Batalha das Flores (1591)

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa

A Batalha das Flores foi um recontro naval que se feriu no contexto da Guerra Anglo-Espanhola (1585-1604), em 1591 ao largo da ilha das Flores, no arquipélago dos Açores entre uma frota de 22 navios da Inglaterra, sob o comando de Sir Thomas Howard e uma frota de 63 navios da Espanha, sob o comando de Alonso de Bazán, irmão de Álvaro de Bazán.

A armada inglesa fora enviada para a altura dos Açores com o objetivo de capturar a frota da prata, mas foi surpreendida na altura das Flores por uma esquadra espanhola superior em efetivo. Howard ordenou que as suas embarcações retirassem rumo ao norte, poupando-as, exceto o galeão "Revenge",1 que, surpreendido por uma segunda esquadra de espanhóis, ficou separado do resto da frota. Após uma batalha que durou até à noite, fora de ação, o "Revenge" rendeu-se.

História[editar | editar código-fonte]

Antecedentes[editar | editar código-fonte]

De forma a impedir uma recuperação naval espanhola após o episódio da Invencível Armada (1588), Sir John Hawkins propôs um bloqueio naval dos recursos espanhóis oriundos da América através de um patrulhamento constante no meio do oceano Atlântico visando interceptar as frotas espanholas da prata.

No Verão de 1591 essa comissão estava a ser executada pelo "Revenge", sob o comando de Sir Richard Grenville. Os espanhóis, entretanto, haviam despachado uma frota de aproximadamente 55 navios sob o comando de Alonso de Bazán, apoiada pelos comandantes Martín de Bertendona e Marcos de Aramburu. Bazán ficou ciente de que a frota inglesa patrulhava ao largo do norte dos Açores. Ao final de agosto de 1591, tendo-se-lhe juntado 8 embarcações portuguesas, sob o comando de Luís Coutinho, a frota espanhola descobriu a inglesa.

A frota de Howard foi apanhada a fazer reparos, enquanto as suas tripulações, em que muitos elementos padeciam de uma epidemia de febre, descansavam em terra.

A batalha[editar | editar código-fonte]

Bazán tentou surpreender a frota inglesa ancorada, mas o navio vice-almirante de Sancho Pardo perdeu o seu gurupés, causando o atraso do ataque. Não foi antes das cinco horas da tarde do dia 30 de agosto quando as embarcações de Bazán se precipitaram no canal que separa a ilha das Flores da do Corvo.

Howard, alertado da chegada dos espanhóis, manobrou para escapar para o mar aberto. Uma troca de tiros de artilharia teve lugar entre ambas as frotas, antes que se separassem. Grenville, contudo, preferiu dar combate, dirigindo-se diretamente para os espanhóis, que se aproximavam pelo oriente. Entretanto o "HMS Defiance", navio almirante de Howard, recebeu o fogo pesado da "San Cristóbal", sob o comando de Aramburu, antes de se retirar da batalha.

O "Revenge" foi deixada para trás, sendo atacado diretamente pela "San Felipe", sob o comando de Claudio de Viamonte. Viamonte abordou o galeão inglês, mas sofreu o infortúnio da perda do seu gancho de abordagem após a passagem de apenas 10 homens para bordo da embarcação inimiga. Pouco depois, a "San Bernabé", de Martín de Bertendona conseguiu o mesmo, desta vez com sucesso, e conseguiu resgatar sete sobreviventes da "San Felipe". O engajamento da "San Bernabé" foi decisivo para o destino do "Revenge", uma vez que o vaso inglês perdeu a vantagem estratégica do emprego de suas armas de longo alcance. De modo inverso, o pesado fogo de mosquetaria da infantaria espanhola forçou os atiradores ingleses a abandonar os seus postos para responder ao ataque.

Ao crepúsculo, tendo dispersado a maior parte da frota inglesa, a "San Cristóbal" dominou o "Revenge" sob o seu castelo de popa, colocando a bordo do navio inglês uma segunda vaga de abordagem, que lhe capturou a bandeira. Os soldados espanhóis foram entretanto repelidos para a área do mastro principal, antes que se conseguissem retirar sob o fogo de mosquetaria pesada feito do castelo de popa. O arco da "San Cristóbal" tinha se partido com o choque e ela necessitou pedir reforços. Desse modo, a "Asunción" de Antonio Manrique e a "La Serena" de Luís Coutinho atacaram então ao mesmo tempo, elevando o número de barcos que abordavam o "Revenge" para cinco, uma vez que ainda estava agarrado pelos galeões "San Bernabé" e pelo "San Cristóbal", danificado. Grenville repeliu-os com o fogo de artilharia e de mosquetaria até que, ele mesmo seriamente ferido e o "Revenge" severamente danificado, completamente desmastreado e com 150 homens mortos ou incapazes de combater, rendeu-se. Durante a noite, os barcos de Manrique e de Coutinho afundaram, após terem colidido um com outro.

