Ir para o conteúdo

Tia Neiva

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Tia Neiva
Nascimento30 de outubro de 1925
Propriá
Morte15 de novembro de 1985
Brasília
CidadaniaBrasil
Ocupaçãomédium

Neiva Chaves Zelaya (Propriá, 30 de outubro de 1925Brasília, 15 de novembro de 1985), mais conhecida por Tia Neiva, foi uma médium clarividente brasileira, fundadora da doutrina do novo movimento religioso Vale do Amanhecer.[1]

Vida pessoal

[editar | editar código]

Neiva nasceu em 30 de outubro de 1925 em Propriá, interior do Sergipe, filha do topógrafo Antônio de Medeiros Chaves e de sua mãe Maria de Lourdes Seixas Chaves (D. Sinharinha). Neiva era a mais velha de seus 3 irmãos: Nivaldo, José Luís e Maria de Lourdes (Linda). Vivendo em uma família conservadora e católica, Neiva teria vivenciado visões e prenúncios quando criança, mas de acordo com seus filhos, Neiva era repreendida pelo pai. Devido a profissão do pai, a família frequentemente se mudava entre cidades, e na adolescência, passou a conviver na região de Jaraguá, no Goiás.[2]

Em 1943, Neiva casou-se, aos 18 anos, com o argentino Raul Zelaya Alonso, então secretário do engenheiro Bernardo Sayão e da Colônia Agrícola Nacional do Goiás (CANG).[2] Com Raul, Neiva teve 4 filhos: Gilberto, Carmem Lúcia, Raul Oscar e Vera Lúcia. Aos 22 anos, Neiva perdeu o seu mardio Raul Zelaya em 1949.[1]

Viúva precocemente, formada apenas até o terceiro ano do primário, com 4 filhos e sem recursos, Neiva buscou diversas atividades comerciais para sobreviver. Em Ceres, trabalhou com revelação de imagens fotográficas e abriu o Foto Neiva, mas devido o constante manuseio de produtos químicos, complicações respiratórias impediram que Neiva continuasse trabalhando com a fotografia. Também em Ceres, Neiva adotou sua afilhada, Gertrudes Chaves Zelaya, que se tornou a mais velha de suas filhas e passou a cuidar das demais na ausência da mãe.[3]

Posteriormente, trabalhou como costureira, agricultora e, por fim, aprendeu a dirigir e se tornou a primeira caminhoneira do Brasil.[4][5] Com seu caminhão e seus filhos a tiracolo, percorreu diversos estados brasileiros, atuando como frentista ou mascate, até fixar-se em Goiânia em 1954. Em 1957, Neiva recebe um convite, por parte de Bernardo Sayão, para trabalhar na construção de Brasília, após o mesmo ter sido indicado um dos diretores da Novacap em 1956.[3] A história foi contada por Gertrudes ao Jornal do Jaguar, um jornal criado posteriormente pelo Vale do Amanhecer, que seria fundado por Tia Neiva anos depois:

[...] Meu padrinho (Raul Zelaya Alonso, falecido marido de Neiva) era a segunda pessoa do Dr. Sayão e a vida era boa (em Ceres). [...] Veio do Dr. Sayão (o convite para vir para Brasília), que era padrinho de casamento dela. A gente veio morar num barracão aqui, era um frio, Goiânia era quente... Nós mudamos para o Núcleo Bandeirante, lá tínhamos um barraco de bambu coberto de lona. Lá ficamos alguns anos, mas íamos mudando, a gente sempre foi cigano mesmo (risos)

Em 1958, Neiva conheceu Mário Sassi, consultor de relações públicas na Universidade de Brasília.[2] Mudou-se para a Cidade Livre (atual Núcleo Bandeirante), onde, aos 33 anos, teve despertada a sua mediunidade.[1] Em 1985, poucos meses antes de sua morte, Neiva concedeu uma entrevista ao jornal Última Hora, onde descreveu a sua trajetória de vida:[3]

Jornalista: Para quem nasceu de uma família religiosa, nordestina, com padres e freiras, o começo deste trabalho espiritual deve ter sido muito difícil. Não foi, Tia Neiva?

