Ode

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Busto de Safo.
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Ode (do grego antigo ᾠδή ōidē) é um tipo de poesia lírica. É um poema elaboradamente estruturado que louva ou glorifica um objeto ou indivíduo, ou exortando a se realizar uma ação, descrevendo a natureza intelectualmente e emocionalmente.

Uma ode clássica é estruturada em três partes maiores - estrofe, antístrofe e epodo -, mas também existem outras formas, como a ode homostrófica e a ode irregular .

Odes gregas eram originalmente poesias realizadas com acompanhamento musical. Com o passar do tempo, elas gradualmente ficaram conhecidas como composições líricas pessoais, independentemente de ser cantadas (com ou sem acompanhamento instrumental) ou meramente recitadas (sempre com acompanhamento). Os primeiros instrumentos usados foram o aulo e a lira, sendo esta última um dos instrumentos mais reverenciados pelos gregos antigos. Na tragédia grega, eram obrigatórias as odes corais, longos trechos cantados pelo coro, em conforme a estrutura tripartida: estrofe, antístrofe e epodo.

Há três formas típicas da ode: a pindárica, a horaciana e a irregular. Odes pindáricas seguem a forma e o estilo de Píndaro; as horacianas seguem as características de Horácio, Safo, Alceu de Mitilene e Anacreonte.

As odes de Horácio foram, aos longo dos séculos, as que mais influenciaram o conceito de ode nas literaturas de origem europeia. Um exemplo:

"Angustam amice pauperiem pati

robustus acri militia puer

condiscat et Parthos ferocis

uexet eques metuendus hasta

(...)

Dulce et decorum est pro patria mori:

mors et fugacem persequitur uirum

nec parcit inbellis iuuentae

poplitibus timidoue tergo. "

Tradução:

"Robusto moço na milícia forte

Aveze-se à pobreza estreita, amigos; 

E com a lança temível cavaleiro

Vexe os ferozes partos;

(...)

Pela pátria morrer é doce, e honroso.

Segue a morte o varão também, que foge;

Nem aos moços perdoa, que covardes

Timídas costas voltam."

(Horácio, III. 2, tradução de Elpino Duriense, in: http://primeiros-escritos.blogspot.pt/2009/06/horacio-iii-2.html).

Odes irregulares usam rima, mas não a forma em três partes do modelo pindárico, nem as estrofes de dois ou de quatro versos. do modelo horaciano.

Marquesa de Alorna.

Praticamente esquecida durante a Idade Média, a ode, enquanto forma poética, veio a ressurgir com grande pujança nas literaturas europeias no Renascimento, sob a influência do classicismo, tendo como distintos cultores Garcilaso de la Vega, António Ferreira e Luís Vaz de Camões. Foi também amplamente explorada no Arcadismo, cujos máximos expoentes, Manuel Maria Barbosa du Bocage, Marquesa de Alorna e Filinto Elísio, foram consumados autores de odes em imitação do estilo de Horácio. Em  1865, Antero de Quental publicou as suas vanguardistas Odes Modernas, tratando de temas filosóficos e sociais. Igualmente, no século XX, Ricardo Reis, heterónimo de Fernando Pessoa, resgatou a ode do esquecimento e, partindo de uma base estética e formal horaciana e arcadista, compôs várias odes.

Na língua portuguesa, desde o Renascimento até ao século XX, as odes foram, geralmente, compostas em "medida nova", isto é, com verso decassilábico, que também podia ser combinado com o seu quebrado, o hexassílabo. Por exemplo:

"Fogem as neves frias
Dos altos montes quando reverdecem
As árvores sombrias;
As verdes hervas crecem,
E o prado ameno de mil côres tecem."
("Ode IX", Obras Completas de Luís de Camões, Correctas e emendadas pelo cuidado e diligencia de J. V. Barreto Feito e J. G. Monteiro, Tomo II, 1843).
Filinto Elísio
Ou, então:
"Estro, filho de Apolo, quando desces
Do verde Pindo, sobre acesas nuvens
Impetuoso assaltas
Inopinado Engenho
E chama imperiosa, insana fúria
Levantas na alma digna de teu vôo.
Tu à morada Olímpia arrebataste
O Cantor Grego, Pai da heróica tuba,
Que a Aquiles iracundo
Troa, quando afadiga
O anelante Hector, longo dos muros
Da emudecida Tróia descorada."
("Ode ao Estro", Obras de Filinto Elysio. - Nova ed. - Lisboa : Typ. Rollandiana, 1836-1840. - 22 v., Tomo I; grafia modernizada).
Tal como:
"Nada fica de nada. Nada somos.
Um pouco ao sol e ao ar nos atrasamos
Da irrespirável treva que nos pese        
Da húmida terra imposta,
Cadáveres adiados que procriam.
Leis feitas, estátuas vistas, odes findas —
Tudo tem cova sua.Se nós, carnes
A que um íntimo sol dá sangue, temos         
Poente, porque não elas?
Somos contos contando contos, nada."
(Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994.   - 168. In: http://arquivopessoa.net/).
Nas literaturas modernas, as odes ora têm um carácter de louvor ou glorificação (seguindo Píndaro), ora de reflexão pessoal (como Horácio, Safo e Alceu).
A ode foi e é uma forma poética muito popular na língua inglesa, pelo que ainda é costume serem compostas odes pelos poetas anglófonos.

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