Perspectiva judaica sobre o amor

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Escultura da palavra Ahavá, no Museu de Israel.

O amor é um valor central para a ética e a teologia judaica. O judaísmo apresenta uma variedade de pontos de vista sobre o amor a Deus, entre os seres humanos e para com os animais.

Fundamentos[editar | editar código-fonte]

O amor tem sua obrigatoriedade definida no Levítico, 19:18 - "Tu não deves tomar vingança, nem conservar ira aos filhos de teu povo - mas deves amar ao seu vizinho (como alguém) a si próprio. Eu sou YHWH!" - Maimônides diz ser este um mitzvá[nota 1] pois, como está escrito, "amar seu próximo (como alguém) a si mesmo" impõe a necessidade de cantar seus louvores, e mostrar preocupação com seu bem-estar financeiro, como faria para o seu próprio bem-estar e como faria para sua própria honra - e qualquer um que se aproveita do seu próximo para se elevar não tem participação na vida futura; em contraposição, Nachmânides pondera que, embora seja um mitzvá, a condição de amar ao próximo como a si mesmo é demais para qualquer ser humano, e já o rabino Akiva ensinava que "sua vida vem antes da vida de seu amigo"; ele remete ao preceito de amar ao estrangeiro como a si mesmo, também previsto no Levítico (19:33-34), relativizando o ensinamento, para desejar ao próximo todo o bem, sucesso e sabedoria.[1]

No Shabat 31-A do Talmude Babilônico é narrada uma história onde um gentio procura Hilel, e lança-lhe o seguinte desafio: resumir toda a Torá durante o tempo em que conseguisse ficar em pé sobre um só pé; o sábio o repeliu, mas em seguida respondeu-lhe: "O que for odioso para ti, não faça ao teu próximo, esta é toda a Torá; o resto é comentário. Vá e estude-a!"[1][2]

Para a guemátria o amor é essencial; a palavra ahavá (amor em hebraico) tem valor numérico 13, que equivale à metade do valor atribuído ao nome divino (26), de onde o rabino Haim Vital concluiu que a combinação do amor de duas pessoas (13 + 13) aumenta a presença divina entre elas - sejam elas cônjuges, amigos, pais, etc.[3]

Palavras hebraicas para o amor[editar | editar código-fonte]

Havendo tantas formas diferentes de manifestação do amor, existem na língua hebraica diferentes palavras que definem o amor. Os tipos tradicionais consagrados na tradição judaica incluem o amor familiar, de aliança, de compaixão, amizade, romântico e entre vizinhos. Vários estudiosos judeus têm abordado o amor nas diversas facetas da vida, tais como atos de doação, na guerra e na paz, ao meio ambiente, na prática do Kosher, o perdão, etc. Em todas essas abordagens, a justiça é um termo que frequentemente vem relacionado ao amor.

A palavra hebraica básica para o "amor", ahavah (אהבה), assim como no português, é usado para descrever sentimentos entre pessoas ou relacionamentos íntimos ou românticos, como o amor entre pais e filhos em Gênesis 22: 2; 25: 28; 37: 3; o amor entre amigos íntimos em I Samuel 18: 2, 20:17; ou o amor entre um jovem e jovem no Cântico dos Cânticos.

Outra palavra usada frequentemente para o amor, chesed (חסד), é freqüentemente traduzido como "benevolência" ou "amor inabalável". Inclui aspectos de carinho e compaixão. O professor Daniel Judah Elazar sugeriu que chesed não pode ser facilmente traduzido, pois significa algo como "amar pela obrigação da aliança", um tipo de amor que vai além da preocupação com as convenções, as leis.[4]

Outras palavras em hebraico às vezes traduzido como "amor" incluem Re'ut (o amor por um amigo ou companheiro).

