Arara-de-santa-cruz

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Parrot Skeleton Lydekker with Saint Croix Macaw bones colored in fr.jpg

Estado de conservação
Status iucn3.1 EX pt.svg
Extinta (IUCN 3.1)
Classificação científica
Reino: Animalia
Filo: Chordata
Classe: Aves
Ordem: Psittaciformes
Família: Psittacidae
Subfamília: Arinae
Género: Ara
Espécie: A. autocthones
Nome binomial
Ara autocthones
Wetmore, 1937
Distribuição geográfica
Saint-Croix-Macaw-Distribution.png

A arara-de-santa-cruz (nome científico: Ara autocthones) é uma espécie extinta de arara. Seus fósseis foram encontrados em Porto Rico e na ilha de Saint Croix por David Steadman.

Etimologia[editar | editar código-fonte]

Alexander Wetmore batizou a espécie de autocthones.[1] Um versão alternativa com erro ortográfico é autochthones,[2] [3] a qual se origina do grego antigo autochthōn (αὐτός—autos "próprio" e χθών—chthōn "terra") que quer dizer "nascido na terra".[4] Erros de ortografia de um nome são denominados como lapsus (um erro de ortografia acidental). Um erro evidente na publicação original contendo a descrição de uma espécie pode ser corrigida por uma "correção" mais tarde, com a justificação adequada.[5]

Taxonomia[editar | editar código-fonte]

Wetmore classificou a arara-de-santa-cruz no gênero Ara baseado num único tibiotarso,[1] uma colocação confirmada por Olson, que reexaminou o osso.[6] [7] A descoberta de um segundo exemplar de Maiz López de Porto Rico que consiste em vários ossos confirmou este posicionamento. A arara de Saint Croix se distingue de outras araras por causa do tamanho intermediário do tibiotarso e carpometacarpo. Olson e Máiz López determinaram que o tamanho da espécie é comparável apenas ao de araras distantes geograficamente, como a arara-azul-de-lear (Anodorhynchus leari) do Brasil e a arara-de-garganta-azul (Ara glaucogularis) da Bolívia. A análise cuidadosa feita por eles sobre esses e outros ossos mostrou diferenças relevantes das encontras naquelas espécies, particularmente nas do gênero Anodorhynchus.[2] Com base nessa conclusão, os especialistas geralmente reconhecem a Ara autocthones como uma espécie válida.[2] [3] [8]

A Ara autocthones e seu "primo" menor, a arara-vermelha-de-cuba (Ara tricolor), são as duas únicas espécies de arara do Caribe que foram descritas com base em restos físicos.[3] Além disso, sete espécies hipotéticas extintas de araras de várias ilhas do Caribe foram descritas com base apenas em relatos escritos.[1] [3] Das espécies hipotéticas, a que habitava uma área geográfica mais próxima era a Ara guadeloupensis, da ilha de Guadalupe. De acordo com Wetmore, as afinidades taxonômicas com essas espécies hipotéticas extintas são desconhecidas.[1]

Descrição[editar | editar código-fonte]

O tibiotarso esquerdo subfóssil (holótipo, USNM 483530) descrita por Wetmore era de uma ave imatura, mas completamente crescida. Wetmore descreveu o osso como semelhante ao tibiotarso de Ara tricolor, com uma largura transversal maior, porém mais fino em comparação com araras maiores. As proporções mais esbeltas do osso e cristas mais alongadas junto a extremidade proximal distingue a espécie dos papagaios do gênero Amazona.[1]

Os ossos encontrados por Máiz López (USNM 448344) incluem o coracoide esquerdo (falta uma porção de cabeça do osso), as extremidades proximal e distal do úmero esquerdo, a extremidade proximal do rádio direito, o carpometacarpo esquerdo (faltando um metacarpo), o fêmur esquerdo (falta a extremidade distal), o tibiotarso direito (faltando parte da superfície articular proximal), e o fragmento proximal e a porção distal gasta do tibiotarso esquerdo.[2]

