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Reformas cluníacas

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As Reformas cluníacas foram uma série de mudanças realizadas no monasticismo da Igreja ocidental cujo objetivo era restaurar os princípios tradicionais da vida monástica, encorajando a arte e o cuidado pastoral com os pobres. O movimento começou na Abadia de Clúnia em 910 com o duque Guilherme I (r. 875–918), no seio da Ordem dos Beneditinos. As reformas, realizadas principalmente por Santo Odão (c. 878–942), se espalharam pelo Reino da França (Borgonha, Provença, Auvérnia e Poitou), pelo Reino da Inglaterra e através dos territórios modernos da Itália e da Espanha.[1]

Antecedentes

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A europa vivia um período em que as invasões bárbaras, que seriam os ataques víquingues, perderam constância, que tinham por consequência a destruição de construções de locais assolados pelas seguidas ofensivas nórdicas, impossibilitando uma renovação construtiva ao passo que se ficava sempre reconstruindo o básico para a sobrevivência e convivência. A estabilidade favoreceu um crescimento econômico e a criação de novas técnicas construtivas que viriam a auxiliar na resolução de problemas recorrentes. Sobre as invasões Marc Bloch sentencia que “os ‘pagãos do norte’, cujas incursões, desencadeadas bruscamente cerca do ano 800, durante perto de um século e meio, fariam gemer o Ocidente”. No início do século X, o monaquismo ocidental, que floresceu vários séculos antes com São Bento de Núrsia, estava a passar por um declínio severo devido às condições políticas e sociais instáveis ​​resultantes dos ataques quase contínuos dos víquingues, da pobreza generalizada e, especialmente, da dependência das abadias dos nobres locais que controlavam tudo o que pertencia aos territórios sob sua jurisdição.[2]

Apenas com o cessar das invasões após o estabelecimento víquingue na Normandia em 911 foi possível um avanço técnico significativo.

O impulso para as reformas residia em abusos considerados resultantes da interferência secular nos mosteiros e da forte integração da Igreja com os sistemas feudal e senhorial. Como um mosteiro beneditino necessitava de terras, necessitava do patrocínio de um senhor local. No entanto, o senhor exigia frequentemente direitos e afirmava prerrogativas que interferiam com o funcionamento do mosteiro.[3] Os patronos mantinham normalmente um interesse de propriedade e esperavam nomear os seus parentes como abades. Os aristocratas locais fundavam frequentemente igrejas, mosteiros e conventos que então consideravam propriedade da família, retirando-lhes receitas e deixando os restantes monges a subsistir na pobreza.[4]

Alguns mosteiros foram estabelecidos por senhores feudais com a intenção de se retirarem para ali em algum momento. A Regra Beneditina, nestes mosteiros, foi modificada para programar as matinas num horário que não interrompesse o sono e para expandir a dieta vegetariana. Os monges destas casas usavam roupas mais ricas e quentes e eram livres de desrespeitar as regras relativas ao jejum.[5]

A reforma de Cluny foi uma tentativa de remediar estas práticas na esperança de que um abade mais independente aplicasse melhor a Regra de São Bento.

Corrupção

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O ímpeto pelas reformas foi a corrupção dentro da Igreja, particularmente por causa da simonia e do concubinato no clero. Acreditava-se que estes abusos eram resultado da interferência secular nos mosteiros e da íntima integração da Igreja com os sistemas feudal e senhorial.[6] Na mesma época, o papado desejava reafirmar seu controle sobre o clero e acabar com a investidura de bispos por monarcas seculares (vide Controvérsia das investiduras).[7] Como um mosteiro beneditino precisava de terras, era necessário o patrocínio de um senhor local. Porém, o senhor geralmente exigia direitos e afirmava prerrogativas de interferir com a operação futura do mosteiro.[3] A reforma cluníaca foi uma tentativa de remediar estas práticas na esperança de que um abade mais independente seria capaz de reforçar de forma melhor a "Regra de São Bento".

Guilherme formou o primeiro mosteiro de Clúnia em 910 com a novidade de que este mosteiro iria se reportar diretamente ao papa e não ao senhor local. Isto significava que o mosteiro seria essencialmente uma entidade independente. Além disso, o Abade de Clúnia manteria a autoridade sobre as casas dependentes que sua ordem fundasse. Já no século XII, a congregação de Clúnia, incluía mais de mil mosteiros.[8]

Entre os mais notáveis aliados das reformas estavam o papa Urbano II,[9] Lamberto de Hersfeld e Ricardo de Verdun. As reformas encorajaram a Igreja ocidental a prestar mais atenção aos seus próprios assuntos e levou o papado a tentar reafirmar seu controle sobre a Igreja Ortodoxa.[10]

Resultado

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Durante o auge das reformas (ca. 950–ca. 1130), o movimento cluníaco era uma das mais importantes forças religiosas da Europa.[11] Pelo menos tão importante quanto suas consequências políticas, as reformas exigiam uma maior devoção religiosa. Os cluníacos apoiavam a Paz de Deus e promoviam peregrinações à Terra Santa.[3]

em 1075, Roberto de Molesme, um monge de Clúnia obteve permissão do papa Gregório VII para fundar um mosteiro em Molesme, na Borgonha. Ali, Roberto tentou restaurar a prática monástica ao caráter simples e severo da regra original de São Bento, um movimento que ficou conhecido como "Estrita Observância". Com sucesso apenas parcial em Molesme, Roberto, em 1098, liderou um grupo de 21 monges de sua abadia a fundar um novo mosteiro. Eles adquiriram um pedaço de terra pantanoso ao sul de Dijon chamado Citeaux (em latim: Cistercium) e começaram a construir um novo mosteiro que se tornaria a Abadia de Cister, a abadia-mãe da nova Ordem Cisterciense.[12]

Ver também

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Referências

  1. Justus.Anglican.org
  2. Doucette, Jonathan Stavnskær; Møller, Jørgen (2021). «The Collapse of State Power, the Cluniac Reform Movement, and the Origins of Urban Self-Government in Medieval Europe» (PDF). International Organization (em inglês). 75 (1): 204–223. ISSN 0020-8183. doi:10.1017/S0020818320000284 
  3. a b c Nelson, Lynn Harry. "Cluny and Ecclesiastical Reform", Lectures in Medieval History, University of Kansas Erro de citação: Código <ref> inválido; o nome "Cluny and Ecc. Reform" é definido mais de uma vez com conteúdos diferentes
  4. Duckett, Eleanor Shipley. Death and Life in the Tenth Century, University of Michigan Press, 1967 ISBN 9780472061723
  5. Smith, Lucy Margaret. The early history of the monastery of Cluny, Oxford University Press,1920
  6. «900 - 1100». Consultado em 25 de novembro de 2008. Arquivado do original em 1 de dezembro de 2008 
  7. «Papal Monarchy». Consultado em 25 de novembro de 2008. Arquivado do original em 28 de junho de 2008 
  8. Chambers, Mortimer (1974). The Western Experience. [S.l.]: Knopf. pp. 269–283. ISBN 0-394-31733-5 
  9. «UWGB.edu». Consultado em 8 de setembro de 2014. Arquivado do original em 3 de janeiro de 2007 
  10. «The Crusades». Consultado em 8 de setembro de 2014. Arquivado do original em 3 de janeiro de 2007 
  11. The Columbia Encyclopedia
  12. Tobin, pp 29, 33, 36.

Bibliografia

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  • R. W. Southern, Western Society and the Church in the Middle Ages, London: Penguin Books, 1970.

Ligações externas

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