José da Silva Maia Ferreira

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José da Silva Maia Ferreira
O autor, no Brasil
Pseudónimo(s) Zuza
Nascimento 7 de junho de 1827
Luanda-Angola
Morte 18 de outubro de 1867 (40 anos)
Rio de Janeiro, Santa Casa da Misericórdia
Nacionalidade angolano
Cidadania português
Cônjuge Margaret Butler
Filho(s) Jerakim César Matoso Maia (n. 10 de Abril de 1854); Marie Leonora (n. 13 de Janeiro de 1861); Sally Arden (n. 27 de Fevereiro de 1862)
Ocupação Funcionário público, viajante comercial, poeta
Magnum opus Espontaneidade da Minha Alma (edição 1850)

José da Silva Maia Ferreira (Luanda, 7 de junho de 1827Rio de Janeiro, 18 de Outubro de 1867), poeta angolano, cuja existência se distinguiu sobretudo pelo seu carácter de errância.

Viveu e trabalhou em vários países, a começar pela sua própria terra natal. Com estudos adquiridos no exterior, regressou a Luanda em 1845 (depois de uma dilatada ausência), e com apenas 18 anos, assumiu a função de secretário da Junta de Saúde e a de secretário da Comissão Mista Portuguesa e Britânica em 1846. Logo a seguir (a 18 de Outubro de 1847) retornou ao Rio de Janeiro em negócios. Em Setembro de 1849 ei-lo de novo em Angola, onde foi colocado em Benguela como tesoureiro da alfândega. Em Abril de 1850 foi investido no cargo de oficial da Secretaria do governo da mesma capitania. O seu último emprego naquela possessão da costa ocidental de África foi o de escrivão das descargas da alfândega de Luanda, donde acabou por ser demitido por [...] por irregular comportamento e repreensível conduta [...] . Este episódio inquestionavelmente pesou na sua decisão de abalar para a América do Norte em Maio de 1851 por estar relacionado com os acontecimentos em Benguela. Em primeiro lugar, com a revolta dos comerciantes europeus, deposição do governador, coronel Francisco Tavares de Almeida, e com a exposição dos seus amigos ao desprezo público, atentas as convicções progressistas e o pendor anti-lusitano de todos eles); em segundo lugar, com um enredo amoroso que o envolveu numa cena de tiros, da qual saiu ileso[1].

Publicou em 1850 o volume de poesias, Espontaneidades da Minha Alma. Às Senhoras Africanas, considerado o primeiro artefacto literário editado em Angola da autoria de um escritor angolense. Da edição primigénia das Espontaneidades, a única cópia que sobreviveu foi descoberta numa biblioteca de Nova York na segunda metade do século XX pelo já falecido professor da Universidade de Wisconsin, Gerald Moser (ver a sua bibliografia em "Referências") [2]. Maia Ferreira teve um poema seu, "Amor e Loucura" (escrito em Luanda), inserto no Almanach de Lembranças Luso-Brazileiro: Para o Anno de 1879 (Lisboa, Portugal), p. 367[3]. Outro testemunho do seu arsenal literário que espelha de forma integral a personalidade de africano em Maia Ferreira são as Memórias Íntimas de um Africano, escrita em 1855 (conforme consta do seu fronstispício) e que baliza o período de vivência do poeta nos Estados Unidos da América. Por ora é desconhecido o paradeiro deste livro, cuja força discursiva marca o reencontro do autor com a África. Não consta do seu espólio doado pelos bisnetos ao Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa.

Biografia[editar | editar código-fonte]

Nasceu em Luanda, oriundo de uma família preponderante da meio social angolense. O pai, José da Silva Maia Ferreira (também nascido em Luanda), além do estatuto de oficial do regimento de milícias de Luanda, afirmou-se no universo mercantil como negociante de grosso trato. Detinha uma invejável fortuna em bens materiais e como armador (pois era proprietário de uma numerosa frota de navios), girava com avultados cabedais em várias praças do mundo. O avô paterno (igualmente chamado José da Silva Maia Ferreira), nasceu no norte de Portugal. Uma linhagem de sangue, como se pode ver, portadora de três patronímicos idênticos e sucessivos. A mãe, de seu nome Ângela de Medeiros Matoso Maia, descendia em linha directa de duas proeminentes casas senhoriais de Luanda: a dos Matoso de Andrade e a dos Botelho de Vasconcelos. Em 1834, com a queda do regime miguelista em Portugal, a família foi obrigada a retirar-se para o Rio de Janeiro em virtude do progenitor, apoiante declarado daquele regime, ter perdido todos os seus lugares e privilégios na administração pública de Angola. Maia Ferreira (poeta) cumpriu o primeiro ciclo da sua formação escolar no Rio de Janeiro até aos 10 anos. Em 1838, juntamente com o irmão mais velho, António da Silva Maia Ferreira, foi estudar para Lisboa onde permaneceu até 1844, após o que retornou ao Rio de Janeiro. Dali para diante iria dividir a sua trajectória vital entre o Brasil e a sua terra natal. Em 1845 esteve em Luanda, se bem que por breve período[4]. Os seus primeiros arquejos poéticos vieram à luz no Rio de Janeiro em Julho de 1848 nos cadernos denominados Lísia Poética ou Colecção de Poesias Modernas de Autores, e neles Maia Ferreira partilhou o espaço com inúmeras figuras das letras brasileira e portuguesa. Voltou à sua terra natal em 1849 para responder por vários postos na administração estatal: primeiro, na capitania de Benguela (ver em cima, na abertura), mas problemas gravíssimos associados a actos de corrupção na administração do aparelho de Estado por parte do governador local e de outros funcionários, contra os quais Maia Ferreira depôs em juízo, obrigaram-no a sair daquele reino e a tomar o rumo da capital de Angola. Aqui trabalhou até 1851 (ver em cima). Neste ano viajou para a América Setentrional, com passagem pelo Ambriz na barca Chusan, e estabeleceu-se em Nova York. No ano seguinte foi admitido no Consulado-Geral de Portugal graças às suas notáveis aptidões como escrivão. A 22 de Abril de 1856 o cônsul-geral César Henrique Stuart de la Figanière e Mourão (filho de Joaquim César Augusto Stuart de la Figanière, ministro plenipotenciário de S. Majestade portuguesa nos Estados Unidos), devido à estima e amizade que dedicava a Maia Ferreira, informou Lisboa que se propunha elevar o seu escrivão à condição de chanceler com a obrigação de este se repartir também pelo posto de vice-cônsul, razão pela qual requeria ao ministro e secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros apoio à confirmação régia do dito empregado. A confirmação viria a ser lavrada a 16 de Março de 1858 por certidão passada a Maia Ferreira pela Secretaria de Estado daquele Ministério (Biografia em expansão).


