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Erythromachus leguati

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Ossos subfósseis encontrados em 1879

Ossos subfósseis encontrados em 1879
Estado de conservação
Extinta
Extinta  (Meados do Séc. XVIII) (IUCN 3.1) [1]
Classificação científica
Reino: Animalia
Filo: Chordata
Classe: Aves
Ordem: Gruiformes
Família: Rallidae
Género: Erythromachus
Espécie: E. leguati
Nome binomial
Erythromachus leguati
Milne-Edwards, 1874
Distribuição geográfica
Endêmico da ilha Rodrigues (em destaque)
Endêmico da ilha Rodrigues (em destaque)
Sinónimos

Erythromachus leguati é uma espécie extinta de ave da família dos ralídeos que era endêmica de Rodrigues, uma ilha no Oceano Índico a leste de Madagascar. Foi descrita como tendo uma plumagem cinza, bico e pernas vermelhos, e uma área sem penas em volta dos olhos também vermelha. O formato do bico variava de indivíduo para indivíduo, podendo ser reto ou curvo. Não se sabe se essa diferença era devido a um dimorfismo sexual ou se é apenas uma variação individual.

Acredita-se que a espécie foi extinta em meados do século XVIII pela combinação de vários fatores: destruição de habitat, caça pelos colonos e predação por animais introduzidos. François Leguat, abandonado em Rodrigues em 1691, foi a primeira pessoa a fornecer uma descrição da ave. Seu relato, junto com o de Julien Tafforet (também abandonado na ilha em 1726), trazem informações sobre a aparência e comportamento da espécie. Essas eram as únicas fontes sobre o animal até a descoberta de ossos subfósseis numa caverna em Rodrigues em 1874.

Tinha um comportamento curioso: quando alguém lhe mostrava um tecido na cor vermelha, a ave reagia com uma atitude agressiva, atacando o pedaço de pano. Os colonos aproveitam-se disso para capturar o animal facilmente. Esse método de caça era similar ao utilizado para pegar a galinhola-vermelha-de-maurício, uma outra espécie de ralídeo, igualmente extinto, que é apontado como o "primo" mais próximo do E. leguati. São tão parecidos que alguns cientistas propuseram a classificação de ambos num mesmo gênero, o Aphanapteryx.

Taxonomia[editar | editar código-fonte]

Desenhos do Didus broeckei e Didus herbertii (Schlegel, 1854).

Em 1848, o ornitólogo inglês Hugh Strickland escreveu que uma ave semelhante à galinhola-vermelha-de-maurício foi mencionada por François Leguat em seu livro de memórias sobre a época que passou na ilha Rodrigues, uma ilha no Oceano Índico a leste de Madagascar. Mas Strickland não foi capaz de classifica-la, principalmente pela falta de restos mortais. Ele afirmou ainda que o animal pode ter sido um tipo de tetraz ou galináceo.[2] Em 1874, Alphonse Milne-Edwards conectou as descrições de Leguat e Julien Tafforet (outro autor que também viveu na ilha) com alguns ossos encontrados numa caverna em Rodrigues, reconhecendo sua similaridade com a galinhola-vermelha-de-maurício.[3] Milne-Edwards cunhou o nome genérico Erthyromachus a partir das palavras gregas para "vermelho" e "batalha", em referência ao comportamento agressivo da ave em relação a objetos vermelhos, e o epíteto específico leguati para homenagear Leguat. O sinônimo júnior Miserythrus, de "vermelho" e "ódio", foi criado por Alfred Newton em 1893, também se referindo a esse comportamento.[4] James Greenway escreveu que a descrição de Leguat refere-se a um tipo de caimão,[5] hipótese que não foi aceita por outros autores.[6] Mais restos da ave foram encontrados em 1974.[7]

Ao contrário da galinhola-vermelha e de outras aves extintas das ilhas Mascarenhas, o Erythromachus leguati não foi ilustrado por artistas da época. O ornitólogo Storrs L. Olson qualificou como "fantasiosos" os desenhos feitos para os livros Extinct Birds (1907), de Walter Rothschild, e The Dodo and kindred birds (1953), de Masauji Hachisuka.[8] Frederick William Frohawk, que fez a ilustração para a obra de Rothschild, baseou sua restauração numa antiga gravura, que por sua vez teve como modelo um esboço do século XVII de Thomas Herbert. Sabe-se hoje que tal esboço retrata uma galinhola-vermelha.[9] Hermann Schlegel pensou, erroneamente, que a imagem mostrava um tipo de dodô que vivia em Rodrigues (batizando-o de Didus herbertii em 1854) e que era essa a ave mencionada por Leguat.[10]

Evolução[editar | editar código-fonte]

