantes a entrarem para a Igreja Protestante do Reich e apoiar a ideologia Nazista. A Igreja Confessante foi criada em setembro do mesmo ano como um grupo clandestino da resistência alemã. Em 1934, a Declaração Teológica de Barmen, escrita primariamente por Karl Barth com o apoio de outros pastores e congregações da Igreja Confessante, foi ratificada no Sínodo de Barmen, reafirmando que a Igreja Protestante Alemã não era um órgão do Estado, com o propósito de reforçar o Nazismo, mas um grupo sujeito apenas a Jesus Cristo e seu Evangelho.

No mesmo ano o Pastor luterano Martin Niemöller tornou-se líder da Igreja Confessional, motivo pelo qual seria preso, julgado e posteriormente mandado a um campo de concentração. Simultaneamente a Igreja Confessante teve seus bens confiscados[1] e vários de seus pastores foram presos. Isso e outras medidas tomadas pelos nazistas acarretaram no fechamento da igreja.

Declaração Teológica de Barmen[editar | editar código-fonte]

Selo postal alemão: "Jesus Cristo é a única Palavra de Deus. 50 anos da Declaração Teológica de Barmen."

Foi preparada por Karl Barth, que era membro da Igreja Reformada da Suíça, e por Hans Asmussen, membro da Igreja Luterana da Suécia, onde reconheceram e confessaram a autoridade única de Jesus Cristo sobre a Igreja, rejeitando a autoridade eclesiástica instalada pelo Reich de Hitler[2] [3]

Enquanto o poder constituído tentava estabelecer uma "unidade" da igreja no Estado, a Igreja Confessante surgia não para formação de uma nova igreja, mas para a unidade das igrejas em torno da Confissão de Fé existente nas igrejas protestantes.

Os membros das Igrejas Luterana, Reformada e Unida redigiram um texto em que as igrejas confessavam o mesmo credo e eram unânimes em pensamentos contra a instituição de uma igreja que chamaram "uma falsa doutrina, fazendo uso da força e de práticas insinceras".[2] [3]

Pelo teor inicial da Declaração se observa que a propaganda nazista já apontava os que se opunham a tentativa do Estado nazista em criar uma única igreja evangélica em torno do Reich como uma igreja "contrária à unidade da nação alemã".[2] [3]

Na Declaração Teológica de Barmen, citava-se inicialmente os artigos da Constituição da Igreja Evangélica Alemã, reconhecida pelo Governo do Reich em 14 de Julho de 1933 e a seguir os criticava as intenções que agora se apresentavam dissimuladas.

Pontuava a ameaça à unidade da igreja que o Reich tentou dissimuladamente criar um ano antes e depois introduzir nessa igreja evangélica supostamente unida elementos "estranhos" a doutrina bem como autoridade humana de ditos "cristãos alemães", o que passou a constituir a pagã Igreja do Reich.

Ela se acha ameaçada pelos métodos de ensino e de ação do partido eclesiástico dominante dos «cristãos alemães» e pela administração da Igreja conduzido por ele. Esses métodos se vêm tornando cada vez mais salientes neste primeiro ano de existência da Igreja Evangélica Alemã. Essa ameaça reside no fato de que a base teológica da unidade da Igreja Evangélica Alemã tem sido contrariada contínua e sistematicamente e tornada ineficaz por doutrinas estranhas...[2] [3]

A Igreja Confessante rejeitava:

Face dos erros dos «cristãos alemães» da presente administração da Igreja do Reich(...) Rejeitamos a falsa doutrina de que a Igreja teria o dever de reconhecer - além e aparte da Palavra de Deus - ainda outros acontecimentos e poderes, personagens e verdades como fontes da sua pregação e como revelação divina. (...) Rejeitamos a falsa doutrina de que, em nossa existência haveria áreas em que não pertencemos a Jesus Cristo, mas a outros senhores(...) Rejeitamos a falsa doutrina de que à Igreja seria permitido substituir a forma da sua mensagem e organização, a seu bel prazer ou de acordo com as respectivas convicções ideológicas e políticas reinantes. (...) Rejeitamos a falsa doutrina de que a Igreja, desviada deste ministério, poderia dar a si mesma ou permitir que se lhe dessem líderes especiais revestidos de poderes de mando. (...) Rejeitamos a falsa doutrina de que o Estado poderia ultrapassar a sua missão especifica, tornando-se uma diretriz única e totalitária da existência humana, podendo também cumprir desse modo, a missão confiada à Igreja. Rejeitamos a falsa doutrina de que a Igreja poderia e deveria, ultrapassando a sua missão específica, apropriar-se das características, dos deveres e das dignidades estatais, tornando-se assim, ela mesma, um órgão do Estado. (...) Rejeitamos a falsa doutrina de que a Igreja, possuída de arrogância humana, poderia colocar a Palavra e a obra do Senhor a serviço de quaisquer desejos, propósitos e planos escolhidos arbitrariamente.[2] [3]

As seis teses da Declaração Teológica de Barmen[editar | editar código-fonte]

Tese I: Jesus Cristo, tal qual é testemunhado nas Sagradas Escrituras, é a única Palavra de Deus – a qual devemos ouvir e nela confiar e a ela obedecer tanto na vida como na morte.

