Pesca do bacalhau pelos portugueses

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A história da pesca do bacalhau pelos portugueses (muitas vezes referida por a Faina Maior) é pela primeira vez referenciada em 1353, quando D. Pedro I e Edward II de Inglaterra estabelecem um acordo de pesca para pescadores de Lisboa e do Porto poderem pescar o bacalhau nas costas da Inglaterra por 50 anos. A necessidade de estabelecer um acordo indica que esta actividade já se realizava em anos anteriores, e em tal quantidade, que justificava a necessidade de a enquadrar nas relações entre os dois reinos.

Pelo menos desde o século X que os mercadores escandinavos vinham buscar o sal a Portugal, e aí estabeleceram colónias ou feitorias, como indicam as construções ovais, do tipo viking em Pedrinhas, perto de Fão. Do século XI existem registos dos normandos estabelecerem relações amigáveis com as populações do litoral, e terão sido estes a transmitir os conhecimentos da navegação atlântica. Contudo não seria ainda o bacalhau o peixe de eleição no centro de toda esta actividade comercial.

Bacalhaus escalados a serem secos a bordo

No século XII Berengária, filha de D. Sancho I casa com Valdemar II da Dinamarca, o que novamente indicia um ligação grande entre os dois reinos, que dada o seu distanciamento físico, se devia aos forte laços comerciais existentes.

No século XV, apesar do fim da colonização da Gronelândia e das viagens mais ou menos regulares entre o continente europeu e a ilha, a sua localização não foi esquecida, tal como não foi a informação da localização dos habitats do bacalhau, que havia chegado até aos portugueses. Cinco séculos de relações comerciais tinham também estabelecido boas relações diplomáticas com a coroa dinamarquesa, as quais não passaram despercebidas ao Infante D. Henrique, o Navegador, que obteve do rei da Dinamarca um piloto Sofus Larsen – Wollert- que veio até Portugal, e pressumivelmente transmitiu os conhecimentos náuticos e da pesca aos portugueses.

Temos de esperar por 1506, quando encontramos outra referência (ainda que indirecta) à pesca do bacalhau no Atlântico Norte, desta vez pelo dízimo sobre essa pesca que D. Manuel cobra para pagar a viagem dos Corte Reaes, o que nos sugere a importância e quanto estava estabelecida este tipo de pesca.

Em 1452 Diogo de Teive navegou para nordeste dos Açores, “a tal distancia que ficaram com o cabo Clear a leste...” segundo um texto de Las Casas. Curiosamente, este texto está manifestamente errado, pois Diogo de Teive teria de navegar para noroeste para poder ter o cabo Clear, na Irlanda, a nascente. Se é habitual que as crónicas da época não sejam exactas, não podemos deixar de lembrar que a Lei Mental de D. Duarte era clara na sua vontade de esconder de outros o que a coroa considerava serem segredos de estado.

A viagem seguinte registada nas águas da Terra Nova é a de John Cabot, que apesar de não estar estabelecida a nacionalidade, navegou com pescadores e marinheiros de Bristol, que já pescavam nessas águas.

A partir do século XV, já nos surgem vários documentos sobre a pesca dos portugueses no Atlântico norte. Em 1502 João e Francisco Fernandes, açorianos, bem como João Gonçalves, recebem do rei de Inglaterra uma gratificação, que tinha sido previamente solicitada, para estabelecerem uma base entre a Groenlândia e a Flórida.

Cerca de 1500 ou 1501, Gaspar Corte Real navega até ao estreito de Davis, no que segundos autores representa a descoberta da Terra Nova. Na segunda desta viagem é elaborado o planisfério de Cantino, primeiro a apresentar uma visão mais realista dessa região. Ora os pescadores portugueses, na posse desta informação, procuram nas áreas recém descobertas e cartografadas melhores pesqueiros.

No entanto, já o seu pai, João Vaz Corte Real, esteve numa expedição mandada efectuar pelo Rei Cristiano I da Dinamarca a pedido do rei de Portugal Afonso V, em 1470. No relato desta viagem ficou registada a Gronelândia e “A Terra dos Bacalhaus”, o que mais uma vez indicia a pratica da pesca anteriormente.