Amor entre os seres humanos[editar | editar código-fonte]

Um dos mandamentos fundamentais do judaísmo é "ame o seu próximo como a ti mesmo" (Levítico 19:18), às vezes chamado O Grande Mandamento. Este mandamento está no centro do livro central na Torá.[5]

Os sábios talmúdicos Hilel e Rabi Akiva indicaram que este é o mandamento central da Torá. O mandamento encoraja as pessoas a tratarem uns aos outros como iguais, o que requer primeiro valorizem a si mesmos, a fim de serem capazes de espelhar esse amor para os outros. Da mesma forma, um outro mandamento significativo é o de "não cruzar os braços ao teu próximo" (Levítico 19:16), que pode ser exibido em muitas formas. Algumas fontes judaicas têm enfatizado a importância do auto-sacrifício no que diz respeito a colocar as nossas necessidades em segundo plano, embora a lição de Rabi Akiva diga que "Sua própria vida tem precedência sobre a do outro", o que contradiz seu próprio enunciado de amar o teu próximo como a si mesmo.[6]

Amor aos animais no judaísmo[editar | editar código-fonte]

Algumas fontes do judaísmo também destacam a importância do amor e da compaixão para com os animais não-humanos. Nesta linha, por exemplo, o filósofo judeu Lenn Goodman fala de como as leis relativas ao sofrimento dos animais idealmente "criam uma sensibilidade de amor e bondade".[7]

Hava Tirosh-Samuelson, historiador judeu, acreditava que o cerne do judaísmo era a um modelo de aliança entre o povo judeu, Deus e a terra de Israel, o que explica a "obrigação de reponder pelas necessidades do outro"; ele pensou sobre os possíveis significados deste modelo, expandindo-o para incluir a Terra como um todo, ressaltando a importância de tratar todos os seres vivos com respeito.[8]

Amor a Deus[editar | editar código-fonte]

O amor a Deus significa pautar a vida segundo os Seus mandamentos e está condicionado pelo amor à Torá. De fato, o amor a Deus é a entrega voluntária da vida e de tudo que se tem em Sua honra; é o serviço altruístico a Deus - segundo várias passagens do livro sagrado; é um amor inigualável, que enfrenta sofrimento e martírio, estabelecendo a relação única entre Deus e Israel, de modo que "nenhuma das nações pode extinguir esse amor" - de tal forma que se reflete também na liturgia. Para ser um verdadeiro "amante a Deus", contudo, a pessoa precisa "receber a ofensa e não se ressentir; ouvir palavras de injúria e não revidar, de agir apenas movido pelo amor e se regozijar como prova de puro amor".[9]

Bahya Ibn Pakuda diz que o amor a Deus é muito mais acentuado quando praticado através da ação.[9]

Notas e referências

Notas

  1. Um dos 613 mandamentos da lei judaica.

Referências

  1. a b Rabbi Avi Weinstein. «Be Loving to Your Neighbor as You Would Yourself». Jewish Virtual Library. Consultado em 29 de dezembro de 2013  - (em inglês)
  2. Tradução de RABBI DR. H. FREEDMAN. «Shabbat 31». Babylonian Talmud. Consultado em 29 de dezembro de 2013  - (em inglês)
  3. Jane Bichmacher de Glasman. «Que mês!!». Visão Judaica. Consultado em 9 de maio de 2012 
  4. Daniel Elazar. «HaBrit V'HaHesed: Foundations of the Jewish System». Jerusalem Center for Public Affairs. Consultado em 3 de novembro de 2015 
  5. Bernard J. Bamberger (1981). The Torah, a Modern Commentary: Leviticus. [S.l.]: Urj Pr. p. 737, 889. ISBN-10: 0807400114 
  6. Goodman, Lenn Evan (2008). Love Thy Neighbor as Thyself. [S.l.]: Oxford University Press. p. 13 
  7. Lenn Evan Goodman (2002). Respect for Nature in the Jewish Tradition (in: Judaism and Ecology: Created World and Revealed Word). [S.l.]: Harvard University Press 
  8. Benstein, Jeremy (2006). The Way into Judaism and the Environment. [S.l.]: Jewish Lights. p. 92 
  9. a b s/a. «Love». JewishEncyclopedia.com. Consultado em 9 de maio de 2014