Saramacano

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Saramacano (Saamákatongo)
Falado em: Suriname, Guiana Francesa
Região: Norte da América do Sul
Total de falantes: 50.000[1]
Família: Crioulo anglo-português
 Saramacano
Códigos de língua
ISO 639-1: --
ISO 639-2: crp
ISO 639-3: srm

O Saramacano (autodenominado Saamákatongo, "língua saramaka") é uma língua crioula de base lexical anglo-portuguesa falada ao longo dos rios Saramacca e Suriname por cerca de 50.000 indivíduos das tribos saramaka e matawai,[2] dois dos seis povos maroons (quilombolas) do Suriname, intimamente relacionado ao sranantongo e ao nengueetongo.

Os linguistas consideram o Saramacano notável porque se baseia em duas línguas de origem europeias, o inglês (30%) e o português (20%), e várias línguas da África Ocidental e Central (50%), mas diverge consideravelmente de todas elas. O componente africano representa cerca de 50%, uma vez que o uso ritual é levado em conta, o maior percentual nas Américas. As porções africanas são derivadas das línguas Niger-Congo da África ocidental, especialmente Fon e outras línguas de Gbe, Akan, e línguas africanas centrais tais como KiKongo.[3]

Línguas Crioulas[editar | editar código-fonte]

Uma língua crioula nasce no contexto de uma comunidade que se tornou tão culturalmente diversificada que não é possível adaptar para o conjunto dessa comunidade nenhuma das várias línguas naturais faladas por cada falante. Contextos deste gênero existiram, por exemplo, durante os descobrimentos portugueses, quando escravos das mais variadas origens eram separados das suas famílias e reunidos aleatoriamente em fazendas e roças coloniais. Estas comunidades tinham varias línguas naturais entre elas e não tinham uma a oportunidade de aprender formalmente a língua do colonizador e desenvolviam um pidgin, isto é, um sistema linguístico rudimentar, com palavras baseadas na língua do colonizador. Este sistema permitia estabelecer uma comunicação mínima quer entre os membros da comunidade, quer entre estes e os colonos.

Quando um pidgin se estabelece numa comunidade multilíngue, pode chegar um momento em que uma geração de crianças dispõe apenas do pidgin para falar entre si. Nesse caso, quase inevitavelmente, as crianças transformam o pidgin numa verdadeira língua, completada por um vocabulário amplo e um rico sistema gramatical. Essa nova língua natural é um crioulo e as crianças que o criaram são os primeiros falantes nativos desse crioulo. O processo pelo qual se transforma um pidgin em um crioulo é a crioulização.[4]

Características[editar | editar código-fonte]

Superestrato[editar | editar código-fonte]

As evidências sugerem que o superestrato (vocabulário) do saramacano é de origem muito diversificada. A pesquisa de Smith (1987), determinou que dos duzentos vocábulos básicos da língua saramacana, 49% é proveniente do inglês e 34% do português. Tal constatação é notável, pois normalmente as línguas crioulas possuem a ampla maioria de seu vocabulário (de 80% a 90%) proveniente de um único idioma.[5] A referida pesquisa indica ainda que 5% a 7% do vocabulário se origina de línguas africanas, o maior percentual dentre as línguas crioulas do continente americano, além outros 10% originário do holandês.

Segundo Smith & Cardoso (2004), a comparação das origens etimológicas de três classes gramaticais em saramacano demonstrou que os substantivos têm 50% de origem inglesa e 49% de origem portuguesa. Dentre os adjetivos, 65% se originou no inglês e 34% o português. Quantos aos verbos 50% provêm da língua portuguesa e 49% da língua inglesa.

Curiosamente, há a ocorrência de provérbios ainda atuais que fazem uso exclusivo de palavras de origem portuguesa e africana. Sendo assim, não consenso entre os linguistas se o saramacano é um crioulo de base inglesa com forte influência do português ou o contrário.

Substrato[editar | editar código-fonte]

Como outros crioulos falados nas Guianas e nas ilhas do Caribe, o substrato (gramática e sintaxe) da língua saramacana é oriunda principalmente de línguas da África subsariana, tais como o igbo, o quicongo e diversas línguas kwa (como a fon, ashanti, fanti, ewe e mina). Assim se explica a presença em saramacano de características gramaticais tipicamente oeste-africanas, como a ausência de conjugação verbal, a distinção sintática entre verbos estativos e não-estativos e o uso de tons.[6]

O saramacano é notável, segundo os linguistas, por sua divergência incomum em relação às línguas das quais deriva.

