Safo

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa
Broom icon.svg
As referências deste artigo necessitam de formatação (desde junho de 2016). Por favor, utilize fontes apropriadas contendo referência ao título, autor, data e fonte de publicação do trabalho para que o artigo permaneça verificável no futuro.
Disambig grey.svg Nota: Para outros significados, veja Safo (desambiguação).
Safo
Afresco representando Safo encontrado em Pompeia.
Nascimento em 630 a.C
Eresos, Lesbos, Grécia
Ocupação Poetisa

Safo (em grego antigo: Σαπφώ, transl. Safo) foi uma poetisa membro da aristocracia e importante representante feminina da lírica grega.[1] Faz parte dos nove poetas líricos do período arcaico. Teria nascido na Ilha de Lesbos por volta de 630 a.c. e teria passado a maior parte de sua vida na cidade de Mitilene.[2]Sua mãe chamava-se Kleís e seu pai Skamandronymos, ambos aristocratas de grande participação política;[3]documentos apontam que tinha três irmãos: Lárikhos, Kháraxos e Eyrýgios.[1]

Registros históricos e bibliográficos[editar | editar código-fonte]

Ainda jovem, Safo já fazia parte da vida pública de Lesbos, tanto na política como na poesia. Por conta de divergências políticas, foi exilada na Sicília.[4] Lá envolveu-se com um homem rico da cidade de Andros, e teve com ele uma filha de mesmo nome que sua mãe, Kleís.[5]

Ao retornar a Lesbos, há indícios de que havia se envolvido com outras mulheres no culto à deusa Afrodite; [2]teve três companheiras: Átthis, Telessíppa e Mégara.[1] Após seu retorno, adquiriu uma posição influente em Mitilene, tornando-se líder da sociedade local no quesito intelectual, além de fundar um colégio para meninas onde ensinava música, poesia e dança.[6]Safo mais que uma vez foi retratada como uma mulher morena de olhos negros, boca grande e cabelos longos.[7]Escreveu nove livros de poesia (dos quais chegaram até nós apenas um poema completo e dezenas de fragmentos) e fez parte do cânone alexandrino dos nove poetas líricos.[2] É autora também de epigramas, elegias, iambos e monódias.[1]

Escola[editar | editar código-fonte]

Devido a seus escritos e sua posição social e política, Safo foi exilada para Sicília quando jovem.[8]Após cinco anos de exílio, retornou a ilha de Lesbos e em Mitilene inaugurou uma escola para mulheres.[9]

Nessa escola, Safo ensinava poesia, dança, arte e música para suas alunas,[10]também desenvolviam-se atividades físicas, banquetes, cultos religiosos e concursos de beleza.[11]  As alunas, chamadas de hetarai (companheiras), vinham de todos os lugares da Grécia para serem discípulas de Safo,[6]e há indícios de que relacionavam-se amorosamente com ela e entre si.[11]

Lá, as alunas aprendiam a serem “mulheres completas”, ou seja: graciosas, femininas e elegantes, segundo a ideia de feminilidade de Safo. Há alguns que dizem que a poetisa as preparava para o casamento.[12]

Obras[editar | editar código-fonte]

Safo, por Klimt 1888.

Safo contribuiu significantemente para a poesia lírica, dando um destaque a poesia mélica devido aos acompanhamentos musicais nas leituras de seus poemas.[13]

As obras de Safo poucas vezes tiveram como temática os distúrbios políticos. Ao contrário de muitos educadores e poetas da época, Safo não escrevia versos para virgens ou de preparação para o casamento. Além disso, o grupo formado por moças de Lesbos criou o seu próprio sistema de linguagem e símbolos representando a homoafetividade feminina e o erotismo lésbico.[14]

Escrevia sobre as próprias dores e prazeres, é perceptivo em seus poemas uma linguagem autônoma, feminina e fluída. Não é sabido como Safo colocou seus poemas em circulação, mas é conhecido que as mulheres passavam via tradição oral os poemas para suas filhas.[14]

A aceitação por parte dos homens em relação aos poemas de Safo pode ser interpretada como uma fuga da competitividade masculina. Sua poesia foi muito reconhecida e admirada na sua época.[14]

Nos séculos III e II a.C, dois estudantes pertencentes à Escola de Alexandria, Aristófanes de Bizâncio e Aristarco de Samotrácia, coletaram e editaram seus poemas em nove livros de acordo com a métrica. Sua poesia de conteúdo considerado erótico foi censurada pelos escribas medievais, ligados quase sempre a Igreja Católica, por isso restaram apenas alguns fragmentos das obras de Safo.[2] Alguns historiadores afirmam que Safo vêm sofrendo alteração nos seus poemas, havendo uma troca de pronomes femininos para masculinos, com o intuito de fazer parecer que Safo também amasse os homens. Foi uma das várias artistas que tiveram seu trabalho heterossexualizado.[14]

“Nove são as musas, dizem alguns; que descuidados!

