Herbário
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Herbário é uma coleção científica organizada de exsicatas, que consistem em amostras de plantas prensadas, secas (desidratadas) e fixadas[1]. Cada exsicata é obrigatoriamente acompanhada por uma etiqueta contendo a identificação do táxon em latim, o local e a data de coleta, o nome dos coletores e notas ecológicas adequadas sobre o habitat e caracteres físicos do espécime vivo[1].
Os herbários abrigam uma grande quantidade da informação e dados sobre a diversidade vegetal, tais como a conservação, ecologia, fisiologia, farmacologia, agronomia, sistemática, evolução, biogeografia e etnobotânica. Esses dados são cruciais para fundamentar a recuperação de áreas degradadas, o melhoramento vegetal, o incremento da resistência a pragas, o desenvolvimento de compostos farmacológicos e as pesquisas preditivas sobre os efeitos de mudanças climáticas globais na flora[2].
Além disso, os herbários desempenham um papel decisivo na descoberta de novas espécies para a ciência: um levantamento sobre novas espécies publicadas entre 1970 e 2010 demonstrou que apenas 16% delas foram coletadas diretamente no campo, enquanto 84% foram descritas a partir de espécimes que já estavam previamente depositados em coleções de herbários, muitos deles coligidos há mais de 50 anos[3]
Construção
[editar | editar código]Estas coleções de espécies de plantas secas são cuidadosamente pressionadas e coladas em papel pesado. É recomendável que o papel contenha uma cápsula (pequeno envelope) contendo fragmentos adicionais de várias partes da planta, de modo que futuros pesquisadores possam coletar amostras para análises anatômicas ou moleculares sem danificar o exemplar principal[1]. Estas espécies encontram-se devidamente catalogadas e identificadas com informação acerca das plantas e o local onde foram colhidas. Num herbário, a sua coleção está em constante atualização. Regularmente são feitas novas colheitas de exemplares, acompanhadas com informações adicionais sobre a evolução do habitat, do clima, da vegetação, e outras informações que se considerarem relevantes. Se corretamente conservadas, um espécie-tipo pode durar centenas de anos.
Além das tradicionais exsicatas de plantas, algas e fungos, os herbários modernos expandiram seu escopo e costumam abrigar importantes coleções correlatas e auxiliares[2], tais como:
- Carpoteca: acervo organizado de frutos secos ou preservados em meio líquido;
- Xiloteca: conjunto de amostras de madeira (lenho) incorporadas segundo técnicas específicas para estudos de anatomia vegetal, filogenia e identificação de espécies florestais, auxiliando inclusive na fiscalização do comércio madeireiro;
- Fototeca: acervo histórico de imagens botânicas e registros de expedições de campo;
- Banco de DNA: coleção de amostras de tecido vegetal (geralmente folhas jovens desidratadas rapidamente em sílica gel) mantidas sob congelamento extremo para preservação genética e pesquisas biotecnológicas;
- Coleções de Etnobotânica: acervo de plantas úteis, artefatos e derivativos que registram o conhecimento de comunidades tradicionais sobre o uso histórico das espécies vegetais.
Uma espécie de planta num herbário é uma fonte insubstituível de registo da biodiversidade das plantas e serve como referência a muitas e variadas funções, incluindo identificação, pesquisa e educação científica[4].
História
[editar | editar código]Para resgatar a origem dos herbários, é necessário olhar três milênios de história das ciências naturais e remontar à Grécia Antiga, onde os rhizotomoi ("cortadores de raízes") coletavam plantas medicinais com fins utilitários para abastecer os herbarii (ervanários) e onde grandes filósofos como Aristóteles e Teofrasto iniciavam estudos sobre as plantas, dando à Botânica os seus primeiros passos[1]. Desde então, e até o século XVI, a Botânica se desenvolveu sem o auxílio de coleções de plantas secas, fazendo uso apenas de ilustrações e do cultivo de plantas vivas em jardins botânicos[1].
