Écloga

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Écloga é um pequeno poema pastoral que apresenta, na maioria das vezes, a forma de um diálogo entre pastores ou de um solilóquio. O termo "écloga" deriva do grego eklogē (ἐκλογή), "seleção, poesia escolhida", através do latim ecloga.

O termo foi inicialmente aplicado aos poemas bucólicos de Virgílio, que imitavam os Idílios, de Teócrito; a obra de Virgílio tornou-se conhecida, convencionalmente, como éclogas (42-37 a.C.). Depois do poeta de Mântua, foi cultivada na Antiguidade por Calpúrnio Sículo, Nemesiano e Ausónio.

Dante escreveu dois poemas bucólicos em latim, imitando Virgílio, e o humanista português Henrique Caiado (Lisboa, por volta de 1470 - Roma, 1509 ) escreveu nove éclogas, também em latim, muito celebradas no seu tempo e cuja qualidade poética e perfeição formal permanecem inegáveis nos nossos dias:

"Advena qui nostris errabat nuper in aruis

Pastor, ab occiduis olim qui venerat oris,

Externum hîc servare gregem persaepe solebat

Oceano notum, ripisque nitentibus auro.

Fistula semper erat comes huic, seu pasceret agnos,

Saltantes ve haedos fessae circum ubera matris,

Seu rivos illo peterent ducente juvenci,

Undique cernere erat certatim currere nymphas,

Semicaprosque citos properare ad carmina Faunos."

("O pastor estrangeiro, vindo há anos duma terra do ocidente, e que, não há muito ainda, andava pelos nossos campos, muitas vezes costumava apascentar nestes sítios o rebanho que de lá trouxera, conhecido do Mar Oceano e das refulgentes praias doiradas. A flauta era sua companheira inseparável. Quer levasse ao pastio os cordeiros e os cabritinhos saltitantes, em volta dos extenuados úberes da mãe, ou os bezerros a beber nas margens dos ribeiros — de todas as bandas se viam acorrer as ninfas à desfilada, e os Faunos semi-caprinos imediatamente se deixavam atrair pela melodia dos seus versos.", Excerto da "Écloga II" de Henrique Caiado, tradução de Tomás Rosa).

Durante o Renascimento, popularizaram-se as éclogas em línguas vernáculas, em especial as de Garcilaso de la Vega, Juan Boscán, Jacopo Sannazaro, António Ferreira, Camões, Sá de Miranda, Bernardim Ribeiro, Jorge de Montemor, Diogo Bernardes, Francisco Rodrigues Lobo, entre outros. Vejamos a primeira estrofe da "Écloga IV" de Camões:

"Cantando por um vale docemente

Desciam dous pastores, quando Febo

No reino Neptunino se escondia:

De idade cada qual era mancebo;

Mas velho no cuidado, e descontente

Do que lhe ele causava parecia.

O que cada um dizia

Lamentando seu mal, seu duro fado,

Não sou eu tão ousado,

Que o pretenda cantar sem vossa ajuda:

Porque se a minha ruda

Frauta deste favor vosso for dina,

Posso escusar a fonte Cabalina."

("Écloga IV", Obras Completas de Luís de Camões, Correctas e emendadas pelo cuidado e diligencia de J. V. Barreto Feito e J. G. Monteiro, Tomo II, 1843; grafia modernizada).

Muitas vezes, as éclogas podem incluir uma invocação a Tália, musa do drama pastoril e da comédia, ou então uma dedicatória a um mecenas, um amigo ou uma pessoa amada.

Também podem ocorrer variações no tema - Sannazaro escreveu as Eclogae Piscatoriae, substituindo os pastores virgilianos por pescadores da baía de Nápoles, o que levou Camões a produzir ele também "éclogas piscatórias". Autores como Sannazaro, na sua Arcádia, Jorge de Montemor, na sua Diana e Francisco Rodrigues Lobo, no Pastor Peregrino, iniciaram a intercalar os versos dialogados das éclogas com trechos de prosa, que introduziam e desenvolviam a ação do poema.

Popular um pouco por toda a Europa ocidental, devido ao legado grecorromano, escreveram também este tipo de poesia lírica Alexander Pope, Edmund Spenser, Pierre de Ronsard, Clément Marot,  Szymon Szymonowic e Józef Bartłomiej Zimorowic. W. H. Auden, em pleno século XX, apelidou o seu poema The Age of Anxiety de "Baroque Eclogue" ("Écloga Barroca").  Miklós Radnóti (1909-1944), poeta húngaro, compôs éclogas sobre o Holocausto. Afonso Lopes Vieira (Leiria26 de janeiro de 1878 — Lisboa25 de janeiro de 1946) publicou, em 1937, as Éclogas de Agora, livro proibido até 25 de abril de 1974, por conter uma ácida crítica à brutalidade do regime salazarista, através do diálogo dos pastores Hipério e Viviano.

A repercussão das influência das éclogas chega mesmo a Fernando Pessoa, cujo heterónimo Alberto Caeiro, poeta bucólico, afirma, como se estivesse em permanente solilóquio, tal qual os pastores dos versos antigos:

"Os pastores de Virgílio tocavam avenas e outras coisas

E cantavam de amor literariamente.

(Depois — eu nunca li Virgílio.

Para que o havia eu de ler?) 

Mas os pastores de Virgílio, coitados, são Virgílio,

E a Natureza é bela e antiga."

("Poema XII do Guardador de Rebanhos", Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (10ª ed. 1993) - 41)[1].

Ver também[editar | editar código-fonte]

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Ligações Externas[editar | editar código-fonte]

Éclogas de Henrique Caiado, tradução e introdução de Tomás Rosa: https://www.uc.pt/fluc/eclassicos/publicacoes/ficheiros/humanitas05-06/06_Tomas_Rosa.pdf.

  1. «Arquivo Pessoa: Obra Édita - XII - Os pastores de Virgílio tocavam avenas e outras coisas -». arquivopessoa.net. Consultado em 18 de julho de 2017