DNDi

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DNDi

A iniciativa Medicamentos para Doenças Negligenciadas (DNDi, na sigla em inglês) é uma organização sem fins lucrativos de pesquisa e desenvolvimento (P & D) de medicamentos para doenças negligenciadas. Orientada pelas necessidades dos pacientes, a DNDi trabalha de forma colaborativa para desenvolver novas ferramentas de tratamento para doenças como a leishmaniose, a doença de Chagas[1] , a doença do sono (Tripanossomíase Humana Africana - THA), a malária, o HIV pediátrico[2] , e determinadas infecções por helmintos.


Atuando de acordo com o interesse público e para responder às necessidades dos pacientes, a DNDi preenche as lacunas existentes em P&D de medicamentos essenciais para estas doenças com projetos de P & D em colaboração com a comunidade científica internacional, o setor público, a indústria farmacêutica, e outros parceiros relevantes[3] . O principal objetivo da iniciativa é fornecer 11 a 13 novos tratamentos até 2018 para essas doenças e estabelecer um portfólio de P&D consistente. Ao fazê-lo, a DNDi também trabalha para fortalecer as capacidades existentes em países endêmicos, e desenvolver atividades de advocacy pela necessidade de desenvolver novos tratamentos para as doenças mais negligenciadas. Desde sua fundação, em 2003, a DNDi construiu o maior portfólio existente de P&D para doenças causadas por parasitas cinetoplastidas (THA, leishmaniose e doença de Chagas) e lançou 6 novos tratamentos: 2 para a malária, 1 para THA, 2 para a leishmaniose visceral, e 1 para a doença de Chagas.


Liderada por seu Diretor Executivo Bernard Pécoul[4] , a sede da DNDi fica em Genebra, na Suíça. A iniciativa também possui escritórios no Brasil, Quênia, Índia, Malásia, Japão, República Democrática do Congo, e uma filial nos EUA.


DNDi na América Latina[editar | editar código-fonte]

O escritório regional da DNDi na América Latina está localizado no Rio de Janeiro, onde funciona desde 2004. Com uma equipe local permanente e diversos consultores, o principal objetivo do escritório é apoiar, planejar e gerenciar atividades regionais de P&D de medicamentos para a doença de Chagas, malária e leishmaniose visceral. Para tanto, investiga sobre as condições e necessidades dos pacientes, estabelece parcerias, implementa projetos e promove treinamento e capacitação de recursos humanos, levando em consideração a importância de direcionar a P&D para ferramentas de saúde que sejam adaptadas e relevantes para o uso em campo no contexto da América Latina. Além disso, o escritório participa de diversos congressos científicos, contribui para publicações no campo das doenças negligenciadas, realiza a produção de filmes e documentários, bem como uma série de outras atividades de comunicação e de conscientização sobre as doenças negligenciadas, apontando para a necessidade de maior liderança política e estímulo à P&D que garantam o acesso a medicamentos essenciais.

Origens[editar | editar código-fonte]

Apesar dos grandes avanços no desenvolvimento de remédios nas últimas décadas, os medicamentos essenciais para tratar muitas doenças que afetam os mais pobres do mundo são demasiadamente caros, altamente tóxicos, ineficazes, ou deixaram de ser produzidos. Reconhecendo estas questões a partir de sua experiência no terreno, Médicos Sem Fronteiras, empregou os fundos do Prêmio Nobel da Paz de 1999 para desenvolver um modelo alternativo de pesquisa e desenvolvimento (P & D) de novos medicamentos para doenças negligenciadas.

Como resultado, em 2003, sete organizações de todo o mundo juntaram forças para fundar a DNDi: cinco instituições do setor público - a Fundação Oswaldo Cruz do Brasil, o Conselho Indiano de Pesquisa Médica, o Instituto de Pesquisa Médica do Quênia, o Ministério da Saúde da Malásia, o Instituto Pasteur da França -, uma organização humanitária, Médicos Sem Fronteiras (MSF, e uma organização de pesquisa internacional, o Programa Especial para Pesquisa e Treinamento em Doenças Tropicais (TDR)da Organização Mundial da Saúde, que atua como observador permanente da iniciativa.

Projetos em andamento[editar | editar código-fonte]

Trabalhando em parceria com a indústria privada, instituições públicas, universidades e ONGs, a DNDi construiu o maior portfólio existente de P&D para doenças causadas por parasitas cinetoplastidas e possui, atualmente, seis projetos em curso em fase de implementação, sete em fase clínica[5] [6] [7] , e nove em fase pré-clínica.

