Safo

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Safo
Afresco frequentemente referido a Safo nos tempos modernos, encontrado em Pompeia.
Nascimento em 630 a.C.
Eresos ou Mitilene Lesbos, Grécia
Morte 612 a.C.
Nacionalidade Grega
Ocupação Poetisa

Safo (em grego antigo: Σαπφώ, transl. Safo)[1] foi uma antiga poetisa grega da ilha de Lesbos. É conhecida por sua poesia escrita para ser cantada ao som da lira. Foi a primeira autora feminina conhecida em toda a história. [2] A maioria dos poemas de Safo se perdeu ao longo do tempo, assim como ocorreu com outros poetas, e o que sobreviveu chegou até nós em forma de fragmentos, sendo seu único poema completo a chegar aos dias atuais intitulado ´´Ode a Afrodite´´. Além da poesia lírica, os antigos comentaristas afirmam que ela escrevia poesia elegíaca e iâmbica. Pouco se sabe sobre a vida de Safo, sabe-se que ela era filha de uma família rica da aristocracia de Mitilene, porém não é possível ter certeza sobre o real nome de seus pais, sendo atribuídos geralmente o nome de Cleis para a sua mãe e de Escamandronio para seu pai.[3] Fontes antigas dizem que ela possuía três irmãos. Os nomes de dois deles são mencionados no poema ´´Os Irmãos´´, descoberto em 2014.

Registros históricos e bibliográficos[editar | editar código-fonte]

Pouco se sabe sobre a vida de Safo.[4][5] Uma das poucas fontes contemporâneas de Safo, que poderia fornecer alguma informação sobre sua vida seriam seus poemas, porém eles não podem ser considerados como relatos biográficos de sua vida, e muitos estudiosos relutam em fazer-lo tendo em vista que os poemas de Safo eram feitos para serem lidos em público, em cerimônias religiosas, banquetes, e outros eventos.Outra fonte para a vida dela seria o Testimonia, um conjunto de referências biográficas e literárias a Safo, coletadas por autores da antiguidade.[6] Os relatos do Testimonia não datam da época de Safo, mas foram escritos por pessoas que tiveram muito mais acesso a poesia de Safo do que nós temos hoje em dia,[6][7] no entanto é difícil saber até que ponto estes relatos estão corretos ou não.[7]

Safo retratada por Jean Baptite Regnaut

Safo era de Mitilene na ilha de Lesbos.[8] A tradição nomeia sua mãe como Cleis, e seu pai como Escamandronio, membros da aristocracia local.[3][9] Em Heroides, do poeta Ovídio, o pai de Safo morreu quando ela tinha apenas 7 anos[10].Nenhum retrato de sua aparência sobreviveu, sendo todas as representações antigas e modernas concepções artísticas[11]. Alceu, poeta contemporâneo de Safo, e a quem alguns relatam que Safo teria tido um romance, descreve ela como tendo ´´cabelo violeta´´ que seria uma forma poética comum de descrever cabelos escuros[12][13].

Ela teve três irmãos Erigyius, Larichus, Charaxus. De acordo com Ateneu, Safo sempre elogiou Larichus por fazer um serviço cerimonial na prefeitura de Mitilene. Este serviço era feito apenas por garotos das melhores famílias .[14] Uma tradição antiga relata que Charaxus, um dos irmãos de Safo, teria gasto uma grande soma de dinheiro para resgatar uma cortesã egípcia, fato este que levou Safo a repreendê-lo.[3][15]

Segundo o Suda, uma importante enciclopédia bizantina, ela teria tido uma filha de nome Cleis, mesmo nome que é atribuído à sua Mãe, e teria se casado com um homem rico chamado Kerkylas, da ilha de Andros.[3] [5] Esses fatos ganham força pois o nome Cleis aparece em alguns fragmentos de poemas atribuídos a Safo, contudo não há certeza se Cleis era de fato sua filha ou mais uma de suas discípulas.[16] Uma tradição também afirma que Safo foi exilada de Lesbos para a Sicília por volta de 630 a.C, devido a disputas políticas de sua família.[8] Nesse mesmo período e pelo mesmo motivo também temos Alceu de Mitilene indo para o exílio.[17]

