Forte de Santa Cruz de Itamaracá

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Forte de Santa Cruz de Itamaracá
Forte de Santa Cruz de Itamaracá (Forte Orange) - Ilha de Itamaracá, Pernambuco, Brasil
Construção (1631)
Conservação Bom
Aberto ao público Sim

O Forte de Santa Cruz de Itamaracá, popularmente referido como Forte Orange, localiza-se na ilha de Itamaracá, a 50 quilômetros do Recife,[1] no litoral norte do estado de Pernambuco, no Brasil.

No contexto da segunda das invasões holandesas do Brasil situava-se numa pequena ilhota (hoje desaparecida) em frente à ponta sudeste da ilha de Itamaracá, de onde dominava a barra sul do canal de Santa Cruz. Atualmente, o Forte Orange está fechado por tempo indefinido para melhorar sua estrutura, por causa do avanço do nível do mar.

História[editar | editar código-fonte]

Antecedentes: o forte neerlandês[editar | editar código-fonte]

Foi iniciado, a partir de maio de 1631, como uma fortificação de campanha, por forças neerlandesas,[2] sob o comando de Steyn Callenfels, tendo recebido a denominação de Forte Orange, em homenagem à Casa de Orange-Nassau, que então governava os Países Baixos. O objetivo era a conquista da Vila da Conceição, atual Vila Velha,[3] então defendida pelas forças de Salvador Pinheiro.

Forte de Santa Cruz de Itamaracá: vista do interior.
Parte externa da edificação.

Em faxina e taipa, ficou guarnecido por um destacamento de 366 homens sob o comando do capitão polonês Crestofle d'Artischau Arciszewski. Este efetivo resistiu ao ataque das forças portuguesas sob o comando do conde de Bagnoli que, afinal derrotado (1632), retirou-se abandonando a sua artilharia: quatro peças de bronze trazidas do Arraial Velho do Bom Jesus. Após essa conquista (1633), o forte foi reparado e ampliado, sob o comando de Sigismund van Schoppe.[4]

Sobre esta estrutura, Maurício de Nassau reportou:

"(...) Dentro da barra [da ilha de Itamaracá] apresenta-se em primeiro lugar o forte Orange, situado sobre um baixo de areia separado de terra firme por uma angra, que é vadeável de baixa-mar. Este forte domina a entrada do porto, visto que como os navios que entram têm que passar por diante dele a tiro de arcabuz. É quadrado, com quatro baluartes [nos vértices], e ultimamente foi elevado e reparado, mas quase não tem fossos, nem estacada ou paliçada, o que é necessário que se faça, bem como convém aprofundar o fosso e cercar o lado exterior com uma contra-escarpa. Diante deste forte, do lado do Norte, por onde o inimigo pode se aproximar, há um hornaveque."[5]

Essa descrição é complementada pela de van der Dussen, que lhe atribui duas companhias, com um efetivo de 182 homens:

"(...) o forte Orange, na entrada sul do canal, que é o principal porto da Ilha [de Itamaracá]. É um forte quadrangular com 4 baluartes, elevado, tendo em certo trecho um fosso, mas pouco profundo e seco; está cercado por uma forte estacada. Aí estão 12 peças, a saber: 6 de bronze e 6 de ferro. As de bronze são: 1 de 26 libras, 1 de 18 lb, 3 de 12 lb e 1 de 6 lb; as de ferro são: 2 de 5 lb e 4 de 4 lb."[6]

BARLÉU (1974) transcreve a informação:

"(...) o [forte] de Orange, na boca meridional do porto. Tem quatro bastiões e é cercado de uma estacada, por falta de água nos fossos. Está armado de 12 canhões, 6 de bronze e 6 de ferro."[7] Atribui-lhe o mesmo efetivo de 182 homens.[8] Com relação à estacada, foi esta determinada por Nassau na iminência do ataque de uma frota espanhola ao nordeste holandês (c. 1639): "(...) Protegeu Maurício também o forte de Orange, na ilha de Itamaracá, cingindo-o de estacada (...)."[9]

Esta posição integrava o sistema defensivo da ilha composto, a sul pela vila Schoppe, diversos redutos e por um grande alojamento, e a norte pelo Fortim da Ponta de Catuama.[10]

De acordo com BENTO (1971), quando da contra-ofensiva portuguesa à ilha da Itamaracá, em junho de 1646, pelas forças combinadas do Mestre-de-Campo André Vidal de Negreiros (1606-1680) e do Mestre-de-Campo João Fernandes Vieira (1602-1681), o Sargento-mor Antônio Dias Cardoso foi o encarregado de atacar e arrasar as fortificações holandesas, o que foi cumprido, apresando dezoito peças de artilharia, e organizando redutos fronteiros à ilha com algumas dessas peças.

