Mutímero da Sérvia

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Mutímero da Sérvia
Representação moderna de Mutímero
Príncipe da Sérvia
Reinado 850-891
Antecessor(a) Blastímero
Sucessor(a) Pribéstlabo
 
Descendência Brano
Estêvão
Pribéstlabo
Dinastia Blastímero
Nascimento década de 830
  Antiga Ras
Morte 891
Religião Ortodoxia oriental
Pai Blastímero

Mutímero (em grego: Μουντιμῆρος; transl.: Moutimeros;[1] em latim: Muntimerus;[2] em sérvio: Мутимир; transl.: Mutimir), mas também conhecido como Mutímero Filho de Blastímero (em sérvio: Мутимир Властимировић; transl.: Mutimir Vlastimirović), foi príncipe da Sérvia de ca. 850 até 891. Era o filho mais velho de Blastímero, tataraneto do Arconte Desconhecido que uniu as tribos sérvias num Estado. Ele inicialmente governou com seus irmãos, mas revoltaram-se contra ele e Mutímero exilou-os à Bulgária, com garantias de paz. Ele derrotou um exército búlgaro, aliou-se com o Império Bizantino e governou o Principado da Sérvia quando a cristianização dos sérvios ocorreu e a Eparquia de Ráscia foi estabelecida.

Antecedentes[editar | editar código-fonte]

Pensa-se que a rápida expansão dos búlgaros sobre os eslavos no sul compeliu os sérvios a unirem-se num Estado. Sabe-se que sérvios e búlgaros viveram em paz até a invasão de 839 (nos últimos anos do imperador Teófilo).[3] Blastímero uniu várias tribos sérvias,[4] Teófilo (r. 829–842) conferiu-lhes independência[5] e eles reconheceram sua suserania nominal. A Macedônia Ocidental foi anexada pelos búlgaros e mudou a situação política, com Malamir (r. 831–836) ou Presiano I (r. 836–852) vendo a consolidação sérvia como uma ameaça, e optou por subjugá-los mediante a conquista dos territórios eslavos.[3]

Presiano invadiu a Sérvia em 839.[6] A invasão virou uma guerra de três anos, mas Blastímero foi vitorioso;[7] Presiano não teve nenhum ganho territorial, mas foi pesadamente derrotado e perdeu seus homens. A guerra terminou com a morte de Teófilo em 842, que libertou Blastímero de suas obrigações com o Império Bizantino.[8][9] Blastímero expandiu-se a oeste, tomando o sul da Bósnia e nordeste de Herzegovina,[7][10]

Vida[editar | editar código-fonte]

Ele morreu entre 845-850 e seu governo foi dividido entre seus filhos Mutímero, Estrímero e Ginico;[11] governaram juntos, mas Mutímero tinha controle supremo.[12] Em 853 ou 854, o exército de Vladimir, filho de Bóris I (r. 852–889), invadiu a Sérvia numa tentativa de vingar-se pela derrota anterior. Os sérvios sob os irmãos derrotaram os búlgaros, capturando Vladimir e 12 grandes boilados (altos dignitários). Bóris e Mutímero concordaram com a paz e ele deu seus filhos Brano e Estêvão como reféns para garantir-lhe passagem segura à fronteira da Ráscia; parece que eles trocaram presentes e seus filhos e então concluíram um tratado de paz;[11][13] os presentes dados por Bóris a Mutímero foram dois escravos, dois falcões, dois cachorros e 80 peles.[14]

Um conflito interno entre os irmãos fez com que Mutímero banisse seus irmãos à corte búlgara;[11] A origem dessa disputa é desconhecido, embora é sugerido que foi resultado de uma traição. Mutímero não exilou todos os seus familiares, mantendo seu sobrinho Pedro, filho de Ginico, na corte sérvia por razões políticas,[12] embora Pedro mais tarde temeu o destino de seu pai e escapou à Croácia.[15] Mutímero enviou emissários ao imperador Basílio I, o Macedônio (r. 867–886), pedindo batismo a suas terras e colocou a Sérvia sob suserania do Império Bizantino.[16] Em 873, recebeu uma carta do papa João VIII solicitando que seu país fosse subordinado ao bispado metropolitano de Sírmio. Mutímero morreu em 891 e foi sucedido por seu filho mais velho, Blastímero.[13]

Cristianização[editar | editar código-fonte]

Delegação de croatas e sérvios ao imperador Basílio I, o Macedônio (r. 867–886). Iluminura do Escilitzes de Madri