Olson e Máiz López examinaram os ossos e mostraram que eles diferiam dos ossos dos papagaios do gênero Amazona. O tibiotarso tem um côndilo interno (saliência arredondada na extremidade de um osso) mais estreito e uma distintiva crista cnemial interior (um cume na parte da frente da cabeça) que é mais aguçada e estende-se ainda mais proximalmente. O carpometacarpo é proporcionalmente muito maior, com um processo no metacarpo alular que não é curvo proximalmente. O fêmur tem uma cabeça proporcionalmente maior, enquanto o processo ectepicondilar (uma elevação óssea) e o acessório de pronator brevis (um dos dois músculos de pronação na asa) no úmero são mais proximais. O coracoide alongado tem um eixo relativamente estreita e o lábio ventral da faceta glenoidal (equivalente a fossa mandibular dos mamíferos) é mais saliente.[2]

Olson e Máiz López mostraram que a arara-de-santa-cruz está dentro da mesma faixa de tamanho que a arara-de-garganta-azul e arara-azul-de-lear. O comprimento do tibiotarso é menor do que o da arara-de-garganta-azul, porém maior que o da arara-azul-de-lear, enquanto os comprimentos do coracoide, carpometacarpo, e fêmur são menores. Além do tamanho, eles observaram que a fixação peitoral no úmero é menos escavada enquanto a ranhura capital (um sulco separando as duas partes da cabeça do úmero) é mais larga; a cabeça do fêmur é mais maciça e quando visto do lado posterior, mais escavado sob a cabeça, pescoço e trocânter. Além disso, o eixo mais robusto do fêmur define especificamente para além da arara-azul-de-lear, enquanto o tibiotarso é mais robusto com uma extremidade distal alargada.[2]

Distribuição[editar | editar código-fonte]

Ossos da espécie foram escavados em duas ilhas do Caribe: Saint Croix e Porto Rico. A localização em Saint Croix fica numa aldeia indígena pré-colombiana, perto da atual cidade de Concordia, próximo ao Cabo Southwest.[1] Os ossos de Porto Rico foram escavados a partir de uma aldeia no interior da ilha que pertencia aos índios da cultura Saladoide, situada na margem oriental do rio Bucaná, a nordeste da atual cidade de Ponce. A terceira possível localização é Montserrat, onde um coracoide quase completo foi escavado (UF 4416). O osso deste espécime é ligeiramente menor do que o osso do exemplar de Porto Rico, e, portanto, pode estar dentro da gama da arara-vermelha-de-cuba (Ara tricolor); por conta dessa dúvida, ele não foi apontado como pertencente a nenhuma das duas espécies.[2]

Embora a arara só tenha sido encontrada em Saint Croix e Porto Rico, em ambos os casos foi recuperada a partir de sítios de aldeias indígenas. Williams e Steadman consideram possível que a espécie pode ter sido nativa de Saint Croix,[3] mas Olson e Máiz López consideram isto algo improvável, notando que os papagaios, importantes para os povos indígenas, provavelmente tenham sido transportados entre as ilhas. Isso torna difícil determinar as origens geográficas naturais dos papagaios conhecidos apenas a partir restos subfósseis encontrados na região das Índias Ocidentais.[2]

Extinção[editar | editar código-fonte]

A extinção de aves no Caribe ocorreu durante três períodos. O primeiro esteve ligado ao aumento do nível do mar após o final da última idade do gelo. O segundo período de extinção está relacionado à chegada dos povos ameríndios, enquanto o terceiro período de extinção está ligado à chegada dos europeus.[6] Embora as causas exatas da extinção da arara-de-santa-cruz sejam desconhecidas, é provável que haja uma relação com a chegada dos seres humanos na região.[3] A presença dos ossos em sambaquis sugere que a espécie foi caçada para servir de alimento para os nativos.[9] Os ossos encontrados por Máiz López foram datados em cerca de 300 d.C., o que implica que a extinção da arara-de-santa-cruz ocorreu depois disso.[2]

