Huineng

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Huineng
O corpo incorrupto de Huineng.
Outros nomes Daikan Enō
Nascimento 638
Xinzhou, em Guangdong
Morte 713 (75 anos)
Nacionalidade chinesa
Ocupação monge budista
Religião zen budismo
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Huineng (慧能 ou 惠能; em Japonês: Daikan Enō, 638713) foi um monge budista zen da China, uma das figuras mais importantes em toda a tradição Zen. Ele é conhecido como o Sexto Patriarca desta escola. Seguiu uma linha de abordagem direta do budismo e da iluminação, sendo considerado o fundador da técnica de iluminação súbita ou satori.

Biografia[editar | editar código-fonte]

A maioria dos estudiosos atuais duvida da veracidade das biografias tradicionais de Huineng. As duas fontes primárias para a vida de Huineng são o prefácio do Sutra da Plataforma[1] (que teria sido escrito por um discípulo de Huineng chamado Fahai, narrando a biografia e os ensinamentos de Huineng, embora o texto dê mostras de ter sido escrito durante um longo tempo, apresentando várias camadas de escrita)[2] e a Transmissão da Lâmpada.

Huineng nasceu da família Lu, na cidade de Xinzhou (hoje, condado de Xinxing), na província de Guangdong. Sua família era pobre e seu pai morreu quando ele ainda era jovem, e ele não aprendeu a ler ou escrever. Certo dia, quando carregava lenha para o fogo doméstico, ouviu um dos convidados da casa recitar o Sutra do Diamante, e sentiu um despertar. Imediatamente, decidiu seguir o caminho de Buda. O convidado lhe deu algum dinheiro e Huineng partiu.

Depois de viajar por trinta dias a pé, chegou à montanha Huang Mei, onde morava o Quinto Patriarca, Hongren. Segundo conta o Sutra da Plataforma,

"Então fui prestar homenagem ao Patriarca, que me perguntou de onde eu vinha e o que esperava dele. Respondi: 'Sou um camponês de Hsin Chou de Kwangtung. Viajei muito para vos prestar homenagem e não peço nada senão o Budado'. 'És um natural de Kwangtung, um bárbaro? Como esperas te tornar um Buda?', disse o Patriarca. Respondi: 'Embora haja homens do norte e do sul, o norte e o sul não fazem diferença para a sua natureza de Buda'. Um bárbaro fisicamente difere de Vossa Santidade, mas não há diferença em nossa natureza de Buda' ".

Hongren imediatamente o colocou a trabalhar na cozinha, onde permaneceu por oito meses. Um dia, Hongren anunciou: "O problema dos nascimentos incessantes é momentoso. Dia após dia, em vez de tentarem vos libertar deste triste mar do Samsara, parece que só vos preocupais com méritos impuros (os que causam o renascer). Mas méritos não serão de ajuda se vossa Essência Mental for obscura. Procurem Prajna (sabedoria) em vossas próprias mentes e então escrevam um gatha (verso) a respeito. Aquele cujo verso provar que entendeu a Essência da Mente receberá o manto e a tigela (os símbolos do Patriarcado), e o farei o Sexto Patriarca. Vão depressa e não tardem em escrever o verso, uma vez que a deliberação é desnecessária e inútil. Quem percebeu a Essência da Mente pode falar a respeito sem preparo, e não a perde de vista nem mesmo no meio de uma batalha."

Contudo, os discípulos acharam que não cabia escreverem nada, pois com certeza seu instrutor, o venerável Shenxiu, se tornaria o novo Patriarca. Assim, apenas Shenxiu escreveu um gatha, pressionado pela expectativa de seus irmãos menos instruídos. Mas ele não estava seguro sobre sua compreensão da Essência da Mente, e decidiu, por fim, escrever, durante a noite, um verso anônimo na parede do mosteiro, e declarar sua autoria apenas se Hongren aprovasse o gatha:

"O Corpo é a árvore de Bodhi,
a mente é um espelho brilhante.
Com cuidado a limpamos continuamente,
sem deixar que o pó acumule".