Os sérvios foram batizados por missionários enviados por Basílio após Mutímero reconhecê-lo como suserano,[16] que também pode ter enviado bispo.[17] A cristianização em partes ocorreu sob influência bizantina e então búlgara, mas é importante notar que ao menos no reinado de Gozilo da Panônia (r. 861–874), comunicações entre a Sérvia e a Grande Morávia devem ter sido possíveis. O papa provavelmente estava ciente disso quando quis que a diocese de Metódio englobasse a costa dálmata, que estava em mãos bizantinas até tão longe quanto Espalatro. É possível que alguns pupilos cirilo-metodistas alcançaram a Sérvia na década de 870, talvez inclusive enviados por Metódio, e a Sérvia é registrada como cristão nesse período. Outra evidência da identidade cristã está na tradição de nomes teofóricos na geração seguinte da realeza sérvia; Pedro, Paulo e Estêvão são também caracteristicamente bizantinos.[18]

O primeiro bispado sérvio foi fundado em Ras, próximo da moderna Novi Pazar no rio Ibar. Sua afiliação inicial é desconhecida, podendo ter ficado sob subordinação de Espalatro ou Dirráquio, ambas bizantinas.[18] A Igreja dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo em Ras pode ser datada do século IX/X, com o plano rotundo característico das primeiras capelas cortesãs. O bispado foi estabelecido logo após 871, durante o governo de Mutímero, e fez parte do plano geral de estabelecer bispados nas terras sérvias do império, confirmado pelo Quarto Concílio de Constantinopla em 879–880.[19]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Precedido por
Blastímero
Príncipe da Sérvia
850891
Com Estrímero e Ginico
Sucedido por
Pribéstlabo

Referências

  1. Constantino VII 1993, cáp. 32.
  2. Danylenko 2006, p. 80.
  3. a b Bury 2008, p. 372.
  4. Kovacevic 1894, p. 38—39.
  5. Stanojevic 1910, p. 46—47.
  6. Fine 1991, p. 108.
  7. a b Fine 1991, p. 110.
  8. Runciman 1930, ch. 2, n. 88.
  9. Zlatarski 1918, f. 17.
  10. Houtsma 1993, p. 199.
  11. a b c Fine 1991, p. 141.
  12. a b Đekić 2009.
  13. a b Lilie 2013.
  14. Constantino VII 1993, p. 155.
  15. Ćorović 2001, ch. 2, V.
  16. a b Constantino VII 1993, p. 127-128.
  17. Spinka 1933, p. 73.
  18. a b Vlasto 1970, p. 208.
  19. Vlasto 1970, p. 209.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Bury, John Bagnell (2008). A History of the Eastern Roman Empire from the Fall of Irene to the Accession of Basil I (A.D. 802–867). Londres: Cosimo, Inc. ISBN 1605204218 
  • Danylenko, Andriĭ (2006). Slavica et Islamica: Ukrainian in context. Budapeste: Sagners Slavistische Sammlung 
  • Fine, John Van Antwerp (1991). The Early Medieval Balkans: A Critical Survey from the Sixth to the Late Twelfth Century (em inglês). Ann Arbor, Michigan: University of Michigan Press. ISBN 0472081497 
  • Houtsma, M. Th. (1993). E.J. Brill's first encyclopaedia of Islam 1913–1936. Leida: BRILL. ISBN 90-04-08265-4 
  • Kovacevic, L.; Jovanovic, L. (1894). Историjа српскога народа Vol. 2. Belgrado: Štamp. Kraljevine Srbije 
  • Lilie, Ralph-Johannes; Ludwig, Claudia; Zielke, Beate et al. (2013). «#21203 #1039 Bran». Prosopographie der mittelbyzantinischen Zeit Online. Berlim-Brandenburgische Akademie der Wissenschaften: Nach Vorarbeiten F. Winkelmanns erstellt 
  • Spinka, Matthew (1933). A history of Christianity in the Balkans: a study in the spread of Byzantine culture among the Slavs. Filadélfia: The American Society of Church History 
  • Stanojevic, S. (1910). Историjа српскога народа. Belgrado: Davidović Imprenta 
  • Runciman, Steven (1930). A history of the First Bulgarian Empire. Londres: G. Bell & Sons 
  • Vlasto, A. P. (1970). The Entry of the Slavs Into Christendom: An Introduction to the Medieval History of the Slavs. Cambridge: Cambridge University Press 
  • Zlatarski, Vasil (1918). История на Първото българско Царство. I. Епоха на хуно-българското надмощие (679—852). Sófia: Instituto de Ciências Búlgara