A transição crucial ocorreu no século XVI, impulsionada pelo surgimento e barateamento da produção de papel por meios mecânicos. A técnica de prensar e secar plantas sobre o papel preservando suas características botânicas foi criada pelo professor de botânica italiano Luca Ghini (1490–1556), que denominou essa inovação de hortus siccus ("jardim seco")[1]. O herbário conservado mais antigo do mundo é o do francês Jehan Girault, montado em Lyon em 1558, contendo 313 plantas preservadas em estilo naturalista dentro de um volume encadernado em pergaminho.
No século XVIII, o naturalista sueco Carl Linnaeus revolucionou o modus operandi botânico ao introduzir uma inovação decisiva em sua obra Philosophia Botanica: a montagem de apenas um espécime por folha solta de papel. Em vez de livros encadernados e fixos, Lineu armazenou suas folhas soltas na horizontal, em armários de madeira providos de prateleiras ajustáveis. Isso permitiu que o herbário funcionasse como um fichário aberto, onde novos espécimes podiam ser inseridos e a ordem taxonômica podia ser rearranjada livremente à luz de novas descobertas. Foi Lineu quem definitivamente adotou o termo latino herbarium, fazendo com que a expressão hortus siccus entrasse em desuso[1].
Cenário Brasileiro
[editar | editar código]O registro pioneiro da flora brasileira remonta ao século XVII, quando o naturalista Georg Markgraf, integrante de uma expedição holandesa em 1636, realizou coletas e produziu um herbário em forma de livro com 173 espécimes[1]. Esse acervo histórico, estudado por Lineu, encontra-se hoje no Museu de História Natural da Dinamarca. O primeiro herbário fundado em território brasileiro foi o Herbário do Museu Nacional, no Rio de Janeiro, em 1831. Ao final do século XIX, consolidou-se o Herbário do Jardim Botânico do Rio de Janeiro. No ano de 2000, para articular e divulgar os dados dos acervos nacionais, foi estruturada a Rede Brasileira de Herbários (RBH) sob a égide da Sociedade Botânica do Brasil (SBB)[5].
Entre 2000 e 2015, o número de herbários brasileiros cresceu 43% em todas as regiões brasileiras. Até setembro de 2015, o Brasil contava com 237 herbários cadastrados na RBH, dos quais 196 eram considerados ativos[1][5]. Um marco moderno de inovação deu-se em 2010 com o início da construção do Herbário Virtual Reflora, sediado no Jardim Botânico do Rio de Janeiro e financiado pelo CNPq. O programa promoveu o repatriamento digital (através de imagens em alta resolução) de espécimes coletados no Brasil no passado e depositados em herbários estrangeiros de renome: como os Royal Botanic Gardens of Kew, o Muséum National d’Histoire Naturelle de Paris e o Missouri Botanical Garden, além de impulsionar a digitalização dos acervos domésticos brasileiros. No final de 2015, o Herbário Virtual Reflora já disponibilizava online quase 1,4 milhão de imagens e servia de suporte essencial para o desenvolvimento da Flora do Brasil Monografada Online[1].
Herbariologia
[editar | editar código]A herbariologia, ramo da {Botânica} que tem como objectivo o estudo das plantas em herbário, visa contribuir para o conhecimento da biodiversidade vegetal mundial, fornecendo uma coleção de espécimes das populações naturais, que constituem referências científicas, ou que podem ter grande interesse para a preservação e conservação da biodiversidade. O papel desempenhado pelos herbários nos estudos de biodiversidade é cada vez mais reconhecido pelos investigadores. Através de uma enorme base de dados de onde se está constantemente a extrair, utilizar e adicionar informações sobre cada uma das populações e/ou espécies é possível aplicar essa informação nas mais variadas disciplinas, tais como fisiologia, ecologia, agronomia, farmacognosia, etnobotânica, com os mais diversos objectivo: recuperação de áreas degradadas, resistência a pragas, melhoramento vegetal, desenvolvimento de compostos com interesse farmacológico, etc.
