Fragmentos de um Filme Esmola, a Sagrada Família

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Fragmentos de Um Filme Esmola
Fragmentos de Um Filme Esmola (PT)
 Portugal
1972-1977 •  cor •  72 min 
Direção João César Monteiro
Roteiro João César Monteiro
Elenco Manuela de Freitas
João Perry
Catarina Coelho
Dalila Rocha
Fernando Luso Soares
Género Comédia burlesca
Idioma português
Página no IMDb (em inglês)

Fragmentos de Um Filme Esmola, A Sagrada Família (19721977) é um filme português de longa-metragem da autoria de João César Monteiro.

Trata-se de uma ficção caracterizada por uma irreverência provocatória,[1] própria de toda a obra do autor, uma reflexão auto-biográfica em torno de um alter-ego, que será tema de filmes futuros. Monteiro alinha com o movimento do Novo Cinema português, iniciado nos anos sessenta. A obra é precedida por uma outra, uma longa-metragem falhada: Quem espera por sapatos de defunto.

O filme, produzido pela cooperativa Centro Português de Cinema, teve ante-estreia em 1975, no Congresso dos Escritores, em Lisboa e chamava-se, por essa altura, A Sagrada Família. O título definitivo, assim como a montagem final, datam de 1977.[2]

Grande parte das sequências deste filme foram rodadas em espaços de um edifício de habitação na Rua da Ilha do Príncipe nº 7, em Lisboa, projectado pelo arquitecto Jorge Ferreira Chaves. Este lugar foi posteriormente usado como decors de outros filmes portugueses.

Ficha sumária[editar | editar código-fonte]

Sinopse[editar | editar código-fonte]

João Lucas é um fulano bizarro que quase nunca sai da cama, palco das suas brincadeiras com a filha, de melosas e intermináveis carícias com Maria, a esposa, que, de vez em quando, tem crises amorosas intensas e patéticas. As receitas domésticas são trazidas por ela, que trabalha numa fábrica alemã de chapéus-de-chuva.

O quotidiano é filmado em 8 mm pela filha do casal. O pé-de-meia de Maria é, por vontade de João, quase todo gasto nessa brincadeira. Mas ele está-se nas tintas. Num encontro de família em sua casa, imóvel, empoleirado num banco com uma máscara de porco, provoca o sogro, que o critica impiedosamente, enquanto a filha filma, passarinhando de um lado para o outro. Vai longe de mais o sogro com seus azedumes. O João explode, salta do banco e põe as visitas na rua.

Entretanto lá vai fazendo pela vida, sem nunca sair da cama: apaziguando a mulher, que se achega rastejando por entre as suas pernas, com místicas doçuras, cultivando estáticos prazeres do sexo. Maria insiste com o João, procurando dar vida à relação amorosa, mas em vão. Deseperada, saca de um revólver, descarrega o tambor no peito do marido, e desaparece deixando a filha a sós com o cadáver.

Todo este melodrama é preenchido com trechos magistrais de música clássica e ópera (João César Monteiro é um melómano e não perde uma oportunidade de mostrar isso nos filmes que faz), aqui entremeados com quadros estáticos em que longos monólogos são debitados por Maria ou por uma voz over (voz sobreposta à imagem) lendo passagens, num estilo recitado e monocórdico, de textos literários célebres, prática corrente também em certos filmes de Manoel de Oliveira[3][4] desde O Passado e o Presente, o primeiro filme produzido pelo Centro Português de Cinema, facto que não é simples coincidência.

Enquadramento histórico[editar | editar código-fonte]

A par disso, filme esmola por ter sido feito com pouco dinheiro (cerca de 200 contos), o quinto produzido pelo CPC (Centro Português de Cinema), apoiado pela Fundação Calouste Gulbenkian, numa época ainda sob a vigência do Estado Novo. A lógica é esta: filme imperfeito, feito de fragmentos, de retalhos, de restos obtidos como esmola.[5]

A bem calculada irreverência de Monteiro tanto nos actos da vida como do cinema[6][7][8] será por certo bom investimento. Crítica social e arrojo formal, o desprezo pelo politicamente correcto, pelos equilibrados classicismos a que outros se vinculam na prática da vida e do cinema, são as apostas. A Dies Irae, ira de Deus,[9][10] a mesma do João, em tema musical de Mozart, servirá às mil maravilhas para dar consistência às personagens e para explicar as opções ideológicas e formais do autor.