Vejam, Safo de Lesbos é a décima.” - Platão, AP 9.506[2]

Fragmentos poéticos de Safo:

  1. Antigamente, era assim que dançavam

a essa hora, as mulheres de Creta;

ao som da música, ao redor do altar sagrado

dançavam, calçando sob os pés delicados

as flores tenras da relva.

  1. A Lua já se pôs,

e as Plêiades; é meia-

noite; a hora passa e eu

deitada estou sozinha

  1. Vieste, e fizeste bem. Eu esperava,

queimando de amor; tu me trazes a paz.

  1. Queimo em desejo e anseio por…

  2. Mãe querida, não posso mais te tecer a trama

-queimo de amor por um lindo rapaz:

a culpa é de Afrodite, a delicada -

  1. <Noiva>: Virgindade, virgindade, onde estás, após abandonar-me, tendo ido embora?

<Virgindade>: Nunca mais voltarei para ti, nunca mais!

-Carta de Safo a Faón[15]

Sexualidade[editar | editar código-fonte]

Safo e suas alunas, por Amanda Brewster Sewell, 1891.

Atualmente, a Ilha de Lesbos é um local turístico atrativo à mulheres lésbicas. Na Grécia Antiga, a Ilha, segundo Luciano de Samósata, era um local de amores depravados, pois ao contrário da pederastia, a qual era natural e incentivada pela sociedade, o tribadismo não era aceito pelos gregos antigos, que consideravam as mulheres que o praticavam, imorais e opostas à natureza.[16]

Safo foi eternizada como a primeira mulher conhecida como homossexual, provavelmente devido a um famoso poema de Ovídio, o qual representa uma carta de Safo e devido à alguns de seus poemas eróticos serem dedicados a outras mulheres.[17]

“Nem as garotas de Pirra ou Metimna [aldeias de Lesbos] me deleitam, nem o resto da multidão de mulheres lésbias. Nada é para mim Anactória, nada a bela Cidro; Átide não mais me apraz aos olhos, como antes, nem uma centena de outras a quem amei, não sem reprovação. Homem desavergonhado, o que outrora pertenceu a muitas garotas, agora é só teu”.[17]

A partir do século XVIII houve uma maior discussão acerca da sexualidade de Safo.[18]A maioria dos estudiosos acredita que Safo realmente mantinha relações tríbades, entretanto ainda não há um consenso.[19]Os pesquisadores que defendem a teoria de uma Safo lésbica, utilizam como forte argumento a existência de diversos paralelos entre imagens e palavras de poemas de pederastas e de poemas da poetisa.[20]Além disso, também se utilizam da tradução da palavra lesbiazén (felação), “fazer como as mulheres de Lesbos”, para justificar a existência de lésbicas na Ilha e transformar Safo em uma famosa amante de mulheres.[7]

Na época em que possuía uma escola na Ilha de Lesbos, Safo não era considerada uma tríbade, pois as famílias não confiavam suas filhas a este tipo de influência.[21] Esta era muito respeitada na Ilha, pois lhe era concedido o direito à honrar os deuses em seus poemas, que eram cantados em público.[22]Portanto, é possível constatar que se Safo era lésbica, - uma análise literária e psicofísica mais atual de suas obras permite perceber que Safo nutria um grande amor por algumas de suas alunas - seu gosto era respeitado pelos outros membros da cidade.[19]

Morte[editar | editar código-fonte]

Historicamente, existem duas interpretações de Safo para os historiadores, que implica em muito o fim trágico da sua vida. O autor grego trágico Menandro (341-291 a.C.) escreveu uma peça aonde há uma Safo heterossexual que se apaixona por muitos homens em toda a sua vida, sendo seu último grande amor o barqueiro Phaón, amor o qual não era correspondido, pois Afrodite o enfeitiçara para não cair nas graças de Safo. Tendo entrado em desespero, Safo pulado do monte Leucadê, localizado na ilha de Lesbos.[23]

