Abbahu

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Abbahu
Nascimento c. 279
Morte 320 (41 anos)
Nacionalidade
Vexilloid of the Roman Empire.svg
Império Romano
Ocupação Rabino
Acharoním Rishonim Gueonim Savoraíta Amoraíta Tanaíta Zugot

Abbahu (em hebraico: אבהו, cerca de 279 – 320) foi um judeu talmudista, conhecido como um amoraíta, que viveu na Terra de Israel, no período da terceira geração amoraíta, algumas vezes citado como Rabino Abbahu da Cesareia (Ḳisrin). A sua educação rabínica foi adquirida principalmente em Tiberíades, na academia presidida pelo rabino Yohanan, com quem suas relações eram quase como as de um filho (Talmude de Jerusalém Brachot ii. 4b, na edição de Veneza de Daniel Bomberg;[1] Gittin 44b;[2] Bava Batra 39a). Frequentemente fazia peregrinações a Tiberíades, mesmo após ter-se tornado conhecido como reitor da Academia da Cesareia (Talmude de Jerusalém Shab viii. 11a; Talmude de Jerusalém Pesahim x. 37c).[3]

Conhecimento da literatura grega[editar | editar código-fonte]

Abbahu era uma autoridade em matéria de pesos e medidas (Talmude de Jerusalém Terumot v. 43c). Incentivou o estudo da língua grega pelos judeus. Aprendeu o grego a fim de tornar-se útil ao seu povo, e mais tarde, sob o governo dos procônsules romanos, foi que o idioma tornou-se o rival do hebraico, mesmo nas orações (Talmude de Jerusalém Soṭah, vii. 21b). Apesar do protesto pungente de Simeão bar Abba, ele ensinou o grego também para suas filhas (Talmude de Jerusalém Shabbat vi. 7d; Talmude de Jerusalém Soṭah, ix. 24c; Sanhedrin 14a). Na verdade, foi dito de Abbahu, que ele era uma ilustração viva da máxima (Eclesiastes vii. 18; compare Targum), "Bom é que retenhas isto [o estudo da Lei], e também daquilo [os outros ramos do conhecimento] não retires a tua mão; pois quem teme a Deus de tudo isto sai ileso" (Eclesiastes Rabá vii. 18).[3]

Reitor na Cesareia[editar | editar código-fonte]

Sendo sábio, belo e rico (Bava Metzia 84a; Talmude de Jerusalém Bava Metzia iv. 9d), Abbahu tornou-se não somente popular entre os seus correligionários, como também influente no governo proconsular (Ḥagigah 14a; Ketubá 17a). Numa ocasião, quando seus colegas mais velhos, Ḥiyya bar Abba, rabino Ammi e rabino Assi, puniram uma certa mulher, e temiam a ira do procônsul, Abbahu foi enviado para interceder por eles. Ele tinha, contudo, antecipado-se ao pedido dos rabinos, e escreveu-lhes que tinha apaziguado os informantes, mas não o acusador. A carta espirituosamente enigmática descreve este incidente, preservada no Talmude (Talmude de Jerusalém Moed iii. 74a), está escrita no mais puro hebraico, e ainda inclui traduções em hebraico dos nomes próprios em grego, para evitar o perigo de uma possível exposição caso a carta viesse cair em mãos de inimigos e delatores (compare Eruvin 53b).[3]

Após a sua ordenação ele recusou o cargo de professor, e recomendou em seu lugar um amigo mais necessitado, Abba de Acre (Acco), como sendo mais digno do que ele (Soṭah, 40a). Desse modo, ilustrou a sua própria doutrina de que, é uma virtude divina simpatizar-se com um amigo em suas dificuldades, bem como em participar de suas alegrias (Tanhuma, Wa-yesheb, ed. Buber, 16). Mais tarde, assumiu o cargo de reitor na Cesareia, antiga sede do rabino Hoshaya I, e estabeleceu-se na chamada Kenishta Maradta (Sinagoga Insurrecionária; Talmude de Jerusalém Nazir vii. 56a; Talmude de Jerusalém Sanhedrin i. 18a; compare Josefo, B. J. ii. 14, § 5; Jastrow, Dict. p. 838), onde se formaram alguns dos professores mais proeminentes da geração seguinte. Ele não restringiu, contudo, a sua atividade à Cesareia, onde ele deu origem a várias regras ritualísticas (Talmude de Jerusalém Demai ii. 23a, Rosh Hashanah 34a), uma das quais, a que regulamenta o toque do shofar, desde então tem sido universalmente adotada, e é referida pelos casuístas judeus medievais como "Takkanat R. Abbahu" (a Promulgação do rabino Abbahu; compare "Maḥzor Vitry," Berlim, 1893, p. 355). Visitou e ensinou também em muitas outras cidades judaicas (Talmude de Jerusalém Brachot viii. 12a; Talmude de Jerusalém Shabbat iii. 5c).[3]

