Francisco Lázaro

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Francisco Lázaro
Atletismo
Modalidade Maratona
Nascimento 21 de janeiro de 1888
Lisboa, Reino de Portugal Portugal
Nacionalidade portuguesa
Falecimento 15 de julho de 1912 (24 anos)
Estocolmo,  Suécia

Francisco Lázaro (Benfica, 21 de Janeiro de 1888 - Estocolmo, 15 de Julho de 1912) foi um atleta português. Fez parte da primeira equipa olímpica portuguesa nos Jogos Olímpicos de 1912, em Estocolmo, Suécia, onde participou na prova da maratona. Lázaro desfaleceu durante a prova e veio a morrer poucas horas depois[1].

Carreira atlética[editar | editar código-fonte]

Lázaro obteve a sua primeira vitória em 1908, na dita Maratona Portuguesa, uma corrida de 24 km. Em 1909 não competiu, devido a problemas de saúde. Em 1910, triunfou na primeira verdadeira maratona realizada em Portugal numa distância próxima da olímpica (42,8 km), com 2h57m35s, com o 2.º classificado a cerca de 15 minutos. No ano seguinte, Lázaro venceu de novo, desta vez com o tempo de 3h09m57s, passando a ter uma enorme popularidade

O ano olímpico de 1912 começou uma nova vitória na maratona, com 2h52m08s um percurso de 42,2 km particularmente difícil que incluía estradas esburacadas e a subida da Calçada de Carriche. Quatro anos antes, nos jogos de Londres, o vencedor da maratona olímpica tinha registado um tempo de cerca de 2h55m. Havia confiança que Lázaro pudesse ter um bom resultado em Estocolmo.

Francisco Lázaro era carpinteiro de uma fábrica de carroçarias de automóveis na travessa dos Fiéis de Deus no Bairro Alto em Lisboa. Não tinha treinador. Após o trabalho, Lázaro corria diariamente de Benfica até S. Sebastião da Pedreira, desafiando, no percurso inverso, os transportes públicos elétricos.

Jogos de Estocolmo[editar | editar código-fonte]

“Ganho ou morro.”

— Frase atribuída a Francisco Lázaro antes da partida para a sua última corrida, Estocolmo, 14 de Julho de 1912

A primeira representação portuguesa nos Jogos Olímpicos era constituída por Armando Cortesão, António Stromp e Francisco Lázaro, no atletismo, os lutadores Joaquim Vital e António Pereira e o esgrimista Fernando Correia, que era também chefe da delegação portuguesa. Lázaro foi o porta-bandeira no desfile inaugural dos jogos.

Última corrida[editar | editar código-fonte]

Francisco Lázaro almoçou às 10 horas do domingo 14 de Julho de 1912. Os seus colegas contaram que estava confiante. Foi levado de automóvel para o estádio, dirigindo-se para o balneário. O calor era sufocante: 32°C. Pouco antes do início da corrida da maratona, Armando Cortesão e Fernando Correia, seus colegas da equipa olímpica, foram procurar Lázaro que ainda não estava junto à partida. Encontraram-no a besuntar-se com sebo. Cortesão e Correia tentaram dissuadir Lázaro e tentaram que ele tomasse um banho, mas não havia tempo. Lázaro foi correr a maratona todo besuntado com sebo, com os poros da pele tapados, o que impedia a transpiração cutânea.

Francisco Lázaro a correr numa maratona em 1912.

