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Augusto de Campos

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Augusto de Campos
Augusto de Campos em 2015, na cerimônia de outorga da Ordem do Mérito Cultural
Nome completoAugusto Luiz Browne de Campos
Nascimento
14 de fevereiro de 1931 (94 anos)

Nacionalidadebrasileiro
OcupaçãoPoeta e tradutor
PrémiosPrémio Jabuti (1979), (1993)

Prêmio Pablo Neruda (2015)

Grã-Cruz da Ordem do Mérito Cultural (2016)
Movimento literárioConcretismo
Magnum opusViva vaia

Augusto Luiz Browne de Campos (São Paulo, 14 de fevereiro de 1931) é um poeta, tradutor, ensaísta, crítico literário e musical brasileiro. Ao lado de Haroldo de Campos, seu irmão, e Décio Pignatari, formou o grupo Noigandres, um dos representantes da poesia concreta no Brasil. Sua produção mescla recursos da poesia, das artes visuais, da música e das tecnologias digitais.[1]

Augusto e seu irmão Haroldo estudaram no tradicional Colégio de São Bento, em São Paulo, e começou a escrever os primeiros poemas aos quinze anos.[2]

Augusto de Campos formou-se em direito pela Faculdade do Largo de São Francisco.[1] Ingressou na Procuradoria Geral do Estado de São Paulo (PGE-SP) por meio de concurso público, em 1962, e aposentou-se em 2001. Atuou na Assessoria Técnico-Legislativa, redigindo e analisando vetos, projetos de lei e outras normativas enviadas à Assembleia Legislativa.[3]

Publicou seus primeiros poemas em 1949, na Revista Brasileira de Poesia, editada pelo Clube de Poesia, entidade ligada ao grupo literário da Geração de 45. Publicou seu livro de estreia, O Rei Menos o Reino, em 1951, fazendo uso da construção tradicional de versos dos poemas líricos. As temáticas trazem questões existenciais como a relação entre vida e morte, construindo imagens poéticas fantásticas e imaginárias de estética surrealista, ao mesmo tempo, rompendo com a estrutura linear. No ano seguinte, afastou-se do Clube de Poesia, por discordar de sua orientação estética.[1][4]

Em companhia de seu irmão Haroldo de Campos e de Décio Pignatari, iniciou o grupo conhecido como Noigandres e depois a revista literária Noigandres, tornando-se os organizadores do movimento da poesia concreta.[1][4]

Em 1955, no segundo número da revista, publicou uma série de poemas em cores, Poetamenos, considerados os primeiros exemplos consistentes de poesia concreta no Brasil.[1] O verso e a sintaxe convencional eram abandonados e as palavras rearranjadas em estruturas gráfico-espaciais, algumas vezes impressas em até seis cores diferentes, sob inspiração da Klangfarbenmelodie (melodia de "cores sonoras"), teorizada pelo compositor austríaco Arnold Schönberg e representada principalmente pelo compositor Anton Webern.[4]

Décio Pignatari, Ronaldo Azeredo e Augusto de Campos no Ministério da Educação do Rio de Janeiro em fevereiro de 1957

Em 1956 participou da organização da Primeira Exposição Nacional de Arte Concreta, no Museu de Arte Moderna de São Paulo, e dois anos depois a revista Noigandres nº 4 publica o Plano-piloto da Poesia Concreta, que apresenta os princípios teóricos do movimento.[1] Em 1959, participou de uma exposição internacional de poesia concreta, em Stuttgart, e no ano seguinte de uma exposição realizada em Tóquio. Em 1963, apresenta-se na Semana Nacional de Poesia de Vanguarda, em Belo Horizonte. Na década de 1960, com colaborações de poetas como Cassiano Ricardo, Sebastião Uchoa Leite e Paulo Leminski, edita a revista literária Invenção.

Aderiu à poesia participante com o poema Greve (1962), que concilia a invenção de linguagem com temas de caráter político e social, propondo uma arte revolucionária. A série de poemas-cartazes Popcretos (1964-1966) afirma a contestação da ordem econômica e política pelo trabalho criativo com a linguagem. A temática social também está presente em seus poemas. Muitas obras envolvem o leitor na construção do sentido, numa leitura interativa, como Colidouescapo (1971) e Poemóbiles (1974), conjunto de 12 poemas-objeto coloridos tridimensionais, desenvolvidos em parceria com o artista plástico espanhol Júlio Plaza.[1]

A maioria dos seus poemas acha-se reunida em Viva Vaia (1979) Despoesia (1994) e Não (2003). Outras obras importantes são Poemóbiles (1974) e Caixa Preta (1975).[1][4]