Mitologicamente, Phaón usou uma erva marinha chamada eryngo que seria o ingrediente para uma poção encontrada dentro de um alabastro (recipiente para óleo ou perfume). Essa erva fazia com que Faón só tivesse olhos para Afrodite, o efeito nas mulheres era de enlouquecê-las. Safo enlouquecida teria rogado ao deus Apolo para curá-la deste mau de amor. O salto representa o poder de Apolo sobre a relação de vida e morte. Muitos homens e mulheres que realizaram o salto foram curados da loucura de amor, em uma tentativa, Safo o executa, mas falece.[24]

A investigação moderna, porém, chegou à conclusão que a suicida era uma homônima de Safo escrita pelo dramaturgo ateniense Menandro. Não existem relatos oficiais sobre como de fato ocorreu a morte de Safo, o que deixou uma lacuna em sua história, sendo discutida apenas através de especulações de peças de comédias gregas.[24]

Representações antigas[editar | editar código-fonte]

Pilar com uma escultura de “Safo”; inscrito, "Safo Eresia", Safo de Eresos. Cópia romana do grego clássico original, Museu do Capitólio.

Safo, mesmo com seu exílio, teve grande influência na Grécia antiga, foi em Atenas, uma referência da autoridade feminina moldada pela Comédia Nova. Safo era sacerdotisa de um culto religioso (thíasos), também era professora de um coro feminino ligado às festividades do casamento e dedicado às Musas, às Graças e a deusa Afrodite, aonde tinha o ensinamento voltado as jovens solteiras e elas se dedicavam ao aprendizado da música e da poesia.[25]

Os atenienses nos séculos IV e V a.C. pensavam sobre Safo pelos relatos de Ateneu, que escreveu obras cômicas. O poeta falava dos rituais dos banquetes privados relativos ao komós grego e de suas etapas, relatando uma Safo simposiasta e que interpretava canções de amor.[25]

Safo era tema central de inúmeras comédias na Atenas clássica. Chegaram até nós somente fragmentos de seis comédias com o título Safo utilizados nas comédias escritas por Ameipsias, Amfis, Antífanes, Dïfilos, Efippos e Timocles. Na comédia, Safo era muito representada com grande interesse por jovens, tanto homens quanto mulheres.[24]

Na comédia há também uma Safo homossexual aonde há o intuito de criticar a própria realidade ateniense assolada por conflitos e hábitos sociais corruptos depois da Guerra do Peloponeso, diferente do contexto aonde Safo vivia a vida aristocrática e a voltada aos pensamentos, ensinamentos e cheio de fortunas. Na obra de Antifanes, Safo seria representada como poetisa e uma adivinhadora de enigmas.[25]

No início do século XIX foram descobertos fragmentos de poemas referentes a Safo em Oxirrinco no Egito, com criticas sobre como ela era vista no século V a.c. como uma mulher imoral e por ter relacionamentos supostamente homossexual.[26]

Referências

  1. a b c d DEMARCHI, 2010, p.136
  2. a b c d e RIBEIRO,2003.
  3. POWELL, 2007, p.43
  4. SILVA; VILELA, 2011, p.70
  5. SILVA; VILELA, 2011, p.69
  6. a b DEMARCHI, 2010, p.138
  7. a b DEMARCHI, 2010, p.147
  8. DOS SANTOS,1978.p. 57
  9. COSTA, 2012.p. 29-30
  10. COSTA, 2012.p. 42
  11. a b ULLMANN, 2005. p. 47
  12. CALAME, 1996. p. 123
  13. RAGUSA, 2008. p. 2
  14. a b c d FUNARI, 1995. p 98; GREENE, 1996. P 4
  15. FUNARI, 1995. p 97
  16. ULLMANN, 2007, p. 49; GOLDHILL, 2007, p. 72
  17. a b BREMMER, 1995, p. 37
  18. LEITE, 2006, p. 2
  19. a b ULLMANN, 2007, p. 48; BREMMER, 1995, p. 29; 36
  20. BREMMER, 1995, p. 33
  21. ULLMANN, 2007, p. 47
  22. BREMMER, 1995, p. 29
  23. CANDIDO,2008.p 52
  24. a b c CANDIDO,2008.p 53
  25. a b c CANDIDO,2008.p 54
  26. SILVA,2011.p 70

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

BREMMER, Jan N. De Safo a Sade momentos na história da sexualidade. Campinas: Papirus, 1995. ISBN 85 308 0325-6

CALAME, Claude. "Sappho’s Group: an initiation into Womanhood." Reading Sappho: Contemporary Approaches (1996): 113-24. ISBN 978 0 141 93125-8