Referências[editar | editar código-fonte]

  1. PACHECO, Carlos (1992). José da Silva Maia Ferreira, Novas Achegas para a sua Biografia. Luanda: União dos Escritores Angolanos. pp. 47–69 
  2. MOSER, Gerald (1980). "Introdução", in Espontaneidades da Minha Alma. Às Senhoras Africanas (2.ª edição). Lisboa: Edições 70. pp. XI–XXIV 
  3. OLIVEIRA, Mário António Fernandes de (1966). «"Colaborações Angolanas no Almanach de Lembranças, 1851-1900"». Boletim do Instituto de Investigação Científica de Angola (IICA). doi:3 (1), p. 79 Verifique |doi= (ajuda) 
  4. PACHECO, Carlos (1.ª edição, Junho de 1990). José da Silva Maia Ferreira, O Homem e a Sua Época. Luanda: União dos Escritores Angolanos. pp. 27–153  Verifique data em: |ano= (ajuda)

Bibliografia adicional[editar | editar código-fonte]

  1. MOSER, Gerald. Essays in Portuguese-African Literature, Pennsylvania Park, The Pennsylvania State University (Colecção: "The Pennsylvania State University Studies"), 1969.
  2. MOSER, Gerald & FERREIRA, Manuel. Bibliografia das Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1983.
  3. OLIVEIRA, Mário António Fernandes de. " Primeiro Livro de Poemas Publicado na África Portuguesa" (separata da revista Ocidente, vol. XXIX), Lisboa, 1980.
  4. OLIVEIRA, Mário António Fernandes de. A Formação da Literatura Angolana (1851-1950), Dissertação de Doutoramento, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa, 1985 (exemplar mimeografado).
  5. OLIVEIRA, Mário António Fernandes de. Reler África (apresentação, revisão e nota bibliográfica por Heitor Gomes), Coimbra, Instituto de Antropologia, 1990.a Ss
  6. PACHECO, Carlos. O Nativismo na Poesia de José da Silva Maia Ferreira, Évora, Pendor Editorial, 1996, 70 págs.
  7. ROUGLE, William. "José da Silva Maia Ferreira, Poeta Angolano, Correspondente Brasileiro. Homem de Negócios Americano", Colóquio/Letras, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, n.º 120, Abril-Junho de 1991, pp. 184-188.
  8. VENÂNCIO, José Carlos. Uma Perspectiva Etnológica da Literatura Angolana, Lisboa, Ulmeiro [Colecção "Ulmeiro/Universidade n.º 9"], 2.ª edição, 1993.
  9. SOARES, Francisco. Notícia da Literatura Angolana, Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda [Colecção: «Escritores dos Países de Língua Portuguesa, 22»], 2001.
  10. TRIGO, Salvato. "A Francofilia Literária de Maia Ferreira". In: Ensaios de Literatura Comparada, Afro-Luso-Brasileira, Lisboa, Vega [Colecção "Vega Universidade"], s.d.
  11. CORRADO, Jacopo. The Creole Elite and the Rise of Angolan Protonationalism, 1870-1920, New York, Cambria Press, 2008.
  12. TOPA, Francisco. "Gato Escondido: Maia Ferreira e um Heroísmo Calcado em Zurara (A Cat Out the Bag: Maia Ferreira and a Kind of Heroism Underpinned in Zurara)", Miscelânea (revista da Faculdade de Ciências e Letras da UNESP - Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho", Asis), vol. 14, Jul./Dez. 2013, pp. 217-222.
  13. MARQUES, Leonardo. "Um Último Triângulo Notório: Contrabandistas Portugueses, Senhores Cubanos e Portos Norte-Americanos na Fase Final do Tráfico Transatlântico de Escravos, 1850-1867", Afro-Ásia [Universidade Federal da Bahia, Brasil], n.º 53, 2016, pp. 45-83.
  14. AN/TT (Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Lisboa). "José da Silva Maia Ferreira", código de referência: PT/TT/JSMF (1 cx.; 216 doc., 5 daguerreótipos, 12 fotografias, 2 livros; papel).