Diálogo meliano

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Diálogo meliano é uma passagem da obra de Tucídides sobre a Guerra do Peloponeso.[1]

Retrata um exemplo clássico do confronto do liberalismo com o realismo dentro do campo de relações internacionais e é usualmente parafraseado nas discussões que envolvam o pensamento realista. É uma peça peculiar, dada a sua escrita em forma de diálogo teatral, bastante diferente do estilo típico de Tucídides.

O contexto em que se baseia a obra é a invasão da ilha de Melos pelos atenienses em 416 a.C., durante a Guerra do Peloponeso. Os melianos, colonos lacedemônios, recusavam-se a obedecer aos atenienses, ao contrário dos demais ilhéus, e sempre haviam resistido à influência da Liga de Delos (encabeçada por Atenas), bem como ram à subsequente invasão ateniense. A princípio mantiveram-se neutros, mas quando os atenienses passaram a devastar suas terras numa tentativa para forçá-los a aderir, os mélios saíram abertamente para a guerra. Diante disto, acampando em seu território com um importante dispositivo militar, os comandantes atenienses Cleômedes e Tísias, antes de causar qualquer dano às terras, mandaram emissários levando propostas para um entendimento com os mélios. [1]:346

O autor cita um encontro entre representações de ambos os lados, em que um debate sobre os prós e os contras da invasão foi travado, tendo o lado de Atenas alegado, de início, que o interesse meliano representado no debate seria o da elite, que estava receosa de ver o apoio do povo meliano a Atenas. Essa passagem provavelmente reflete a opinião de Tucídides sobre a invasão de Melos e não possui base rigorosamente histórica.

Os argumentos lançados partem dos dois lados. Os atenienses propõem aos melianos que se aliassem a Atenas, conservando o território, embora sujeitos ao pagamento de tributos, e assim fossem poupados, ou que lutassem até a própria destruição.[1]:353 Já os melianos alegaram que sua neutralidade deveria ser respeitada (a ilha não se colocava a favor de nenhum dos dois lados da Guerra do Peloponeso, nem de Atenas, nem de Esparta); que a clemência de Atenas melhoraria as relações com Melos; que uma agressão ateniense faria com que Esparta interviesse em favor da ilha; e, finalmente, que os deuses protegeriam a ilha.

Frente a essas alegações, os atenienses adotam a postura mais rigorosa que se encontra no realismo:

O justo, nas discussões entre os homens, só prevalece quando os interesses de ambos os lados são compatíveis, e que os fortes exercem o poder e os fracos se submetem.

Ou, numa versão mais sintética:

Os fortes fazem o que podem e os fracos sofrem o que devem.

Os atenienses afirmaram que esse princípio era conhecido pelos espartanos e, portanto, estes não interviriam em favor de Melos, pois ajudar um Estado fraco e condenado não seria vantajoso para eles. Com a recusa por parte dos atenienses, Melos é cercada e tomada em pouco tempo. A falta de apoio espartano, o reforço nos militares atenienses e as deserções melianas são determinantes para a queda da ilha. Segundo Tucídides, Atenas executa todo homem meliano em idade de recrutamento militar, reduz todas as mulheres e crianças à escravidão e recoloniza a ilha já despovoada.[1]:354

Referências

  1. a b c d Tucídides, História da guerra do Peloponeso. Prefácio de Hélio Jaguaribe; trad. do grego de Mário da Gama Kury. 4ª edição. Brasília: Editora Universidade de Brasília, Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2001. Livro V, capítulos 84-113.