Escola[editar | editar código-fonte]

Por sua posição social e política, Safo e sua família foram exilados para a Sicília quando ela ainda era jovem.[18] Após alguns anos de exílio, ela retornou a ilha de Lesbos e em Mitilene supostamente inaugurou uma ´´escola para mulheres´´.[19]

Nessa escola, Safo ensinava poesia, dança, arte e música para suas alunas,[20] também desenvolviam-se atividades físicas, banquetes, cultos religiosos e concursos de beleza.[21]  As alunas, chamadas de hetarai (companheiras), vinham de todos os lugares da Grécia para serem discípulas de Safo,[22] lá, elas aprendiam a serem “mulheres completas”, ou seja: graciosas, femininas e elegantes, segundo a ideia de feminilidade de Safo, alguns afirmam que a poetisa as preparava para o casamento.[23]

Obras[editar | editar código-fonte]

Safo, por Klimt 1888.

Safo contribuiu significantemente para a poesia lírica, dando um destaque a poesia mélica devido aos acompanhamentos musicais nas leituras de seus poemas.[24] Ao que tudo indica os gregos podem ter visto Safo como uma contraparte feminina de Homero, pois se referiam a ele como ´´o poeta´´ e a ela como ´´a poetiza´´.[5]

Escrevia sobre dores e prazeres, é perceptivo em seus poemas uma linguagem autônoma, feminina e fluída. Não é sabido como Safo colocou seus poemas em circulação, mas é conhecido que as mulheres passavam via tradição oral os poemas para suas filhas.[25] Sua poesia foi muito reconhecida e admirada na sua época.[25]

Nos séculos III e II a.C, dois estudiosos pertencentes à Escola de Alexandria, Aristófanes de Bizâncio e Aristarco de Samotrácia, coletaram e editaram seus poemas em nove livros de acordo com a métrica. Sua poesia de conteúdo considerado erótico foi censurada pelos copistas medievais ou se perdeu com o tempo assim como ocorreu com outros poetas e pensadores da antiguidade, por isso restaram apenas alguns fragmentos das obras de Safo.[26]

Safo retratada em uma ânfora

“Nove são as musas, dizem alguns; que descuidados!

Vejam, Safo de Lesbos é a décima.” - Platão, AP 9.506[26]

Fragmentos poéticos de Safo:

  1. Antigamente, era assim que dançavam

a essa hora, as mulheres de Creta;

ao som da música, ao redor do altar sagrado

dançavam, calçando sob os pés delicados

as flores tenras da relva.

  1. A Lua já se pôs,

e as Plêiades; é meia-

noite; a hora passa e eu

deitada estou sozinha

  1. Vieste, e fizeste bem. Eu esperava,

queimando de amor; tu me trazes a paz.

  1. Queimo em desejo e anseio por…

  2. Mãe querida, não posso mais te tecer a trama

-queimo de amor por um lindo rapaz:

a culpa é de Afrodite, a delicada -

  1. <Noiva>: Virgindade, virgindade, onde estás, após abandonar-me, tendo ido embora?

<Virgindade>: Nunca mais voltarei para ti, nunca mais!

-Carta de Safo a Faón[27]

Sexualidade[editar | editar código-fonte]

Safo e suas alunas, por Amanda Brewster Sewell, 1891.

