Tia Neiva
| Tia Neiva | |
|---|---|
| Nascimento | 30 de outubro de 1925 Propriá |
| Morte | 15 de novembro de 1985 Brasília |
| Cidadania | Brasil |
| Ocupação | médium |
Neiva Chaves Zelaya (Propriá, 30 de outubro de 1925 — Brasília, 15 de novembro de 1985), mais conhecida por Tia Neiva, foi uma médium clarividente brasileira, fundadora da doutrina do novo movimento religioso Vale do Amanhecer.[1]
Vida pessoal
[editar | editar código]Neiva nasceu em 30 de outubro de 1925 em Propriá, interior do Sergipe, filha do topógrafo Antônio de Medeiros Chaves e de sua mãe Maria de Lourdes Seixas Chaves (D. Sinharinha). Neiva era a mais velha de seus 3 irmãos: Nivaldo, José Luís e Maria de Lourdes (Linda). Vivendo em uma família conservadora e católica, Neiva teria vivenciado visões e prenúncios quando criança, mas de acordo com seus filhos, Neiva era repreendida pelo pai. Devido a profissão do pai, a família frequentemente se mudava entre cidades, e na adolescência, passou a conviver na região de Jaraguá, no Goiás.[2]
Em 1943, Neiva casou-se, aos 18 anos, com o argentino Raul Zelaya Alonso, então secretário do engenheiro Bernardo Sayão e da Colônia Agrícola Nacional do Goiás (CANG).[2] Com Raul, Neiva teve 4 filhos: Gilberto, Carmem Lúcia, Raul Oscar e Vera Lúcia. Aos 22 anos, Neiva perdeu o seu mardio Raul Zelaya em 1949.[1]
Viúva precocemente, formada apenas até o terceiro ano do primário, com 4 filhos e sem recursos, Neiva buscou diversas atividades comerciais para sobreviver. Em Ceres, trabalhou com revelação de imagens fotográficas e abriu o Foto Neiva, mas devido o constante manuseio de produtos químicos, complicações respiratórias impediram que Neiva continuasse trabalhando com a fotografia. Também em Ceres, Neiva adotou sua afilhada, Gertrudes Chaves Zelaya, que se tornou a mais velha de suas filhas e passou a cuidar das demais na ausência da mãe.[3]
Posteriormente, trabalhou como costureira, agricultora e, por fim, aprendeu a dirigir e se tornou a primeira caminhoneira do Brasil.[4][5] Com seu caminhão e seus filhos a tiracolo, percorreu diversos estados brasileiros, atuando como frentista ou mascate, até fixar-se em Goiânia em 1954. Em 1957, Neiva recebe um convite, por parte de Bernardo Sayão, para trabalhar na construção de Brasília, após o mesmo ter sido indicado um dos diretores da Novacap em 1956.[3] A história foi contada por Gertrudes ao Jornal do Jaguar, um jornal criado posteriormente pelo Vale do Amanhecer, que seria fundado por Tia Neiva anos depois:
[...] Meu padrinho (Raul Zelaya Alonso, falecido marido de Neiva) era a segunda pessoa do Dr. Sayão e a vida era boa (em Ceres). [...] Veio do Dr. Sayão (o convite para vir para Brasília), que era padrinho de casamento dela. A gente veio morar num barracão aqui, era um frio, Goiânia era quente... Nós mudamos para o Núcleo Bandeirante, lá tínhamos um barraco de bambu coberto de lona. Lá ficamos alguns anos, mas íamos mudando, a gente sempre foi cigano mesmo (risos)
Em 1958, Neiva conheceu Mário Sassi, consultor de relações públicas na Universidade de Brasília.[2] Mudou-se para a Cidade Livre (atual Núcleo Bandeirante), onde, aos 33 anos, teve despertada a sua mediunidade.[1] Em 1985, poucos meses antes de sua morte, Neiva concedeu uma entrevista ao jornal Última Hora, onde descreveu a sua trajetória de vida:[3]
Jornalista: Para quem nasceu de uma família religiosa, nordestina, com padres e freiras, o começo deste trabalho espiritual deve ter sido muito difícil. Não foi, Tia Neiva?