Contexto arqueológico[editar | editar código-fonte]

A espécie foi descrita originalmente pelo norte-americano Alexander Wetmore com base no material escavado em 1934 por L. J. Korn. Os resquícios foram encontrados num sambaqui pré-colombiano ameríndio próximo de Concordia, na ilha de Saint Croix. Wetmore não especificou a idade do osso.[1]

Em 1987, Máiz López encontrou vários ossos de uma única ave no sítio arqueológico Hernández Colón, que fica na margem oriental do rio Bucaná, no centro-sul de Porto Rico. O sítio arqueológico na encosta sul semi-árida é uma aldeia pré-colombiana da cultura Saladoide de aproximadamente 15 mil metros quadrados situado em um terraço aluvial. Máiz López encontrou os ossos em um sambaqui na camada que correspondeu com a base e início da fase Pomarrosa, que é estilisticamente relacionada com o estilo de cerâmica Hacienda Grande que vigorou entre cerca 200 a.C. a 400 d.C.[10] A datação por radiocarbono de amostras de carvão indicam que a fase Pomarrosa começou localmente em torno de 300 d.C.[2]

Referências

  1. a b c d e f g Wetmore, Alexander. (1937). "Ancient records of birds from the island of St. Croix with observations on extinct and living birds of Puerto Rico" (em inglês). The Journal of Agricultural of the University of Puerto Rico 21 (1): 5-16.
  2. a b c d e f g h i j Olson, Storrs L; Maíz López EJ. (2008). "New evidence of Ara autochthones from an archaeological site in Puerto Rico: a valid species of West Indian macaw of unknown geographical origin (Aves: Psittacidae)" (pdf) (em inglês). Caribbean Journal of Science 44 (2): 215–222.
  3. a b c d e f Williams, MI; Steadman DW. In: Woods, Charles A; Florence E. Sergile. Biogeography of the West Indies: Patterns and Perspectives (em inglês). 2ª ed. Boca Raton: CRC Press, 2001. Capítulo: The historic and prehistoric distribution of parrots (Psittacidae) in the West Indies. , p. 175–189. ISBN 0-8493-2001-1
  4. Ver:
    • Henry George Liddell; Robert Scott. Chthonios A Greek-English Lexicon Perseus. Visitado em 03/12/2015.
    • Brookes, Ian (editor-in-chief). The Chambers Dictionary, ninth edition. Edinburgh: Chambers, 2006. p. 96. ISBN 0-550-10185-3
    • Nuttall, P. Austin (1869). Dictionary of scientific terms Strahan & co. [S.l.] p. 45. Consult. 03/12/2015. 
  5. International Commission on Zoological Nomenclature. International Code on Zoological Nomenclature. [S.l.]: The International Trust for Zoological Nomenclature, 1999. Capítulo: Chapter 32: Original spellings. , Página visitada em 03/12/2015.
  6. a b Olson, Storrs L; Gill FB. (2008). "A paleontological perspective of West Indian birds and mammals" (pdf) (em inglês). Zoogeography in the Caribbean (Special Publication 13): 99-117. The 1975 Leidy Medal Symposium.
  7. Burridge, John T. Burridge’s Multilingual Dictionary of Birds of the World. [S.l.]: Cambridge Scholars Publishing, 2009. p. 61. vol. Volume XV – Portuguese (Português). ISBN 1443818070
  8. Forshaw, JM; Cooper WT. Parrots of the World. 2ª (revisada) ed. Londres: David & Charles, Newton Abbot, London, 1981. p. 368. ISBN 0-7153-7698-5
  9. Nicholls, Steve. Paradise found: nature in America at the time of discovery. 2ª (revisada) ed. Chicago: University of Chicago Press, 2009. p. 263. ISBN 978-0-226-58340-2
  10. Alegría, RE. (1965). "On Puerto Rican archaeology" (em inglês). American Antiquity 21: 113-31.
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