Durante estas jornadas, Abbahu reuniu tantos halachás que os estudiosos procuravam-no para obter informações sobre questões que traziam dúvidas (Talmude de Jerusalém Shabbat viii. 11a; Talmude de Jerusalém Yevamot i. 2d). Nessas viagens, fazia questão de cumprir todas as leis locais, mesmo que tal cumprimento o deixasse vulnerável às acusações de inconsistência (Talmude de Jerusalém Brachot viii. 12a; Talmude de Jerusalém Beitzah, i. 60d). Por outro lado, quando as circunstâncias exigiam, ele não poupava nem mesmo os príncipes do seu povo (Talmude de Jerusalém Avodah Zarah, i. 39b). Quando, porém, a exposição rigorosa das leis trazia dificuldades para as massas, ele não tinha escrúpulos de modificar as decisões de seus colegas para o benefício da comunidade (Shabat 134b; Talmude de Jerusalém Shabat xvii. 16b; Talmude de Jerusalém Mo'ed Katan i. 80b). Quanto a si mesmo, ele era muito rigoroso no cumprimento das leis. Em certa ocasião, encomendou um vinho samaritano, mas logo em seguida observou que entre os samaritanos não havia qualquer cuidado rigoroso com as leis dietéticas, e com a ajuda de seus colegas, Ḥiyya bar Abba, Ammi e Assi, analisou o relatório, e, julgando ser este bem procedente, não hesitou em declarar os samaritanos, para todos os fins ritualísticos, gentios (Talmude de Jerusalém Avodah Zarah, v. 44d; Hullin 6a).[3]

Abbahu e Ḥiyya bar Abba[editar | editar código-fonte]

A principal característica do rabino Abbahu parece ter sido a modéstia. Durante suas palestras em cidades diferentes, ele conheceu o rabino Ḥiyya bar Abba, que falava sobre intrincados temas haláchicos. Como Abbahu fazia sermões populares, as massas naturalmente lotavam os espaços para ouvi-lo, e abandonaram o halachista. Ḥiyya manifestou a sua decepção com o fato, e Abbahu apressou-se em consolá-lo, comparando-se ao vendedor de finos acessórios brilhantes que sempre atraiu os olhos das massas, enquanto seu rival era um comerciante de pedras preciosas, as virtudes e os valores que eram apreciados apenas por peritos. Esse discurso não teve o efeito desejado, e Abbahu mostrou respeito especial para o seu colega menosprezado seguindo-o o restante daquele dia. "Qual é a minha modéstia", disse Abbahu, "comparada com a do rabino Abba de Acre (Acco), que nem sequer argumentava com seu intérprete por interpolar seus próprios comentários nas exposições do professor?." Quando a sua esposa contou-lhe que a mulher de seu intérprete, se gabava da grandeza do próprio marido, Abbahu simplesmente disse: "Que diferença faz qual de nós é realmente o maior, desde que através de nós dois o céu seja glorificado?" (Sotah, 40a). Seu princípio de vida ele expressou na máxima,[3]

Um homem deve sempre tentar ser [parte do grupo] dos perseguidos, e não [ser parte do grupo] dos perseguidores; já que não existe nenhuma dentre as aves mais perseguidas do que as rolas e os pombos, e ainda as Escrituras os [privilegiou] serem preparados sobre o altar.
Bava Kamma 93a

Abbahu, embora eminente como um halachista, era mais distinguido como um agadista e polemista. Tinha muitos conflitos interessantes com os cristãos de seu tempo (Shabbat 152b; Sanhedrin 39a; Avodah Zarah, 4a). Às vezes, essas disputas eram de caráter jocoso. Assim, um rumo herético o nome de Sason (= Alegria) comentou com ele certa vez: "No próximo mundo seu povo terá que tirar água para mim; porque assim está escrito na Bíblia (Isaías 12:3), "Com alegria tirareis água". A isto Abbahu respondeu, "Se a Bíblia dissesse 'para alegria' [le-sason], significaria que é como dizes, mas como ela diz 'com alegria' [be-sason], isso significa que faremos vasilhas com a sua pele e as encheremos com água" (Sukkah 48b). Essas controvérsias, embora exageradas sobre ele, provocaram ressentimentos, e há até relatado de que o seu médico, Jacó, o Cismático (Minaah), estava envenenando-o aos poucos, porém os rabinos Ammi e Assi descobriram o crime em tempo (Avodah Zarah, 28a).[3]

Abbahu teve dois filhos, Zeira e Ḥanina. Alguns autores atribuem-lhe um terceiro filho, Abimi (Bacher, Ag. Pal. Amor.). Abbahu enviou Ḥanina à academia em Tiberíades, onde ele próprio havia estudado, mas o rapaz ocupava-se com o sepultamento dos mortos, e ao ouvir isso, o pai mandou-lhe uma mensagem de reprovação neste estilo lacônico: "Será por não haver sepulcros na Cesareia (compare Êxodo 14:11), que eu te enviei para Tiberíades? O estudo deve preceder à prática" (Talmude de Jerusalém Pesahim iii. 30b). Abbahu deixou atrás de si um número de discípulos, os mais proeminente foram os líderes da quarta geração amoraíta, Joná e José. Na morte de Abbahu, o luto foi tão grande que foi dito: "Até mesmo as estátuas da Cesareia derramaram lágrimas" (Mo'ed Katan 25b; Talmude de Jerusalém Avodah Zarah, iii. 42c).[3]

Referências

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  1. Heinrich Graetz, Geschichte der Juden, 2d ed., iv. 304, 307-317;
  2. Jost, Gesch. des Judenthums und seiner Sekten, ii. 161-164;
  3. Frankel, Mebo, pp. 58a-60;
  4. Isaac Hirsch Weiss, Dor, iii. 103-105;
  5. Bacher, Ag. Pal. Amor. ii. 88-142.