Conclusão[editar | editar código-fonte]

Apesar do danos infligidos por Grenville, os sobreviventes do "Revenge" foram tratados pela armada espanhola com honra. Grenville, que tinha sido tomado a bordo do navio almirante de Bazán, faleceu dois dias depois. A frota espanhola da prata encontrou-se com a de Bazán logo depois, e ambas dirigiram-se à Espanha. Entretanto foram colhidos por uma violenta tempestade que se estendeu por uma semana, durante a qual o "Revenge" e 15 navios de guerra e mercantes espanhóis se perderam. O "Revenge" afundou com uma tripulação mista de 70 espanhóis e prisioneiros ingleses perto da ilha Terceira, na posição aproximada de 38° 46′ 9″ N e 27° 22′ 42″ W.

A batalha, contudo, marca o ressurgimento do poder naval espanhol, comprovando que as possibilidades inglesas da captura e derrota de uma frota de tesouro bem defendida eram remotas.

Ela também permitiu entrever o que poderia ter acontecido na batalha de Gravelines (1588) se D. Alonso Pérez de Guzmán el Bueno y Zúñiga (1550-1615), duque de Medina-Sidonia, tivesse conseguido engajar os navios ingleses em combate com a Invencível Armada, e se as balas da artilharia espanhola tivessem sido eficazes, manufaturadas que foram em diversas regiões do Império Espanhol, e assim de diferentes formas e tamanhos, o que comprometeu o seu emprego.

O poeta inglês Alfred Tennyson (1809-1892) imortalizou esta batalha e o arquipélago no poema "The Revenge. A Ballad of the Fleet" (1880):

Cquote1.svg At Flores, in the Azores, Sir Richard Grenville lay / And a pinnace, like a flutter'd bird, came flying from far away. Cquote2.svg
Lord Tennyson, The Revenge.

A captura e afundamento do Revenge constituiu um duro golpe para a marinha real inglesa uma vez que, construído em 1577, era exemplo da mais moderna tecnologia de construção naval da época.

Em 1971 o explorador britânico Sydney Wingall planeou realizar uma expedição internacional aos Açores para localizar os destroços do Revenge, mas a campanha, uma das primeiras a chamar a atenção para a importancia da arqueologia subaquática no arquipélago, jamais chegou a materializar-se.

Referências

  1. O Revenge, sob o comando de Francis Drake, fora a capitânea inglesa quando da batalha de Gravelines (1588) contra a Invencível Armada.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Earle, Pearl. The last fight of the Revenge. [S.l.]: Methuen, 2004. ISBN 0413774848
  • Fernández Duro, Cesáreo. Armada Española desde la unión de los reinos de Castilla y Aragón. Madrid, Spain: Est. tipográfico "Sucesores de Rivadeneyra", 1898. vol. III. (em espanhol)
  • Hammer, Paul E. J.. Elizabeth's wars: war, government, and society in Tudor England, 1544–1604. Hampshire, USA: Palgrave Macmillan, 2003. ISBN 9780333919422
  • Konstam, Anguas; MacBride, Angus. Armada Elizabethan Sea Dogs 1560–1605. Oxford, UK: Osprey Publishing, 2000. ISBN 9781841760155
  • Paine, Lincoln P.. Elizabeth's Warships of the world to 1900. New York, USA: Houghton Mifflin Harcourt, 2003. ISBN 9780395984147
  • RAMALHO, Américo da Costa. "Sir Richard Greenville's last fight. A new source". in Portuguese Essays, Lisboa, 1968. p. 37-45.
  • Simpson, Wallis. The reign of Elizabeth. Oxford, UK: Heinemann, 2001. ISBN 9780435327354
  • TEIXEIRA, Maria Irene Braz. "A Batalha da Ilha das Flores. Sir Richard Greenville e o Revenge". in Boletim do Instituto Histórico da Ilha Terceira, vol. 35-36, 1977-78. p. 199-315.

Ver também[editar | editar código-fonte]