Arvicola sapidus

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Como ler uma infocaixa de taxonomiaArvicola sapidus
Arvicola sapidus 02 by-dpc.jpg
Estado de conservação
Espécie vulnerável
Vulnerável
Classificação científica
Reino: Animalia
Filo: Chordata
Classe: Mammalia
Ordem: Rodentia
Família: Cricetidae
Género: Arvicola
Espécie: A. sapidus
Nome binomial
Arvicola sapidus
Miller, 1908
Distribuição geográfica
Arvicola sapidus range Map.png

O rato-de-água (Arvicola sapidus) é uma espécie roedora pertencente ao género Arvicola, onde está incluído o seu congénere rato-dos-lameiros (Arvicola amphibius). Actualmente é uma espécie que se encontra vulnerável na Europa segundo o IUCN (Rigaux et al., 2008).

Descrição física[editar | editar código-fonte]

O rato-de-água tem um tamanho médio, com o comprimento cabeça-corpo de 170 a 230 milímetros e um peso entre 140 a 310 gramas (Ventura, 2007). Possui um corpo alongado, com os membros bem desenvolvidos. Possui uma cabeça comprida com as orelhas e os olhos pequenos. A pelagem é espessa podendo ser castanho-escura a preta no dorso e cinza no ventre. Os juvenis possuem uma pelagem mais escura que os adultos desta espécie. As fêmeas têm um par de mamas na região peitoral e dois pares na região inguinal (Gromov e Polyakov, 1992; Ventura, 2002). A sua fórmula dentária é: . É um ser diploide, com 40 cromossomas (2n = 40) (Ventura, 2007).

Distribuição geográfica[editar | editar código-fonte]

O rato-de-água (Arvicola sapidus) ocorre em França e na Península Ibérica. Na França, o rato-de-água ocorre em três regiões: Charente-Maritime, Bretanha e na Cordilheira dos Pirenéus, com distribuições desiguais nestas regiões. A espécie tornou-se vulnerável em várias regiões metropolitanas, ocorrendo apenas num local (Rigaux et al., 2008). Em Espanha, o rato-de-água ocorre a norte, a este e em algumas regiões a sul, não estando presente no centro de Espanha, onde no passado era uma espécie comum (Rigaux et al., 2008). Em Portugal, o rato-de-água é a única espécie do género Arvicola que ocorre em grande número por todo o país em áreas associadas a água doce. (Santos-Reis e Mathias, 1996). Ocorre desde o nível do mar até aos 2300 metros de altitude, nos Pirenéus (Rigaux et al., 2008).

Habitat e ecologia[editar | editar código-fonte]

O rato-de-água prefere habitats com acesso direto à água intercalando com vegetação herbácea (Saucy, 1999; Fedriani et al., 2002), como pequenos lagos de água doce, canais de irrigação e margens de rios com terra húmida nas quais possa fazer escavações e tocas. Essas tocas geralmente têm duas entradas: uma acima do nível da água e outra aquática (Rigaux et al., 2008). Quando as condições não são ideias é encontrado acima do nível da água em campos húmidos (Rigaux et al., 2008). Em Portugal, as salinas de Aveiro, onde a gramata-branca (Haliminone portulacoides) e o junco-das-esteiras (Juncus maritimus) são as espécies vegetais predominantes, e onde existem cursos de água estáveis, são um local favorável para a ocorrência da espécie (Santos et al., 2007). O rato-de-água apresenta uma dieta essencialmente herbívora, preferindo caules e folhas de plantas que ocorrem nas margens dos rios, como as gramíneas. Por vezes pode consumir insetos, caranguejos, pequenos peixes, girinos e camarões de água doce (Ventura, 2002; Rigaux et al., 2008). O rato-de-água é um mamífero diurno, apresentando dois picos de atividade: um ao final da manhã e outro ao início da tarde, podendo também ter alguma atividade noturna (Rigaux et al., 2008).

Reprodução[editar | editar código-fonte]

A maturidade sexual do rato-de-água é atingida às 5 semanas de idade e a esperança média de vida varia entre 2 e 4 anos (Picante, 1999; Ventura, 2002). A época de reprodução do rato-de-água tem uma grande duração, ocorrendo entre Março e Outubro, período durante o qual pode ter entre três e quatro ninhadas, nascendo entre duas e oito crias por ninhada. Geralmente, a período de gestação tem uma duração de três semanas (Rigaux et al., 2008). Na Península Ibérica, em algumas populações a época de reprodução estende-se ao longo de todo o ano, apresentando o pico nas estações quentes (Ventura, 2007).

Predação[editar | editar código-fonte]

O rato-de-água é predado por diversas aves de rapina, a salientar a coruja-das-torres (Tyto alba), a coruja-pequena (Asio otus), o aluco (Strix aluco), o mocho-galego (Athene noctua) e a águia-de-asa-redonda (Buteo buteo). Também é predado por alguns carnívoros, como é o caso do tourão (Mustela putorius), o texugo-europeu (Meles meles), a lontra-europeia (Lutra lutra), o vison-europeu (Mustela lutreola), o vison-americano (Neovison vison) (Ventura, 2007) e mesmo por cães e gatos domésticos (Rigaux et al., 2008).

