Acesso privilegiado

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Em epistemologia, e em filosofia da mente, se diz que a primeira pessoa (o sujeito, o eu) tem acesso privilegiado aos seus próprios pensamentos. Isso significa que a primeira pessoa acessa (e conhece seus próprios pensamentos (tem autoconhecimento) de uma maneira que a terceira pessoa (os outros) não acessam. O acesso privilegiado pode ser caracterizado de duas maneiras:

  • Caracterização positiva: O acesso privilegiado decorre da introspecção.
  • Caracterização negativa: O conhecimento oriundo do acesso privilegiado não está baseado em evidências.

O que dizem os filósofos[editar | editar código-fonte]

A posição tradicional, e ainda dominante, defende que cada um de nós tem acesso privilegiado aos próprios pensamentos. Descartes é um exemplo paradigmático de defensor do acesso privilegiado (ainda que o termo seja posterior a ele):

Mas, ao rejeitar assim tudo aquilo de que podemos de algum modo duvidar e ao fingir [que o duvidoso] é até mesmo falso, decerto facilmente supomos que nenhum Deus exista, nenhum céu, nenhum corpo e que nós próprios não tenhamos mãos, nem pés, nem enfim corpo algum; mas nem por isso [supomos] que nós, que pensamos tais coisas, nada sejamos. Pois é contraditório julgar que o que pensa, no momento mesmo em que pensa, não existe. E, por conseguinte, este conhecimento eu penso, logo existo é, de todos, o primeiro e o mais certo a ocorrer a quem quer que filosofe com ordem.[1]

Para Descartes, temos acesso privilegiado mesmo no cenário extremo da dúvida. Isto é, temos autoconhecimento mesmo quando não podemos ter conhecimento de nenhuma outra coisa.

No extremo oposto à posição de Descartes está Gilbert Ryle. De acordo com o behaviorismo radical de Ryle, cada um de nós conhece os próprios pensamentos da mesma maneira que conhecemos os pensamentos dos outros. Conhecemos os pensamentos dos outros observando seu comportamento lingüístico e corporal, e temos que fazer o mesmo para conhecer nossos próprios pensamentos. Não há acesso privilegiado. Cada um descobre o que pensa a partir das evidências fornecidas pela fala e outros movimentos corporais.

Textos[editar | editar código-fonte]

Notas

  1. René Descartes, 1641, Princípios da Filosofia, Primeira Parte, Artigo VII, Rio de Janeiro, Editora UFRJ, 2002, tradução de Guido Antônio de Almeida e outros.