Embora não esteja claro se este forte em particular foi conquistado ou não, na ocasião sofreu pesados estragos, tendo sido reconstruído a partir de 1649.

O forte português[editar | editar código-fonte]

Canhões no Forte de Santa Cruz de Itamaracá.

Após a capitulação holandesa em Recife (1654), o forte foi abandonado e subsequentemente ocupado pelas forças portuguesas sob o comando do Coronel Francisco de Figueiroa.[11] Sobre a sua estrutura, a engenharia militar portuguesa ergueu o atual forte, sob a invocação da Santa Cruz: o Forte de Santa Cruz de Itamaracá.

Apesar de sofrer reparos nos anos de 1696 - quando sua guarnição se compunha de um Sargento-mor, um Capitão, um Tenente, um Sargento, um Condestável, e duas companhias dos Terços do Recife, estando artilhado com vinte e cinco peças dos calibres de 20 a 12[12] -, e de 1777, em 1800, abandonado, encontrava-se em ruínas. Nova restauração foi providenciada em 1817, ano em que foi ocupado pelas forças do padre Tenório, no contexto da Revolução Pernambucana (1817). SOUZA (1885), à época (1885), atribuiu-lhe vinte e três peças, apontando-lhe a ruína.[13]

Os nossos dias[editar | editar código-fonte]

Tombado em 1938 pelo então Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, pequenas intervenções de consolidação foram efetuadas em 1966 e em 1973, época em que a ilha começou a se projetar enquanto balneário turístico. Em 1971, o Laboratório de Arqueologia da Universidade Federal de Pernambuco procedeu-lhe prospecção parcial, identificando os espaços da Cozinha, da Capela, dos Quartéis e dos Paióis, e recuperando diversos objetos de uso pessoal, munições e canhões de vários calibres. O Ministério do Exército iniciou-lhe reformas no início da década de 1980, passando a sua administração para a Prefeitura Municipal de Itamaracá (1984). É deste período que data o envolvimento do ex-presidiário e artesão José Amaro de Souza Filho com a guarda e manutenção autônomas do monumento, mediante a receita gerada pela venda de artesanato local, situação que perdurou até 1992. A partir de 1991, com a criação, por José Amaro, da Fundação Forte Orange, esta entidade passou a se encarregar da administração do forte, até 1998. Nesta altura, o imóvel foi retomado da Prefeitura sendo passado para o Ministério da Cultura (1998), que por sua vez o repassou para a Fundação de Apoio ao Desenvolvimento da Universidade Federal de Pernambuco - FADE/UFPE.

A FADE, empresa privada sem fins lucrativos, a partir de 2000 coordenou o projeto de pesquisa arqueológica da UFPE (Projeto Forte Orange), com recursos da MOWIC Foundation, do Ministério das Relações Exteriores dos Países Baixos, do Ministério da Cultura do Brasil - através do IPHAN, e do Governo do Estado de Pernambuco.

De janeiro a março de 2002, e de outubro de 2002 a junho de 2003 duas novas campanhas de prospecção arqueológica tiveram lugar. Os trabalhos compreenderam ainda a construção de defesas contra o mar, com recursos da Prefeitura Municipal, bem como intervenções de restauro e a instalação de um Museu com os testemunhos arqueológicos encontrados nas escavações, com recursos do Governo do Estado de Pernambuco e do IPHAN. Em 2010, uma nova campanha, também sob a responsabilidade do Laboratório de Arqueologia da UFPE, pesquisou o espaço da praça de armas, identificando o primitivo portão de armas e a casa de pólvora.[14]

Características[editar | editar código-fonte]

