Achai Gaon

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Achai Gaon
Nascimento 680
Morte 752 (72 anos)
Palestina
Ocupação Gueonim
AharonimRishonimGueonimSavoraimAmoritasTanaítaZugot

Achai Gaon (também conhecido por Ahai de Sabha ou Aha de Sabha) foi um estudioso do período dos Gueonim, um talmudista, de alto renome. Goza da distinção de ser o primeiro autor rabínico conhecido da história após a conclusão do Talmude. Como ele nunca, na verdade, tornou-se um Gaon ("gênio" em hebraico) de nenhuma das duas academias, a designação "Gaon" anexada ao seu nome é imprópria.

Vida[editar | editar código-fonte]

Tendo morrido o gaon de Pumbedita, Aḥa foi universalmente reconhecido como o homem mais apto para sucedê-lo. Mas um rancor pessoal mantido há anos em segredo pelo exilarca Salomão bar Ḥasdai fez com que fosse nomeado para o cargo Natronai ben Neemias, secretário de Aḥa, um homem muito inferior a ele em aprendizagem e em conhecimentos gerais. Muito irritado com a injustiça, o eminente estudioso deixou a Babilônia e estabeleceu-se na Palestina, por volta de 752-753, onde permaneceu até sua morte. Apesar de Moritz Steinschneider (Cat. Bodl. s.v.) erroneamente atribuir 761 como o ano de sua morte, a data exata ainda é desconhecida.

Deve ter sido em Israel que Aḥa escreveu seu livro intitulado שאלתות ("Quæstiones" no sentido de dissertações), como o título evidencia; pois esta palavra aramaica é empregada no sentido de quæstio (a investigação científica de uma questão) apenas pelos judeus de Israel (Shab. 30a). "Sheilta" é de origem palestina, como é demonstrado pelas palavras buẓina e bisha, que a acompanham. Samuel Mendelsohn é muito correto em sua explicação do termo (Rev. Ét. Juives, xxxii. 56). Se, portanto, Simeão Kayyara fez uso de "Sheiltot" em seu Halakhot Gedolot, como é agora certo, a declaração de Abraão ibne Daúde (de acordo com quem o trabalho de Simeão foi concluído em 750) deve estar errada, uma vez que Aḥa não deixou a Palestina antes de 752; e sabe-se que Samuel Gaon, de quem ele foi sucessor, não morreu antes de 751-752. Existem também outras evidências da influência palestina no trabalho de Aḥa. Por exemplo, seu tratado indica que, além do Talmude babilônico (que, na natureza das coisas, foi a sua autoridade principal), fez uso frequente do Yerushalmi,[1] e dos Midrashim palestinos, Leviticus Rabá Eclesiastes Rabá, e do Tanḥuma, que naquela época eram totalmente desconhecidos na Babilônia (na verdade, mesmo Saadia Gaon, quase duzentos anos mais tarde, sabia comparativamente pouco deles).

Os Sheiltot de Aḥa[editar | editar código-fonte]

Os Sheiltot, também conhecidos por Sheiltot d’Rav Achai ou Sheiltos, é uma coleção de homilias (ao mesmo tempo erudito e popular) sobre as leis e ética judaicas. Todo o caráter dos "Sheiltot" é palestino; e, como tal, eles são completamente distintos das sinopses contemporâneas de Yehudai Gaon e Simeão Kayyara, que os limitam às decisões importantes do Talmude, com a omissão de todos os debates, e com a adição de curtas explicações das palavras.

O método de Aḥa é bastante diferente daquele dos rabinos da Babilônia, que pouco se importavam com a instrução das pessoas comuns, e escreviam escolasticamente. Os Sheiltot, ao contrário, foram escritos pensando nos leigos. Os tratados de Aḥa sobre preceitos bíblicos e rabínicos, num total de 190 ou 191 (ver Mendelsohn, l.c. 59), com adições de escritores posteriores, foram escritos com especial referência para a prática de tais deveres morais como a benevolência, amor, respeito aos pais, e amor à verdade. Eles baseiam-se na ordem dos parashot, as leituras semanais das leis.

O início do quarto "Sheilta", que baseia-se na lição semanal de "Noé", pode servir como um modelo de "Sheiltot". O roubo ou furto era expressamente proibido aos israelitas, e o castigo divino por causa da transgressão desta ordem é mais grave do que para outros crimes. Assim, verifica-se que, na história de Noé, aqueles da geração do Dilúvio sofreram o seu duro destino apenas por conta da sua violência, como é dito (Gênesis vi. 13), "O fim de toda carne é chegado perante mim; porque a terra está cheia da violência dos homens". Esta condenação moral é elaborada por Aḥa, que cita do Talmude e do Midrash muitas passagens sobre a impiedade e vileza de tais crimes. Ele continua esta declaração, precedido pela fórmula introdutória: "É, no entanto, questionável" (Beram ẓarik)-com indagações casuísticas, como, por exemplo, se é adequado incluir na designação de roubo, para o qual a Lei ordena a restituição dupla, o caso de um roubo cometido no interesse da vítima.

