Oscar Cullmann

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Oscar Cullmann nasceu em Strasbourg, cidade que faz fronteira com a Alemanha, em 25 de fevereiro de 1902. Sua cidade já estava sob domínio alemão por quase trinta anos e mesmo assim ainda mantinha um caráter francês. Seus pais era luteranos e educaram seu filho nessa confissão.

Colou o grau de bacharel em teologia em 1924 e sendo alguém de cultura bilíngüe, logo se destacou por isso. Em Paris tornou-se instrutor de grego e latim na École de Batignolles neste mesmo ano.

Em 1938 por causa da sua fama como erudito do Novo Testamento e história da Igreja primitiva, foi convidado para lecionar em Basiléia. Nesse período até 1972 desenvolveu muitos estudos e também fundou em Basle um centro de teologia ecumênica, onde promoveu encontros com teólogos católicos romanos e ortodoxos. Essa tendência ecumênica o fez um observador oficial do concílio Vaticano II (1962-1965). Sua morte se deu em 1999, aos 96 anos na cidade de Chamonix, França.

Obras[editar | editar código-fonte]

No Brasil poucas obras de Cullmann foram traduzidas, cerca de quatro. Três livros formam a tese principal da essência do cristianismo para o teólogo de Strasbourg: Cristo e o Tempo (Custom 2003), Cristologia do Novo Testamento (Custom 2002) e Heil als Geschichte (Salvação como história 1965) que ainda não foi traduzido para o português. No livro Cristo e o Tempo, Cullmann busca o elemento central da mensagem cristã. Cristo é o ponto central, e é nele que gira toda a soteriologia. Para Cullmann a história completa da salvação, que constitui o desígnio de Deus, está ligada com um evento ímpar: todo o passado dessa história da salvação tende a essa intervenção, e dele se origina todo o presente que representa na sua realização universal e permanente todo o futuro da redenção. Neste livro enfoca que o tempo histórico inaugurado por Jesus, não só confere sentido ao passado e ao presente, como constitui, na história, uma realização antecipada do Reino, que só se tornará pleno na escatologia. Cristologia do Novo Testamento considera os principais títulos empregados por e para se referir a Jesus no NT. Ele enfatiza a importância cristológica do ofício de “Profeta” e “Sumo Sacerdote”. Ao tratar sobre o “Servo de Deus” e “Filho do Homem”, ele mostra a “autoconsciência” de Cristo sobre si. Ao analisar o título “Messias” e “Filho do Homem”, ver isso como ênfase na obra futura de Cristo. “Senhor” e “Salvador”, ilustra a obra presente; “logos” e “Filho de Deus” enfatizam sua preexistência. Esse livro prioriza exclusivamente a cristologia funcional e nega a cristologia ontológica. Heil als Geschichte é um livro de cerca de 350 páginas que trata diversos assuntos, dentre eles destaca-se sua conclusão que apresenta as implicações teológicas e sistemáticas da doutrina da história da salvação. Cullmann trava sua maior de todas as batalhas, o combate a Rudolf Bultmann. Para ele, a interpretação de Bultmann que considerava a revelação como mitológica, não passa de uma redução do evangelho para conformá-lo com os pressupostos filosóficos modernos engendrados no método histórico crítico. Cullmann insiste que a existência cristã e a história da salvação (heilsgeschichte) são inseparáveis. A compreensão desses fatos históricos e o chamado à fé só são possíveis porque fatos históricos ocorreram completamente fora do homem e estranhos a ele. A “fé” nada mais é do que a disposição a deixar que minha existência seja julgada e plasmada por tais fatos: é testemunho para a história da salvação. Importante na visão de Cullmann é o papel da palavra na Heilsgeschichte. Eventos redentivos não falam por si mesmos; eles são sempre acompanhados por uma palavra de interpretação. A mensagem do Novo Testamento é a mensagem de eventos redentivos interpretados. A interpretação não é algo estranho aos eventos, mas pertence à história da redenção. Há uma interação dinâmica entre palavra e evento ; novos eventos freqüentemente resultam em interpretações revisadas de eventos anteriores. Os eventos históricos são reveladores somente quando são acompanhados pela palavra de revelação. É a completação do Cânon que marca o fim de todo o procedimento histórico da intepretação. É sem sentido ver a história bíblica separada desta interpretação essencial, é vê-la estritamente como historisch, que para Cullmann não deixa espaço para os atos redentivos de Deus, embora o historiador incrédulo ouça e repita o que a Bíblia diz. Cullmann insiste contra