Em 1504 já havia colónias de pescadores de Viana do Minho e de Aveiro na Terra Nova. No entanto seria impossível criar em 4, 5 anos uma estrutura destas se não houvesse já antes uma industria de conservação e distribuição do pescado. O investimento seria demasiado elevado para apostar em tão larga escala em algo totalmente novo. Só voltam a haver novas referencias a estas colónias para o período de 1520 a 1525.

Todos estas informações indiciam um conhecimento real e o aproveitamento económico das reservas piscícolas, antes do conhecimentos “oficial” registado pelas expedições enviadas para “descobrir estas zonas.

Estas colónias correspondem a um tipo de pesca sedentária, onde os barcos encontravam uma base em terra, e a partir daí os pescadores saiam em embarcações mais pequenas à pesca com aparelhos de linha. Naturalmente o amanhar do peixe e a primeira seca e salga era também em terra. Esta opção podia não ser a única, podendo já ocorrer uma pesca errante, semelhante à que mais tarde foi adoptada pelos lugres.

Durante o reino de D. Manuel I era em Aveiro que eram armados mais barcos para a pesca longínqua, tal como viria a ser mais tarde no século XX. Segundo a “Corografia Portuguesa”, seriam cerca de 60 naus só para a pesca na Terra Nova, numero que subiu para aproximadamente 150 em 1550.

Vários autores portugueses, entre eles Francisco Salles Lencastre, salientam que devido à pesca do bacalhau, trouxeram para Viana da Foz de Lima e Aveiro riquezas nunca vistas.

Em 1578, Antony Parkhurst um mercador de Bristol, escreve numa carta que “... havia ali em geral mais de 100 velas espanholas, 50 velas portuguesas e 150 francesas e bretãs, na pesca do bacalhau...”, adicionando mais a frente 50 inglesas. No entanto, dois anos antes, a proporção era: 50 portugueses, 30 ingleses e 100 espanhóis, não havendo referência a barcos gauleses.

Até ao reinado de D. Sebastião a actividade aumenta, levando à publicação de um “Regimento para as frotas da pesca do bacalhau”, pelo qual estas frotas eram reorganizadas sob um comando unificado.

Após a morte de D. Sebastião, e a consequente ocupação Filipina, com a chegada ao trono de Filipe II de Espanha, I de Portugal, tiveram repercussões graves na frota bacalhoeira portuguesa. Entre as acções dos Filipes que prejudicaram a frota portuguesa, conta-se a requisição de todas as embarcações capazes de enfrentarem o mar alto para a Invencível Armada. Esta acção teve como consequência que ainda em 1624 ainda não havia nenhuma embarcação para a pesca do bacalhau em nenhum dos portos de onde habitualmente se armavam barcos para essa pesca (Aveiro e Viana).

Durante este período, em 1583, Gilbert Raleigh tinha ocupado a Terra Nova, assim terminando a longa história das colónias de pescadores portugueses na América do Norte.

Paralelamente, Francis Drake terá capturado vários barcos de pesca portugueses e os seus carregamentos.

Daí, e até ao século XIX, a pesca do bacalhau feita pelos Portugueses desapareceu. Isso não significou, no entanto, o fim do consumo do peixe, apesar dos decretos régios, nomeadamente do Marquês de Pombal e de D. Maria I, que isentavam de impostos a pesca do bacalhau, num esforço para relançar a actividade.

As invasões napoleónicas do inicio do século XIX mais contribuíram para a dificuldade de reiniciar a pesca.

Para óbviar a falta de bacalhau pescado por portugueses, Portugal teve de recorrer à importação, e em grande quantidades. Entre 1819 e 1829 eram importadas cerca de 282.811 quintais de bacalhau, o que demonstra bem a importância deste peixe, e a sua importância para a economia nacional.

A 6 de Dezembro de 1830, um decreto visando criar incentivos à pesca em geral, inclui a pesca do bacalhau, que logo no Artigo 1º isentava os barcos portugueses com tripulações portuguesas de todos os “... direitos, contribuições,...” ou seja, a pesca ficava virtualmente isenta de impostos. Mas claro que o Estado não dava ponto sem nó, a pesca do bacalhau passava a necessitar de uma licença anual de 3$00 reis de Direitos e de 480 reis de Emolumentos por barco. No entanto esta licença era a mesma, independentemente da tonelagem, o que favorecia ao armamento de embarcações maiores. Esta vantagem foi compreendida pela Companhia de Pescarias Lisbonense, que, por não encontrar embarcações, nem pescadores com o know-how em Portugal, recorreu a Inglaterra para suprir esta falta. Esta compra decorreu a nível privado, e não existem nenhumas referências a esta compra nos registos do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Foram compradas seis escunas, que vieram com tripulações ingleses que iriam treinar os futuros tripulantes portugueses.