Realizações[editar | editar código-fonte]

Até hoje, a DNDi disponibilizou 6 novos tratamentos para doenças negligenciadas:

ASAQ

Lançado em 2007, este produto antimalárico é uma combinação em dose fixa de Artesunato + Amodiaquina. É o resultado de uma parceria inovadora entre a DNDi e a Sanofi. Produzido no Marrocos, este produto é barato (disponível por apenas US$ 0,50 para crianças, US$ 1,00 para adultos), administrado em um regime simples (1 ou 2 comprimidos por dia durante 3 dias) e atende às mais recentes orientações da OMS para o tratamento de malária (recomendação de tratamento da malária com terapias combinadas à base de artesunato - ACTs, na sigla em inglês). Até o fim de 2011, o ASAQ foi registrado em 30 países da África Subsariana, na Índia e na Colômbia, e mais de 120 milhões de tratamentos foram distribuídos.[8] [9]

ASMQ

O segundo tratamento antimalárico desenvolvido pela DNDi é uma combinação em dose fixa de Artesunato + Mefloquina,lançada em 2008. Desenvolvido por uma colaboração inovadora entre DNDi, Brasil e Sudeste Asiático no âmbito do Consórcio do Projeto FACT, este produto consiste em uma combinação 2-em-1, garantindo que ambos os medicamentos sejam tomados juntos em proporções corretas. Tem um esquema simples e adaptado, uma vida de prateleira de 3 anos e uma taxa de conformidade muito elevada. O ASMQ é produzido no Brasil por Farmanguinhos / Fiocruz e foi registrado em 2008. Graças a uma transferência de tecnologia Sul-Sul, agora é também produzido pela Cipla Ltd. e registrado na Índia (2011).[10]

NECT

NECT, uma terapia de combinação de Nifurtimox + Eflornitina, é a primeira nova opção de tratamento melhorado em 25 anos para o estágio 2 (estágio avançado) da Tripanossomíase Humana Africana (THA), também conhecida como doença do sono.[11] Resultado de seis anos de parceria entre ONGs, governos, empresas farmacêuticas, e a OMS, o NECT foi lançado em 2009 e incluído na lista de medicamentos essenciais da OMS. É mais barato e pede menor tempo de internação do que o tratamento anterior. É muito mais seguro do que o previamente utilizado Melarsoprol - medicamento à base de arsênico que mata 5% dos pacientes. Em 2011, o NECT já estava disponível em 12 países africanos, que respondem por 99% dos casos relatados de THA.[12] [13]

SSG & PM

O SSG & PM, uma terapia de combinação de estibogluconato de sódio + paramomicina, é uma opção de tratamento mais curta, de preço acessível, contra a Leishmaniose Visceral no leste da África, disponível desde 2010. É o resultado de uma parceria de seis anos entre a DNDi, a Plataforma de Leishmaniose da África Oriental (LEAP), os Programas Nacionais de Controle do Quênia, Sudão, Etiópia e Uganda, Médicos Sem Fronteiras (MSF) e a Organização Mundial da Saúde (OMS).[14]

Tratamentos VL na Ásia

Em 2010, um estudo que investigou as três possíveis combinações de dois medicamentos (entre AmBisome, Miltefosina e paromomicina) foi concluído na Índia. Todos os três tratamentos combinados foram mostrados altamente eficazes (> taxa de cura 97,5%). Um Comitê de Especialistas da OMS recomendou estes tratamentos a serem utilizados preferencialmente, em relação os atuais tratamentos em monoterapia estabelecidos para LV no Sul da Ásia. A DNDi está trabalhando com o TDR e a OMS para facilitar a introdução das três combinações e apoiar estratégias de eliminação de LV.[15]

Benznidazol Pediátrico

É o único tratamento em dose pediátrica para a doença de Chagas, lançado em 2011 através de uma colaboração entre DNDi e LAFEPE (Laboratório Farmacêutico do do Estado de Pernambuco). Ele é projetado para lactentes e crianças menores de 2 anos de idade (20 kg de peso corporal) infectadas de forma congênita. Adaptado à idade, fácil de usar, acessível e não-patenteado, o novo tratamento contribui para a precisão da dosagem, segurança e aderência ao tratamento. O benznidazol pediátrico foi registrado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária do Brasil (ANVISA), e deve ser registrado em países endêmicos.


Plataformas de pesquisa clínica[editar | editar código-fonte]

A DNDi trabalha em estreita colaboração com parceiros em países endêmicos para fortalecer a capacidade de investigação clínica existente, bem como construir nova capacidade, quando necessário. A DNDi ajudou na criação e trabalha com 3 plataformas regionais para doenças específicas na África e na América Latina:

  • Plataforma de Pesquisa Clínica em Doença de Chagas
  • Plataforma de Leishmaniose da África Oriental (LEAP)
  • Plataforma de Tripanossomíase Humana Africana (HAT), para doença do sono na África

A missão destas plataformas é definir as necessidades dos pacientes, levando em consideração as condições locais, reunir os principais atores regionais no domínio da saúde, reforçar as capacidades clínicas em regiões endêmicas, atender aos requisitos de infra-estrutura, quando necessário, e promover treinamentos. Estas plataformas contribuem para aumentar as chances de registro, a absorção e acesso sustentável de novos tratamentos.

Amigos da DNDi[editar | editar código-fonte]

Indivíduos de renome apoiam a DNDi, como o ex-Ministro da Saúde do Brasil José Gomes Temporão, Stephen Lewis, Rowan Gillies, Ricardo Preve, e Abdallah Daar.

