São Torpes

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São Torpes
Ícone do antigo mártir cristão São Torpes de Pisa.
Santo / Mártir cristão / Defensor da fé
Nascimento (Data desconhecida) em Pisa, Itália
Morte 29 de Abril de 68 em Pisa, Itália
Veneração por Igreja Católica e Igreja Ortodoxa
Principal templo Igreja e Convento de São Torpes (em Pisa); Padrão de São Torpes (em Sines)
Festa litúrgica 29 de Abril
Padroeiro dos marinheiros; de Saint-Tropez; de São Torpes de Sines; dos defensores da fé cristã
Gloriole.svg Portal dos Santos

São Torpes (... – Pisa, 29 de Abril de 68), por vezes também chamado de São Torpes de Pisa, é venerado como um dos primeiros mártires e santos cristãos. Este santo é o homónimo de Saint-Tropez, a famosa região do sul de França, e ainda do Sítio em na Praia de São Torpes, em no Sines e no Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina. De acordo com a lenda, afirma-se que ele terá sido martirizado devido à sua fé cristã durante as perseguições levadas a cabo pelo imperador Nero.[1]

São Torpes é um santo venerado, sobretudo, na Itália e em Portugal, não só pela Igreja Católica como pela Igreja Ortodoxa.

Lenda de São Torpes[editar | editar código-fonte]

Brasão da cidade de Saint-Tropez com a representação da chegada da barca com o corpo de São Torpes de Pisa, velado pelo cão e pelo galo.
Panorâmica da cidade de Saint-Tropez, sul de França.

De acordo com a lenda, São Torpes foi um gladiador ou cavaleiro na época do imperador Nero, e chefe da sua guarda pessoal. O seu nome completo era Caïus Silvius Torpetius e nasceu na cidade italiana de Pisa no período do Império Romano.

Torpes converteu-se ao cristianismo depois de ter conhecido pessoalmente o apóstolo São Paulo. Torpes professou publicamente a sua fé durante uma cerimónia em que se revoltou contra Nero por considerar que a deusa-mitológica Diana não era a criadora do Universo, e mostrou, desse modo, a sua adesão à doutrina de Jesus Cristo. O imperador Nero não quis matar Torpes de imediato e, ao invés disso, pediu a um dos seus assistentes que o convencesse a renunciar à sua fé cristã. Quando Torpes se negou a fazê-lo, então Nero mandou-o flagelar e decapitar. Existe, todavia, outra versão da lenda que indica que Torpes abandonou Roma e viajou para Pisa, a sua cidade natal, mas que ao ter sido reconhecido como sendo um cristão pelo perfeito local, Satellicus, este tê-lo-á mandado executar.

Diz a lenda que o corpo de São Torpes foi posto numa barca, velado por um cão e um galo (ali colocados para se alimentarem do corpo do santo mártir), e, noutra barca, foi posta a sua cabeça. Estas duas barcas foram de seguida lançadas ao rio Arno. A barca que tinha a cabeça foi parar no dia 17 de Maio do ano 68 a uma praia do sul de França que, mais tarde, se viria a chamar Saint-Tropez em honra do santo. Por outro lado, a barca com o corpo do santo foi parar a uma praia da costa sudoeste de Portugal, no concelho de Sines, e que se viria a chamar Praia de São Torpes.

Uma santa mulher chamada Catarina que vivia em Portugal, mãe de família e viúva de um governador romano, logo após a morte do seu marido decidiu retirar-se da cidade de Évora para Sines. Pouco tempo depois, ela teve uma premonição num sonho em que um anjo a avisou de que deveria ir receber o corpo do santo mártir à praia. Catarina dirigiu-se para a costa e encontrou-o numa espécie de jangada de junco, velado efectivamente por um cão e por um galo. A barca aportou junto à foz de uma ribeira lá existente que, devido ao material do qual era feita, passou a designar-se ribeira da Junqueira.[2]

Em França, nomeadamente em Saint-Tropez, uma versão similar da lenda é contada com a existência de uma mulher chamada Celèrine (ou Celarina) que teria ido receber o corpo intacto do santo mártir numa praia situada perto do cemitério dos marinheiros. Nessa versão, consta que após a recolha do corpo o galo terá levantado voo até uma povoação chamada Cogolin (onde passou a constar do brasão da localidade) e o cão dirigiu-se para uma povoação chamada Grimaud.

