O Evangelho segundo Jesus Cristo

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
O Evangelho Segundo Jesus Cristo
Autor(es) José Saramago
Idioma português
País Portugal Portugal
Gênero romance
Editora Editorial Caminho
Lançamento 1991
Páginas 445
ISBN 972-21-0524-8
Edição brasileira
Editora Companhia das Letras
Páginas 448
ISBN 8571642095
Cronologia
História do Cerco de Lisboa
Ensaio sobre a Cegueira

O Evangelho Segundo Jesus Cristo (1991) é um romance de José Saramago que, com uma visão moderna e crítica da religião, reconta a história biblica sobre a vida de Jesus Cristo.

Sinopse[editar | editar código-fonte]

O livro conta uma história humanizada da vida de Jesus e alude a uma sua eventual relação com Maria Madalena (no livro, foi com ela que Jesus "conheceu o amor da carne e nele se reconheceu homem").[1] Ao adoptar essa perspectiva, de humanização de Cristo, distante da representação tradicional do Evangelho Saramago coloca que a propaganda histórica da crucificação de Jesus, "um revulsivo forte, qualquer coisa capaz de chocar as sensibilidades e arrebatar os sentimentos",[2] resultou na imposição de "uma história interminável de ferro e de sangue, de fogo e de cinzas, um mar infinito de sofrimento e de lágrimas",[3] de acordo com a sua visão de mundo, segundo a qual “por causa e em nome de Deus é que se tem permitido e justificado tudo, principalmente o mais horrendo e cruel",[4] e que, "no fundo, o problema não é um Deus que não existe, mas a religião que o proclama. Denuncio as religiões, todas as religiões, por nocivas à Humanidade. São palavras duras, mas há que dizê-las".[5] Isso levou a que o livro fosse considerado ofensivo por diversos sectores da comunidade católica, a que ele sofresse perseguição religiosa em seu próprio país,[6] e a que o governo português, pressionado pela Igreja Católica[7] e por meio do então Subsecretário de Estado da Cultura de Portugal, Sousa Lara, vetasse este livro de uma lista de romances portugueses candidatos ao Prémio Aristeion por "atentar contra a moral cristã".[8]

Em reacção a este acto do Subsecretário de Estado, que considerou censório, Saramago abandonou Portugal, passando a residir na ilha de Lanzarote, Ilhas Canárias[9], onde permaneceu até a sua morte.

Recepção[editar | editar código-fonte]

A principal crítica feita contra a obra é a da livre interpretação dos "textos sagrados", que desvirtuaria de forma "abusiva" os Evangelhos canônicos. Porém, tal crítica só faz sentido do ponto de vista do catolicismo, pois, mesmo dentre os cristãos, o protestantismo, por exemplo, tem como um de seus principais princípios a interpretação privada ou juízo privado dos textos bíblicos.[10] E, do ponto de vista dos direitos fundamentais de liberdade religiosa e do de liberdade de expressão, como formulado no caso Handyside contra Reino Unido,[11] tais críticas fazem ainda menos sentido.

Quando saiu a público, em novembro de 1991, o Evangelho Segundo Jesus Cristo suscitou reações polémicas de parte dos católicos. Entre elas, a do arcebispo de Braga, D. Eurico Dias Nogueira, proferida em maio de 1992: "Um escritor português, ateu confesso e comunista impenitente, como ele mesmo se apresenta, resolveu elaborar uma delirante vida de Cristo, na perspectiva da sua ideologia político-religiosa e distorcida por aqueles parâmetros." D. Eurico continua: "A apregoada beleza literária, a existir nesta obra, longe de atenuante e muito menos dirimente, constitui circunstância agravante da culpabilidade do réu, seu autor."