Como tradutor de poesia, Augusto especializou-se em traduzir a obra de autores de vanguarda como Ezra Pound, James Joyce, Gertrude Stein e E. E. Cummings, ou os russos Vladimir Maiakovski e Velimir Khlébnikov. Traduziu também Arnaut Daniel e os trovadores, John Donne e os poetas metafísicos, Stéphane Mallarmé e os simbolistas franceses.[4]

Como ensaísta, é coautor de Teoria da Poesia Concreta (1965), com Haroldo de Campos e Décio Pignatari, e autor de outros livros que tratam de poesia de vanguarda e inventiva. Com Haroldo e Pignatari, lutou pela revalorização da obra do modernistas Oswald de Andrade[4] e de poetas criativos do passado, como o romântico Sousândrade, o simbolista Pedro Kilkerry e Pagu, e publicou as antologias Re-Visão (1964 e 1971) e Pagu: Vida-Obra (1982). Estudando movimentos de renovação da música popular brasileira, publicou os livros O Balanço da Bossa (1974) e Música de Invenção (1998).[1]

Das décadas de 1950 a 1970, suas principais obras se voltaram para a poesia visual, mas a partir de 1980, intensificou suas experimentações com novas mídias, apresentando seus poemas em outdoor elétrico, videotexto, neon, holograma e laser, computação gráfica e eventos multimídia, envolvendo som e música, como a leitura plurívoca de CidadeCityCité, com seu filho Cid Campos (1987-1991).[5]

Quatro de seus poemas holográficos, em cooperação com o hológrafo Moysés Baumstein[6] foram incluídos nas exposições Triluz (1986) e Idehologia (1987). Um "videoclippoema", O pulsar,[7] com música de Caetano Veloso, foi produzido em 1984 em uma estação de computador de alta resolução da Intergraph. BOMB POEM e SOS, com música de Cid Campos, foram animados em uma estação de computador Silicon Graphics da Universidade de São Paulo (1992-93).[8] Sua colaboração com Cid, iniciada em 1987, resultou em Poesia é risco, CD lançado pela PolyGram em 1995.[9] A gravação foi desenvolvida em uma performance multimídia de mesmo título, um espetáculo "verbivocovisual" de poesia/música/imagem, com edição em vídeo de Walter Silveira,[10] e foi apresentada em diversas cidades do Brasil e do exterior.[11]

Sua obra foi incluída em muitas mostras, bem como em antologias internacionais como as históricas publicações Concrete Poetry: an International Anthology, organizada por Stephen Bann (London, 1967), Concrete Poetry: a World View, por Mary Ellen Solt (University of Bloomington, Indiana, 1968); Anthology of Concrete Poetry, por Emmet Williams (NY, 1968).[4]

Coleções atuais se encontram em lugares como o Museu de Arte Latino-Americana de Buenos Aires,[12] o Museu Reina Sofia[13] e o Arquivo Ruth e Marvin Sackner de Poesia Concreta e Visual, Bibliotecas da Universidade de Iowa.[14]

  • O rei menos o reino, 1951;
  • Poetamenos, 1953;
  • Antologia Noigandres (com Décio Pignatari, Haroldo de Campos, Ronaldo Azeredo e José Lino Grünewald), 1962;
  • Linguaviagem (cubepoem), 1967;
  • Equivocábulos, 1970;
  • Colidouescapo, 1971;
  • Poemóbiles (poemasobjetos), em colaboração com Julio Plaza, 1974;
  • Caixa preta (poemas e poemasobjetos), em colaboração com Julio Plaza, 1975;
  • Viva vaia, 1979;
  • Expoemas (serigrafias de Omar Guedes), 1985;
  • Não (poema­xerox), 1990;
  • Poemas (antologia bilingüe), 1994;
  • Despoesia (1979-1993), 1994;
  • Poesia é risco (CD-livro (antologia poético­musical, de O rei menos o reino a Despoemas, em colaboração com Cid Campos), 1995;
  • Clip-poemas (16 poemas-animados digitais - exposição "Arte Suporte Computador"), 1997;
  • Anthologia - Despoesia, 2002;
  • Não (com CD-Rom Clip-poemas), 2003;
  • Poètemoins (antoologia), 2011;
  • Profilogramas, 2011;
  • Poetamenos (com CD-Rom Clip-poemas), 2014;
  • Outro, 2015
  • Revisão de Sousândrade (com Haroldo de Campos), 1964;
  • Teoria da poesia concreta (com Décio Pignatari e Haroldo de Campos), 1965;
  • Sousândrade - Poesia (com Haroldo de Campos), 1966;
  • Balanço da Bossa (com Brasil Rocha Brito, Julio Medaglia e Gilberto Mendes), 1968
  • Guimarães Rosa em três dimensões (com Haroldo de Campos e Pedro Xisto), 1970;
  • Re/visão de Kilkerry, 1971;
  • Revistas re/vistas: os antropófagos, 1975;
  • Reduchamp (com iconogramas de Julio Plaza), 1976;
  • Poesia antipoesia antropofagia, 1978;
  • Pagu: vida-obra, 1982;
  • À margem da margem, 1989;
  • Os sertões dos campos (com Haroldo de Campos), 1997;
  • Música de invenção, 1998.

