Igreja de Nossa Senhora da Vitória (Vila do Porto)

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Igreja de N. Sra. da Conceição.
"Convento dos Franciscanos - Capella-Mór" (Álbum Açoriano, 1903): note-se a imagem da Senhora da Conceição.
Igreja de N. Sra. da Conceição: aspecto do interior.
Capela de Santo António.
Santo António pregando aos peixes.
Santo António ressuscita um morto diante da Sé de Lisboa.
"Imagem do Senhor dos Terceiros" (Álbum Açoriano, 1903).
"Imagem do Senhor do Bom Fim" (Álbum Açoriano, 1903).

A Igreja de Nossa Senhora da Conceição,[1] primitiva e ainda hoje popularmente denominada Igreja de Nossa Senhora da Vitória, localiza-se no largo de Nossa Senhora da Conceição, na freguesia da Vila do Porto, concelho da Vila do Porto, na Ilha de Santa Maria, nos Açores.

História[editar | editar código-fonte]

Integrava o convento franciscano de Nossa Senhora da Vitória, cuja fundação foi aprovada em 1607. As obras do convento foram iniciadas a 27 de outubro desse mesmo ano, e o lançamento da pedra fundamental da igreja deu-se a 6 de março do ano seguinte (1608). A missa inaugural da igreja foi celebrada a 26 de março de 1609.[1]

Do mesmo modo que o convento, a igreja foi saqueada pelos piratas da Barbária em 1616 e, novamente, em 1675.[2]

Um escrito do padre Manuel Delgado Fragoso,[3] dá conta de que o convento e a igreja foram edificados em 1725 por iniciativa de Frei Agostinho de São Francisco com esmolas suas e da população da ilha, conservando-se o sacrário, enquanto decorreram as obras, na capela do 2º capitão do donatário, João Soares de Albergaria (c. 1415 — 1499), onde então se celebraram os ofícios divinos. Por essa razão atribuía-se a Albergaria a fundação do convento, para o qual teria dado o terreno, dotando-o. Esse dote, entretanto, cessara em tempos remotos, não havendo mais memória da causa.[4] Datam desta etapa construtiva a instalação dos valiosos paineis de azulejos na igreja.

No período de 1808 a 1822 o convento e a igreja foram ampliados, com recurso a esmolas dos marienses e de fiéis no Brasil, graças ao fervor de um frade micaelense: Frei Ignácio de Santa Maria. As obras foram dirigidas pelo padre-mestre Frei António de São João Evangelista.[4]

É tradição que foi o referido Frei Ignácio quem adquiriu, na Itália e no Brasil, as imagens de Nossa Senhora da Conceição, do Senhor Jesus do Bonfim e do Senhor dos Terceiros que se veneravam nesta igreja, bem como a de Nossa Senhora da Vitória, orago da mesma igreja e que no alvorecer do século XX se venerava no altar-mor da Igreja Matriz de Vila do Porto onde substituiu a de Nossa Senhora da Assunção, que se queimou por ocasião de um incêndio na capela-mor da dita Matriz. Adquiriu ainda as imagens do Senhor Jesus dos Passos, venerada na Igreja da Misericórdia de Vila do Porto, vendida pelos frades à Irmandade daquela Misericórdia, e a de Nossa Senhora das Dores e a de Nossa Senhora da Piedade que se encontravam à época no Convento de São Francisco de Ponta Delgada, e que os frades deste roubaram quando vieram do Brasil, tendo por esse motivo havido demanda entre Frei Ignácio e estes frades.[5]

COSTA (1955-56) informava que, à época, o templo encontrava-se devidamente restaurado.[1]

O conjunto encontra-se classificado como Imóvel de Interesse Público pelo Decreto nº 251/70, de 31 de Julho de 1970.

Atualmente desconsagrada, o seu espaço é utilizado como espaço cultural.

Uma pintura sobre tela do acervo desta igreja, com o tema "São Francisco e as Almas", foi entregue à DRaC para restauro na década de 1980. Sem que o mesmo tivesse ocorrido desde então, foi localizada recentemente em 2010 e restaurada ao custo de 5 mil euros, coparticipados igualmente entre a Câmara Municipal de Vila do Porto e aquele órgão, encontrando-se (2011) em fase final de restauro para retorno à ilha, a ser depositada na Igreja Matriz de Vila do Porto.[6]

Características[editar | editar código-fonte]

Em alvenaria de pedra rebocada e caiada, a igreja apresenta planta rectangular com nave única e, actualmente, tecto de três esteiras. A capela-mor, de planta rectangular, apresenta cobertura em abóbada de berço abatido e um nicho com moldura de pedra na parede do fundo.

Na parede do lado direito da nave abre-se a Capela de Santo António, onde se destacam nas paredes laterais dois painéis figurativos de azulejos do século XVII, um representando a pregação de Santo António aos peixes, e outro, que lhe é fronteiro, o milagre da ressuscitação de um morto diante da Sé de Lisboa pelo mesmo santo. O fundo da capela é preenchido por um retábulo de talha pintada. Tanto o arco de comunicação da igreja com esta capela quanto o arco triunfal são de volta inteira.

Na mesma parede da igreja, à direita do arco de comunicação com a Capela de Santo António, encontra-se uma inscrição epigráfica: "CAPELA D / AS ALMAS Q FV / DOV O CAPITAÕ MA / NOEL CVRVELO DA / COSTA E SVA MER MA / IACOME. 1652."

Na parede oposta, existe um púlpito rectangular, com guarda de madeira (bilros) sobre consola de pedra. Na mesma parede vê-se ainda a porta do antigo coro-alto, um arco de volta inteira (possivelmentre destinado a um altar) e uma grande pia de água-benta.