Vital Capelo, no jornal O Arrais de Peso da Régua, afirma acerca de Saramago e do romance: "Sendo o autor um descrente, não deveria ter a ousadia de imiscuir-se em assuntos de natureza religiosa (...) sob pena de ser aplicado o velho «Quem te mandou, sapateiro, tocar rabecão?!»." E enfatiza: "a juventude de Jesus é puramente fantasista e fruto da imaginação do autor (...)", completando que "na parte respeitante ao adulto, Jesus é completamente deformado, já que se faz dele um milagreiro andante, cuja História é bem conhecida, sendo apresentado como um vulgar aventureiro, despido de todo o esplendor de que foi cercado."

Carlos H. da C. Silva, na revista Humanística e Teológica, expõe o modo como interpreta o romance: "(...) toda a tradição ocidental cristã não se baseia em algo «verdadeiro» mas num vazio, numa fraude colossal. Seria esta a verdade dialetizada (...), conservadorista e ideal, a denunciar o que pareciam as formas alienatórias e impeditivas. (...) Nesse sentido, é como se se advogasse um eco de puro incómodo psicológico de Saramago em relação aos Evangelhos e a tudo quanto de «doentio» neles, ou melhor, numa hermenêutica e moralização longamente estabelecida, se veio a decantar. (...)".

Regina Sardoeira, professora de Filosofia e escritora, falou a respeito do romance que "Se repararmos bem, o livro O Evangelho Segundo Jesus Cristo de Saramago não destoa (no que concerne ao conteúdo) de obras como A Última Tentação de Cristo de Nikos Kazantzakis, ou dos best sellers de Dan Brown (O Código da Vinci, etc.) com a ressalva de que o primeiro e o segundo são obras-primas, enquanto os livros de Dan Brown estão longe de o ser. Sendo Jesus Cristo uma personagem histórica e não havendo fontes para saber (historicamente falando) as circunstâncias humanas do seu nascimento e da sua formação enquanto homem (os evangelhos canónicos - quer dizer, aqueles que a igreja católica considera dogmas - relatam o nascimento de Cristo, um ou dois factos relativos à sua infância e adolescência e fazem-no surgir, de repente, aos trinta anos, para cumprir uma missão divina que o levará à mais ignominiosa das mortes.) a marca que ele deixou no mundo dos homens é tão intensa e, em simultâneo, tão enigmática que dá azo a múltiplas especulações."

Leitura adicional[editar | editar código-fonte]

  • FERRAZ, Salma. Dicionário de personagens da obra de José Saramago. Blumenau: Edifurb, 2012.

Referências

  1. O evangelho segundo Jesus Cristo. São Paulo: Companhia das Letras, 2005, p. 242.
  2. O evangelho segundo Jesus Cristo. São Paulo: Companhia das Letras, 2005, p. 314.
  3. O evangelho segundo Jesus Cristo. São Paulo: Companhia das Letras, 2005, p. 319.
  4. José Saramago. «O factor Deus» (PDF). Consultado em 19 de Junho de 2010. 
  5. O Globo (17 de Outubro de 2009). «José Saramago: 'Penso que não merecemos a vida'». Consultado em 19 de Junho de 2010. 
  6. O Globo (19 de Junho de 2010). «Morre o escritor português José Saramago». Consultado em 19 de Junho de 2010. 
  7. The New York Times (18 de Junho de 2010). «José Saramago, Nobel Prize-Winning Portuguese Writer, Dies at 87» (em inglês). Consultado em 19 de Junho de 2010. 
  8. TSF Rádio Notícias (15 de Abril de 2004). «Sousa Lara voltaria a vetar livro de Saramago». Consultado em 16 de Junho de 2014. 
  9. «Instituto Camões - H O L A N D A O mundo é infinitamente cruel e sem engagement». 9 de outubro de 1998. Consultado em 16 de janeiro de 2009. 
  10. Christ Church (Reformed Presbyterian Church of North America). «Private Interpretation» (em inglês). Consultado em 16 de outubro de 2009. 
  11. Organização dos Estados Americanos - OEA. «Relatoria para a Liberdade de Expressão». Consultado em 25 de janeiro de 2010. 
Wikiquote
O Wikiquote possui citações de ou sobre: José Saramago