Quando os outros discípulos viram este gatha na parede, ficaram excitados. Quando Hongren o viu, disse; "Pratiquem de acordo com este gatha e não cairão nos reinos do mal, recebendo grandes benefícios. Acendam incenso e prestem homenagem a este gatha, recitem-no e verão vossa natureza essencial". Todos os monges louvaram e memorizaram o gatha. Contudo, em privado, Hongren disse a Shenxiu: "Chegaste ao portão, mas ainda não entraste. Neste estágio de conhecimento, não tens a menor ideia do que seja a suprema mente de Bodhi, mas, ao ouvir minhas palavras, reconhecerás, de imediato, tua mente original, a natureza essencial, que é não nascida e imperecível. Vê-a claramente em todos os pensamentos, com a mente livre de obstáculos. Na Realidade Única, tudo é real, e os fenômenos são simplesmente o que são".

Então Hongren pediu que Shenxiu compusesse outro gatha que demonstrasse seu entendimento, mas ele não conseguiu formular nenhum verso. Mais tarde, ao ouvir um dos monges recitar o gatha de Shenxiu, Huineng percebeu que ele carecia de verdadeiro entendimento. Indo até um oficial do mosteiro, como não sabia escrever, pediu-lhe que escrevesse para ele um verso seu. O oficial surpreendeu-se, pois Huineng era um analfabeto, mas dizia querer compor um poema. Mas Huineng replicou: "Se buscas a suprema iluminação, não desprezes ninguém. As classes mais baixas podem ter grandes luzes, e as mais altas podem cometer atos tolos." Imediatamente, o oficial prestou homenagem a Huineng e escreveu o gatha solicitado na parede, que dizia:

"Bodhi não é uma árvore
nem a mente um espelho brilhante
Já que tudo é vazio em essência
onde pode o pó acumular?"

Então Huineng voltou para suas atividades na cozinha. Mas este gatha criou uma excitação ainda maior, todos diziam: "É inacreditável! Não se pode julgar uma pessoa por sua aparência! Talvez ele logo se torne um Bodhisattva!". O tumulto atraiu Hongren que, chegando e lendo o verso, disse: "Tampouco este percebeu a natureza essencial", e apagou-o com sua sandália.

Certa noite, Hongren recebeu Huineng em sua cela, e lhe expôs o Sutra do Diamante. Quando chegou à passagem que dizia para "usar a mente e ao mesmo tempo estar livre de qualquer apego", Huineng experimentou a iluminação, percebendo que todos os Darmas são inseparáveis da essência dos seres, e exclamou: "É maravilhoso que a natureza essencial seja originalmente pura! É maravilhoso que a natureza essencial seja não nascida e imortal! É maravilhoso que a natureza essencial seja inerentemente completa! É maravilhoso que a natureza essencial nem se mova nem seja imóvel! É maravilhoso que todos os Dharmas procedam desta natureza essencial!"

Hongren continuou: "Se alguém reconhece a mente original e a natureza original, é chamado de um grande homem, um mestre dos deuses e dos homens, e um Buda", e lhe transmitiu o manto e a tigela como sinal do Selo do Dharma da Iluminação Súbita, dizendo-lhe para deixar o mosteiro e seguir para o sul.

Durante os 15 anos seguintes, Huineng permaneceu no anonimato, não revelando a ninguém que era o Sexto Patriarca. Depois, decidiu começar a receber discípulos, e transmitiu o Darma a 43 sucessores, extinguindo-se, com ele, o título oficial de Patriarca Zen.

Dele, é o verso:

"Com aqueles que são simpatizantes
discutamos o budismo.
Com aqueles que têm outras opiniões
conversemos educadamente, fazendo-os felizes,
pois as disputas não pertencem à nossa escola,
sendo incompatíveis com nossa doutrina."

