Eugénio Correia
| Eugénio Correia | |
|---|---|
![]() Em retrato publicado em 1919 | |
| Nascimento | |
| Morte | |
| Nacionalidade | |
| Ocupação | arquiteto |
| Movimento | Modernismo |
Eugénio Correia (Santa Maria e São Miguel, Sintra, 1897 — 1985) foi um arquiteto português, considerado um dos maiores expoentes de um tipo de arquitectura modernista, conciliada com a tradição nacional portuguesa.
Biografia
[editar | editar código]Era filho do funcionário público Sabino do Nascimento Correia, natural de Lisboa, e de Ermelinda Pereira Correia, natural de Torres Vedras (freguesia de Maxial).[1]
Em 1920, inicia a carreira profissional na administração pública.
A 6 de agosto de 1921, casou civilmente em Lisboa com Gabriela Adelaide de Carvalho Martins (Anjos, Lisboa, c. 1898), doméstica, filha do empregado comercial Alfredo do Nascimento Martins e de Adelaide Maria da Conceição Carvalho, doméstica, ambos também naturais de Lisboa. Por sentença de 6 de julho de 1938, foi decretado o divórcio entre o casal.[1]
Em 1923, formou-se em Arquitetura pela Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa, onde foi discípulo de José Luís Monteiro. Temporariamente, foi professor do ensino técnico‑profissional. Na administração pública, foi arquiteto da Inspeção de Lugares e Habitações da Direção-Geral da Saúde e arquiteto-chefe de vários departamentos do Ministério da Instrução Pública, nomeadamente no âmbito do movimento de construção, reparação e ampliação das escolas primárias promovido pelo Estado Novo. No final dos anos 1920, Eugénio Correia, então um arquitecto secundário, mas a quem se atribuía "a reconstituição do estilo arquitectónico português" defendeu, em entrevista ao "Diário de Lisboa", o Plano Forestier para Lisboa, da autoria do arquitecto francês Jean-Claude Nicolas Forestier.[2][3]
Segundo o historiador Joaquim Veríssimo Serrão, Eugénio Correia torna-se, a partir da década de 1930, juntamente com Porfírio Pardal Monteiro e Jorge Segurado, um dos maiores expoentes de uma arquitectura inovadora, que conciliava a tradição nacional e o carácter modernista, cujas bases haviam sido lançadas por José Cotinelli Telmo. Passa a integrar o quadro da Direção-Geral de Edifícios e Monumentos Nacionais.[4][3]
Em 8 de Novembro de 1941, na qualidade de presidente da Sociedade de Belas Artes, presidiu à inauguração da exposição "Nova Arquitectura Alemã", organizada no edifício da Sociedade pelo Inspector Geral de obras da capital do III Reich, o arquitecto Albert Speer, com a presença do Presidente da República General Carmona, e do Ministro das Obras Públicas, Engenheiro Duarte Pacheco. A exposição esteve 14 dias aberta ao público, sendo visitada por mais de cem mil pessoas, tornando-se a maior até então exibida em Portugal.[5]
Em 1955, foi promovido a arquiteto inspetor superior e vogal efetivo do Conselho Superior de Obras Públicas.[6][3]
Museu José Malhoa
[editar | editar código]Em 1937 projecta, juntamente com Paulino Montez, o Museu de José Malhoa, nas Caldas da Rainha. O edifício foi inaugurado a 11 de Agosto de 1940, no âmbito dos festejos provinciais dos Centenários da Fundação e da Restauração de Portugal, em que Eugénio Correia foi arquiteto‑chefe na Província da Estremadura.[7] O pedestal da estátua de José Malhoa do escultor Leopoldo Neves de Almeida, inaugurada em 1955 nos jardins fronteiros ao museu, é também da autoria de Eugénio Correia, que foi responsável pelos projetos de ampliação do Museu em 1950 e 1955‑57 e pela adaptação da cave a Museu de Cerâmica, em 1964.[3][8]
Era membro da Liga dos Amigos do Museu José Malhoa e também seu Sócio Honorário e Benemérito. Sob proposta do diretor do Museu José Malhoa, António Montês, a 6 de abril de 1956, foi agraciado com o grau de Oficial da Ordem da Instrução Pública, pelo seu trabalho em prol do Museu.[9][3]
Bairros económicos