Bultmann que a rejeição contemporânea da Heilsgeschichte não é devido à visão moderno do mundo ou mesmo ao entendimento científico da natureza. Eles não aceitam por causa do escândalo da salvação e revelação ocorrida na história; e isto foi um problema para os cristãos do primeiro século bem como para nós hoje. Por causa de um livro editado (Cristo e o Tempo), outros três precisaram ser escritos para responder as críticas. Agora que Cullmann já está morto, não poderá se defender caso precise. O fosso que Immanuel Kant (1781) deixou por causa do seu livro Crítica da razão pura casou uma divisão desastrosa entre o Cristo da Fé e o Jesus Histórico. Esse fosso fez uma separação entre as verdades contingentes (cuja verdade ou falsidade só pode ser conhecida pela experiência e, não, pela razão) e verdades necessárias da razão. Deste modo, Kant acreditava ser necessária a destruição de qualquer base filosófica ou científica de crença em Deus. “Portanto, acho necessário”, ele disse, “negar o conhecimento, para dar espaço à fé. Kant dizia que só posso abordar a religião pelo âmbito da fé, que trata da razão prática (ligada à experiência), não da razão teórico (racionalidade). Ao fazer essa divisão ele afetou a cosmovisão do mundo, criando um fosso entre o objetivo (científico e cognoscível – racional) e o âmbito incognoscível do valor (moralidade e religião – irracional). Essa dicotomia fez com que a teologia ficasse ou do lado “racional” (negando a revelação) ou do lado irracional (salto de fé no escuro - existencialismo). O existencialismo é tão subjetivo que tende ao misticismo. Sem critérios objetivos, não há como diferenciar o encontro com o real do encontro com a ilusão. Para os existencialistas teístas, não há como o indivíduo saber se encontrou o verdadeiro Deus ou o subconsciente – ou mesmo até o Diabo (2 Co. 11:14). Considerar a história na teologia como Cullmann fez é evitar grande parte desse risco. Ao criar essa divisão muitos teólogos viram a ponte cair e acabaram se situando ou de um lado ou de outro. Bultmann, por exemplo, sustentava que não interessava para ele o Jesus do âmbito objetivo, mas sim, o Cristo da fé. Fé para Bultmann é a minha resposta ao kerigma, não a uma figura histórica do passado. A teologia liberal racionalista ficou com o cientificismo e negou todo o sobrenatural na Bíblia. Ele parece ensinar um universalismo na Bíblia. É possível que isso seja uma interpretação equivocada. Quanto a ideia da Heilsgeschichte não fazer distinção entre a Igreja e Israel, é um pouco confuso em Cullmann, como também com Ladd. Ele escreveu o seguinte: Na mesma passagem da Epístola aos Romanos, antes do grito de admiração, o apóstolo anuncia o “mistério” da história da salvação. Este mistério é constituído pelo endurecimento de Israel que permite “a entrada” da multidão dos gentios, mas que durará somente até que essa função seja cumprida, após a qual, no fim, Israel se converterá também (Rm. 11:1 ss). No entanto, em outros lugares ele diz que a igreja é o remanescente de Israel. Parece existir uma tendência exacerbada no encontro pessoal com Jesus como se a revelação fosse só pessoal. Quando conhecemos outras pessoas ou Deus, o pessoal não pode ser totalmente destituído do proposicional. Podemos dizer algo sobre as pessoas por meio de proposições. Com quantas pessoas nos relacionamos às vezes intimamente por cartas? Da mesma forma, a Bíblia é uma revelação proposicional sobre o Deus pessoal. Por mais que Cullmann ataque Bultmann pela sua demitologização, ele também sustenta o mito na Bíblia. Ele não tem a intenção de distingui a linha do tempo da revelação da mitologia no seu espectro. Ele nos fala que pode-se constatar, à primeira vista, que o cristianismo primitivo não fez nenhuma distinção a este respeito. Para Cullmann a criação no passado e escatologia no futuro são mitos não históricos mas são, entretanto, para serem vistos como evento temporal e não atemporal. Ele não acreditava que Adão fosse uma personalidade histórica e, é por isso, que insiste sobre temporalidade. Aqui Cullmann ignora as passagens do NT que correlacionam a realidade histórica do primeiro homem (Adão) com o segundo homem (Jesus) (Rom. 5:14-17; 1 Co. 15:22). Outro ponto fraco aqui é que ele não elucida como o mitológico se tornou temporal. Como Gordon Clark aponta, a “demitologização” de Bultmann é recolocado pela “en-mitologização de Cullmann. Bultmann trata mito como mito, mas Cullmann trata mito como história.

Referências Bibliográficas:

Battista Mondin. Os grandes teólogos do século vinte. Vol II. pp. 139-141.
Parte de uma breve história de Cullmann na orelha do livro das Origens do Evangelho. Fonte Editorial, Ed. 2, 2004.
Este livro foi editado em 1946 pela Evangelischer Verlag, Zurich. Infelizmente só em 2003 foi traduzido para o português pela Custom Editora. Por causa de pontos não claros por parte de Cullmann, muitos ataques apareceram nos embates teológicos, e isso, o levou a editar outros livros dando continuidade ao seu pensamento. 
Die christologie des Neuen Testaments (Mohr, Tübingen, 1957). Estas datas insinuam o atraso teológico que vivemos no Brasil. 
Oscar Cullmann. Cristo e o Tempo: Tempo e História no Cristianismo Primitivo. Trad. Daniel Costa. São Paulo: Custom, 2003. 296p.
Id. Cristologia do Novo Testamento. Trad. Daniel de Oliveira e Daniel Costa. São Paulo: Custom, 2002. 440p.
Bultamann não considerou a cristologia na sua Teologia do Novo Testamento, porque para ele seria impossível encontrar o Jesus real que está misturado no kerigma primitivo, e esse kerigma era o puro mito. Veja o ensaio de Ladd. The Role of Jesus in Bultmann´s Tehology. Scottish Journal of Theology. Vol 18 (1965) pp. 57-68.
Oscar Cullmann. Heil als Geschichte. p. 172.
Bultmann acreditava que a fé não tem que repousar sobre a história e não se interessava pela pessoa histórica de Jesus, mas pelo kerigma da igreja mediante uma resposta de fé. Cf. Ladd. History and Theology in Biblical Exegesis. p. 59.
Cullmann aproxima-se de Bultmann aqui, mas não entra em um existencialismo profundamente bultmanniano, mas procura trabalhar um “bom existencialismo”, pois, enfatiza eventos históricos (geschichtlich – real) e eventos historicistico (historish – ligado ao cientificismo histórico que nega o sobrenatural).
Oscar Cullmann. Heil als Geschichte. p. 62.
Id. Ibid., p. 71.
Robert J. Blaikie Christianity and God Who Acts. p. 148, insinua que Cullmann também se inclina em direção do confuso positivismo histórico porque usou o termo eventos e não atos, dando uma ideia de algo impessoal. Blaikie nisto está equivocado, pois Cullmann usa “atos salvíficos” como “eventos salvíficos” de forma intercabiável. Cf. uma análise da declaração de Blaikie em Carl F. H. Henry. God, Revelation and Authority. Vol II. p 292.
Oscar Cullmann. Heil als Geschichte. pp. 85–86, 92. Assim a ressurreição capacitou os discípulos a revisarem o seu entendimento de Jesus antes páscoa. 
Id. Ibid. p. 73. 
Id. Ibid., p. 272.
Id. Ibid. p. 53.
Id. Ibid., p. 294s. É de fato um escândalo intrínseco e não pode simplesmente ser evitado. O esforço de Bultmann para fazer o evangelho relevante para o “homem moderno” sem um sacrificium intellectus, na realidade sacrifica o coração da mensagem bíblica: a auto-revelação de Deus na história. 
George E. Ladd. History and Theology in Biblical Exegesis. p. 63. Embora Ladd não concorde em todos os detalhes com Cullmann, ele insiste na interação entre história e teologia, e revelação nos eventos redentivos que são sempre acompanhados pela palavra de interpretação cujo produto final é fundamental para o NT.
Christian Reflections. p. 161-163.
Immanuel Kant. Crítica da Razão Pura. Prefácio. p. 29. 
Norman Geisler. Enciclopédia Apologética. São Paulo: Vida, 2001. p. 226.
Id. Ibid., p. 333.7
Veja o ensaio de Ladd sobre o papel de Jesus na teologia de Bultmann in Scottish Journal of Theology. 1965:18, pp. 57–58.
Universalismo na teologia diz respeito a salvação de todos os homens indescrimidamente (ninguém irá para o inferno). Veja sua análise de Romanos 8:21 ss em que parece defender a salvação de todos os homens. Cullmann nos fala o seguinte: da mesma forma que a sorte da totalidade da criação depende do comportamento do homem, da mesma forma o será, antes de tudo, a história de um só povo que determinará a salvação de todos os homens. Cf. Cristo e o Tempo. pp. 144 e 158.
Veja por exemplo o prefácio de Cristo e o Tempo por Ricardo Quadros Gouvêa. p. 19
Id. Ibid., p. 117.
Cf. a análise que Battista Mondin faz de Oscar Cullmann em Grandes Teólogos do Século XX. pp. 160–163.
George E. Ladd. Teologia do Novo Testamento. Edição Revisada. p. 44. 
Norman Geisler. Enciclopédia de Apologética. p. 333. A revelação é tanto proposicional como pessoal. Cf. Millard J. Erickson. Christian Theology. Grand Rapids: Baker, 1985. pp. 191–195.
Oscar Cullmann. Cristo e o Tempo. p. 135.
Id. Ibid., p. 135. Para ele a justaposição de história e mito sobre a linha comum de um desenvolvimento temporal se situa no centro mesmo da concepção que a Igreja primitiva tinha da salvação. Cf. p. 136.Gordon Clark. Historiography – Secular and Religious. Nutley, NJ: Craig Press, 1971. p. 344.

É interessante notar que quando da publicação de Cristo e o Tempo, a segunda geração dos annales do campo histórico estava surgindo na cena mundial ropendo com aquele positivismo alemão. O estruturalismo de Braudel não parece ter influenciado tanto Cullmann, embora seja estranho que sua posição seria aplaudida pela terceira geração dos annales muito mais tarde porque comporta mito como história.