Factores de ameaça[editar | editar código-fonte]

O rato-de-água é uma espécie restrita a habitats próximos de água, estando assim sujeito a ameaças habituais associados a este habitat. A alteração ou perda do seu habitat, através da construção de habitações, estradas ou a atividade agrícola intensa são as principais ameaças a que a espécie está sujeita (Rigaux et al., 2008). A competição com outros roedores, nomeadamente com o rato-castanho (Rattus norvegicus), rato-almiscarado (Ondatra zibethicus) e o ratão-do-banhado (Myocastor coypus) põe em causa a ocorrência da espécie em algumas regiões da sua distribuição (Ventura, 2007). Por último, embora a espécie possa sobreviver durante longos períodos com escassez de água, a falta deste recurso tem efeitos negativos sobre o rato-de-água, tornando-se uma espécie particularmente sensível às alterações climáticas (Román, 2006).

Conservação[editar | editar código-fonte]

O rato-de-água é uma espécie que se encontra vulnerável (VU) segundo o IUCN, devido ao seu declínio por toda a sua distribuição geográfica, causado pela modificação do seu habitat e ao isolamento de certas populações (Rigaux et al., 2008). Embora o rato-de-água ocorra em várias áreas protegidas na sua distribuição geográfica, a espécie continua em declínio. Assim, devem ser tomadas medidas para garantir a manutenção e o aumento da densidade da espécie, nomeadamente com a proteção legal nos países onde ocorre (Portugal, Espanha e França) (Fedriani et al., 2002). Deve ser estabelecida uma cooperação internacional entre estes países com o objectivo de monitorizar e proteger a espécie em áreas transfronteiriças, onde pode ocorrer a espécie (Fedriani et al., 2002). A conservação do seu habitat é a medida chave de conservação do rato-de-água, pois a espécie necessita de áreas com água com vegetação nas suas imediações para servir de refúgio. Desta forma práticas agrícolas que possam provocar extinções locais devem ser limitadas ou mesmo proibidas (Rigaux et al., 2008). É necessário erradicar espécies exóticas em áreas onde o rato-de-água ocorre, nomeadamente o vison-americano, Neovison vison (Román, 2006). Deve ser ainda criado um programa de reprodução em cativeiro de modo a aumentar o número de indivíduos da espécie e eventualmente reintroduzi-los em áreas protegidas, onde a espécie é endémica (Rigaux et al., 2008).

Referências[editar | editar código-fonte]

  • Fedriani, J. M., Delibes, M., Ferreras, P. and Roman, J. (2002). Local and landscape habitat determinants of water vole distribution in a patchy Mediterranean environment.Ecoscience 9: 12-19.
  • Gromov, I.M. and Polyakov, I.Ya. (1992) Fauna of the USSR: Voles (Microtinae), Issue 8. Nauka Publishers, St. Petersburg..
  • Le Louarn, H. and Quéré, J.-P. (2003). Les Rongeurs de France, Faunistique et Biologie. INRA.
  • Mira A, Ascensão F & Alcobia S (2003). Distribuição das espécies de roedores e insectívoros. Relatório final para o ICN (não publicado). Unidade de Biologia da Conservação, Departamento de Biologia da Universidade de Évora.
  • Rigaux, P., Vaslin, M., Noblet, J.F., Amori, G. & Palomo, L.J. (2008). Arvicola sapidus. Em: IUCN 2013. IUCN Red List of Threatened Species. Version 2013.2. <www.iucnredlist.org>. Acedido a 20 Maio 2014.
  • Román, J. (2006). Arvicola sapidus Miller, (1908) (Categoría para España (2006): VU A2ace+3ce). Em: L. J. Palomo, J. Gisbert y J. C. * Blanco (eds.). Atlas y Libro Rojo de los Mamíferos Terrestres de España. Dirección General para la Biodiversidad-SECEM-SECEMU, Madrid.
  • Santos, J., LUÍS, A., & Fonseca, C. (2007). Mamíferos do sal. Universidade de Aveiro, Departamento de Biologia.
  • Santos-Reis, M., & da Luz Mathias, M. (1996). The historical and recent distribution and status of mammals in Portugal. Hystrix, the Italian Journal of Mammalogy, 8(1-2).
  • Saucy, F. (1999). Arvicola sapidus. In: A. J. Mitchell-Jones, G. Amori, W. Bogdanowicz, B. Kry?tufek, P. J. H. Reijnders, F. Spitzenberger, M. Stubbe, J. B. M. Thissen, V. Vohralík, and J. Zima (eds), The Atlas of European Mammals, Academic Press, London, UK.
  • Ventura, J. (2007). Arvicola sapidus Miller, 1908. Pp. 405-407. En: L. J. Palomo, J. Gisbert y J. C. Blanco (eds.). Atlas y Libro Rojo de los Mamíferos Terrestres de España. Dirección General para la Biodiversidad-SECEM-SECEMU, Madrid.