Deste renascer da pesca do bacalhau, via Inglaterra, ficaram várias expressões, que foram utilizadas até ao fim dos dias da pesca. Entre as outras contribuições está o dóri, que para além da sua arquitectura, deriva da palavra inglesas wary. A opção pela tecnologia inglesa não é clara, pois na mesma época tanto os franceses como os americanos estavam igualmente desenvolvidos, e activos nos bancos da Terra Nova. A opção pelo Reino Unido passou por outros laços comerciais que a Companhia teria com a Inglaterra, e com a eventualidade utilização deste tipo de navios noutras rotas e serviços, por forma a rentabilizar ainda mais o investimento.

Em 1848, havia 19 embarcações na pesca na Terra Nova, 5 escunas, 12 patachos, 1 brigue, 1 barca, com o menor, a escuna Tentativa, com 81 toneladas, e o maior, o brigue Vestal, 131 toneladas. Com uma tripulação média de 15 a 20 pessoas.

A situação fiscal seria alterada por uma Carta de Lei de 10 de Julho de 1845, que substituía a licença por uma imposto sobre o pescado.

Nove anos depois, em 1866, dois novos armadores surgem “Bensaúde e Cª.” e “Mariano e Irmãos”, armam 4 veleiros, o “Hortense, o “Social”, e o “Júlia I" e o II.

Em 1902 estes navios continuam a estar matriculados sob o mesmo armador, apesar de pertencerem já a nova companhia, Parceria Geral das Pescarias, mas com os mesmos donos: os Bensaúde. No entanto a tonelagem tinha subido para respectivamente: 98, 148, 217 e 145.

O tradicional bacalhau seco

Entre 1886 e 1903 estas empresas tiveram o monopólio da pesca. No entanto a Parceria desenvolvesse mais, possuindo em 1902 já 9 veleiros, entre eles alguns com mais de 300 toneladas, enquanto a Mariano e Irmãos só tinha adicionado mais um, o Júlia III, de 175 toneladas, que seria vendido no inicio do século à Companhia de Pesca Atlântica.

Entretanto em 1885 nova machadada fiscal; um parecer da Procuradoria Geral da Coroa determinou novamente que o pescado capturado fora das águas portuguesas, mesmo por barcos nacionais, com tripulações portuguesas e armadores nacionais, estava sujeito ao imposto de importação. A movimentação da Associação Comercial de Lisboa, viria a levar à alteração desta norma em 1886. Mas esta medida só se aplicava aos barcos que existissem na altura, e foram esses os únicos a pescar bacalhau até ao século XX. Novas armações ficavam sujeitas ao regime anterior. O caricato desta situação era, com a entrada em vigor dos tratados comerciais com a Noruega e a Rússia, que o pescado importado pagava menos imposto que o pescado por nacionais, 39 reis/kg contra 34/kg.

Esta situação não favorecia ninguém, pois os armadores existentes não podiam aumentar a frota, nem tirar proveito de monopólio de facto que possuíam.

Esta situação acabaria em 1901, com uma Carta de Lei de 12 de Junho, que estipulava a taxa de 12 reis por quilo para o pescado por armadores nacionais, mas só para o bacalhau fresco. Neste período o total médio correspondeu a 1430 toneladas, média aproximada por falta de dados para o ano de 1900, contra 20690 toneladas de bacalhau importado. Neste período o principal exportador foi a Inglaterra, seguida da Suécia e Noruega, não há referencias de importações de França.

Durante este período contudo, o preço do bacalhau foi sempre muito elevado, o que favorecia o bacalhau importado por ser mais barato.

Entre os importadores, os ingleses estabeleceram-se sobre tudo no Norte, em Viana do Castelo, Porto e Figueira da Foz, de onde mais tarde vão surgir os centros de armadores da pesca do bacalhau.

De 1901 em frente, a frota esteve num crescendo até 1924, com um máximo de 65 embarcações, com excepção dos anos da Primeira Guerra Mundial, onde pela primeira vez em 1918, houve menos barcos que no período de antes da viragem do século, 11.