Tia Neiva: Foi sim. Eles não gostavam de “macumbeiros” e nem de mulheres independentes. Só pela minha ousadia de ser uma viúva que queria viver sua própria vida já haviam me expulsado de casa uma vez.

Jornalista: Quer dizer que antes de todo este trabalho espiritual, a decisão de ser caminhoneira, principalmente em se tratando de uma viúva jovem e bonita, custou muito caro para a senhora?

Tia Neiva: Custou, mas valeu a pena. Eu sabia, eu sentia que tinha proteção de Deus. Eu sempre me considerei uma boa motorista. Dirigi por várias estradas deste Brasil. Naquela época, os carros não tinham a mecânica de hoje e nem as estradas eram pavimentadas, a não ser umas poucas, nos troncos principais. Por isto, eu era respeitada pelos meus colegas. Justamente por ser considerada boa motorista e boa companheira.

Espiritualidade

[editar | editar código]

Em 1958 deixou o Núcleo Bandeirante, onde começara sua missão espiritualista, e junto com seus filhos Gilberto, Carmem Lúcia, Vera Lúcia e Raul, e mais cinco famílias espiritualistas, fundou, em 8 de novembro de 1959, a União Espiritualista Seta Branca - UESB, na Serra do Ouro, próximo a Alexânia (GO).[1][6] Tia Neiva teria sido inspirada por uma aparição de um espírito de luz conhecido como Pai Seta Branca, um índigena da tribo dos Jaguares. A União Espiritualista Seta Branca foi fundada sob o pretexto do manifesto abaixo, publicado pela médium. O nome da organização teria sido dito por uma entidade chamada Yara, tida como uma entidade espiritual altamente evoluída e a alma gêmea do Pai Seta Branca, bem como o equivalente da Iara dos mitos tupi-guarani.[3]

"No dia 12 de Abril de 1959, em Brasília, Núcleo Bandeirante, capital da República do Brasil, Seta Branca, nosso mentor e guia espiritual, nos convida a formar um grupo de trabalho de caridade cristã. Este grupo, segundo orientação, terá uma grande responsabilidade diante de Deus. E está designado para produzir fenômenos, que servirão para abrir os olhos dos que não querem ver ou ouvir a palavra do Pai. Tomando nossas mãos com amor e carinho de pai amoroso, Seta Branca, depois de dar todas as explicações das responsabilidades que iríamos assumir diante da Espiritualidade Maior, convida-nos a meditar sobre os compromissos que se prestariam naquele momento. Declarando-nos que ficaria registrado nos livros divinos. Todos, sem hesitação, colocando a mão direita sobre a de nosso Mentor, que se comunicava no aparelho mediúnico de nossa dileta Irmã Neiva Chaves Zelaya, fizemos o juramento. Dizendo-nos, o nosso amado chefe, palavras de alta espiritualidade e imenso amor. Naquele momento estava constituído o grupo União Espiritualista Seta Branca. Nome este ditado pela Yara.

No templo, pacientes eram atendidos pelos médiuns que ali residiam, em construções de madeira e palha. Tia Neiva mantinha ali, também, um "hospital" e um orfanato com cerca de oitenta crianças. Plantavam, faziam farinha e tábuas para vender, e pegavam fretes.[1]

Em 9 de novembro de 1959, Tia Neiva ingressou na Alta Magia de Nosso Senhor Jesus Cristo. Em 1964 mudou-se para Taguatinga, onde funcionou a Ordem Espiritualista Cristã. Neste mesmo ano Tia Neiva foi internada por causa da tuberculose.[1]

Vale do Amanhecer

[editar | editar código]
Entrada principal do templo-mãe Vale do Amanhecer.
Entrada principal do templo-mãe Vale do Amanhecer.
Interior do Vale do Amanhecer.