Atualmente, a Ilha de Lesbos é um local turístico atrativo à mulheres lésbicas. Na Grécia Antiga, a Ilha, segundo Luciano de Samósata, era um local de amores depravados.[28] O termo lésbica nos dia atuais faz alusão a Safo e a ilha em que nasceu, e a sua suposta homossexualidade. No entanto nem sempre foi assim: na literatura ateniense clássica, Safo era retratada como uma mulher heterossexual promíscua,[29] tendo um forte desejo sexual apenas por homens. A própria palavra lésbica, que nos dias atuais é sinônimo de homossexualidade feminina, na antiguidade possuía outro significado. Durante muito tempo na Grécia e na Roma antiga o termo lesbiazein, que deriva da palavra Lesbos, significava felação ´´o ato de uma mulher fazer sexo oral em um homem´´,[5] e a palavra lésbica tinha sinônimo de cortesã.

Somente alguns séculos depois que os poemas de Safo passaram a ser interpretados de maneira equivocada segundo alguns como sendo demonstração de amor homosexual.O Suda, registra que Safo foi acusada de maneira caluniosa de ter relações sexuais com suas alunas.[30] No século I Seneca criticou um erudito, por ter dedicado um enorme tratado a Safo afirmando que ela seria uma prostituta,[31] enquanto outros autores levantaram a hipótese de haverem na verdade duas mulheres com o nome de Safo que viveram na ilha de Lesbos, uma era uma brilhante poetisa.[5][32]

Safo admirando o poeta Alceu de Mitilene

A partir do século XVIII houve uma maior discussão acerca da sexualidade de Safo.[33] Os pesquisadores que defendem a teoria de uma Safo lésbica, utilizam como argumento a suposta existência de paralelos entre imagens e palavras de poemas de pederastas e de poemas da poetisa.[34]

Contudo outros estudiosos argumentam que os poemas escritos por Safo não representavam o amor homossexual por suas discípulas, o próprio Ovídio, que teve acesso a sua poesia, não menciona em nenhum momento a homossexualidade em seus poemas,[31] e para muitos na verdade eles eram epitalâmios, ou seja cânticos nupciais que faziam parte da tradição do casamento na Grécia antiga, eles consistiam num elogio publico e solene, dirigido ao cônjuge de maior condição social, recitado por um coral, e que exaltavam as qualidades dos noivos para chamar a atenção dos deuses, principalmente Himeneu o deus das boas nupcias, para que esses deuses dessem suas bençãos ao casal. Mesmo os poemas nos quais Safo utiliza o pronome pessoal´´eu´´, devem ser interpretados como ´´nós´´, tendo em vista que era habito entre alguns poetas antigos usar a primeira pessoa mesmo quando o poema era direcionado a terceira pessoa, ou quando era feito para ser cantado em corais por varias pessoas. Sendo assim o personagem narrador dos poemas de Safo na verdade seria um elemento literário, não uma declaração pessoal de amor, pois as famílias ricas não confiariam suas filhas a este tipo de influência.[35] Ela era muito respeitada na Ilha, pois lhe era concedido o direito à honrar os deuses em seus poemas, que eram cantados em público, o que torna as chances dela ser homossexual, ou prostituta pouco prováveis.[36]

Morte[editar | editar código-fonte]

Existem duas interpretações sobre o fim da vida de Safo para os historiadores, uma implica um fim trágico, com a poetisa pulando do alto de um penhasco por um amor não correspondido por um homem, outro afirma que a poetisa na verdade teria tido uma vida tranquila e morrido de causas naturais em uma idade avançada.O autor grego trágico Menandro (341-291 a.C.) escreveu uma peça aonde há uma Safo que se apaixona por muitos homens em toda a sua vida, sendo seu último grande amor o barqueiro Faón, amor o qual não era correspondido, pois Afrodite o enfeitiçara para não cair nas graças de Safo. Tendo entrado em desespero, Safo pula do monte Leucadê, localizado na ilha de Lesbos.[37] As pesquisas modernas, porém, chegaram à conclusão de que a suicida era na verdade uma homônima de Safo escrita pelo dramaturgo ateniense Menandro. Não existem relatos oficiais sobre como de fato ocorreu a morte de Safo, o que deixou uma lacuna em sua história, sendo discutida apenas através de especulações de peças da literatura grega.[38]

Representações antigas[editar | editar código-fonte]

Pilar com uma escultura de “Safo”; inscrito, "Safo Eresia", Safo de Eresos. Cópia romana do grego clássico original, Museu do Capitólio.
Retrato de Sappho, Palazzo Massimo alle Terme, Roma. Foto de Paolo Monti de 1969.