A manutenção e ampliação dos herbários constituem uma preocupação crescente face o aumento dramático de espécies vegetais ameaçadas a nível mundial. Todo o trabalho de preservação das colecções é feito com grande precisão. Quando estudados no Herbário, descobre-se que algumas espécies são desconhecidas e no seu devido tempo serão descritas e ser-lhes-á atribuído um nome científico. Outras espécies, uma vez examinadas e determinadas tornam-se material de pesquisa essencial nos estudos de sistemática, micromorfologia, bioquímica e genética molecular.
A observação cuidadosa das espécies permite conduzir estudos acerca da estrutura das plantas, a sua morfologia e anatomia, enquanto que a análise comparativa com outros espécies de diferentes períodos históricos permite o exame das variações que ocorreram no tempo e assim avaliar a diversidade inter e intra-específica.
Bibliografia e ligações externas
[editar | editar código]- COTTON, C. M. Ethnobotany: Principles and Application. London: J. Willey & Sons, 1996.
- (em inglês) Britannica Concise Enciclopedia
- Bebber et al., 2010: BEBBER, D.P. et al. Herbaria are a major frontier for species discovery. Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America, v. 107, p. 22169-22171, 2010.
- Funk, 2003: FUNK, Vicki. The importance of Herbaria. Plant Science Bulletin, v. 49, n. 3, p. 94-95, 2003.
- Funk, 2004: FUNK, Vicki. 100 uses for an Herbarium (well at least 72). Yale: Division of Botany, The Yale University Herbarium, p. 1-4, 2004.
- Gasper & Vieira, 2015: GASPER, André Luís de; VIEIRA, Ana Odete Santos. Herbários do Brasil - Apresentação da Edição Especial. UNISANTA Bioscience, v. 4, n. 6, p. 1-11, 2015.
- Jardim Botânico do Rio de Janeiro, 2020: INSTITUTO DE PESQUISAS JARDIM BOTÂNICO DO RIO DE JANEIRO. Herbário. Rio de Janeiro: JBRJ, 30 de dezembro de 2020.
- Machado et al., 2017: MACHADO, C.C.C. et al. Herbários: resgate histórico e científico. Revista de Fitoterapia/Ciência, 2017.
- Müller-Wille, 2006: MÜLLER-WILLE, Staffan. Linnaeus’ herbarium cabinet: a piece of furniture and its function. Endeavour, v. 30, n. 2, p. 60-64, 2006.
- Thiers, [em contínua atualização]: THIERS, Barbara. Index Herbariorum: A global directory of public herbaria and associated staff. New York Botanical Garden’s Virtual Herbarium.
- Vieira, 2015: VIEIRA, Ana Odete Santos. Herbários e a rede brasileira de herbários (RBH) da Sociedade Botânica do Brasil. UNISANTA Bioscience, v. 4, n. 7, p. 3-23, 2015.
Ligações externas
[editar | editar código]- Como executar uma prensa de secagem de plantas
- Global Biological Information Facility
- Herbário da Escola Politécnica de Lisboa Online
- Herbário da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro
- Herbário de Coimbra Online
- Herbário do Jardim Botânico do Rio de Janeiro
- Herbário Profª Drª Marlene Freitas da Silva da Universidade do Estado do Pará
- Herbário dos Jardins de Kew
- International Plant Name Index
- JSTOR Plant Science
- Rede dos Herbários da França
- Royal Botanic Garden de Edimburgo
- The New York Botanical Garden
- University of British Columbia Herbarium
- 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 Machado, Celia C C (20 de março de 2017). «Herbários: resgate histórico e científico» (PDF). Revista Brasileira de Plantas Medicinais. 19 (3): 466-476
- 1 2 «Herbário». gov.br. 30 de dezembro de 2020. Consultado em 26 de agosto de 2026
- ↑ Bebber, Daniel P (21 de dezembro de 2010). «Herbaria are a major frontier for species discovery». PNAS. 107 (51): 22169–22171
- ↑ Funk, Vicki (2003). «The importance of Herbaria». Plant Science Bulletin. 49 (3): 94-95
- 1 2 Gasper, André Luís de; Vieira, Ana Odete Santos (2015). «Herbários do Brasil». UNISANTA Bioscience. 4 (6): 1-11