Tese II: Assim como Jesus Cristo é a garantia de Deus para o perdão de todos os nossos pecados, do mesmo modo e com a mesma seriedade ele também é a reivindicação mais poderosa de Deus sobre toda nossa vida; por intermédio dele experimentamos uma libertação feliz das amarras ímpias deste mundo, para que possamos prestar um serviço livre e agradecido às suas criaturas.

Tese III: A Igreja cristã é a comunhão dos irmãos, na qual Jesus Cristo, em Palavra e sacramentos, através do Espírito Santo, age de uma maneira presente como Senhor. Na condição de Igreja de pecadores agraciados, ela tem a tarefa de testemunhar em meio a um mundo pecador, tanto com sua fé como com sua obediência, tanto com sua mensagem como com sua ordem, que ela é somente propriedade do Senhor, que vive e pretende viver somente de seu conforto e a partir de sua orientação na expectativa de sua volta.

Tese IV: Os diversos ofícios existentes na Igreja não estabelecem o domínio de uns sobre os outros, porém fundamentam o exercício do ministério confiado e destinado a toda a comunidade.

Tese V: As Sagradas Escrituras testemunham que o Estado, por ordem divina, tem a tarefa de, neste mundo ainda não redimido, no qual também se encontra a Igreja, providenciar a justiça e a paz. O Estado estará se desincumbindo da tarefa e para a tal poderá fazer ameaças e o uso da força de acordo com o bom senso e a capacidade humana. A Igreja reconhece o benefício dessa ordem divina com gratidão e reverência a Deus. Ela evoca o Reino de Deus, os mandamentos e a justiça de Deus, proclamando assim a responsabilidade de regente e regidos. Ela confia e obedece ao poder da Palavra, mediante a qual Deus sustenta todas as coisas.

Tese VI: A tarefa da Igreja, sobre a qual se fundamenta a sua liberdade, consiste em pregar a todos os povos a mensagem da graça libertadora de Deus em Cristo, e por essa razão está a serviço de sua Palavra e obra, mediante a pregação e sacramentos.

Com essas seis teses, a Declaração Teológica de Barmen estabeleceu critérios para a delimitação do Estado.[4]

Bonhoeffer[editar | editar código-fonte]

Selo postal alemão: Dietrich Bonhoeffer (1906–1945).

Dietrich Bonhoeffer (1906-1945), filho de Karl Bonhoeffer (um respeitado psiquiatra em Berlim) e Paula Bonhoeffer. Estudou Teologia em Tübingen e Berlim, onde se doutorou aos 21 anos. Aos 25, foi consagrado pastor luterano.[5] Em 1935 Bonhoeffer retornou à Alemanha, aceitando o convite para ser reitor e professor do Seminário da Igreja Confessante.[6]

Entre 1933 e 1935, após uma crise socioeconômica na Alemanha, a insurgente igreja "Cristã Alemã", de caráter oficial, deu força à doutrina ariana de Hitler.[5]

Bonhoeffer se opunha a Hitler desde o início de sua ascensão do poder, através de um programa de rádio. [7] Inicialmente foi contra a guerra, depois opôs-se às práticas nazistas.[5] Ajudou judeus a fugirem para a Suíça.[5]

Em 1934, participou juntamente a dois mil pastores luteranos na organização da Liga de Emergência dos Pastores, em oposição à igreja oficial controlada pelos nazistas. Essa organização tornou-se a Igreja Confessante.[5]

Com a Igreja Confessante na ilegalidade, em 1940 foi proibido de falar, em 1941 foi proibido de escrever, em 1943 foi preso e em 9 de abril de 1945, aos 39 anos, foi enforcado por ordem expressa de Adolf Hitler.[5]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. a b Ascensão e queda do Terceiro Reich - Triunfo e Consolidação 1933-1939. Volume I. William L. Shirer. Tradução de Pedro Pomar. Agir Editora Ldta., 2008. ISBN 978-85-220-0913-8
  2. a b c d e Declaração Teológica de Barmen
  3. a b c d e Luteranos.com - A Declaração Teológica de Barmen
  4. Centro Apologético Cristão de Pesquisas (CACP): http://www.cacp.org.br/a-declaracao-teologica-de-barmen/
  5. a b c d e f luise-berlin.de - Pensadores Alemães, Berlinische Monatsschrift Heft, Edition Luisenstadt, 1999
  6. Sociedade Internacional Bonhoeffer
  7. Dietrich Bonhoeffer Werke – DBW VI, S. 185
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