Origem (Dju Tongo)[editar | editar código-fonte]

As Antilhas Neerlandesas e o Suriname, que foram colonizados pelos neerlandeses, desenvolveram, a partir do final do século XVII (há controvérsias), dialetos com grande influência do português: o papiamento (Antilhas) e o saramacano (Suriname), que, algumas décadas depois passou a ser conhecido pelo nome que possui até hoje.[7]
Exemplos de palavras originadas do português ou de línguas crioulas de base portuguesa portuguesas: mujée (mulher); wómi (homem); (dar); búnu (bom); kabá (acabar); (com); kúma (como); fáka (faca) àkí (aqui), kèndi (quente); líba ("cima", de riba), lío (rio), mátu (floresta, de mato), páu ("árvore", de pau), kàmísa (camisa), búka (boca), wójo (olho), kulé (correr), patupatú (pato).

Escrita[editar | editar código-fonte]

A língua saramacana utiliza o alfabeto latino com as seguintes letras e conjuntos de letras

  • Vogais: a, e ë, i, o ö, u
  • Consoantes, b, d, g, h, j, k, l, m, n. p, s, t, v, w – da, gb, kp, mb, nd, nj, tj

Dialetos[editar | editar código-fonte]

A língua saramacana se divide em três grandes dialetos:

  • o do Alto Rio Suriname, falado por pessoas da tribo Saramaka;
  • o do Baixo Rio Suriname, também falado por pessoas dessa tribo;
  • o da tribo Matawai.[8]

Fonologia[editar | editar código-fonte]

Vogais[editar | editar código-fonte]

Frontal Posterior
Fechada i u
Meio Fechada e o
Meio Aberta ɛ ɔ
Aberta a

Cada vogal oral tem uma correspondente nasal. Há também três extensões de vogais: curta, medial, longa.[9]

Consoantes[editar | editar código-fonte]

Labial Dental/
Alveolar
Palatal Velar
plain Lábio-velar
Nasal m n ɲ
Plosiva plain p b t d c ɟ k ɡ k͡p ɡ͡b
prenasalizada mb nd ɲɟ ŋɡ
Fricativa f v s z ç
Aproximante l j w

/c ɟ ɲ ɲɟ/ são mais especificamente Dorso-postalveolar, mas a palatal fricativa /ç/ é Dorso-palatal.[9]

Tons[editar | editar código-fonte]

O saramacano é uma língua tonal. Como muitas línguas oeste-africanas, possui dois tons superficiais: alto e baixo, representados ortograficamente pelos acentos agudo (´) e grave (`), respectivamente; mas normalmente são omitidos na escrita. A tonalidade da sílaba é utilizada para marcar tanto distinções gramaticais quanto lexicais. Em geral, a sílaba tônica de palavras europeias é corresponde ao tom alto em saramacano,[9] enquanto que palavras de origem africana costumam manter seu padrão original de tons.

Exemplo 1:

  • Jáa (ano);
  • Jaá (você tem);
  • Jáá (você não tem).

Exemplo 2:

  • Fá (maneira);
  • Fà (diversão);

Exemplo 3:

  • Mì ("eu" não enfático, como I, em inglês ou je, em francês);
  • Mí ("eu" enfático, como me, em inglês ou moi, em francês);

Exemplo 4:

  • Bè (vermelho)
  • Bée (família, barriga)

Algumas palavras em saramacano podem possuir sílabas com tons altos e baixos como àkí (aqui), káìmá (jacaré), àlá (lá, ali), tàángá (forte).[10]

Amostra de textos[editar | editar código-fonte]

A seguir, se apresentam algumas frases saramacanas, que são comparadas com a sua tradução para o inglês: (conf. dicionário SIL).

De waka te de aan sinkii möön.
"They walked until they were worn out."

U ta mindi kanda fu dee soni dee ta pasa ku u.
"We make up songs about things that happen to us."

A suku di soni te wojo fëën ko bëë.
"He searched for it in vain."

Mi puu tu dusu kölu bai ën.
"I paid two thousand guilders to buy it."

Referências

  1. http://apics-online.info/contributions/3
  2. «APiCS Online -». apics-online.info (em inglês). Consultado em 24 de janeiro de 2017 
  3. Price, Richard (2007). Travels with Tooy: History, Memory, and the African American Imagination. Chicago: University of Chicago Press. pp. 309–389. ISBN 978-0226680590 
  4. «Línguas crioulas». Wikipédia, a enciclopédia livre. 14 de abril de 2016 
  5. Bakker, Smith and Veenstra (1994): pp. 168–169. [S.l.: s.n.] 
  6. http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/10745.pdf
  7. «História da Língua Portuguesa em linha» (html). Saramacano. Consultado em 22 de dezembro de 2009 
  8. Bakker, Smith and Veenstra (1994): p. 165
  9. a b c Bakker, Smith and Veenstra (1994): p. 170
  10. «APiCS Online -». apics-online.info (em inglês). Consultado em 24 de janeiro de 2017 

Ligações externas[editar | editar código-fonte]