Em 1964, Tia Neiva e seu grupo chegaram a Planaltina, onde fundaram uma comunidade intitulada Ordem Espiritualista Cristã, cujo nome oficial no cartório é "Obras Sociais da Ordem Espiritualista Cristã". A comunidade religiosa, contudo, ficou popularmente conhecida como o atual Vale do Amanhecer, oficialmente estabelecida em 1969.[7] O Vale do Amanhecer é uma doutrina sincrética que incorpora elementos do cristianismo, espiritismo, umbanda e esoterismo, bem como a iconografia egípcia, grega e indígena, características dessas correntes espirituais. Tia Neiva resume a doutrina do Vale do Amanhecer a três princípios: humildade, tolerância e amor; e um único preceito seguido por todos os médiuns: a rejeição ao álcool.[8]

O Vale do Amanhecer é frequentado por dois tipos de pessoas: médiuns e visitantes, que por vezes são pacientes de médiuns. Entre três e quatro mil pessoas visitam o Vale do Amanhecer todos os dias em busca de ajuda para seus problemas espirituais ou pessoais.[9][10]

Hoje, o Vale do Amanhecer conta com cerca de 800 mil médiuns iniciados, atuantes em mais de mil templos no Brasil e em outros países.[11] Em 1983, Tia Neiva concedeu entrevista à rede Manchete, na série documental "Os Brasileiros: Retrato Falado de um Povo".[12] Em 2023, foi lançado o curta-metragem Mother of the Dawn, do diretor Janell Shirtcliff, sobre a história de Tia Neiva e a fundação do Vale do Amanhecer.[13]

O complexo religioso do Vale do Amanhecer abrange templos e santuários edificados no bairro homônimo da região administrativa de Planaltina, do Distrito Federal, região onde também reside o Morro da Capelinha. Dentro do Vale, está a antiga casa onde viveu Tia Neiva, chamada por ela de Casa Grande, que atualmente se tornou um memorial onde estão preservadas fotografias, roupas e móveis de sua vida.

Veja também

[editar | editar código]

Ligações externas

[editar | editar código]

Referências

[editar | editar código]
  1. a b c d e f Reis, Marcelo Rodrigues dos (21 de maio de 2010). «Tia Neiva : a trajetória de uma líder religiosa e sua obra, o vale do amanhecer (1925-2008)». Consultado em 29 de novembro de 2025 
  2. a b c Santos, Jessica Kaline Vieira (5 de julho de 2023). «Entre patrimônios e narrativas orais: a trajetória de Tia Neiva e do Vale do Amanhecer em Planaltina - DF (1969 – 2021)». Consultado em 29 de novembro de 2025 
  3. a b c d Reis, Marcelo Rodrigues dos (21 de maio de 2010). «Tia Neiva : a trajetória de uma líder religiosa e sua obra, o vale do amanhecer (1925-2008)». Consultado em 4 de dezembro de 2025 
  4. «Caminhoneira trocou asfalto por viagens astrais». Consultado em 26 de Março de 2014 
  5. Mouhamad, Letícia (30 de outubro de 2025). «100 anos de Tia Neiva e o legado de amor, humildade e tolerância». Cidades DF. Consultado em 29 de novembro de 2025 
  6. «Portal Oficial dos Templos». valedoamanhecer.net.br. Consultado em 29 de novembro de 2025 
  7. «Religião que funde espiritualismo com antigas civilizações atrai seguidores no Planalto Central». National Geographic. 14 de setembro de 2018. Consultado em 29 de novembro de 2025 
  8. amanhecer, Vale do. «ÁUDIO - ENTREVISTA COM TIA NEIVA E MÁRIO SASSI». Acervo Koatay 108. Consultado em 4 de dezembro de 2025 
  9. Oliveira, Amurabi. (2019). "Um Hospital Espiritual": os processos terapêuticos no Vale do Amanhecer. Revista Caminhos - Revista de Ciências da Religião. 12. 39. 10.18224/cam.v12i1.3027.
  10. Hayes, Kelly E. (29 de abril de 2020). «Brazilian mystics say they're sent by aliens to 'jump-start human evolution' – but their vision for a more just society is not totally crazy». The Conversation (em inglês). Consultado em 29 de novembro de 2025 
  11. Veloso, Vinícius (19 de março de 2023). «História de vidente que criou o Vale do Amanhecer vira filme americano». www.metropoles.com. Consultado em 29 de novembro de 2025 
  12. Ayrton Moussallem Britto (14 de novembro de 2024), Vale do Amanhecer, Espiritismo, IC e Candomblé na Série "Os Brasileiros" | Manchete | 1983, consultado em 4 de dezembro de 2025 
  13. Mother of the Dawn, Bridge & Tunnel Films, 12 de março de 2023, consultado em 29 de novembro de 2025