Marie Joseph Chalier

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Chalier.

Marie Joseph Chalier, (Beaulard, perto de Susa, 1747 - Lião, 17 de julho de 1793) foi um ex-padre e revolucionário francês, cuja execução na guilhotina levou a Convenção a decretar a destruição daquela cidade.

Biografia[editar | editar código-fonte]

Chalier pertencia a uma família de advogados. Fez o noviciado com os dominicanos e, em seguida, foi preceptor, até que finalmente entrou para o serviço junto aos comerciantes de seda de Lião, para quem excursionou pela Europa mediterrânea.[1]

Em 1789 aderiu entusiasticamente aos ideiais revolucionários. No 14 de julho participou da Queda da Bastilha.[1] Torna-se um fanático das novas ideias, leitor voraz das obras de Jean-Jacques Rousseau e venera Marat como a um deus, a ponto de lhe decorar os discursos, repetindo-os aos operários lioneses; da Bastilha levara até Lião, a pé e com as mãos nuas, uma das pedras, numa jornada que durou seis dias e noites. Lá chegando, ergueu um altar, sobre a qual depositou a pedra.[2] A partir daí, em janeiro-fevereiro de 1790 publica artigos em prol dos revolucionários.[1]

Em Lião participa da tomada do Arsenal. Desde os violentos ataques de 1786 que Lião conhece movimentos populares que se tornam crônicos. O conservadorismo do patriciado favorece sua ascensão: à frente de um importante movimento que reunia seis mil membros de clubes seccionais (coordenados por um clube central) torna-se em novembro de 1790 funcionário municipal, membro da comissão de comércio e da indústria e, depois, juiz do tribunal de comércio. Entretanto, por causa de sua impetuosidade, é acusado de abuso de poder e suspenso, o que o fez dirigir-se, em dezembro de 1791, até Paris para reclamar à justiça.[1]

A queda do trono levou à substituição dos diretores dos departamentos do Rhône-et-Loire pelo republicano Jean-Marie Roland de La Platière, ao tempo em que retornava a Lião. À frente dos seus partidários girondinos (apelidados de "Chaliers") mobilizam os sans-culottes lioneses nas demandas sociais: abolição do comércio privado dos grãos, nacionalizaçãos dos moinhos e administração estatal das fábricas de alimentos, estabelecimento de salário mínimo diário para os trabalhadores das tecelagens de seda.[1]

A partir de novembro de 1792, quando das eleições municipais, assume o controle do Clube Central e das diversas seções eleitorais. Chalier encabeça a lista dos candidatos a prefeito, mas é derrotado por seu rival na Gironda, Antoine Nivière-Chol. Muitos dos chaliers contudo conquistam as sedes municipais, e conseguem para Chalier a presidência do Tribunal Distrital, que ele tenta transformar em tribunal revolucionário.[1]

Em seus discursos Chalier adota o tom profético e a retórica vingativa de Marat. Sujeito à pressão dos chaliers, o município concorda em tomar medidas progressivamente contrárias ao liberalismo econômico.[1]

Em 6 de fevereiro de 1793 o Clube central organiza um encontro secreto durante o qual, ao que parece, decidiu-se organizar um dia revolucionário, a fim de dominar a Câmara Municipal e levar os adversários ao Tribunal. Informado da trama, Nivière-Chol causou uma crise apresentando sua demissão: mas foi triunfalmente reeleito em 18 de fevereiro, com 80% dos votos. Mas, diante do crescimento dos monarquistas, acaba desistindo. Alertados de sua demissão pelo Clube Central, a Convenção enviou a Lião três montanhistas (Rovère, Legendre e Basire), que favorecem a eleição de Antoine-Marie Bertrand, amigo de Chalier, a 8 de março.[1]

Sob pressão dos chaliers, que reforçam seus laços com o Clube dos Jacobinos e estabelecem um Comitê de Salvação Pública do Rhône-et-Loire, é criado um exército revolucionário e fortalecido o Clube central.[1]

Por outro lado os moderados investem nas assembleias das seções e controlam, até abril, 22 comitês e 14 clubes secionais. Seu crescimento se deve grandemente à impossibilidade de Chalier em melhorar as condições sociais, e ao peso excessivo dos impostos cobrados para a manutenção do exército revolucionário.[1]

Em 29 de maio de 1793 23 das 32 seções se dirigem contra a Câmara Municipal. Chalier e seus partidários são presos e municipalidade é suspensa, sendo criada uma nova, provisória, e os enviados da Convenção rechaçados, sendo Chalier levado a julgamento.[1] Por meio de uma carta forjada, armam-lhe a condenação à morte - uma forma de advertirem os extremistas e de confronto à Convenção,[2] sendo finalmente executado na Praça des Terreaux, em 17 de julho.[1]

No patíbulo Chalier profetiza: "Minha morte custará caro a esta cidade!"[3]

Mas a guilhotina, quer pela falta de uso, quer pela inabilidade de seus manejadores, não funciona como devido: por uma, duas, três vezes desce a lâmina sobre o pescoço de Chalier, sem contudo cortá-lo: seu corpo algemado se contorce, banhado em sangue, até que o carrasco usa um sabre para concluir a decapitação, para horror do povo que a tudo assistia.[2]

À notícia desses eventos a Convenção decreta o cerco e destruição da cidade, elevando Chalier ao status de Mártir da República, ao lado de Saint-Fargeau e de Marat.[1]

Esta execução foi o estopim da Revolta lionesa contra a Convenção,[3] e Chalier seria vingado com a destruição de Lião por Collot d'Herbois e Joseph Fouché.

Referências

  1. a b c d e f g h i j k l m Albert Soboul (dir.). Dictionnaire historique de la Révolution française. [S.l.]: PUF, 1989. Verbete Marie Joseph Chalier, por François Wartelle pp.
  2. a b c Stefan Zweig. Joseph Fouché: Retrato de um homem político (tradução de Medeiros e Albuquerque). Rio de Janeiro: ed. Guanabara / Waissman Koogan Ltda., 1945. p. 49 e seg. (Cap. II: O "Metralhador de Lyon".
  3. a b Otto Flake (tradução de Alcides Rössler). A Revolução Francesa. Porto Alegre: Globo, 1937. p. 185 e seg..