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Entre 1935 e 1938 projectou o Bairro do Consórcio Português de Conservas de Peixe em Olhão, para a Secção de Construção de Casas Económicas da Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais (DGEMN), constituído por sessenta e seis casas, sendo a primeira realização de habitação de baixo custo com apoio estatal naquele concelho.[10]
Entre 1933 e 1938 colaborou com Raul Lino na execução do Bairro Económico de Belém, também denominado de Bairro Económico das Terras de Forno, localizado a nascente do Mosteiro dos Jerónimos, com uma área de 62.504 m². De 1938 a 1940 projectou o bairro económico de Telheiros da Ajuda/Alto da Ajuda, em Lisboa[11]
Em 1948 projecta o Bairro de Casas Económicas Engenheiro Duarte Pacheco, actual Bairro Económico da Horta da Cavalinha, em Olhão, no âmbito da Direcção dos Edifícios do Sul/Secção de Construção de Casas Económicas da DGEMN, onde dominava a habitação unifamiliar geminada, de um a dois pisos, de inspiração popular. O bairro abrangia várias tipologias, denotando o gosto "tradicionalista" do Estado Novo quando tratava de alojar comunidades mais desfavorecidas ou de características rurais. O conjunto era composto por oito arruamentos, unificados em torno da escola primária, constituída em equipamento colectivo de eleição na vida comunitária. Existem dados que permitem colocar o fim da construção deste bairro em 1953.[12]
Sobre este bairro o geógrafo alemão Wilhem Giese, que nos anos 1930 discutira em artigos científicos a origem da açoteia olhanense, voltando à vila vinte anos depois, assinalou que as "(...)casas espaçosas de dois andares com todas as comodidades modernas(...", tinham adoptado um elemento tradicional: a escada exterior que, projectada da empena de cada casa, permitia o acesso à moderna açoteia, à semelhança das que, nas casas tradicionais do centro, ligavam as antigas açoteias aos mirantes. Para Giese, este bairro, como os seus congéneres, "expressivamente modernos", constituíam-se como exemplos da "mescla do antigo e do novo, do que está morrendo e do que está crescendo" em Olhão, deixando uma impressão forte e positiva.[10]
O seu projecto de Casas Económicas em Olhão, juntamente com as Casas para Pescadores de Inácio Peres Fernandes, e as Casas para as Classes Pobres de António Gomez Egea e Luís Guedes, é considerado de importância fundamental para a definição de uma identidade arquitectónica moderna daquela cidade.[10]
Colónia Agrícola de Santo Isidro de Pegões
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No início da década de 1950 projecta o grupo de Pegões Velhos da Colónia Agrícola de Santo Isidro de Pegões, no Montijo, composto por igreja, duas escolas primárias, uma para cada sexo, e três habitações destinadas ao padre e professoras,d e concepção surpreendente moderna e de uma ousadia formal. Sobre este conjunto, escreveu o arquitecto Nuno Teotónio Pereira: ".. as obras de Eugénio Correia, com as suas construções em superfícies parabólicas, constituem um grito de radical modernidade que fazem delas um caso singular no panorama da arquitectura em Portugal. (...) A juntar a isso, acontece que, dentro desta forma, não muito comum no contexto da arquitectura moderna, a técnica construtiva, à base de fusos cerâmicos, lhes confere uma acrescida originalidade".[13]
A Igreja de Santo Isidro de Pegões foi inaugurada em 1957 pela Junta de Colonização Interna, formando parte do conjunto edificado no âmbito do projecto de colonização do planalto de Pegões. O edifício, embora integrado nos planos de edificações do Estado Novo, possui uma arquitectura fora dos cânones em voga na época, integrando-se perfeitamente na paisagem circundante. O templo tem a fachada virada a norte, e interior de uma só nave despojada de qualquer tipo de decoração, com baptistério. Na capela-mor encontra-se uma grandiosa pintura mural a fresco, onde se representa a figura de Santo Isidro, da autoria de Severo Portela Júnior.[14]
Piódão
