Jabaculê

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Jabaculê, ou simplesmente jabá, é um termo utilizado na indústria da música brasileira para denominar uma espécie de suborno em que gravadoras pagam a emissoras de rádio ou TV pela execução de determinada música de um artista.[1][2]

Origem[editar | editar código-fonte]

Etimologia[editar | editar código-fonte]

Não se sabe exatamente a origem do termo. Uma das versões seria a que um radialista nordestino, ao receber uma certa quantia de uma gravadora, teria dito que "hoje o jabá das crianças tá garantido", sendo jabá um termo comum na região para a carne-seca.[3]

Em outros países[editar | editar código-fonte]

Estados Unidos: payola[editar | editar código-fonte]

A prática não é exclusivamente brasileira; nos Estados Unidos (onde ela é conhecida como "payola"), nos anos 1920, donos de editoras musicais pagavam orquestras e líderes de grupos musicais para que executassem certas peças e incentivassem a compra das respectivas partituras que, na época, rendiam mais do que discos.[2]

Nos anos 1950, com a explosão do rock and roll, a prática também se expandiu e levou o governo do país a abrir uma investigação que envolveu, entre outros, o disc jockey Alan Freed e o apresentador Dick Clark.[4]

No final dos anos 1970, a despeito das investigações do governo, o payola atingiu um ponto em que um grupo ligado à máfia conhecido simplesmente como The Network ("A Rede") surgiu e passou a controlar centenas de rádios nos Estados Unidos.[5]

O poder da organização era suficiente para barrar até a execução de faixas de The Wall, um dos álbuns mais bem-sucedidos do Pink Floyd. Em antecipação a cinco shows que o grupo inglês faria em Los Angeles durante a turnê, a CBS não achou que precisaria pagar para que canções de um disco tão popular de uma banda tão conhecida fossem executadas, mas o poder d'A Rede prevaleceu e as canções só apareceram nas rádios depois que a empresa se rendeu ao payola.[6]

Histórico no Brasil[editar | editar código-fonte]

Fora o jabá propriamente dito, a indústria fonográfica brasileira já foi palco de outras práticas consideradas peculiares, como a compra de composições, isto é, músicos que compravam canções escritas por outros músicos e as lançavam como se fossem deles. A esses compradores, deu-se o nome "comprositores".[7]

Embora já existisse desde muito tempo antes, o jabá foi "profissionalizado" no Brasil na virada dos anos 1970 para os 1980;[2] gravadoras grandes como a Phillips/PolyGram viam suas vendas despencarem repentinamente por não aderirem à prática.[8]

O jabá nem sempre era pago em dinheiro; uma variação denominada "jabá artístico" envolve a entrega de presentes a radialistas que executassem certas canções.[8] O pagamento às vezes era realizado também em drogas e até mulheres.[9] Ele acontecia também na televisão, por meio de apresentações gratuitas que os músicos realizavam em programas de Chacrinha e Bolinha.[8]

A prática foi criminalizada em 2006 pela Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados do Brasil, estabelecendo penas que variam de multa a detenção de um a dois anos, além da cassação da emissora que receber o dinheiro para colocar uma música no ar.[1]

-- Andre Midani, 2008.

Exemplos de jabá[editar | editar código-fonte]

A utilização do termo abrange toda situação que envolve gorjetas, propinas ou qualquer tipo de dinheiro pago em troca de favores ilícitos, entre eles:

  • Compra de um determinado número de execuções diárias de uma determinada música nas emissoras de rádio;[1]
  • Compra de posições nas paradas musicais das emissoras de rádio;[1]
  • Compra de espaço para apresentação de artistas em programas de auditório;[11]
  • Aliciamento de jornalistas para obtenção de comentários favoráveis.[12]

Referências

  1. a b c d "Comissão aprova lei que torna o "jabá" um crime" - Folha Online, 30 de novembro de 2006 (visitado em 2-7-2010).
  2. a b c Barcinski 2014, p. 162.
  3. Barcinski 2014, p. 167.
  4. Barcinski 2014, pp. 162-163.
  5. Barcinski 2014, p. 163.
  6. Barcinski 2014, p. 163-164.
  7. Barcinski 2014, p. 164.
  8. a b c Barcinski 2014, p. 165.
  9. Barcinski 2014, p. 166.
  10. MIDANI, André. Música, ídolos e poder: do vinil ao download. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira S.A., 2008. pp.217-218
  11. "E havia o lado sombrio do Velho Guerreiro..." - Estadão
  12. "Preço do silêncio da imprensa é um mensalinho de até R$ 60 mil" - Observatório da Imprensa, reproduzindo matéria da Folha do Amapá