Controvérsia[editar | editar código-fonte]

De acordo com a historiografia atual, Huineng era uma figura histórica obscura. Muitos acadêmicos questionam sua hagiografia, e especulam que sua história pode ter sido forjada em meados do século VIII por Shenhui, um sucessor de Huineng, para ganhar influência na corte imperial. Shenhui alegava que Huineng era o sucessor de Hongren, e não Shenxiu, que era considerado o sucessor oficial de Hongren.[3][4]

Foi através da propaganda de Shen-hui (684-758) que Huineng (morto em 710) se tornou a proeminente até hoje figura de sexto patriarca do budismo zen/ch'an, e aceito como o fundador ou ancestral de todas as linhagens ch'an subsequentes... usando a vida de Confúcio como um modelo para sua estrutura, Shen-hui inventou uma hagiografia para a então altamente obscura figura de Huineng. Ao mesmo tempo, Shen-hui forjou uma linhagem de patriarcas zen para trás até Buda, usando ideias do budismo indiano e do culto chinês aos antepassados.[5]

Em 745, Shenhui foi convidado a residir no templo Heze, em Luoyang. Em 753, ele caiu em desgraça e teve de deixar a capital rumo ao exílio. O mais proeminente sucessor em sua linhagem foi Guifeng Zongmi.[6] De acordo com Zongmi, a abordagem de Shenhui foi sancionada oficialmente em 796, quando "uma comissão imperial determinou que a linha sulista do ch'an representava a transmissão ortodoxa e estabeleceu Shen-hui como o sétimo patriarca, colocando uma inscrição para esse efeito no templo Shen-lung".[7]

Mumificação[editar | editar código-fonte]

O corpo mumificado de Huineng foi mantido no templo Nanhua, em Shaoguan (no norte de Guangdong). O corpo de Huineng foi visto pelo jesuíta Matteo Ricci, que visitou o templo em 1589. Ricci contou, aos seus leitores europeus, a história de Huineng (em uma versão um pouco alterada), descrevendo-o como uma espécie de asceta cristão. Ricci o chama de Liùzǔ ("o sexto patriarca").[8]

Referências

  1. Pine, Red. The Platform Sutra: The Zen Teaching of Hui-Neng. (2006) Counterpoint.
  2. Internet archive. Disponível em https://web.archive.org/web/20120822131239/http://www.thezensite.com/ZenTeachings/Translations/PlatformSutra_McRaeTranslation.pdf. Acesso em 3 de janeiro de 2018.
  3. Inventing Huineng. Disponível em http://www.brill.com/inventing-hui-neng-sixth-patriarch. Acesso em 3 de janeiro de 2018.
  4. Internet archive. Disponível em https://web.archive.org/web/20120822131239/http://www.thezensite.com/ZenTeachings/Translations/PlatformSutra_McRaeTranslation.pdf. Acesso em 3 de janeiro de 2018.
  5. Inventing Huineng. Disponível em http://www.brill.com/inventing-hui-neng-sixth-patriarch. Acesso em 3 de janeiro de 2018.
  6. Yampolski, Philip (2003). Chan. A Historical Sketch. In: Buddhist Spirituality. Later China, Korea, Japan and the Modern World; edited by Takeuchi Yoshinori, Delhi: Motilal Banarsidass.
  7. Gregory, Peter N. (1991), Sudden Enlightenment Followed by Gradual Cultivation: Tsung-mi's Analysis of mind. In: Peter N. Gregory (editor)(1991), Sudden and Gradual. Approaches to Enlightenment in Chinese Thought, Delhi: Motilal Banarsidass Publishers Private Limited. p. 279.
  8. De Christiana expeditione apud Sinas, livro três, capítulo 1. Páginas 222-224 na tradução inglesa: Louis J. Gallagher (1953). "China in the Sixteenth Century: The Journals of Matthew Ricci", Random House, New York, 1953. Texto original latino: De Christiana expeditione apud Sinas suscepta ab Societate Jesu.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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