Termas de São João do Deserto

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Termas de São João do Deserto
Fotografia do balneário, publicada na obra Album Alentejano, de 1931.
Tipo Termas
Construção Século XX
Património Nacional
SIPA 25012
Geografia
País Portugal Portugal
Local Aljustrel
Coordenadas 37° 53' 38.9" N 8° 10' 44.6" O
Localização das termas em mapa dinâmico

As Termas de São João do Deserto são uma antiga estância termal no concelho de Aljustrel, na região do Baixo Alentejo, em Portugal. Funcionaram principalmente desde a Idade Média até meados do século XX,[1] embora as nascentes tenham sido conhecidas desde épocas mais remotas, tendo possivelmente sido aproveitadas pelos cartagineses e os romanos.[2] A nascente que abastecia as termas era popularmente conhecida como Fonte Santa ou Fonte Azeda, devido às suas capacidades terapêuticas e sabor desagradável.[3]

Brasão de Aljustrel, com um fontanário em destaque no centro, representando a importância das antigas águas termais de São João do Deserto.

Descrição[editar | editar código-fonte]

O antigo complexo termal de São João do Deserto estava essencialmente dividido em dois núcleos: uma antiga fonte onde se encontrava uma ermida e vários tanques para os banhos,[2] destruídos no século XIX devido a uma exploração mineira,[4] e um novo centro termal, instalado no século XX.[5] Este é de reduzidas dimensões, e encontra-se a Noroeste da vila, tendo acesso pela estrada entre Aljustrel e Rio de Moinhos.[5]

A nascente primitiva encontrava-se a cerca de dois quilómetros de distância de Aljustrel, junto das minas de São João do Deserto.[2] Segundo um artigo publicado por J. Garcia de Lima no Archivo Historico de Portugal em 1889, estava dividida em duas fontes, que foram estudadas quimicamente no âmbito da Exposição Universal de Paris de 1867, tendo recebido a classificação «de nascente forte e nascente fraca».[3] De acordo com o autor, as duas fontes nasciam em locais distintos e tinham propriedades diferentes: «a fonte, chamada nascente forte, rebenta mesmo dentro da ermida, por detráz do altar-mor, onde fórma um lago que nunca sécca; arrecadada em vaso mal vedado ou exposta francamente ao ar tôma cor vermelha muito carregada, resultado da oxidação do sulphato de protoxido de ferro, que em grande quantidade existe n'ella. É maravilhoso o seu effeito no tratamento de molestias cutaneas. A nascente fraca rebenta fóra da ermida e parece ser uma combinação da primeira com sete ou oito partes d'agua natural, quer dizer recebe na origem menor quantidade de saes; offerece as seguintes differenças, comparada com a anterior: a da nascente forte é fria, transparente esverdeada, e de gosto excessivamente acre e desagradavel; a da fraca é de perfeita limpidez, inodora, de um sabor levemente stiptico e não muda de cor pela exposição ao ar».[3] Garcia de Lima atribuiu as propriedades das àguas à riqueza mineral do terreno, que também poderia ser «um pouco vulcanico», e acrescenta que «em amargor excedem o hydralato de quina e o estomago não as tolera, por isso podem ser empregues como vomitorio».[3] O escritor Pinho Leal refere na sua obra Portugal antigo e moderno, publicada em 1873, que a água da fonte forte continha «uma dissolução muito concentrada de saes metallicos, que provêem da oxydação de pyrites de ferro coprifero, de uma mina que se acha próxima. A agua de Aljustrel apresenta uma forte reacção acida e contém, por kilogramma, 7 gr. 151 de residuo fixo, formado de sulphato de protoxido de ferro, de cobre, de cal, de magnezia, de alumina e de zinco, de chloretos alcalinos, de silica e de acido arsenioso; este ultimo se acha ahi na dose de 0 gr. 00169. O sulphato de protoxido de ferro é o sal que predomina na sua composição».[6] Quanto à fonte fraca, relata que «a agua d'esta nascente, a julgar pelas suas propriedades e pela sua composição chimica, parece ter a mesma origem que o manancial precedente, porém misturada com sete ou oito vezes o seu volume de agua ordinária. É de uma perfeita limpidez, [...] dando uma reacção acida aos papeis reactivos. Um kilogramma d'esta agua, fornece, por evaporação, 0 gr. 831 de princípios salinos, que são da mesma natureza dos da nascente forte».[6] Um artigo publicado na revista Serões de 1907 transcreve uma descrição da água, feita pelo médico Agostinho Vicente Lourenço: «a agua é uma dissolução dos elementos que formam uma pyrite de ferro cuprica, os quaes se tornam soluveis por occidação. Dá reacção muito acida aos papeis reagentes e 1:000 gr deixam 7,15 gr de residuo solido, formado principalmente por sulfato de protoxido de ferro, sulfato de cobre, chlororuretos alcalinos, sulfatos de cal, magnesia, alumina e zinco, silica e bastante arsenico, que attinge 0,00196 gr. por mil partes».[4]