Bacalhaus inteiros (e halibuts) no convés de um barco de pesca (século XIX)

Dos 15 barcos que partiram à pesca em 1902, 9 pertenciam a Parceria, 3 à Mariano, e as restantes a novos armadores: Guilherme Mesquita, Santiago e Rosa, e Parceria Lisbonense de Pescarias. A frota era composta por 2 escunas, 8 lugre patachos, 2 patachos, 1 lugre e 2 hiates. Com uma tripulação média de 32 homens.

Este aumento de capacidade, tanto em toneladas como em homens permitia um aumento das capturas, tanto pelo tamanho como pelo numero de dias nos bancos: 45 dias para viagem de ida e volta, 121 dias de pesca (aprox.), mais 10 dias que em 1848. Mas não houve alterações quanto ao método de pesca, que continuava a ser a da long line, com um homem por dóri.

Novamente a Parceria Geral das Pescarias, sempre na vanguarda da inovação, tentou introduzir dóris maiores, para dois homens, à semelhança do utilizado em França, que enfrentaram tal oposição por parte dos pescadores que tiveram de ser abandonados. A pesca de arrastão só teve uma tentativa, o Elite, mas que foi inconsequente.

Em 1917 a pesca do bacalhau empregava 1400 homens de tripulação.

Na década de 20 surgem pela primeira vez armadores no Algarve, que terão desaparecido antes do fim da década, e cujo o número nunca foi significativo, apesar dos Algarvios serem um grupo muito significativo em termos de tripulações, chegando a haver navios de Lisboa com tripulações quase exclusivamente de algarvios.

A pequenez da frota do bacalhau até meados dos anos 30, significava que quando o navio entrava no defeso, de Novembro a Abril, o comandante e 2 ou 3 marinheiros, encarregados na manutenção e preparação da próxima campanha, tinham de importar a maioria dos aprestos, isco, utensílios de pesca, incluindo algumas vezes os próprios dóris.

Esta saída de divisas preocupava sobremaneira os armadores, que entretanto já haviam criado a sua própria associação, que seria extinguida para dar origem Grémio.

A tripulação era constituída por:

  • Capitão
  • Piloto
  • Marinheiros-pescadores
  • Cozinheiro
  • 1 ou 2 moços

Entre os marinheiros-pescadores, existiam as seguintes divisões:

  • Escaladores
  • Salgadores
  • Pescadores verdes, aqueles que participavam pela primeira vez

Os capitães e pilotos eram na sua maioria de Ílhavo, e raramente possuíam instrução formal.

Habitualmente os capitães tinham os seus engajadores, que percorriam o pais para formar a tripulação, mas havia uma tradição familiar e de fidelidade ao barco, fazendo com que a tripulação de um ano era praticamente a mesma de ano anterior. As principais zonas de recrutamento eram a região da Figueira da Foz, Aveiro, Sesimbra e Algarve, com principal incidência na Fuzeta. Nesta altura não era requerida nenhuma inspecção médica.

Os pescadores recebiam um adiantamento para o suporte da família, o que criava uma obrigação do pescador para com o armador. Metade do adiantamento era dado em Fevereiro, e o restante no acto da matricula. O curioso é que o montante do adiantamento era determinado, e o armador seria punido se desse qualquer outro montante. Havia também um sistema de apoio em caso de doença, participado pelo armador, mas só aplicável a pescadores com mais de dois anos de serviço.

Um pescador para mudar de armador teria de ter passado um ano sem embarcar, ou mediante uma carta do armador a autorizar a cedência, que só era passado se a mudança fosse de comum acordo, ou comunicada antes de Janeiro.

Com a criação do Grémio esta situação alterou-se, a contratação e a distribuição dos pescadores pelos navios passou a ser da competência do Grémio. Para esse fim foi criado o primeiro registo de tripulantes, este registo continha os dados sobre o passado saúde, disciplina, motivos de dispensa, navios por onde tinha passado, etc. Da sua criação até 1974 havia cerca de 23.400 inscritos.

O ano do 1937 viu a única acção reivindicativa de monta: a recusa à matricula. O governo reagiu decretando a mobilização dos pescadores inscritos no ano anterior, e que não se tivessem ainda inscrito. Decreto nº 27.658 de 21 de Abril.