Tia Neiva: Foi sim. Eles não gostavam de “macumbeiros” e nem de mulheres independentes. Só pela minha ousadia de ser uma viúva que queria viver sua própria vida já haviam me expulsado de casa uma vez.
Jornalista: Quer dizer que antes de todo este trabalho espiritual, a decisão de ser caminhoneira, principalmente em se tratando de uma viúva jovem e bonita, custou muito caro para a senhora?
Tia Neiva: Custou, mas valeu a pena. Eu sabia, eu sentia que tinha proteção de Deus. Eu sempre me considerei uma boa motorista. Dirigi por várias estradas deste Brasil. Naquela época, os carros não tinham a mecânica de hoje e nem as estradas eram pavimentadas, a não ser umas poucas, nos troncos principais. Por isto, eu era respeitada pelos meus colegas. Justamente por ser considerada boa motorista e boa companheira.
Espiritualidade
[editar | editar código]Em 1958 deixou o Núcleo Bandeirante, onde começara sua missão espiritualista, e junto com seus filhos Gilberto, Carmem Lúcia, Vera Lúcia e Raul, e mais cinco famílias espiritualistas, fundou, em 8 de novembro de 1959, a União Espiritualista Seta Branca - UESB, na Serra do Ouro, próximo a Alexânia (GO).[1][6] Tia Neiva teria sido inspirada por uma aparição de um espírito de luz conhecido como Pai Seta Branca, um índigena da tribo dos Jaguares. A União Espiritualista Seta Branca foi fundada sob o pretexto do manifesto abaixo, publicado pela médium. O nome da organização teria sido dito por uma entidade chamada Yara, tida como uma entidade espiritual altamente evoluída e a alma gêmea do Pai Seta Branca, bem como o equivalente da Iara dos mitos tupi-guarani.[3]
"No dia 12 de Abril de 1959, em Brasília, Núcleo Bandeirante, capital da República do Brasil, Seta Branca, nosso mentor e guia espiritual, nos convida a formar um grupo de trabalho de caridade cristã. Este grupo, segundo orientação, terá uma grande responsabilidade diante de Deus. E está designado para produzir fenômenos, que servirão para abrir os olhos dos que não querem ver ou ouvir a palavra do Pai. Tomando nossas mãos com amor e carinho de pai amoroso, Seta Branca, depois de dar todas as explicações das responsabilidades que iríamos assumir diante da Espiritualidade Maior, convida-nos a meditar sobre os compromissos que se prestariam naquele momento. Declarando-nos que ficaria registrado nos livros divinos. Todos, sem hesitação, colocando a mão direita sobre a de nosso Mentor, que se comunicava no aparelho mediúnico de nossa dileta Irmã Neiva Chaves Zelaya, fizemos o juramento. Dizendo-nos, o nosso amado chefe, palavras de alta espiritualidade e imenso amor. Naquele momento estava constituído o grupo União Espiritualista Seta Branca. Nome este ditado pela Yara.
No templo, pacientes eram atendidos pelos médiuns que ali residiam, em construções de madeira e palha. Tia Neiva mantinha ali, também, um "hospital" e um orfanato com cerca de oitenta crianças. Plantavam, faziam farinha e tábuas para vender, e pegavam fretes.[1]
Em 9 de novembro de 1959, Tia Neiva ingressou na Alta Magia de Nosso Senhor Jesus Cristo. Em 1964 mudou-se para Taguatinga, onde funcionou a Ordem Espiritualista Cristã. Neste mesmo ano Tia Neiva foi internada por causa da tuberculose.[1]
Vale do Amanhecer
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Em 1964, Tia Neiva e seu grupo chegaram a Planaltina, onde fundaram uma comunidade intitulada Ordem Espiritualista Cristã, cujo nome oficial no cartório é "Obras Sociais da Ordem Espiritualista Cristã". A comunidade religiosa, contudo, ficou popularmente conhecida como o atual Vale do Amanhecer, oficialmente estabelecida em 1969.[7] O Vale do Amanhecer é uma doutrina sincrética que incorpora elementos do cristianismo, espiritismo, umbanda e esoterismo, bem como a iconografia egípcia, grega e indígena, características dessas correntes espirituais. Tia Neiva resume a doutrina do Vale do Amanhecer a três princípios: humildade, tolerância e amor; e um único preceito seguido por todos os médiuns: a rejeição ao álcool.[8]
