Paradoxo de Epicuro

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Busto de Epicuro, ca. século III/II a.C.

O paradoxo de Epicuro é um dilema lógico sobre o problema do mal atribuído ao filósofo grego Epicuro que argumenta contra a existência de um deus que seja ao mesmo tempo onisciente, onipotente e benevolente.

O paradoxo[editar | editar código-fonte]

A lógica do paradoxo proposto por Epicuro toma três características do deus judaico, omnipotência, onisciência e onibenevolência como, caso verdadeiras aos pares, excludentes de uma terceira. Isto é, se duas delas forem verdade, excluem automaticamente a outra. Trata-se, portanto, de um trilema. Isto tem relevância pois, caso seja ilógico que uma destas características seja verdadeira, então não pode ser o caso que um deus com as três exista.[1]

  • Enquanto onisciente e onipotente, tem conhecimento de todo o mal e poder para acabar com ele. Mas não o faz. Então não é onibenevolente.
  • Enquanto omnipotente e onibenevolente, então tem poder para extinguir o mal e quer fazê-lo, pois é bom. Mas não o faz, pois não sabe o quanto mal existe e onde o mal está. Então ele não é omnisciente.
  • Enquanto omnisciente e omnibenevolente, então sabe de todo o mal que existe e quer mudá-lo. Mas não o faz, pois não é capaz. Então ele não é omnipotente.

Deus no Epicurismo[editar | editar código-fonte]

Epicuro não era um ateu, apenas rejeitava a ideia de um deus preocupado com os assuntos humanos. Tanto o mestre quanto os seguidores do Epicurismo negavam a ideia de que não existia nenhum deus. Enquanto a concepção do deus supremo, feliz e abençoado era a mais popular, Epicuro rejeitava tal noção por considerar um fardo demasiado pesado ter de preocupar-se com todos os problemas do mundo. Por isto, os deuses não teriam nenhuma afeição especial pelos seres humanos, sequer saberiam de sua existência, servindo apenas como ideais morais dos quais a humanidade poderia tentar aproximar-se.[2] Era justamente através da observação do problema do mal, ou seja, da presença do sofrimento na terra que Epicuro chegava à conclusão de que os deuses não poderiam estar preocupados com o bem estar da humanidade.[2]

Atribuição e variações[editar | editar código-fonte]

Carnéades poderia ser o verdadeiro autor do paradoxo atribuído a Epicuro.

Embora tenha caído no agrado da escola cética da filosofia grega, é possível que o paradoxo de Epicuro tenha sido erroneamente atribuído a ele por Lactâncio que, de sua perspectiva cristã, enquanto atacava o problema proposto pelo grego, o teria considerado como ateu.[3]. Há sugestão de que tenha sido de fato obra de um filósofo cético que antecedia Epicuro, possivelmente Carnéades.[4] De acordo com o estudioso alemão Reinhold F. Glei, está claro que o argumento teodiceico é de uma fonte acadêmica não epicurista, mas talvez até anti-epicurista.[5] A versão mais antiga ainda preservada deste trilema aparece nos escritos do cético Sexto Empírico.[6]

Charles Bray, em seu livro A Filosofia da Necessidade de 1863, cita Epicuro[7] sem mencionar sua fonte como autor do seguinte trecho:

N. A. Nicholson, em seu Philosophical Papers de 1864, atribui "as famosas indagações" a Epicuro, utilizando as palavras anteriormente fraseadas por Hume.[8] A frase de Hume ocorre no livro décimo de seu aclamado Diálogos sobre a Religião Natural, publicado postumamente em 1779.[9] A personagem Philo começa sua fala dizendo "As antigas perguntas de Epicuro continuam sem resposta". A citação que Hume faz provém do influente Dictionnaire Historique et Critique de Pierre Bayle, que cita Lactâncio atribuíndo as perguntas a Epicuro.[10] Esta atribuição ocorre no capítulo 13 de "De Ira Dei" de Lactântio, que não fornece fontes.[11]

Hume postula:

Ver também[editar | editar código-fonte]

Wikiquote
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Referências

  1. Michael Tooley (2010). «The Problem of Evil». The Stanford Encyclopedia of Philosophy. Edward N. Zalta 
  2. a b Tim O’Keefe (11 de julho de 2005). «Epicurus (341—271 BCE)». Enciclopédia de Filosofia da Internet (IEP). Universidade do Tennessee em Martin. Consultado em 13 de julho de 2012 
  3. Mark Joseph Larrimore, (2001), The Problem of Evil, pp. xix-xxi. Wiley-Blackwell
  4. Mark Joseph Larrimore, The Problem of Evil: a reader, Blackwell (2001), pp. xx.
  5. Reinhold F. Glei, Et invidus et inbecillus. Das angebliche Epikurfragment bei Laktanz, De ira dei 13,20-21, in: Vigiliae Christianae 42 (1988), pp. 47-58
  6. Sexto Empírico, Outlines of Pyrrhonism, 175: "those who firmly maintain that god exists will be forced into impiety; for if they say that he [god] takes care of everything, they will be saying that god is the cause of evils, while if they say that he takes care of some things only or even nothing, they will be forced to say that he is either malevolent or weak"
  7. Charles Bray (1863). The philosophy of necessity. or, Natural law as applicable to moral, mental, and social science. [S.l.]: Longman & Roberts. 446 páginas 
  8. N. A. Nicholson (1864). Philosophical Papers. [S.l.]: Effingham Wilson. 103 páginas 
  9. a b David Hume (1779). Dialogues Concerning Natural Religion. [S.l.: s.n.] 264 páginas 
  10. Pierre Bayle (1820). Dictionnaire historique et critique de Pierre Bayle. 11. [S.l.]: Desoer 
  11. Lucius Caecilius Firmianus Lactantius (1532). Divinae institutiones. [S.l.: s.n.]  Parâmetro desconhecido |livro= ignorado (ajuda)

Ligações externas[editar | editar código-fonte]