Gramática gerativa

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A gramática gerativa ou generativa é uma teoria linguística elaborada por Noam Chomsky e pelos linguistas do Massachusetts Institute of Technology a partir do fim da década de 1950. Em 1965, no livro Aspects of the Theory of Syntax, Chomsky apresenta o modelo de gramática que ficaria conhecido como o modelo "padrão" da gramática gerativa. Houve depois o modelo "padrão estendido" e, a partir da década de 1980, o modelo de "princípios e parâmetros"1 . A partir do fim da década de 90, a gramática gerativa entra na sua fase conhecida como Programa Minimalista.

Características[editar | editar código-fonte]

Criticando o modelo distribucional e o modelo dos constituintes imediatos da linguística estrutural, que, segundo eles, descrevem somente as frases realizadas e não podem explicar um grande número de dados linguísticos (como a ambiguidade, os constituintes descontínuos, etc.), N. Chomsky define uma teoria capaz de dar conta da criatividade do falante, de sua capacidade de emitir e de compreender frases inéditas.

Nessa perspectiva, a gramática é um mecanismo finito que permite gerar (engendrar) o conjunto infinito das frases gramaticais (bem formadas, corretas) de uma língua, e somente elas. Formada de regras que definem as sequências de palavras ou de sons repetidos, essa gramática constitui o saber linguístico dos indivíduos que falam uma língua, isto é, a sua competência linguística. A utilização particular que cada autor faz da língua em uma situação particular de comunicação depende da performance.

Componentes da Gramática[editar | editar código-fonte]

A gramática é formada de três partes ou componentes:

  • Um componente sintático, sistema das regras que definem as frases permitidas em uma língua;
  • Um componente semântico, sistema das regras que definem a interpretação das frases geradas pelo componente sintático;
  • Um componente fonológico e fonético, sistema de regras que realizam em uma sequência de sons as frases geradas pelo componente sintático.

O componente sintático, ou sintaxe, é formado de duas grandes partes: a base, que define as estruturas fundamentais, e as transformações, que permitem passar das estruturas profundas, geradas pela base, às estruturas de superfície das frases, que recebem então uma interpretação fonética para tornarem-se as frases efetivamente realizadas. Assim, a base permite gerar as duas sequências:

(1) A + mãe + ouve + algo,
(2) A + criança + canta.

A parte transformacional da gramática permite obter A mãe ouve que a criança canta e a mãe ouve a criança cantar. Trata-se ainda de estruturas abstratas que só se tornarão frases efetivamente realizadas após aplicação das regras do componente fonético. A base é formada de duas partes:

  • O componente ou base categorial é o conjunto das regras que definem as relações gramaticais entre os elementos que constituem as estruturas profundas e que são representadas pelos símbolos categoriais. Assim, uma frase é formada pela sequência SN + SV, em que SN é o símbolo categorial de sintagma nominal e SV o símbolo categorial de sintagma verbal: a relação gramatical é a de sujeito e predicado;
  • O léxico, ou dicionário da língua, é o conjunto dos morfemas lexicais definidos por séries de traços que os caracterizam; assim, o morfema mãe será definido no léxico como um substantivo, feminino, animado, humano, etc. Se a base define a sequência de símbolos: Art. + N + Pres. + V + Art. + N (Art. = artigo, N = nome, V = verbo, Pres. = presente), o léxico substitui cada um desses símbolos por uma "palavra" da língua: A + mãe + (vazio) + acabar + o + trabalho, as regras de transformação convertem essa estrutura profunda numa estrutura de superfície: a + mãe + acabar + (vazio) + o + trabalho, e as regras fonéticas realizam A mãe acaba o trabalho.

Obtiveram-se, portanto, no fim da base, sequências terminais de formantes gramaticais (como número, presente, etc.) e morfemas lexicais; essas sequências são suscetíveis de receber uma interpretação conforme as regras do componente semântico. Para serem realizadas, vão passar pelo componente transformacional.

As transformações são operações que se convertem as estruturas profundas em estruturas de superfície sem afetar a interpretação semântica feita ao nível das estruturas profundas. As transformações, provocadas pela presença na base de certos constituintes, comportam duas etapas; uma consiste na análise estrutural da sequência oriunda da base a fim de ver se sua estrutura é compatível com uma transformação definida, a outra consiste numa mudança estrutural dessa sequência (por adição, apagamento, deslocamento, substituição); chega-se então a uma sequência transformada correspondente a uma estrutura de superfície. Assim, a presença do constituinte "passivo" na sequência de base provoca modificações que fazem com que a frase 'O pai lê o jornal' se torne 'O jornal é lido pelo pai'.

Essa sequência vai ser convertida numa frase efetivamente realizada pelas regras do componente fonológico (diz-se também morfofonológico) e fonético. Essas regras definem as "palavras" provenientes das combinações de morfemas lexicais e formantes gramaticais, e lhes atribuem uma estrutura fônica. É o componente fonológico que converte o morfema lexical "criança" numa sequência de sinais acústicos [kriãsa].

A teoria gerativa deve fornecer uma teoria fonética universal que permita estabelecer a lista dos traços fonéticos e as listas das combinações possíveis desses traços; repousa, portanto, sobre uma matriz universal de traços fônicos. Deve fornecer uma teoria semântica universal suscetível de estabelecer a lista dos conceitos possíveis; implica, portanto, uma matriz universal de traços semânticos. Enfim, a teoria gerativa deve fornecer uma teoria sintática universal, isto é, estabelecer a lista das relações gramaticais da base e das operações transformacionais capazes de dar uma descrição estrutural de todas as frases. Essas tarefas da gramática gerativa implicam, portanto, a existência de universais linguísticos a esses três níveis.

Referências

  1. cf. principalmente Chomsky 1981 e 1986.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • CHOMSKY, Noan. Aspects of the theory of syntax. MIT Press, 1965.
  • CHOMSKY, Noan. Lectures on Government and Binding: The Pisa Lectures. Foris Publications, 1981.
  • CHOMSKY, Noan. Knowledge of Language: Its Nature, Origins, and Use. Praeger, 1986.
  • CHOMSKY, Noan. The Minimalist Program. MIT Press, 1995.
  • DUBOIS, Jean. Dicionário de Lingüística. São Paulo: Cultrix, 200?.