Referências

  1. # ^ Nature Outlook Chagas Disease supplement. Nature Supplement, 2010 June, Vol. 465, No. 7301 suppl. ppS3-S22
  2. # ^ Pediatric HIV - A Neglected Disease ? by Lallemant M, Chang S, Cohen R, and Pécoul R. The New English Journal of Medicine. 2011 August. 365:581-583.
  3. # ^ Future Medicinal Chemistry, "DNDi model of drug development for neglected diseases: current status andfuture challenges" - September 2011
  4. The Lancet, "Bernard Pécoul: championing the cause of neglected disases" - August 2010
  5. # ^ SCYX-7158, an Orally-Active Benzoxaborole for the Treatment of Stage 2 Human African Trypanosomiasis by Jacobs R.T, Nare B, Wring S.A, Orr M.D, Chen D, Sligar J.M, Jenks M.X, Noe R.A, Bowling T.S, Mercer L.T, Rewerts C, Gaukel E, Owens J, Parham R, Randolph R, Beaudet B, Bacchi C.J, Yarlett N, Plattner J.J, Freund Y, Ding C, Akama T, Zhang Y-K, Brun R, Kaiser M, Scandale I, Don R. PLoS NTD. 2011 June. e1151. doi:10.1371/journal.pntd.0001151 utm_campaign=Feed%3A+plosntds%2FNewArticles+%28Ambra+-+Neglected+Tropical+Diseases+New+Articles%29
  6. # ^ Synthesis of 2H- and 14C-labeled fexinidazole and its primary metabolites labeled with 2H by E. Fontana, Alberto Pignatti, Serena Venegoni, and Michael A. Bray. The Journal of labelled compounds and radiopharmaceuticals. August 30, 2011. DOI: 10.1002/jlcr.1914
  7. # ^ Novel 3-Nitro-1H-1,2,4-triazole-based Aliphatic and Aromatic Amines as anti-Chagasic Agents by Maria V. Papadopoulou, Bernadette Bourdin, William D Bloomer, Caroline McKenzie, Shane R. Wilkinson, Chaiya Prasittichai, Reto Brun, Marcel Kaiser, and Els Torreele. Journal of Medicinal Chemistry, Online, October 24, 2011
  8. # ^ Innovative public-private partnerships to maximize the delivery of anti-malarial medicines: lessons learned from the ASAQ Winthrop experience by Bompart F, Kiechel J-R, Sebbag R, Pecoul B. Malaria Journal. May 2011, 10:143doi:10.1186/1475-2875-10-143
  9. # ^ The initial pharmaceutical development of an artesunate/amodiaquine oral formulation for the treatment of malaria: a public-private partnership by Lacaze C, Kauss T, Kiechel J-R, Caminiti A, Fawaz F, Terrassin L, Cuart S, Grislain L, Navaratnam V, Ghezzoul B, Gaudin K, White N.J, Olliaro P, Millet P. Malaria Journal. May 2011, 10:142doi:10.1186/1475-2875-10-142
  10. # ^ Effect of artesunate and mefloquine in combination on the Fridericia corrected QT intervals in Plasmodium falciparum infected adults from Thailand by Krudsood S, Looareesuwan S, Wilairatama P, Leowattana W, Tangpukdee N, Chalermrut K, Ramanathan S, Navaratnam V, Olliaro P, Vaillant M, Kiechel J-R, Taylor V.R.J. Tropical Medicine and International Health, 2011 January, doi:10.1111/j.1365-3156.2010.02714.x.
  11. # ^ The Guardian, "New treatments raise hope of cutting sleeping sickness deaths" - May 2010
  12. # ^ NECT Is Next: Implementing the New Drug Combination Therapy for Trypanosoma brucei gambiense Sleeping Sickness by Yun O, Priotto G, Tong J, Flevaud L, Chappuis F. PLoS NTD, 2010 May, 4(5):e720
  13. # ^ Nifurtimox-eflornithine combination therapy for second-stage African Trypanosoma brucei gambiense trypanosomiasis: a multicentre, randomised, phase III, non-inferiority trial by Priotto G, Kasparian S, Mutombo W, Ngouama D, Ghorashian S, Arnold U, Ghabri S, Baudin E, Buard V, Kazadi-Kyanza S, Ilunga M, Mutangala W, Pohlig G, Schmid C, Karunakara U, Torreele E, Kande V. In Lancet. 2009; 374:56-64.
  14. # ^ Visceral leishmaniasis treatment: What do we have, what do we need and how to deliver it? By Lucio H. Freitas-Junior, Eric Chatelain, Helena Andrade Kim, Jair L. Siqueira-Neto. International Journal for Parasitology: Drugs and Drug Resistance, Volume 2, December 2012
  15. # ^ Comparison of short-course multidrug treatment with standard therapy for visceral leishmaniasis in India: an open-label, non-inferiority, randomised controlled trial by Sundar S, Sinha P.K, Rai M, Verma D.K, Nawin K, Alam S, Chakravarty J, Vaillant M, Verma N, Pandey K, Kumari P, Lal C.S, Arora R, Sharma B, Ellis S, Strub-Wourgaft N, Balasegaram M, Olliaro P, Das P, Modabber F. Lancet, 2011 January, DOI:10.1016/S0140-6736(10)62050-8.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]