Dirrã (moeda)

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Dirrã, dirém, direme ou dirame[1] (em árabe: درهم; transl.: Dirham) foi, e em alguns casos continua sendo, a moeda de vários Estados berberes e árabes. Era formalmente a unidade relativa de massa (o dracma otomano) no Império Otomano e nos antigos Estados persas. Seu nome deriva da antiga moeda grega dracma.

Dirrã com nome de Alhajaje (ca. 702/703)
Dirrã do califa Ualide I (r. 705–715)

História[editar | editar código-fonte]

O dirrã foi a primeira unidade monetária de prata árabe. Foi criado reutilizando dracmas sassânidas tardios, sobretudo dos reinados de Izdegerdes III (r. 632–651), Hormisda IV (r. 579–590) e Cosroes II (r. 590–628). A iconografia persa foi mantida, mas uma inscrição religiosa cúfica foi adicionadas as margens. Algumas moedas de Izdegerdes e pós-Izdegerdes reutilizadas sob os califas Moáuia I (r. 661–680) e Abdal Malique (r. 685–795) foram reemitidas com legendas em pálavi com o nome do califa e na maioria dela havia o nome do governador provincial e o nome da casa da moeda abreviado e a data segundo a Hégira. Por volta do ano 691-692 e por alguns anos depois disso, variações do padrão foram emitidas, com maior uso de legendas em cúfico e inovações na iconografia mais adequadas ao islamismo.[2]

Em 698-699, a reforma monetária de Abdal Malique alterou drasticamente o estilo do dirrã, que desde então, com algumas exceções, tornou-se puramente epigráfico como o dinar. Os primeiros exemplares do novo dirrã eram anônimos, mas ao longo dos séculos VIII e IX, adicionou-se o nome de governadores, o herdeiro-aparente, califas, etc; o nome do centro de cunhagem e a data continuaram presentes. No Califado Omíada, os principais centros de cunhagem do dirrã estiveram localizados em antigos centros administrativos sassânidas, mas a emissão de moedas de prata também ocorreu em Damasco, Ifríquia e Alandalus. Uacite, fundada pelo governador do Iraque Alhajaje, tornar-se-ia o mais prolífico centro de cunhagem de dirrãs, Talvez, segundo G. C. Miles, porque a administração da cunhagem de prata estava centrada ali.[2]

Dirrã do sultão Saladino (r. 1174–1193)
Miliarésio do imperador Romano I (r. 920–944)

Até o fim do século X, ocorreu muita variação no estilo e aparência geral do dirrã nas várias dinastias independentes que surgem nesse momento, exceto do dirrã fatímida que foi organizada em círculos concêntricos. Segue um período de carência de prata no Oriente, no qual a saída da cunhagem de prata foi relativamente insignificante, mas com a ascensão dos mongóis em meados do século XIII, os dirrãs e múltiplos deles, diferentes do tipo designado por "clássico", foram emitidos em imensas quantidades. No Ocidente, o dirrã declinou em quantidade com o fim do Califado de Córdoba (1031) dos omíadas, e foi restaurado num estilo diferente sob o Império Almorávida e passou por uma mudança completa de estilo e peso sob o Califado Almóada, quando o dirrã quadrado (muraba) foi introduzido, e imitado pelos cristãos na França (os milhares).[2] Desde o começo do século XI, dirrãs de prata (bilhão) e cobre foram cunhados por vários Estados: Império Buída, Canato Caracânida, Império Corásmio, etc. Sob o Beilhique Artúquida, os emirados zengidas e o Império Aiúbida, dirrãs de cobre maiores e mais largos com figuração que se assemelha à helenística, romana provincial, bizantina e outras cunhagens foi emitida; neles também ocasionalmente aparece uma iconografia islâmica original.[3]

Tipológica e economicamente, o dirrã exerceu influência no Império Bizantino e Ocidente. O miliarésio bizantino, introduzido no segundo quartel do século VIII após uma geração durante a qual virtualmente não se cunhou moedas de prata em Constantinopla, foi inspirado no dirrã, e muitos miliarésios dos séculos VIII e IX foram prensadas sobre virolas de dirrãs árabes. Crê-se também que o dinheiro do Império Carolíngio também foi influenciado pelo dirrã. Os dirrãs, por sua vez, são abundantemente encontrados, seja na forma de moedas inteiras ou fragmentos, em tesouros na Europa Oriental, Escandinávia e regiões mar Báltico datados entre 780 e 1100, indicando que houve intenso comércio entre a porção oriental do califado e estas regiões. Eles também foram encontrados, mas em menor número na França e Inglaterra.[3]

Valor[editar | editar código-fonte]

Dinheiro do imperador Carlos Magno (r. 768–814)

O dirrã clássico foi feito sobretudo reutilizando dracmas sassânidas de Cosroes II com valores entre 4,11 e 4,15 gramas. O dirrã árabo-sassânida foi mais leve, com aproximadas 3,98 gramas. Depois da reforma de Abdal Malique, um padrão inteiramente novo foi adotado. Como resultado, até meados do século IX, quando os pesos começaram a ficar muito erráticos, o pico do peso do dirrã ficou entre 2,91 e 2,95 gramas. Segundo G. C. Miles, a figura ideal, que permitiria a perda de peso, é 2,97 gramas, o que consistiria exatamente na figura teorética tradicional que se baseia na fórmula árabe clássica que afirma que o dirrã era 7⁄10 de metical (dinar), ou seja, 7⁄10 x 4.25 = 2,97. Pesos de vidro para dirrãs, contudo, ficaram abaixo dessa projeção, e segundo Miles há uma categorias desses pesos que indicam que havia dirrãs egípcios de 13 carrubas que pesavam ainda menos. Os valores de correspondência entre o dinar e dirrã flutuou muito em diferentes períodos e diferentes partes do califado. Os juristas islâmicos falam que 10 ou 12 dirrãs equivaliam a um dinar no tempo de Maomé, mas posteriormente essa relação caiu para 15, 20, 30 ou 50 dirrãs por dinar. Philip Grierson tentou explicar a base econômica da relação mercantil ouro-prata e a cunhagem com particular referências às relações bizantino-árabes.[4]

Referências

  1. Alves 2014, p. 441.
  2. a b c Miles 1991, p. 319.
  3. a b Miles 1991, p. 320.
  4. Miles 1991, p. 319-320.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Alves, Adalberto (2014). Dicionário de Arabismos da Língua Portuguesa. Lisboa: Leya. ISBN 9722721798 
  • Miles, G. C. (1991). «Dirham». The Encyclopedia of Islam, New Edition, Volume II: C–G. Leida e Nova Iorque: BRILL. ISBN 90-04-07026-5