Além de ser um "primo" próximo da galinhola-vermelha-de-maurício, o parentesco do Erythromachus leguati permanece incerto e os dois são comumente listados em gêneros separados, Aphanapteryx e Erythromachus, mas alguns cientistas já os agruparam como espécies de Aphanapteryx.[11] Edward Norton e Albert Günther foram os primeiros a classificar as duas espécie num mesmo gênero, em 1879, devido as suas similaridades esqueléticas.[12] Foi sugerido que, por causa da localização geográfica dessas aves e da morfologia dos ossos nasais, elas podem estar relacionadas com os gêneros Gallirallus, Dryolimnas, Atlantisia, e Rallus.[4] Ralídeos chegaram em muitos arquipélagos oceânicos, o que frequentemente os levou à especiação e a evolução para a incapacidade de voar. Estes ralídeos podem ser de origem asiática, como muitas outras aves das ilhas Mascarenhas.[11]

Descrição[editar | editar código-fonte]

O Erythromachus leguati era um ralídeo roliço, incapaz de voar, de plumagem cinza brilhante, talvez salpicada de branco, com bico e pernas vermelhos. Tinha também uma área vermelha e sem penas em torno dos olhos. Era um pouco menor que seu "primo" mais próximo, a galinhola-vermelha-de-maurício. O comprimento exato da ave é desconhecido, mas era mais ou menos do tamanho de uma galinha. Seu forte bico variava muito na forma e no tamanho; alguns espécimes tinham bicos curtos e praticamente retos, já outros possuíam bicos muito mais longos e com uma curvatura acentuada. Não se sabe se essa diferença está relacionada com o dimorfismo sexual ou se é apenas uma variação individual. O crânio media 3,8 cm de comprimento por 2 cm de largura, e o bico tinha 7,7 cm de comprimento. A pelve era grande e robusta em relação ao tamanho total do corpo.[12]

O animal tinha asas um pouco maiores que as da galinhola-vermelha, mas a pelve, sacro e proporção das pernas eram similares em ambas as espécies.[12][13] Também tinha um úmero relativamente mais longo, um crânio mais largo e mais curto, e narinas mais longas e mais baixas que as da galinhola-vermelha, da qual diferia consideravelmente na plumagem, conforme as descrições da época.[4]

Relatos contemporâneos[editar | editar código-fonte]

Mapa de Rodrigues feito por Leguat. Seu assentamento está marcado no nordeste da ilha.

O Erythromachus leguati foi mencionado pela primeira vez por François Leguat em seu livro de memórias de 1708, A New Voyage to the East Indies. Leguat era o líder de um grupo de nove huguenotes franceses refugiados; o grupo, pioneiro na colonização de Rodrigues, viveu na ilha entre 1691 e 1693, depois que foram abandonados lá por seu capitão.[14] As observações de Leguat são consideradas algumas das primeiras descrições coesas de comportamento animal na natureza.[11]

Leguat fez a seguinte descrição da ave:

Nossas galinhas são gordas durante todo o ano e de um sabor mais delicado. Sua cor é sempre de um cinza brilhante, e há muito pouca diferença na plumagem entre os dois sexos. Elas escondem seus ninhos tão bem que não conseguimos encontrá-los, e, consequentemente, não provamos seus ovos. Têm uma área nua e vermelha ao redor dos olhos, seus bicos são retos e pontiagudos, com cerca de dois e dois quintos de polegada de comprimento, e vermelhos também. Elas não podem voar, sua gordura faz com que fiquem pesadas demais para isso. Se você mostrar-lhes qualquer coisa vermelha, elas ficam tão irritadas que vão pra cima de você para tentar arrancar de sua mão, e no calor do combate temos a oportunidade de pegá-las com facilidade.[9]

Outra descrição da aparência e comportamento da ave é encontrada num documento anônimo chamado Relation de l'Ile Rodrigue, que foi redescoberto em 1874 e atribuído a Julien Tafforet, que, em 1726, também foi abandonado em Rodrigues:

Existe uma espécie de ave, do tamanho de uma galinha jovem, que tem o bico e pés vermelhos. Seu bico é um pouco parecido com o de um maçarico, exceto por ser um pouco mais grosso e não tão longo. Sua plumagem é manchada com branco e cinza. Eles geralmente se alimentam de ovos de tartarugas terrestres que encontram no solo, o que as torna tão gordas que muitas vezes têm dificuldade para correr. Elas são muito boas para comer, e sua gordura tem uma tonalidade vermelha amarelada, que é excelente para as dores. Têm pequenos pinions [asas], sem penas, o que explica o porquê de não poderem voar; mas, por outro lado, elas correm muito bem. Seu grito é um assobio contínuo. Quando elas vêem qualquer pessoa que as persegue produzem outro tipo de barulho, parecido com o de uma pessoa com soluços.[11]

Comportamento e ecologia[editar | editar código-fonte]

Desenho dos primeiros ossos encontrados da espécie.