Durante a 2ª Guerra, dois lugres foram afundados, o Delães, e o Maria da Glória, que custou a vida a 36 pescadores.

Os Bancos[editar | editar código-fonte]

Os portugueses pescavam principalmente no Grande Banco, que inclui parte do Banco da Terra Nova, e mais tarde na Gronelândia.

O mau tempo era naturalmente uma constante, por exemplo entre 1910 e 1916, foi totalmente impossível baixar os dóris uma média de 25 dias por campanha, que foram inferiores a 120 dias (valores para o Açor).

Entre os perigos contam-se os icebergues, que afundou por exemplo o Golfinho, e a passagem de navios mercantes em dias de nevoeiro, que podiam afundar um dóri sem mesmo darem conta.

Durante a Segunda Guerra Mundial, e devido aos acordos com as potencias beligerantes, a sequência das partidas para a pesca era arrastões e veleiros para a Terra Nova, lugres para a Groenlândia.

A faina[editar | editar código-fonte]

O método de pesca adoptado pelos portugueses foi introduzido com a compra dos barcos aos ingleses e manteve-se inalterado até aos anos 70 do século XX.

Este método baseado em pequenos dóris para um homem, de cerca de 4 a 5 m de fora a fora, e que pesavam entre 80 e 100 kg, em que cada homem tinha duas linhas, com um só anzol, e pescava de pé. Para isca usava-se o clam, molusco importado dos Estados Unidos, cagarras e pequenas lulas ou peixes encontrados no estômago das primeiras capturas.

No entanto o isco preferido era a lula, e os pescadores portugueses tinham sempre a bordo uma linha para a pesca da lula guarnecida dia e noite, chegando mesmo a acordar toda a gente aquando da passagem de um cardume. A importância da lula é tal, que o primeiro a pescar uma lula recebe o mesmo prémio que o primeiro a chegar a bordo com um dóri cheio: uma garrafa de aguardente.

Voltando ao bacalhau, após regressar ao navio com a captura, o peixe era atirado para dentro de umas caixas, as quêtes, com a ajuda de forquilhas, que se chamavam garfos. Daqui passava para o troteiro que o degolava e abria, com uma faca de dois gumes, a trota. Ambas as denominações derivam do inglês troater. Passa para o quebra-cabeças, que lhe retira as vísceras, com uma pancada na espinha, que separa a cabeça definitivamente, empurrando-o para o escalador. Em cada mesa havia um buraco para o qual se atirava o fígado, lêvas ("livers") na giria dos pescadores, que depois de reunidos eram colocados em barricas, ficando a decompor-se, separando assim o óleo dos restantes líquidos, que sendo menos densos ficavam por baixo, abrindo uma torneira que existia no fundo das barricas. Cabia ao escalador dar a forma ao bacalhau que nos habituamos, triangular e plano, usando uma faca de um só gume, após o que o atirava para dentro da selha de lavagem. Este trabalho decorre durante todo o dia, sob os rigores do clima, e do mar, que volta não volta tudo inunda com uma vaga. Com o cair da noite e a recolha dos últimos dóris, sob a luz das lanternas de petróleo, baldeia-se o convés, lançando ao mar os restos, a que os pescadores chamam gueira, que no entanto, vai deixando o cheiro entranhado no navio, que todos menos os pescadores notam e referem. Mas sob a coberta o trabalho continua, depois de lavado, o bacalhau vai para o porão para ser salgado, e talvez este seja o trabalho mais duro a bordo, com a escotilha quase sempre meia fechada, para proteger o bacalhau da chuva e dos golpes de mar, com pouca luz e o mau cheiro intenso, de gatas sobre o bacalhau que vão empilhando, os salgadores deitam mão cheia de sal atrás de mão cheia sobre o peixe, que passa então a ser "bacalhau verde". A memória da dureza deste trabalho ficou marcada na expressão popular que algumas mães usavam quando queriam ameaçar os filhos: “se continuas assim, mando-te embarcar como salgador”. O frio, o sal, as linhas, em suma toda a dureza do trabalho reflectia-se sobretudo nas mãos. Incham, enrijam-nas, enchem-se de frieiras, que com o tempo rebentam, transformando-se em chagas. Nos dóris o trabalho não permite o uso de luvas, pelo que os pescadores usam umas tiras de couro para proteger as palmas a que chamam néplas. Todas as tarefas passam-se entre as 4 horas da manhã e a meia-noite, sem feriados ou fins-de-semana, e mesmo o tempo de vigia é tirado ao tempo de descanso.