Publicidade às termas, publicada no jornal Vida Alentejana, em 1935.

História[editar | editar código-fonte]

As nascentes de São João do Deserto já são conhecidas desde a antiguidade, tendo sido possivelmente utilizadas por cartagineses e romanos.[2] podendo estes últimos ter instalado um balneário no local, que depois foi substituído pela capela.[4] Também poderão ter sido aproveitadas pelos mouros.[4] Na sequência da reconquista do Castelo de Aljustrel, em 1234, o rei D. Sancho II entregou a vila aos monges da Ordem de Santiago, embora excluindo da doação as nascentes termais e as minas, o que demonstra a importância dos seus rendimentos.[7] Porém, as termas ficaram esquecidas até ao reinado de D. Manuel, que também deu a carta de foral a Aljustrel, tendo o monarca promovido o seu aproveitamento.[8]

A nascente chegou a ser muito afamada devido à sua capacidade para curar as doenças de pele, como a lepra, varizes e as úlceras, tendo levado à construção de uma ermida.[2] Os pastores também utilizavam as águas para banhar o seu gado, de forma a curar as doenças de pele nos animais,[2] como a sarna e e gafeira,[8] tendo J. Garcia de Lima referido que «diz o povo que são utilissimas no tratamento das molestias do gado».[3] Originalmente os banhos eram feitos em poços sem quaisquer abrigos, até que no século XIX foram instalados vários tanques junto à ermida.[2] No início eram apenas dois banhos, tendo outros quatro sido depois adicionados em duas fases.[2]

Em 1844, o investigador J. P. M. Belliágo publicou um artigo na Revista Universal Lisbonense sobre a nascente de São João do Deserto, que classificou como uma «verdadeira piscina de leprosos», e que segundo a opinião dos doentes que frequentavam aquelas termas, havia «uma só nascente», de onde brotava «agua frigidissima» de «sabor picante» e «cheiro activo a caparroza (proto-sulfato de ferro)», «pouco potável, mas quando se bebe, produz o effeito laxante; e que tanto o lodo, como a superficie da agua, em quietação, se assemelham a caparroza».[9] Acrescenta que segundo as populações locais, era suficientemente potente para dissolver carne, «quando por algumas horas se conserva mergulhada na dicta agua».[9] Recordou uma descrição que o médico Miguel Rodrigues de Sousa Piedade tinha feito das águas de São João do Deserto em meados da década de 1820, tendo-as classificado como «vantajosas para toda a qualidade de lepras, e molestias chronicas da pelle».[9] Baseado nesta opinião, o autor do artigo recomendou aquela estância termal a um amigo seu que sofria de vários problemas de saúde, e que descreveu o local dos banhos como «uma cova [...] sem feitio nem commodidade, exposta ao ar, e pouco asseada.»[9] Apesar das más condições, o tratamento foi um grande sucesso: «assim mesmo tomou vinte e tantos banhos, no primeiro anno, d'onde veio com muitissimo alivio; o que o animou a ir segundo e terceiro anno, e tão grandes foram as milhoras, que hoje conserva apenas a pelle da face, e mãos um pouco rugada: vive presentemente sem incommodo algum; goza de uma saude mais vigorosa do que antes; anda exposto a todas as vicissitudes atmosfericas, e rigores das estações, que em Tavira são excessivos, quer no inverno, quer na estação calmosa».[9] Entretanto, as infraestruturas dos banhos já tinham sido entretanto melhoradas, uma vez que segundo o autor, «disseram-me, que existem já dois banhos, bem feitos, e reparados; e que ali concorrem muitos infelizes accommetidos de toda a qualidade de molestias agudas, e chronicas da pelle».[9]