Safo, mesmo com seu exílio, teve grande influência na Grécia antiga, foi em Atenas, uma referência da autoridade feminina moldada pela Comédia Nova. Safo era sacerdotisa de um culto religioso (thíasos), também supostamente uma professora de um coro feminino ligado às festividades do casamento e dedicado às Musas, às Graças e a deusa Afrodite, aonde tinha o ensinamento voltado as jovens solteiras que estavam prestes a se casar e elas se dedicavam ao aprendizado da música e da poesia.[39]

Os atenienses nos séculos IV e V a.C. pensavam sobre Safo pelos relatos de Ateneu, que escreveu obras cômicas. O poeta falava dos rituais dos banquetes privados relativos ao komós grego e de suas etapas, relatando uma Safo simposiasta e que interpretava canções de amor.[39]

Safo era tema central de inúmeras comédias na Atenas clássica. Chegaram até nós somente fragmentos de seis comédias com o título Safo utilizados nas comédias escritas por Ameipsias, Amfis, Antífanes, Dïfilos, Efippos e Timocles. Na comédia, Safo era muito representada com grande interesse por jovens, tanto homens quanto mulheres.[38] Na obra de Antifanes, Safo seria representada como poetisa e uma adivinhadora de enigmas.[39]

No início do século XIX foram descobertos fragmentos de poemas referentes a Safo em Oxirrinco no Egito, com criticas sobre como ela era vista no século V a.c. como uma mulher imoral e por ter relacionamentos supostamente homossexual.[40]

Referências

  1. DEMARCHI, 2010, p.136
  2. Freeman 2016, p. 208
  3. a b c d Cantu, Cesare (1859). História universal : biografias e índices. Documentos , Volume 10. [S.l.]: Impressão de Gaspar e Roig. p. 45. 899 páginas 
  4. Rayor & Lardinois 2014 p.01
  5. a b c d e Mendelsohn, Daniel (16 de março de 2015). «Girl, Interrupted». Consultado em 10 de janeiro de 2017 
  6. a b Barnstone 2009, p.123
  7. a b Rayor & Lardinois 2014, p.2
  8. a b Hutchinson 2001, p.139.
  9. Mendelsohn 2015
  10. Most 1995, p.20
  11. Ritcher 1995, p.172
  12. Campbell 1982, p.3
  13. Alceus fr Loeb/LP 384 veja n1 AD Loc para uma expressão de incerteza do editor
  14. Campbell 1982 pp XI 189.
  15. Heródoto historias 2,135
  16. Hallett 1982, p.22-23
  17. Kurke 2007, p.158
  18. DOS SANTOS,1978.p. 57
  19. COSTA, 2012.p. 29-30
  20. COSTA, 2012.p. 42
  21. ULLMANN, 2005. p. 47
  22. DEMARCHI, 2010, p.138
  23. CALAME, 1996. p. 123
  24. RAGUSA, 2008. p. 2
  25. a b FUNARI, 1995. p 98; GREENE, 1996. P 4
  26. a b RIBEIRO,2003.
  27. FUNARI, 1995. p 97
  28. ULLMANN, 2007, p. 49; GOLDHILL, 2007, p. 72
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  32. Mellado, Francisco de Paula (1848). Diccionario universal de historia y de geografia: Contiene: 1. Historia propriamente dicha ... 2. Biografia universal ... 3. Mitologia ... 4. Geografia antigua y moderna ... [S.l.: s.n.] 
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  34. BREMMER, 1995, p. 33
  35. ULLMANN, 2007, p. 47
  36. BREMMER, 1995, p. 29
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  38. a b CANDIDO,2008.p 53
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Bibliografia[editar | editar código-fonte]

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