Tanto nos pavimentos da Capela de Santo António quanto da capela-mor da igreja existem lajes numeradas, que atestam a existência de enterramentos no local.

No pavimento da capela-mor da igreja, são visíveis as inscrições epigráficas [7] da laje do túmulo [1] de D. José de Arlegui e Leoz , militar espanhol, que foi comandante do Esquadrão de Dragões de Luzon (Filipinas) e Governador das Ilhas Marianas (1786/1794). [2] [3]

A fachada da igreja tem a porta axial, de verga recta, encimada por uma janela com verga curva. Ambos os vãos são encimados por pequenas cornijas na verga e por cornijas maiores um pouco mais acima. Por cima da janela situa-se ainda um relevo com o símbolo dos franciscanos enquadrado por uma pequena moldura com verga curva. As três molduras e as cornijas estão ligadas entre si pelo prolongamento das ombreiras da janela.

Pelo exterior, anexa, encontra-se a Capela dos Terceiros, onde se destaca a talha dourada que acolhe a imagem do Senhor Santo Cristo dos Milagres, cuja festa é aqui celebrada, anualmente, a 5 de junho.

Tanto a igreja como a Capela dos Terceiros são encimadas por cornijas que acompanham a inclinação das águas dos telhados, com pináculos nos extremos. As coberturas são predominantemente de duas águas, em telha de meia-cana tradicional, rematadas por beiral duplo.

Referências

  1. a b c COSTA, 1955-56:129.
  2. COSTA, 1955-56:129. Este autor refere a data deste último assalto como 1672, quando o correto será 1 de setembro de 1675, conforme as anotações ao Livro III das Saudades da Terra de Gaspar Frutuoso por Manuel Monteiro Velho Arruda, in Arquivo dos Açores, vol. V, p. 413.
  3. Que exerceu funções na Igreja Matriz de Vila do Porto no início do século XVIII.
  4. a b "Extincto Convento dos Franciscanos", in Álbum Açoriano, fascículo nº 33, 1903, p. 258.
  5. "Extincto Convento dos Franciscanos", in Álbum Açoriano, fascículo nº 33, 1903, p. 258-259.
  6. BORGES, Adriano (Pe.). "Sobre a Pia Baptismal da Matriz". O Baluarte de Santa Maria, ano XXXVIII, 2ª série, 16 dez 2011, nº 414, p. 24.
  7. AQUI JAZ O CORNEL D. JOZE ARLEGUI NATURAL DA CIDE DE NAVARRA E COMTE DOS DRAGONES DAS ILHAS DE FELEPINES AGTO 10 |1803 + J.J.B.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • REZENDES, Dinis Gabriel Sousa. D. José de Arlegui y Leoz ( O descanso do guerreiro e do Ex. Governador na Igreja do Convento de S.Francisco de Vila do Porto - extrato biográfico ). O Baluarte de Santa Maria, ano XLIII, 2.ª série, Abril 2016.
  • CARVALHO, Manuel Chaves. Igrejas e Ermidas de Santa Maria, em Verso. Vila do Porto (Açores): Câmara Municipal de Vila do Porto, 2001. 84p. fotos.
  • COSTA, Francisco Carreiro da. "129. Igreja de Nossa Senhora da Conceição - Vila do Porto - Santa Maria". in História das Igrejas e Ermidas dos Açores. Ponta Delgada (Açores): jornal Açores, 17 abr 1955 - 17 out 1956.
  • FERREIRA, Adriano. Era uma vez... Santa Maria. Vila do Porto (Açores): Câmara Municipal de Vila do Porto, s.d.. 256p. fotos p/b cor.
  • FIGUEIREDO, Jaime de. Ilha de Gonçalo Velho: da descoberta até ao Aeroporto. Lisboa: C. de Oliveira, 1954. 205p., il.
  • FIGUEIREDO, Jaime de. Ilha de Gonçalo Velho: da descoberta até ao Aeroporto (2ª ed.). Vila do Porto (Açores): Câmara Municipal de Vila do Porto, 1990. 160p. mapas, fotos, estatísticas.
  • MONTE ALVERNE, Agostinho de (OFM). Crónicas da Província de S. João Evangelista das Ilhas dos Açores (2ª ed.). Ponta Delgada (Açores): Instituto Cultural de Ponta Delgada, 1986.
  • MONTEREY, Guido de. Santa Maria e São Miguel (Açores): as duas ilhas do oriente. Porto: Ed. do Autor, 1981. 352p. fotos.
  • "Extincto Convento dos Franciscanos", in Álbum Açoriano, fascículo nº 33, 1903, p. 258-260.
  • Ficha 28/Santa Maria do "Arquivo da Arquitectura Popular dos Açores".
  • Fichas A-27 e 28 do "Inventário do Património Histórico e Religioso para o Plano Director Municipal de Vila do Porto".
  • Fichas 196 e 197/Santa Maria do "Levantamento do Património Arquitectónico da Vila do Porto", SREC/DRAC.
  • Arquivo General de Simancas "José Arlegui. Grado"- Grado de coronel de Dragones concedido ao teniente coronel D. José Arlegui Leoz, comandante de Dragones de Luzón y gobernador de las Marianas. Fol. 67-71, SGU,LEG,6909,9.
  • de la Rosa, Alexandre Coello: Colonialism, resistance and Chamorro identity in the post-Jesuit mission of the Marian Islands, 1769-1831,pág.92,93.
  • Centro de Conhecimento dos Açores: Registos Paroquiais, Registo de óbito de D.José de Arlegui e Leoz.
  • Cronologia Histórica: Año 1795

Ver também[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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