O Vale do Amanhecer é frequentado por dois tipos de pessoas: médiuns e visitantes, que por vezes são pacientes de médiuns. Entre três e quatro mil pessoas visitam o Vale do Amanhecer todos os dias em busca de ajuda para seus problemas espirituais ou pessoais.[9][10]
Hoje, o Vale do Amanhecer conta com cerca de 800 mil médiuns iniciados, atuantes em mais de mil templos no Brasil e em outros países.[11] Em 1983, Tia Neiva concedeu entrevista à rede Manchete, na série documental "Os Brasileiros: Retrato Falado de um Povo".[12] Em 2023, foi lançado o curta-metragem Mother of the Dawn, do diretor Janell Shirtcliff, sobre a história de Tia Neiva e a fundação do Vale do Amanhecer.[13]
O complexo religioso do Vale do Amanhecer abrange templos e santuários edificados no bairro homônimo da região administrativa de Planaltina, do Distrito Federal, região onde também reside o Morro da Capelinha. Dentro do Vale, está a antiga casa onde viveu Tia Neiva, chamada por ela de Casa Grande, que atualmente se tornou um memorial onde estão preservadas fotografias, roupas e móveis de sua vida.
Veja também
[editar | editar código]Ligações externas
[editar | editar código]Referências
[editar | editar código]- ↑ a b c d e f Reis, Marcelo Rodrigues dos (21 de maio de 2010). «Tia Neiva : a trajetória de uma líder religiosa e sua obra, o vale do amanhecer (1925-2008)». Consultado em 29 de novembro de 2025
- ↑ a b c Santos, Jessica Kaline Vieira (5 de julho de 2023). «Entre patrimônios e narrativas orais: a trajetória de Tia Neiva e do Vale do Amanhecer em Planaltina - DF (1969 – 2021)». Consultado em 29 de novembro de 2025
- ↑ a b c d Reis, Marcelo Rodrigues dos (21 de maio de 2010). «Tia Neiva : a trajetória de uma líder religiosa e sua obra, o vale do amanhecer (1925-2008)». Consultado em 4 de dezembro de 2025
- ↑ «Caminhoneira trocou asfalto por viagens astrais». Consultado em 26 de Março de 2014
- ↑ Mouhamad, Letícia (30 de outubro de 2025). «100 anos de Tia Neiva e o legado de amor, humildade e tolerância». Cidades DF. Consultado em 29 de novembro de 2025
- ↑ «Portal Oficial dos Templos». valedoamanhecer.net.br. Consultado em 29 de novembro de 2025
- ↑ «Religião que funde espiritualismo com antigas civilizações atrai seguidores no Planalto Central». National Geographic. 14 de setembro de 2018. Consultado em 29 de novembro de 2025
- ↑ amanhecer, Vale do. «ÁUDIO - ENTREVISTA COM TIA NEIVA E MÁRIO SASSI». Acervo Koatay 108. Consultado em 4 de dezembro de 2025
- ↑ Oliveira, Amurabi. (2019). "Um Hospital Espiritual": os processos terapêuticos no Vale do Amanhecer. Revista Caminhos - Revista de Ciências da Religião. 12. 39. 10.18224/cam.v12i1.3027.
- ↑ Hayes, Kelly E. (29 de abril de 2020). «Brazilian mystics say they're sent by aliens to 'jump-start human evolution' – but their vision for a more just society is not totally crazy». The Conversation (em inglês). Consultado em 29 de novembro de 2025
- ↑ Veloso, Vinícius (19 de março de 2023). «História de vidente que criou o Vale do Amanhecer vira filme americano». www.metropoles.com. Consultado em 29 de novembro de 2025
- ↑ Ayrton Moussallem Britto (14 de novembro de 2024), Vale do Amanhecer, Espiritismo, IC e Candomblé na Série "Os Brasileiros" | Manchete | 1983, consultado em 4 de dezembro de 2025
- ↑ Mother of the Dawn, Bridge & Tunnel Films, 12 de março de 2023, consultado em 29 de novembro de 2025