A família, bem social cultivado pelo fascismo, e as liberdades estéticas praticadas na Sétima Arte pelos adeptos da Nova Vaga, a que Monteiro adere com os seus colegas do CPC, em estilo bem pessoal, serão os motivos a que ele deita mão para realizar a obra. A abjecção,[11] prática surrealista cultivada por André Breton e explorada no cinema por Luís Buñuel, servirá de tempero. Planos fixos constantes e uma narrativa desalinhada, quebrando os cânones clássicos da exposição convencional no cinema, farão o resto.

Sabe o astuto João que é por esse lado que lá chegará.[12] Torna-se reincidente.

Ficha artística[editar | editar código-fonte]

Ficha técnica[editar | editar código-fonte]

Imagem

  • Fotografia: Acácio de Almeida
  • Chefe electricista: João Silva
  • Electricista: Carlos Mena
  • Adereços: João Luís

Som

Montagem

  • João César Monteiro

Notas e referências

  1. A minha certidão – Auto-retrato de João César Monteiro. A confissão é feita neste libelo da sua irreverência, qualidade adquirida desde criança mal-educada, durante uma « infância caprichosa e bem nutrida». Contra a vontade do pai, que desejava em vão que o bem-amado filho seguisse uma carreira eclesiástica, tratou este de seguir por outros caminhos. Faleceu o infeliz pai de repentino ataque cardíaco depois de dissipar «toda a fortuna na satisfação de brutais apetites», deixando o pobre rapaz à mercê do fado, entregue «sem um chavo» às costumadas rabinices, que, graças a Deus e ao seu inquestionável talento, haviam de o salvar
  2. Jorge Leitão Ramos, Dicionário 20 Anos de Cinema Português, Diário de Lisboa, 26-06-1981.
  3. Manoel de Oliveira: a sedução do texto literário – artigo de João Francisco Marques na Biblioteca Digital do Instituto Camões, revista nº 11-13, pp 82/89
  4. A cidade cinemática de João de Deus: Espaço, cenário e estética na obra de João César Monteiro – artigo de Paulo Cunha em Compós
  5. No João, alter-ego em esboço surreal de Monteiro, protagonista deste filme feito de esmolas, encontram-se os genes de João de Deus, o pícaro herói de outros filmes seus que, inspirado pela popular figura do ideário católico português, o pobre São João de Deus, arrependido pelas ofensas ao divino, se macera ferindo o corpo, cobrindo de lama o rosto e que, dado como louco, acaba internado num hospício
  6. A subversao social na trilogia de João Cesar Monteiro: uma análise sociológica – texto de Liliana Navarra, Universidade Nova de Lisboa (em espanhol)
  7. O Mundo ao Avesso de João César Monteiro: a imagem eidética do sagrado pervertido – texto de Francesco Giarrusso In Atas do II Encontro Anual da AIM, editado por Tiago Baptista e Adriana Martins, pp 387-397, Lisboa: AIM. ISBN 978-989-98215-0-7
  8. O regime dialógico na obra de João César Monteiro: matérias e conteúdos de uma prática subversiva – tese de doutoramento de Francesco Giarrusso em RUN, Universidade Nova de Lisboa
  9. Fragmentos de um filme esmola – artigo de Paulo Ricardo de Almeida em Contracampo, 1972
  10. NB: Não há qualquer plano-sequência neste filme, ao contrário do que é dito no artigo supra-citado. Trata-se de um erro de classificação: há sim longos planos fixos (a câmara não se move) que conferem ao espaço cénico uma dimensão teatral
  11. Voltas e reviravoltas do abjeccionismo em Upopia 2013
  12. Decadência, Regeneração e Utopia em João César Monteiro – texto de Paulo Cunha,: PORTUGUESE CULTURAL STUDIES 3 Spring 2010 ISSN: 1874-6969
  13. José Gabriel Trindade Santos em Centro de Filosofia de Universidade de Lisboa
  14. José Gabriel Trindade Santos – entrevista com Anabela Mota Ribeiro na sua página pessoal
  15. Trindade Santos, ex-companheiro de vida de Manuela de Freitas (a Maria do filme e mulher do João), íntimo amigo de Monteiro e de João Bénard da Costa é figura marcante para o entendimento histórico deste filme de retalhos, feito com a conivência de solidários amigos

Ver também[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]