O Inimigo do Rei

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O Inimigo do Rei é um jornal anarquista publicado na Bahia durante a década de 1970, período ditatorial (1964-1985) no Brasil.

Publicado entre os anos de 1977 e 1988, O Inimigo do Rei se insere no conjunto da imprensa considerada alternativa, ou mesmo "nanica", como a definem alguns autores.

O Inimigo do Rei nasceu na Bahia, como muitos outros jornais nas décadas de 60 e 70, sob uma ferrenha ditadura iniciada em 1964 com um golpe militar apoiado por alguns segmentos da sociedade.

Jornais chamados de alternativos ou nanicos pipocaram em todo o país, em contraposição aos grandes jornais, os quais, com freqüência, tiveram que se calar diante da força das regras impostas pelos ditadores.

Segundo Bernardo Kucinski, "em contraste com a complacência da grande imprensa para com a ditadura militar, os jornais alternativos cobravam com veemência a restauração da democracia e do respeito aos direitos humanos e faziam a crítica ao modelo econômico. Inclusive nos anos de seu aparente sucesso, durante o “milagre econômico”, de 1968 a 1973. Destoavam, assim, do discurso triunfalista do governo ecoado pela grande imprensa, gerando todo um discurso alternativo." (KUCINSKI, Bernardo. Jornalistas e Revolucionários: Nos Tempos da Imprensa Alternativa. São Paulo: EDUSP, 2003, p. 9/10).

Em várias de suas edições, trabalhadores que colaboravam no jornal O Inimigo do Rei publicavam matérias que iam contra o de que parecia ser o aparelhamento dos sindicatos pelos partidos. Nas matérias pretendiam deixar claro suas posições diametralmente contrárias à daqueles que esperavam transformar a sociedade participando do processo eleitoral, tornando os sindicatos cada vez mais dependentes dos partidos.

Em uma delas, na última edição do jornal, Nº22, em 1988, foi publicada a matéria Breve Histórico da COB, em que se explica o que foi a Confederação Operária Brasileira.

A matéria informava que grupos organizavam-se para uma possível reconstrução da antiga confederação, com todos os seus princípios e doutrinas.

O texto na íntegra:

"Muito pouca gente sabe, mas a força do Movimento Operário era bem maior no começo de século até 1934, porque os Sindicatos, Ligas e Uniões Operárias eram livres e não sofriam controle do Governo, dos Partidos Políticos e nem dos Patrões.

Foram essas Organizações, a grande maioria de orientação anarquista, que em 1906 realizaram o I Congresso Brasileiro e deliberaram pela necessidade de se criar uma Confederação, uma Central Sindical. Em 1908 a Confederação Operária Brasileira já editava o jornal “A Voz do Trabalhador” noticiando as lutas do proletariado do Brasil e do mundo.

A COB realizou seu II Congresso em 1913, tendo sido responsável pela deflagração da Greve Geral de 1907 pelas 8 horas de trabalho (aprovada no I Congresso) e responsável – junto com os anarquistas – pela deflagração da Campanha contra o Fascismo. Em 1917 são seus aderentes que promovem a Greve Geral que colocou São Paulo nas mãos dos operários.

Em 1920 a COB realiza seu terceiro e último Congresso.

Em 1934, após enfrentamentos com os fascistas e com o Governo, o movimento anarco-sindicalista sofre as maiores repressões, tendo muitos de seus militantes mortos, presos ou deportados.

A partir de 1934, Getúlio Vargas cria o Ministério do Trabalho, proíbe a existência de Sindicatos livres, cria o imposto sindical e a CLT, nela colocando – em forma de lei – todas as conquistas das lutas e greves anteriores. Getúlio promove a migração interna trazendo camponeses para a cidade e ajudando a indústria a eliminar os serviços especializados desempenhados por operários estrangeiros considerados como “agitadores”.

Em 1937 Getúlio dá um Golpe de Estado e impõe uma Ditadura. Entre os fatores de esvaziamento da luta sindical a partir dessa data, podemos citar o papel dos comunistas de apoio ao Governo na destruição dos Sindicatos Livres e do lançamento entre os operários de um ideal reformista de “tomada do poder pelo Partido Operário”; a criação de Sindicatos sustentados pelo próprio governo e a repressão feroz contra o movimento anarquista e anarco-sindicalista, pelo Governo e pelo PC.

De lá para cá nada mudou. Os Sindicatos continuam atrelados e nenhuma conquista verdadeira foi conseguida a partir de 1930. Os Sindicatos são hoje grandes aparatos financeiros, verdadeiros órgãos públicos administrados por pelegos e políticos, todos a usar o trabalhador.

Em maio de 1986 os anarco-sindicalistas realizaram um Congresso e uma jornada de memória aos cem anos dos Mártires de Chicago e lá lançaram a bandeira da reconstrução da COB.

Com núcleos espalhados por vários Estados, os anarco-sindicalistas vêm batalhando por retomar a verdadeira prática revolucionária do sindicalismo, uma prática que não se identifica nem com a CUT e muito menos com CGT, ambas reformistas e atreladas a Governos e Partidos Políticos a se sustentar do roubo que é Imposto Sindical".

O jornal O Inimigo do Rei não era dedicado a apenas anarcossindicalismo e, sim, era o porta-voz de vários movimentos sociais que não encontravam espaço na grande imprensa nem tampouco na própria imprensa alternativa, como os usuários de drogas, os homossexuais, os movimentos negros e feministas mais radicais, os ateus militantes, os ativistas da luta antimanicomial, ambientalistas e tantos outros que tiveram seus temas abordados no jornal, o que lhe deu repercussão não só no Brasil como nos EUA, Portugal, Espanha, Suíça, Suécia, Itália, Áustria, Alemanha, Argentina, entre outros países com os quais os editores acabaram mantendo contato. A preocupação com a restauração da Confederação Operária Brasileira (COB) era apenas uma vertente do jornal, não era a única.