Traduções e estudos críticos

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Prêmios e honrarias

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Referências

  1. a b c d e f g h i Cultural, Instituto Itaú (14 de janeiro de 2025). «Augusto de Campos». Enciclopédia Itaú Cultural. Consultado em 7 de agosto de 2025 
  2. Francisco', 'José Carlos Vieira, Severino (14 de novembro de 2010). «Poeta Augusto de Campos se considera quase um brasiliense». Acervo. Consultado em 8 de agosto de 2025 
  3. a b Tsonis, Cristiano (26 de março de 2024). «Um Augusto poeta em nossos Campos». APESP. Consultado em 7 de agosto de 2025 
  4. a b c d e f g «Augusto de Campos - Site Oficial - UOL». www.augustodecampos.com.br. Consultado em 8 de agosto de 2025 
  5. «Aos 84 anos, Augusto de Campos lança livro inédito e fala sobre trajetória da poesia concreta». O Globo. 18 de julho de 2015. Consultado em 8 de agosto de 2025 
  6. «Caminhos distintos». Consultado em 8 de agosto de 2025 
  7. Tápia, Marcelo (5 de dezembro de 2007). «Pulsações de sentido em "O pulsar": uma possível leitura». Estudos Semióticos (3). ISSN 1980-4016. doi:10.11606/issn.1980-4016.esse.2007.49193. Consultado em 8 de agosto de 2025 
  8. Brasil, G. Q. (21 de agosto de 2022). «Augusto de Campos ganha maior exposição individual de sua carreira». GQ. Consultado em 8 de agosto de 2025 
  9. «Cid Campos e a poemúsica do disco Entredados». Revista Cult. 4 de julho de 2022. Consultado em 8 de agosto de 2025 
  10. Sterzi, Eduardo (30 de dezembro de 2022). «Balanço da voz e outras vozes: Augusto de Campos entre cantores e canções». outra travessia (33): 54–72. ISSN 2176-8552. doi:10.5007/2176-8552.2022.e91021. Consultado em 8 de agosto de 2025 
  11. «Poesia de Augusto de Campos». Brasil Escola. Consultado em 8 de agosto de 2025 
  12. «de Campos, Augusto». Malba Coleccion (em espanhol). Consultado em 8 de agosto de 2025 
  13. «Campos, Augusto de». www.museoreinasofia.es (em inglês). Consultado em 8 de agosto de 2025 
  14. «de Campos, Augusto, 1931- | ArchivesSpace at the University of Iowa». aspace.lib.uiowa.edu (em inglês). Consultado em 8 de agosto de 2025. Cópia arquivada em 22 de maio de 2025 
  15. «Folha de S.Paulo - Literatura: "Não" de Augusto de Campos é premiado - 23/02/2005». www1.folha.uol.com.br. Consultado em 7 de agosto de 2025 
  16. EFE, Da (24 de junho de 2015). «Augusto de Campos é o 1º brasileiro a ganhar o Prêmio Neruda de poesia». Pop & Arte. Consultado em 7 de agosto de 2025 
  17. Serafini, Mariana (9 de novembro de 2015). «Ordem do Mérito Cultural 2015 homenageia Augusto de Campos». Vermelho. Consultado em 7 de agosto de 2025 
  18. «Discurso da Presidenta da República, Dilma Rousseff, durante cerimônia de entrega da Ordem do Mérito Cultural 2015». www.biblioteca.presidencia.gov.br. 9 de novembro de 2015. Consultado em 7 de agosto de 2025. Cópia arquivada em 11 de dezembro de 2024 
  19. Cultural, Divulgação (9 de outubro de 2017). «Augusto de Campos recebe prêmio de poesia na Hungria». Blog da Editora da Unicamp. Consultado em 7 de agosto de 2025 
  20. «Augusto concreto». Vermelho. Consultado em 7 de agosto de 2025 
  21. «Outorga do título de Doutor Honoris Causa UFF a Augusto de Campos|Universidade Federal Fluminense». Consultado em 7 de agosto de 2025 
  22. «Augusto de Campos é homenageado em mesa: 'Aos 92 anos, é o poeta mais jovem brasileiro'». O Globo. 25 de novembro de 2023. Consultado em 7 de agosto de 2025 

Bibliografia

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Ligações externas

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