Quilombo do Carucango

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Foi provavelmente o maior quilombo que existiu no estado do Rio de Janeiro. O nome do quilombo refere-se ao seu líder chamado de Carucango, Curukango ou Querucango (Moçambique, fins do século XVII - Conceição de Macabu, 28 de abril de 1831).

O escravo Carucango[editar | editar código-fonte]

No início do século XIX chegou ao porto de Macaé um escravo moçambicano, baixo, corcunda, manco da perna esquerda, conhecido como Carucango. O escravo ficara conhecido no tumbeiro como líder espiritual ou nos dizeres da época: feiticeiro.

Carucango foi vendido ao fazendeiro Francisco Pinto, cuja família era muito numerosa e poderosa na região. As suas fazendas ficavam na Freguesia de Nossa Senhora das Neves e Santa Rita, atualmente parte do município de Macaé, que na época pertencia à cidade de Cabo Frio.

O escravo continuou a ser um "negro boçal": não aprendeu português e não abandonou suas crenças e costumes africanos. Resistiu ao trabalho com sabotagens e negligências, e estabeleceu liderança espiritual sobre os outros escravos da fazenda. Foi submetido várias vezes ao açoitamento no tronco, algumas vezes ao bacalhal.

Formação do Quilombo[editar | editar código-fonte]

Certa noite, os escravos arrobaram as portas das senzala e evadiram-se. Os escravos velhos, que não aceitaram fugir, foram degolados para que não delatassem os planos dos demais. Os rebeldes assaltaram o armazém da fazenda, apoderando-se de ferramentas, facões, alimentos e cordas. O feitor e os patrões perseguiram os fugitivos com tiros, mas a fuga foi bem sucedida.

Os escravos seguiam para o cume das montanhas da Serra do Deitado, região habitada na época somente por índios e fugitivos, que hoje faz parte dos municípios de Macaé e Conceição de Macabu. Lá, perto da nascente do rio Deitado, afluente do rio São Pedro, encontraram um platô grande onde construíram um abrigo coletivo, que ocultava a entrada de uma caverna. Ao redor, passaram a cultivar plantações diversas: milho, cana, feijão, mandioca, inhame, favas, maxixe. A alimentação era complementada pela caça e coleta de frutas, palmito e raízes da região.

Nos meses seguintes, ocorreram várias fugas nas fazendas da região. Os confrontos entre proprietários e fugitivos tornaram-se cada vez mais intensos, havendo mortes de pessoas brancas como a de um irmão de Francisco Pinto e seus familiares.

Os quilombolas realizavam roubos nas fazendas mais próximas para obter sementes, alimentos, ferramentas e armas. Nas incursões, as escravas eram levadas para o quilombo á força ou por livre vontade. Em um ataque frustrado à fazenda de seu antigo dono, Carucango foi reconhecido como líder dos quilombolas, mas conseguiu escapar mesmo depois de ferido à bala.

A partir daí, foram feitas petições às autoridades locais pedindo-se para destruir o quilombo que ameaçava a paz social. As milícias da cidade de Cabo Frio e da vila de Macaé foram consideradas fracas para enfrentar os quilombolas. Então foi pedido auxílio ao coronel Antônio Coelho Antão de Vasconcellos, chefe do Distrito Militar da Capitania do Espírito Santo, que naquela época se estendia até Campos dos Goitacazes.

Destruição do Quilombo e Morte de Carucango[editar | editar código-fonte]

As milícias do Espírito Santo juntaram-se com as da cidade de Cabo Frio e da vila de Macaé, além de voluntários de toda a região, em especial da família Pinto. Apesar de ser uma força militar bem superior em armamento e organização, as milícias desconheciam o terreno e foram sucessivamente repelidas em confrontos que ocorreram no alto de montanhas e dentro das florestas virgens.

O coronel Antão Vasconcellos, experiente militar que havia chegado ao Brasil com Dom João VI, percebeu que teria de mudar de tática, abandonando os ataques em massa e tentando surpreender o inimigo.

Um novo plano foi iniciado após a captura de um quilombola que, sob tortura, confessou a exata localização do quilombo. Todas as trilhas foram bloqueadas, as milícias fizeram sucessivos ataques com uso constante de armas de fogo, até que finalmente, atingiram o platô onde se localizava o quilombo. No alto, o cenário impressionou a todos: diversas plantações cobriam a terra tendo ao centro uma enorme casa de pau-a-pique com telhado de palha. Cerca de duas centenas de quilombolas, seminus, de todos os sexos e idades estavam armados de foices, alfanjes, lanças e umas poucas armas de fogo, prontos para defender sua liberdade.

A narração dos fatos seguintes encontra-se no “Livro de Registro de Óbitos da Freguesia de Nossa Senhora das Neves e Santa Rita 1808-1847” escrito pelo Vigário João Bernardo da Costa Resende, conforme levantamento da Secretaria de Meio Ambiente e Patrimônio Histórico - SEMAPH - de Macaé. Segundo este documento, o “quilombo do pé do rio Macabú” foi atacado no dia 1º de Abril de 1831, uma Sexta-feira Santa. O capitão do quilombo (Carucango) negociou a rendição dizendo que se entregaria caso se prometesse que ele e a sua gente não seriam mortos, caso contrário ele iria morrer defendendo os seus. O comandante deu a sua palavra e todos se entregarem. Entretanto, o soldado José Nunes do Barreto deu um tiro no capitão do quilombo, e quando este tombou de joelhos, um outro soldado lhe atirou por trás. Então foram degolados todos os guerreiros que haviam se entregado.

Encerrados os combates, as milícias atearam fogo às casas e plantações, e atiraram os corpos dos mortos e feridos nos penhascos e na caverna sob a casa principal.

Para que seu exemplo não fosse esquecido, o corpo de Carucango foi retalhado, seus membros e tronco exibido nas fazendas e na Freguesia de Nossa Senhora das Neves. A cabeça, espetada numa lança, foi colocada na estrada de maior movimento da região, a do Farumbongo, onde permaneceu até decompor-se por completo.

Carucango é homenageado em Conceição de Macabu com nome de localidade, rio e serra e, em Macaé com nome de rua.

Versões Lendárias[editar | editar código-fonte]

A versão dos eventos baseada em relatos orais conta uma estória diversa. Segundo esta, as milícias já estavam vencendo os quilombolas quando Carucango surgiu do interior da construção principal vestindo um manto religioso e trazendo no peito um enorme crucifixo de ouro. Ao avistá-lo, os milicianos paralisaram os combates, pois parecia que havia a rendição incondicional dos rebeldes quilombolas. Carucango então se aproximou dos milicianos com os braços erguidos para o alto e, repentinamente, sacou uma pistola de dois canos que guardava sob as vestes, e disparou à queima roupa, matando instantaneamente o jovem Antonio, filho único de Francisco Pinto, seu antigo dono.

A seguir, Carucango foi despido, surrado e espancado até á morte pelas tropas. O restante dos quilombolas foi massacrado em combate ou cometeu suicídio atirando-se dos penhascos. Umas poucas mulheres foram poupadas e levadas de volta a seus donos. Segundo elas, Carucango não permitia nascimentos no quilombo: os recém-nascidos eram mortos, para que no futuro não servissem aos senhores brancos como escravos.

Uma outra versão dos fatos conta que Antonio Pinto era o proprietário de Carucango e que foi morto por este quando ocorreu a fuga.

Referências[editar | editar código-fonte]

Ver Também[editar | editar código-fonte]