O Erythromachus leguati se alimentava de invertebrados e, possivelmente, pequenos vertebrados. Também desenterrava e comia os ovos na época de desova das tartarugas gigantes Cylindraspis, atualmente extintas. É possível que as aves tivessem um ciclo anual de engorda, ficando ora mais corpulentas e ora mais esbeltas ao longo ano, refletindo a diferença na disponibilidade de alimentos durante as estações. Suas vocalizações eram um assobio contínuo, e tinha um chamado (som de alarme) staccato parecido com um soluço.[15] Leguat escreveu que eram caçadas com um método semelhante ao utilizado em Maurício para pegar as galinholas-vermelhas de lá: um pedaço de pano vermelho era mostrado às aves, que reagiam com um comportamento agressivo, saltando sobre o pano e tentando destruí-lo. Não tinham nenhum medo dos seres humanos porque evoluíram na ausência de predadores, permitindo que os caçadores as capturassem em grande número. Nem Leguat nem Tafforet localizaram seus ovos e ninhos.[11]

Muitas outras espécies endêmicas de Rodrigues tornaram-se extintas após a chegada do homem, de modo que o ecossistema da ilha está fortemente danificado. Antes da vinda dos humanos, as florestas cobriam a ilha por completo, mas muito pouco resta hoje devido ao desmatamento. O Erythromachus leguati viveu ao lado de outras aves recentemente extintas, como o solitário-de-rodrigues, o papagaio-de-rodrigues, o periquito-de-rodrigues, o estorninho-de-rodrigues, a coruja-de-rodrigues, a garça Nycticorax megacephalus, e o pombo-de-rodrigues. Répteis extintos incluem as tartarugas gigantes Cylindraspis peltastes e C. vosmaeri, e o lagarto Phelsuma edwardnewtoni.[11]

Extinção[editar | editar código-fonte]

O desaparecimento da ave coincidiu com o comércio de tartarugas entre 1730 e 1750; comerciantes queimavam a vegetação, caçavam os pássaros, e os gatos e porcos trazidos por eles atacavam os ovos e filhotes. A gordura das aves que se alimentavam de ovos de tartaruga era laranja brilhante e foi usada como remédio para as pessoas que se recuperavam de alguma enfermidade.[11] Embora a ave tenha sobrevivido à predação por ratos que foram acidentalmente introduzidos no final do século XVII e haviam se multiplicado durante o tempo da visita de Leguat, ela foi incapaz de resistir à perseguição por seres humanos. Alexandre Guy Pingré escreveu em seu relatório de 1763 que a espécie foi extinta em 1761.[15]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. BirdLife International (2012). Erythromachus leguati (em Inglês). IUCN 2012. Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da IUCN de 2012 Versão 3.1. Página visitada em 29/07/2015.
  2. Strickland, Hugh E; Melville AG (1848). The Dodo and Its Kindred; or the History, Affinities, and Osteology of the Dodo, Solitaire, and Other Extinct Birds of the Islands Mauritius, Rodriguez, and Bourbon (em inglês). Londres: Reeve, Benham and Reeve 
  3. Milne-Edwards, A (1874). «Recherches sur la faune ancienne des Îles Mascareignes». Annales Des Sciences Naturelles (Zoologie) (5): 19 
  4. a b c Olson 1977, pp. 361-3
  5. Greenway, JC (1967). Extinct and Vanishing Birds of the World (em inglês). 13. Nova Iorque: American Committee for International Wild Life Protection. pp. 117–119. ISBN 0-486-21869-4 
  6. Fuller, Errol (2001). Extinct Birds (revised ed.). Nova Iorque: Comstock. ISBN 978-0-8014-3954-4 
  7. Cowles 1987, pp. 90-100
  8. Olson 1977, p. 361
  9. a b Rothschild, Walter (1907). Extinct Birds. Londres: Hutchinson & Co 
  10. Schlegel, H (1854). «Ook een Woordje over den Dodo (Didus ineptus) en zijne Verwanten». Verslagen en Mededeelingen der Koninklijke Akademie van Wetenschappen (em holandês). 2: 232–56 
  11. a b c d e f g Cheke, Anthony S; Hume JP (2008). Lost Land of the Dodo: an Ecological History of Mauritius, Réunion & Rodrigues (em inglês). New Haven e Londres: T. & A. D. Poyser. ISBN 978-0-7136-6544-4 
  12. a b c Günther, A; Newton E (1879). «The extinct birds of Rodriguez». Philosophical Transactions of the Royal Society of London (em inglês) (168): 523-37. doi:10.1098/rstl.1879.0043 
  13. Newton, E; Gadow H (1893). «IX. On additional bones of the Dodo and other extinct birds of Mauritius obtained by Mr. Theodore Sauzier». The Transactions of the Zoological Society of London (em inglês). 13 (7): 281-302. doi:10.1111/j.1469-7998.1893.tb00001.x 
  14. Leguat, F (1708). Voyages et Avantures de François Leguat & de ses Compagnons, en Deux Isles Desertes des Indes Orientales, etc 2ª ed. Amsterdã: Jean Louis de Lorme. p. 71 
  15. a b Hume, Julian P; Walters M (2012). Extinct Birds (em inglês). Londres: A & C Black. ISBN 978-1-4081-5725-1 

Bibliografia[editar | editar código-fonte]