Embora historiograficamente se considere que a engenharia militar portuguesa apenas realizou trabalhos de reforma e ampliação da praça neerlandesa, como por exemplo revestindo com alvenaria de pedra a primitiva muralha de terra, a pesquisa arqueológica constatou que efetivamente se trata de duas estruturas diferentes. Embora com estrutura similar, o atual forte apresenta maiores dimensões, com as dependências internas justapostas à contramuralha (a parede interna da fortificação), ao contrário da primitiva estrutura, onde se encontravam separadas. O portão de armas neerlandês, erguido em alvenaria de tijolos trazidos dos Países Baixos, era voltado para o canal de Santa Cruz, sendo entaipado por um muro de pedra pelos portugueses que, entretanto, rasgaram o atual voltado para terra.[15] Em alvenaria de pedra de calcário e cal, o atual forte apresenta planta na forma de um polígono quadrangular regular com baluartes pentagonais nos vértices no sistema Vauban, guaritas de cantaria, portão armoriado, além de quartéis para a tropa, Casa de Comando e paióis ao abrigo das muralhas, envolvendo o terrapleno.

Referências

  1. FARIA, Júlia. "Nome holandês, origem portuguesa". in Ciência Hoje, vol. 45, nº 268, mar. 2010, p. 56-57.
  2. BARRETTO, 1958:133.
  3. FARIA, Júlia. "Nome holandês, origem portuguesa". in Ciência Hoje, vol. 45, nº 268, mar. 210, p. 56-57.
  4. ALBUQUERQUE, 2010:37.
  5. NASSAU, Maurício de. Breve Discurso. 14 de janeiro de 1638.
  6. Adriaen van der Dussen. Relatório sobre o estado das Capitanias conquistadas no Brasil. 4 de abril de 1640.
  7. Op. cit, p. 143.
  8. Op. cit., p. 146.
  9. Op. cit., p. 159.
  10. ALBUQUERQUE, 2010:37.
  11. GARRIDO, 1940:62.
  12. GARRIDO, 1940:62.
  13. Op. cit., p. 81.
  14. FARIA, Júlia. "Nome holandês, origem portuguesa". in Ciência Hoje, vol. 45, nº 268, mar. 2010, p. 56-57.
  15. FARIA, Júlia. "Nome holandês, origem portuguesa". in Ciência Hoje, vol. 45, nº 268, mar. 2010, p. 56-57.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • ALBUQUERQUE, Marcos. "Arqueologia do Forte Orange". in Revista DaCultura, ano IX, nº 15, junho de 2009, p. 37-47.
  • ALBUQUERQUE, Marcos. "Arqueologia do Forte Orange II". in Revista DaCultura, ano X, nº 16, abril de 2010, p. 44-51.
  • ALBUQUERQUE, Marcos. "Arqueologia do Forte Orange: o forte holandês". in Revista DaCultura, ano X, nº 17, agosto de 2010, p. 36-43.
  • ALBUQUERQUE, Marcos. "Forte Orange e seu cotidiano material". in Revista DaCultura, ano XII, nº 19, janeiro de 2012, p. 26-35.
  • BARLÉU, Gaspar. História dos feitos recentemente praticados durante oito anos no Brasil. Belo Horizonte: Editora Itatiaia; São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1974. 418p. il.
  • BARRETO, Aníbal (Cel.). Fortificações no Brasil (Resumo Histórico). Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército Editora, 1958. 368p.
  • BENTO, Cláudio Moreira (Maj. Eng. QEMA). As Batalhas dos Guararapes - Descrição e Análise Militar (2 vol.). Recife: Universidade Federal de Pernambuco, 1971.
  • GARRIDO, Carlos Miguez. Fortificações do Brasil. Separata do Vol. III dos Subsídios para a História Marítima do Brasil. Rio de Janeiro: Imprensa Naval, 1940.
  • MELLO, José Antonio Gonsalves de (ed.). Fontes para a história do Brasil holandês (v. 1). Recife: Parque histórico-nacional dos Guararapes; MEC/SPHAN/Fundação Pró-Memória, 1981. 264p.
  • SOUZA, Augusto Fausto de. Fortificações no Brazil. RIHGB. Rio de Janeiro: Tomo XLVIII, Parte II, 1885. p. 5-140.
  • TEIXEIRA, Paulo Roberto Rodrigues. "Forte Orange". in Revista DaCultura, ano VII nº 12, junho de 2007, p. 51-60.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]