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Em 1974,[15] membros da Comissão de Melhoramentos da Freguesia do Piódão levaram àquela aldeia Eugénio Correia, "cuja influência no poder político levou, por sua vez, à intenção de parar de imediato com todas as alterações à unidade arquitectónica e à fisionomia de conjunto da aldeia, vista como um património raro."[16] O arquitecto tornou-se um dos principais promotores da elevação da povoação do Piódão a Imóvel de Interesse Público, merecendo a sua especial atenção pela peculiaridade das suas construções, totalmente em xisto, tanto as paredes como as coberturas. A classificação veio a concretizar-se por despacho ministerial de Abril de 1976, confirmado pelo Decreto-Lei nº 95/78, de 12 de Setembro de 1978.[17] A localidade homenageou o arquitecto atribuíndo o seu nome à Rua Eugénio Correia.[18]
Outros projectos
[editar | editar código]A Câmara Municipal do Funchal, por acta de 12 de Maio de 1938, deliberou mandar orçamentar a obra do miradouro do Pináculo, em São Gonçalo, com projeto do arquitecto Eugénio Correia, a quem a autarquia manda "agradecer a obsequiosa oferta"[19][20]
Foi ainda autor do projecto do Mercado de Chaves, do Seminário de Vila Real, e do mausoléu-monumento ao Dr. Ceia, em Peniche.[20]
Foi autor do projeto de adaptação de casa de férias do jornalista Joaquim Manso, na Nazaré, doada ao Estado por Amadeu Gaudêncio para albergar o Museu Dr. Joaquim Manso - Museu da Nazaré, inaugurado em 1970.[3]
Prémios
[editar | editar código]Participou na Exposição do Rio de Janeiro de 1922 com o pavilhão de Honra, conseguindo o terceiro prémio. Em 1927 concorreu à Exposição das Caldas da Rainha, obtendo a medalha de ouro. Conseguiu também o segundo prémio no concurso do Palácio do Ministério da Agricultura.[20]
Referências
- 1 2 «Livro de registo de casamentos da 5.ª Conservatória do Registo Civil de Lisboa (1921-04-10 - 1921-08-28)». digitarq.arquivos.pt. Arquivo Nacional da Torre do Tombo. p. fls. 167 e 167v, assento 167
- ↑ José Augusto França (1992). Os Anos Vinte em Portugal: Estudo de Factos Sócio-Culturais. [S.l.]: Editorial Presença. p. 246
- 1 2 3 4 5 6 «Quem é Quem na Museologia Portuguesa» (PDF). Consultado em 11 de abril de 2026
- ↑ Joaquim Veríssimo Serrão (1990). História de Portugal: A Primeira República (1910-1926), Volume XII. [S.l.]: Verbo. p. 360
- ↑ Reinhard Schwarz (2006). «Exposições». Os Alemães em Portugal, 1933 – 1945. A Colónia Alemã através das suas instituições. [S.l.]: Antília Editora
- ↑ Castillos de Espana, Issues 60-63, Page 248
- ↑ «História». Museu José Malhoa. 2009. Consultado em 16 de Fevereiro de 2010. Arquivado do original em 7 de maio de 2013
- ↑ «MatrizNet». matriznet.dgpc.pt. Consultado em 23 de janeiro de 2016
- ↑ «Entidades Nacionais Agraciadas com Ordens Portuguesas». Presidência da República Portuguesa. Consultado em 11 de abril de 2026
- 1 2 3 Lisboa em Olhão/Olhão em Lisboa, Ricardo Agarez in "Revista Monumentos nº 33", April 2013, p. 157-159
- ↑ Almeida, Patrícia Beirão da Veiga Bento de (2013). Bairro(s) do Restelo. Panorama urbanístico e arquitectónico. [S.l.]: Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa
- ↑ Habitar em Colectivo: Arquitectura Portuguesa antes do S.A.A.L (PDF). [S.l.: s.n.] 2009
- ↑ Paulo Lima (2013). A Colónia Agrícola de Santo Isidro de Pegões - Montijo (PDF). [S.l.]: Câmara Municipal do Montijo
- ↑ «Montijo / Pegões». mun-montijo.pt. Consultado em 23 de janeiro de 2016. Arquivado do original em 31 de janeiro de 2016
- ↑ «Património - Comissão de Melhoramentos da Freguesia de Piódão». sites.google.com. Consultado em 23 de janeiro de 2016
- ↑ Moreno, L. (1999) – “A serra do Açor e o Piódão: refúgios de uma ruralidade recriada”. In, Cavaco, C. (coord.): Desenvolvimento Rural. Desafio e Utopia. Lisboa, CEG, p. 399.
- ↑ «Autarquia de Arganil». cm-arganil.pt. Consultado em 23 de janeiro de 2016
- ↑ innovdigital.pt. «Portugal Telecom SA-Postos Telefónicos Públicos-António Lopes Fontinha - Piódão, Arganil | guiaempresas.pt». guiaempresas.pt. Consultado em 23 de janeiro de 2016. Arquivado do original em 28 de janeiro de 2016
- ↑ Diário de Notícias da Madeira, 17 de Maio de 1938
- 1 2 3 Quem é alguém: Who's who in Portugal. [S.l.]: Portugália Editora. 1947. p. 229