Lázaro começou bem a corrida na cabeça do pelotão. Os restantes 5 portugueses da equipa olímpica tinham-se colocado ao longo do percurso, para ajudarem e incentivarem Lázaro. Ao km 15, Lázaro era 27.º, com um atraso de 4 minutos para o líder da prova. Ao km 25, era 18º, e seguia de muito perto os homens da frente. Terá dito que estava bem, apenas com sede, tendo bebido sofregamente a água que lhe foi dada. Ao km 35, os colegas Pereira e Stromp aguardavam pela passagem de Lázaro, que nunca mais chegava, deixando-os preocupados. Também alarmados, Cortesão e Fernando Correia, que estavam no estádio, entraram numa viatura e cumpriram, no sentido inverso, todo o percurso, sem encontrarem sinal de Lázaro. A triste notícia do abandono de Lázaro foi-lhes dada por António de Castro Feijó, o embaixador de Portugal na Suécia. Ao km 29, na colina de Öfver-Järva, Lázaro tinha cambaleado, caído por várias vezes e por várias vezes se levantado para continuar a prova, até cair para não mais se levantar. Um médico foi-lhe prestar assistência. Aplicou-lhe gelo em plena estrada. Levaram-no para o hospital onde lhe diagnosticaram erradamente uma meningite. Viria a morrer na madrugada do dia seguinte.[2]

A corrida e a medalha de ouro foi ganha por Kennedy Kane McArthur, com a medalha de prata para Christian Gitsham, ambos sul-africanos. O americano Gaston Strobino conquistou a medalha de bronze.

No dia 20 de Julho de 1912, 24.000 pessoas que estavam no estádio prestaram as homenagens póstumas a Lázaro como a primeira vítima mortal dos Jogos Olímpicos. Pierre de Coubertin enviou condolências à família Lázaro. O Comité Olímpico Português teve dificuldades financeiras para transladar o cadáver para Portugal. Isso só viria a acontecer decorridos vários meses após a morte do atleta.

Causas da morte[editar | editar código-fonte]

A autópsia do cadáver, realizada pelo Dr. F. Henchen revelou que a causa da morte foi desequilíbrio hidro-electrolítico irreversível (ou seja desidratação extrema).

A autópsia mostrou também um fígado "completamente mirrado, do tamanho de um punho fechado e rijo, a tal ponto que só se conseguira partir a escopro, como se fosse uma pedra" (Nolasco, 1985).

Segundo Armando Cortesão, um dos colegas de Lázaro nos jogos, Lázaro morreu por vários motivos: primeiro, porque se untou com sebo. Além disso era um dos dois únicos atletas, num total de 71, a não usar protecção alguma na cabeça contra o sol. A segunda causa relaciona-se com o uso de estupefacientes para aumentar a resistência muscular. Naquela altura, entre os atletas e os ciclistas, era comum usarem uma mistura a que chamava emborcação. Essa mistura era constituída de 4 claras de ovos, 1 gema de ovo, 450ml de água, 700ml de essência de terebentina e 700g de ácido acético.[3] Além disso, Lázaro costumava também tomar estricnina.[4]

Homenagens[editar | editar código-fonte]

O nome de Francisco Lázaro tornou-se num dos mais lendários do desporto português. O seu nome foi dado a uma rua de Lisboa e ao pequeno estádio do Clube de Futebol Benfica.[5]

O romance Cemitério de Pianos, de José Luís Peixoto, tem inspiração na figura de Francisco Lázaro. A personagem central do romance chama-se Francisco Lázaro e partilha parte da sua história.

O diplomata André Oliveira redigiu um romance baseado na estória de Lázaro, "Corro para a Eternidade", editado pela Gradiva em Portugal em junho de 2013, na Suécia, sob o título "Maraton till evigheten" em novembro de 2013 e em novembro de 2014 essa "obra inovadora baseada num episódio de desporto" será publicada, em árabe, nos Emirados Árabes Unidos. O livro foi integrado em 2013 no Plano Nacional de Leitura do Ministério da Educação e Ciência.

Referências

  1. Grandes momentos olímpicos - 38° -Português morre de esforço após abandonar a maratona
  2. NOLASCO, Pedro (1985), 'A Morte de Francisco Lázaro', Desporto e Sociedade, 5 (Direcção Geral dos Desportos, Lisboa).
  3. Receita de A. Malheiro na revista Tiro e Sport, 15 de Setembro de 1910.
  4. CORREIA, Romeu (1988), Portugueses na V Olimpíada, Lisboa, Editorial Notícias.
  5. Estádio Francisco Lázaro.