A assistência médica[editar | editar código-fonte]

A assistência médica era, para se ser simpático, mínima, e o facto de os engajados não passarem por nenhuma inspecção médica só aumentava as chances de os pescadores caírem doentes. Após a Grande Guerra, os pescadores, e os armadores, contavam com a presença dos barcos hospitais franceses que acompanhavam a frota francesa para prestar auxilio aos pescadores portugueses.

Um médico francês a bordo do Saint Jeanne D’Arc escreve em 1922, que de 13 doentes que hospitaliza a bordo, 5 eram tuberculosos, um outro morreu a bordo no segundo dia de outras complicações, e de vários que recusam ou veem recusado pelos seus comandantes a hospitalização.

Por campanha, cerca de 15% dos pescadores eram vitimas de acidentes ou agravamento de situações clínicas que deixaram muitos incapacitados para sempre.

Esta situação sobre a primeira alteração em 1923, quando o Carvalho Araújo faz a primeira viagem de assistência e correio. O relatório efectuado pelo comandante vai ter os efeitos: o navio-hospital Gil Eanes.

A história deste navio começa com a sua apreensão em Lisboa, na sequência do Decreto 2336, de 23 de Fevereiro de 1916, que ordena a requisição de todas as embarcações de pavilhão alemão em águas portuguesas. Entre eles encontrava-se o Lahneck. Após a declaração de guerra da Alemanha a Portugal, em 9 de Março, o Lahneck passa a chamar-se Gil Eanes, e é armado em cruzador auxiliar. Após várias viagem na carreira dos Açores e a Macau como transporte de tropas, é na volta decidiu o seu envio para a Holanda para ser transformado em navio-hospital, e em 16 de Maio de 1927 parte pela primeira vez para a Terra Nova. Infelizmente no ano seguinte fica fundeado no Rio Tejo a servir de prisão, e em 1929 ainda passa primeiro nos Açores para deixar um destacamento militar, antes de seguir para a Terra Nova.

No entanto só a partir de 1937 esta assistência seria a sua única actividade. Entre estas datas voltou a ser transporte de presos, e foi à China para buscar refugiados, que nunca apareceram.

Este Gil Eanes esteve em serviço até 1955, quando foi substituído por um novo.

O Estado Novo[editar | editar código-fonte]

A instauração do novo regime em Portugal, a 28 de Maio de 1926, com o seu carácter fascizante, mas sobre tudo corporativismo, iria trazer mudanças rápidas, e que iram moldar a pesca para os próximos cinquenta anos.

A primeira media do novo regime sobre a pesca do bacalhau é o Decreto 13.441, de 8 de Abril, que é também o primeiro a ter uma visão globalizante do problema. Entre as medidas incluídas neste decreto estão a diminuição da carga fiscal, com uma única taxa sobre o pescado; a isenção de contribuições e impostos sobre o capital investido na pesca, a criação de uma sociedade mista para segurar os navios e os equipamentos, empréstimos bonificados para a construção de novos navios; isenção do serviço militar para os pescadores após a sexta campanha, mas em contrapartida, aqueles que não embarcassem após a matricula, seriam considerados desertores. O Decreto regulava também a proporcionalidade dos salários em função das capturas. Estava também previsto estudo para a instalação de uma base de apoio e secagem nos Açores, bem como a criação de uma comissão permanente de estudo das questões relativas à pesca. No seu artigo 27º estava previsto o estabelecimento de um serviço de assistência aos pescadores nos bancos da Terra Nova. Foi neste âmbito que o Gil Eanes foi à Terra-nova em 1927, levando a bordo o vogal da Comissão Central de Pescarias, o Almirante Oliver, cujo relatório iria estar no cerne das mudanças nos dez anos seguintes. Entre as recomendações encontrava-se a utilização de cartas de pesca, e do termómetro de profundidade, uma melhoria qualitativa nas recruta de tripulações, o uso de isco congelado, o aproveitamento dos outros peixes apanhados, melhorar a higiene a bordo, etc.

Em 1931 volta-se a pescar na Groenlândia, o que coincide com o início do uso do trole (uma linha com vários anzóis, deixada no fundo e recolhida a intervalos mais ou menos regulares).