CANDIDO, M. Regina, GRALHA, Júlio César, BISPO, Cristiano Pinto, PAIVA, José R. (orgs). Vida, Morte e Magia no Mundo Antigo. Rio de Janeiro: NEA/UERJ, 2008.Disponível em: <http://www.nea.uerj.br/publica/e-books/vida_morte_e_magia_no_mundo_antigo.pdf>. Acesso em 26 abr. 2016

COSTA, Zora Yonara Torres. "Safo, Foucault e Butler: a constituição do corpo político lesbiano." (2012).  Disponivel em <http://repositorio.unb.br/bitstream/10482/10098/1/2011_ZoraYonaraTorresCosta.pdf>  Acesso em 26 abr. 2016

DEMARCHI, Cristiane. Safo, Conteúdo Adulto: homoerotismo feminino/voyeurismo masculino. In:____. Outros Tempos. Campinas (SP). Universidade Estadual de Campinas, 2010, p.135-153. Disponível em: <http://www.outrostempos.uema.br/OJS/index.php/outros_tempos_uema/article/view/124/99> Acesso em: 6 de junho de 2016.

DOS SANTOS, Rubens. Safo de Lesbos. Ensaios de Literatura e Filologia 1 (1978): 55-70. Disponível em: <http://www.periodicos.letras.ufmg.br/index.php/literatura_filologia/article/view/7085/6087>. Acesso em 6 jun. 2016.

FUNARI, Pedro Paulo Abreu. Antiguidade Clássica: a história e a cultura a partir dos documentos. São Paulo. UNICAMP, 1995. ISBN 8526806343

GOLDHILL, Simon. Amor, Sexo & Tragédia: como gregos e romanos influenciam nossa vida até hoje. Trad. Cláudio Bardella – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2007. ISBN 9788571109711

GREENE, Ellen (ed.), Re-reading Sappho: contemporary approaches. Berkeley: University of California Press, 1996. ISBN 9780520206014

LEITE, Letticia B. R.. Antiguidade Clássica, Safo de Lesbos e Lesbianismo: historiografia e memória. In: 58. Reunião Anual da SBPC, 2006, Florianópolis, SC. Anais da 58. Reunião Anual da SBPC, 2006. Disponível em: <http://www.anpuhsp.org.br/sp/downloads/CD%20XVIII/pdf/PAINEL%20PDF/Lett%EDcia%20Batista%20Rodrigues%20Leite.pdf>. Acesso em 6 de junho de 2016.

RAGUSA, Giuliana. Imagens de Afrodite: variações sobre a deusa mélica grega arcaica. São Paulo. Universidade de São Paulo, 2008. Disponivel em : <http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8143/tde-21012009-162241/pt-br.php> Acesso em 26 mai. 2016.

RIBEIRO JR., W.A. Safo. Portal Graecia Antiqua, São Carlos. Disponível em <www.greciantiga.org/arquivo.asp?num=0201>. Acesso em: 26 abr. 2016.

Sapho. The poetry of Sappho; translated by Jim Powell. Published by Oxford University Press, Inc. 2007. ISBN 0195326725

Sappho of Lesbos.Disponível em: <http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8143/tde-21012009-162241/>.Acesso em 06 de jun. 2016

SILVA, Fabio Mario. VILELA, Ana Luísa. Homo(lesbo)erotismo e literatura, no Ocidente e em Portugal: Safo e Judith Teixeira. Porto Alegre, v. 4, n. 1, jan./jun. 2011. Disponível em:<https://dspace.uevora.pt/rdpc/bitstream/10174/3526/1/Safo%20e%20Judith%20Teixeira.pdf>Acesso em: 26 abr. 2016.

ULLMANN, Reinholdo Aloysio. Amor e sexo na Grécia Antiga. EDIPUCRS, 2005. Disponível em: <https://books.google.com.br/books?hl=pt-BR&lr=&id=WJ9jM-dtusoC&oi=fnd&pg=PA9&dq=sexualidade+grecia&ots=Wt24sszacq&sig=fvzYVuc3D25oyYNRSn4JltLiiEc#v=onepage&q=consenso&f=false>. Acesso em: 6 de jun. de 2016. ISBN 9788574305400

Ligação externa[editar | editar código-fonte]

O Commons possui uma categoria contendo imagens e outros ficheiros sobre Safo
Wikiquote
O Wikiquote possui citações de ou sobre: Safo