Em Portugal, no entanto, alguns factos históricos apontam para que tenha sido na costa portuguesa onde, de facto, o corpo do santo aportou. De acordo com a lenda, Catarina terá sepultado o cadáver do santo junto à foz da ribeira da Junqueira e, informado por ela, São Manços, o Bispo de Évora, terá mandado erigir uma basílica no local. São vários os autores medievais e modernos que referem a existência real da basílica e falam da importância desse templo cristão, e alguns deles descrevem, inclusivamente, as suas qualidades arquitectónicas e artísticas. Esse templo foi, por isso, colocado na posição de primeira igreja cristã europeia (em competição com uma igreja em Saragoça, Espanha, e outra em Avinhão, França). A ter, de facto, existido a referida basílica, são apontadas duas possíveis causas para o seu desaparecimento: os posteriores domínios dos Bárbaros e dos Mouros na região. Todavia um elemento desse templo sobreviveu: o Padrão de São Torpes.

Basílica e Padrão de São Torpes[editar | editar código-fonte]

A Praia de São Torpes, em Sines, foi o local onde deu à costa o corpo do santo mártir.

O Padrão de São Torpes, situado junto à foz da ribeira da Junqueira, é um marco resultante da base de um antigo cruzeiro, em cantaria[3] , que assinala o local onde foi originalmente sepultado o corpo do mártir São Torpes e onde existiu, no passado, uma basílica de culto cristão dedicada ao santo mártir (considerada como o primeiro templo cristão da Europa).

Reconhecimento canónico das relíquias[editar | editar código-fonte]

No final do século XVI, o Papa Sisto V ordenou ao Arcebispo de Évora que se certificasse canonicamente da existência das ossadas do mártir São Torpes junto à foz da ribeira da Junqueira. Foi, então, no ano de 1591, procedida a uma escavação no local e descoberto um túmulo de mármore com um esqueleto humano, mas sem cabeça. Uma lápide existente certificava a autenticidade dos ossos lá sepultados e todos os elementos encontrados foram devidamente registados numa acta. Depois de reconhecidas oficialmente como relíquias do santo, as ossadas foram levadas para a Igreja Matriz de Sines e depositadas na capela do Corpo Santo. Durante estas mesmas escavações foi ainda descoberto um crânio que os transladadores afirmaram ser de Catarina.

A Igreja-Convento de São Torpes (em Pisa) onde se venera uma relíquia do santo.

Actualmente, no local do sepultamento do corpo do santo mártir, resta apenas a base do antigo cruzeiro – sob a forma de padrão – com a inscrição: "O Sr. S. Torpes / Este calvario mandou fazer e assentar o Capitão Alexandre de Campos / BR / Anno de 1783"[4] . As relíquias outrora transladadas para a Igreja Matriz constam ter desaparecido sem deixar vestígios, conservando-se apenas o crânio do santo na Igreja e Convento de São Torpes, em Pisa, hoje em dia sob a alçada dos frades Carmelitas.

Existem registos dando conta que no decurso do século XVIII existia uma ermida dedicada a Catarina (a mesma santa mulher que encontrou o corpo do santo mártir e a que os franceses chamaram de Celèrine ou Celarina) numa das extremidades de Sines, à beira-mar, mas foi posteriormente destruída. Em 1969, o historiador Arnaldo Soledade identificou algumas pedras dessa ermida guardadas na casa de um particular.

Veneração[editar | editar código-fonte]

A mais antiga igreja em Pisa, na Itália, dedicada a São Torpes é datada do século XI[5] . O Código Civil da República de Pisa no ano de 1284 estabeleceu o dia 29 de Abril como o dia da festa litúrgica do santo. Os habitantes de Pisa atribuem à intercessão de São Torpes o grande milagre que pôr fim a uma terrível praga que atingiu a cidade em 1633.

Em Génova, onde o culto a São Torpes foi instituído pelos comerciantes vindos de Pisa, a Igreja de San Torpete é dedicada ao santo.

Em Saint-Tropez, na França, o seu busto é homenageado durante Les Bravades des Espagnols, uma celebração religiosa e militar que comemora a vitória da milícia tropeziana sobre a milícia espanhola em 1637.

Referências

Ver também[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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