1934; nova reorganização da pesca com o Decreto-lei nº 23802, de 27 de Abril, que regulamenta as disposições para empréstimos aos armadores pelo Estado. Seguida pela criação da Comissão Reguladora do Comércio do Bacalhau através do Decreto 23968 de 5 de Junho.Esta comissão tinha poderes sobre a pesca nacional e as importações. E na sua sequência o Grémio dos Armadores, pois só os armadores inscritos podiam ser considerados nacionais, no entanto tinham de informar o Grémio das capturas. E para maior controlo foi também criado o Grémio dos Importadores e Armazenistas de Bacalhau e Arroz, e o Grémio dos Armadores de Navios de Pesca do Bacalhau em 1935. Em 1938 outro corpo cooperativista aparece: a Cooperativa dos Armadores de Navios de Pesca do Bacalhau. Dependente do Grémio era uma cooperativa que funcionava como central de compras para todos os armadores, seguido em 1936 pela Mútua dos Navios Bacalhoeiros, que funciona como uma seguradora.

A Mútua segurava riscos em valores acima da média, que iria levar a uma reacção do mercado londrino em 1945, e que se especula, daria azo a alguns naufrágios propositados ainda hoje não totalmente esclarecidos, mas nunca provados.

Reorganização da Frota 38/43[editar | editar código-fonte]

Em 1938 constatada a avançada idade e pouca capacidade da frota existente, neste anos havia dois navios com mais de 60 anos, dois com mais de 50, um com mais de 30, três com mais de 20, vinte e cinco entre ou 10 e os 20, cinco com mais de 5 e só nove com menos de 5.

Por outro lado não havia dos armadores grandes interesse na transição para a pesca de arrasto. No entanto de 1942 para 1951 o numero de arrastões subiu de 6 para 20.

O fim[editar | editar código-fonte]

Em 1967, Fernando Alves Machado , Secretário do Comércio, aboliu, por portaria,[1] o regime proteccionista do comércio do “bacalhau”, que se encontrava em vigor desde meados de trinta, o que determinou o fim da tabela de preços e do condicionamento das importações, sentenciando o fim da cartelização estatal das importações, com sinais de insustentabilidade há muito evidenciados, desmantelando uma das obras de referência do inicio do Estado Novo, conduzida por Henrique Tenreiro, «patrão das pescas».[2] [3]

1968, assinala o principio do fim, com as primeiras diminuíções das capturas, e as restrições à pesca nas água nacionais dos diversos países.

Paralelamente, após de anos sem perspectivas de qualquer outra saída, os pescadores começam a não querer embarcar por salários tão baixos, para correr tantos riscos, quando a vaga da emigração portuguesa e o início da actividade turística, pela primeira vez proporcionavam outras oportunidades e melhores salários.

A pesca do bacalhau à linha terminaria definitivamente em 1974, 3 anos depois de o último lugre ter partido pela última vez para os Bancos.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Fontes[editar | editar código-fonte]

  • Garrido, Álvaro. O Estado Novo e a Campanha do Bacalhau. [S.l.: s.n.], 2010. ISBN 9789896441111.
  • Mário Moutinho, História da Pesca do Bacalhau, por uma antropologia do “fiel amigo”, Imprensa Universitária, editorial Estampa, Nº 40, 1985.
  • As póvoas maritimas, A. Sampaio, Estudos Históricos e Económicos, Vol. I Porto, 1923.
  • Breve Resenha Histórica”, in Boletim de Pesca, nº 28, Setembro 1950
  • The search for the schonner Argus, Allan Villiers, 1951 (reedição em português, Cavalo de Ferro Editores, Lisboa 2006 - ISBN 978-989-623-026-3)
  • Histoire des explorations polaires, Paris, 1961
  • Os Grandes Trabalhadores do Mar - Repotagens na Terra Nova e na Groenlândia, Lisboa, 1942 (reedição Caleidoscópio Edição: "Heróis do mar, Viagem à Pesca do Bacalhau", Casal de Cambra 2007, ISBN 978-989-8010-89-6)

Referências

  1. Ministério da Economia - Secretaria de Estado do Comércio (22 de Julho de 1967). Portaria n.º 22790, NÚMERO : 170/67 SÉRIE I Diário da República. Visitado em 2014-06-02.
  2. Garrido 2010, p. 857.
  3. Ferreira 2006, p. 1.