Esta ilustração serve para mostrar que o trabalho não se destina só para os estudiosos, mas também para a instrução popular; e que a afirmação, tantas vezes repetida desde os tempos de Meiri, que o Sheiltot era apenas um livro para a instrução da juventude, também é infundada. É mais provável que seja uma coleção de sermões agado-haláquicos, que Aḥa distribuiu na Palestina, onde certamente ele era tido em alta consideração. Com o declínio do conhecimento rabínico na Palestina, Aḥa teria encontrado poucos alunos para instruí-los no puro Halachá, e esforçou-se, portanto, para adicionar elementos agádicos em suas palestras, em obediência à disposição geral dos palestinos, que só então preferiam o Aggadah.

Essa visão melhor explica a palavra "derashah" (palestra), que ocorre cerca de trinta vezes nos Sheiltot, em conexão com a citação das passagens do Talmude. Se a suposição for verdadeira de que os Sheiltot foram derivados dos sermões, eles podem ser devidamente considerados, na forma em que aparecem, como extratos ou resumos de tais sermões, dando a introdução e a conclusão do derashah original. Considerando-os como partes dos sermões, as repetições frequentes que ocorrem nos Sheiltot não são para se estranhar, como aconteceria com o melhor dos pregadores, enquanto seria difícil explicar-lhes se eles forem encontrados nas produções estritamente literárias de um homem. Naturalmente, não pode haver qualquer conclusão sobre a composição dos Sheiltot até que o manuscrito tenha sido analisado. O texto impresso, segundo autoridades mais antigas, contém muito assunto que foi inserido posteriormente. Uma edição original dos Sheiltot seria muito valiosa para a crítica textual do Talmude babilônico, como, aliás, para a filologia aramaica em geral, uma vez que Aḥa escreveu em aramaico vernacular.

O trabalho de Aḥa logo ganhou grande estima, e o Halakot Gedolot, que não data do ano 750, porém pertence à literatura mais antiga do período gaônico, copia não menos do que cento e cinquenta passagens dos Sheiltot. Sherira Gaon e seu filho, Hai Gaon, mencionam o livro pelo título; e foi também consultado livremente por Rashi e o autor do Aruk.

Edições[editar | editar código-fonte]

(1) A primeira edição dos Sheiltot surgiu em Veneza, em 1546, e foi sucedida pelas seguintes: (2) uma edição com um breve comentário de Isaiah Berlin (Dyhernfurth, 1786); (3) uma outra sob o título תועפות ראם, com o comentário de Isaac Pardo, Salonica, 1800-01; (4) com um comentário de Naftali Zvi Yehuda Berlin (Wilna, 1861, 1864, 1867), cuja última edição contém o comentário de Isaiah Berlin, bem como uma série de variantes tomadas a partir de um manuscrito do ano 1460, e um breve comentário de Saul ben Joseph, que viveu provavelmente na primeira metade do século XIV. Os manuscritos dos Sheiltot, mas com diferenças essenciais do texto impresso, encontram-se entre os manuscritos hebraicos da Bibliothèque Nationale, em Paris, nºs 308, 309, e na Biblioteca Bodleiana, em Oxford, nºs 539, 540, 1317. Na Biblioteca Bodleiana podem ser encontrados também os comentários não impressos de Salomão ben Sabetai (541), e de Johanan ben Reuben (542).

Bibliografia da Enciclopédia Judaica[editar | editar código-fonte]

  • Reifmann, em Bet Talmud, iii. 26-29, 52-59, 71-79, 108-117;
  • S. Buber, ibid. 209-215;
  • Weiss, Dor, iv. 23-26, e as passagens menciondas no índex;
  • A. Harkavy, Studien und Mittheilungen, iv. xxvi. e p. 373;
  • Isaac Halevy, Dorot ha-Rishonim, pp. 193, 211-214, Presburg, 1897;
  • J.L. Rapoport, Bikkure ha-'Ittim, x. 20 et seq.;
  • Fürst, Literaturblatt d. Orients, xii. 313;
  • Steinschneider, Cat. Bodl. No. 4330;
  • A. Jellinek, ḳunṭres ha-Maggid, p. 20, Viena, 1878;
  • S. Mendelsohn, in Rev. Ét. Juives, xxxii. 56-62.

Referências

  1. Louis Ginzberg, em seu Geonica, argumenta que todas as citações alegadas do Talmude de Jerusalém podem de fato ser rastreados para outras fontes.