Em 1868, os cursos de água que abasteciam as fontes foram desviados devido a trabalhos de mineração.[2] Esta exploração mineira usava o sistema da corta, a céu aberto, levando à demolição da ermida e de todas as outras estruturas termais.[4] Assim, os banhos passaram a serem feitos nos tanques para onde eram lançadas as águas das minas, e em banheiras colocadas em casas particulares.[2] Garcia de Lima refere que «das cercanias e mesmo de mais distantes pontos é grande a concorrencia de individuos que veem usar estas aguas. [...] Bem aproveitadas e conhecidas haveriam de ser causa de muita animação para Aljustrel».[3] No século XIX, uma das figuras proeminentes que ficaram ligadas às águas de São João do Deserto foi o poeta António Cândido Gonçalves Crespo, que procurou ali alívio das suas enfermidades.[2]

Nos princípios do século XX, as águas de São João do Deserto estavam a ser exploradas pela empresa responsável pela mina, a Société Anonyme Belge des Mines de Aljustrel.[2] No século XX foi construído um novo centro termal,[5] que incluía uma capela.[4] Devido à importância das termas e nas minas na história da vila, foram escolhidos para os elementos centrais do brasão de Aljustrel uma fonte de ouro com águas de prata, segundo o desenho original apresentado pela Comissão de Heráldica da Associação dos Arqueólogos Portugueses, em 1928.[10] As termas estiveram em funcionamento até à década de 1950.[1]

Nos princípios da década de 2020, a autarquia de Aljustrel levou a cabo o programa Do campo à mina - Trilhos de observação no Concelho de Aljustrel, no âmbito do qual foram criados vários percursos temáticos no concelho, incluindo o Trilho das Termas (S. João do Deserto): Caminhos e encruzilhadas de ir às Termas.[11]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. a b «Corta de São João do Deserto». Câmara Municipal de Aljustrel. Consultado em 5 de Agosto de 2022 
  2. a b c d e f g h i j k l «As aguas de S. João do Deserto». Album Alentejano: Distrito de Beja. Volume I de II. Lisboa: Imprensa Beleza. 1931. p. 44. Consultado em 3 de Agosto de 2022 – via Biblioteca Digital do Alentejo 
  3. a b c d e f LIMA, J. Garcia de (Novembro de 1889). «Aljustrel» (PDF). Archivo Historico de Portugal. Série I (16). Lisboa. p. 63-64. Consultado em 7 de Agosto de 2022 – via Hemeroteca Digital de Lisboa 
  4. a b c d e f GOUVEIA, João (Novembro de 1907). «As minas de Aljustrel». Serões (29). Lisboa: Livraria Ferreira. p. 317. Consultado em 5 de Agosto de 2022 – via Hemeroteca Municipal de Lisboa 
  5. a b c AGAREZ, Ricardo (2006). «Termas de São João do Deserto / Minas de São João do Deserto». Sistema de Informação para o Património Arquitectónico. Direcção-Geral do Património Cultural. Consultado em 3 de Agosto de 2022 
  6. a b LEAL, 1873:138-139
  7. «História Social e Política». Câmara Municipal de Aljustrel. Consultado em 5 de Agosto de 2022 
  8. a b «Aljustrel» (PDF). República. Lisboa: Editorial República. 2 de Maio de 1956. p. 8. Consultado em 16 de Agosto de 2022 – via Hemeroteca Digital de Lisboa 
  9. a b c d e f BELLIÁGO, J. P. M. (25 de Janeiro de 1844). «Fonte milagrosa ou a nascente d'agua de S. João do Deserto em Aljustrel» (PDF). Revista Universal Lisbonense. Volume III, Série II (23). Lisboa. p. 277-278. Consultado em 6 de Agosto de 2022 – via Hemeroteca Digital de Lisboa 
  10. DORNELLAS, Affonso de (Agosto de 1930). «Heraldica de Dominio: Aljustrel». Elucidário Nobiliarchico: Revista de história e de arte. Volume II (X). Lisboa. p. 305-306. Consultado em 15 de Agosto de 2022 – via Hemeroteca Digital de Lisboa 
  11. «Do campo à mina - Trilhos de observação no Concelho de Aljustrel». Câmara Municipal de Aljustrel. Consultado em 5 de Agosto de 2022 
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Bibliografia[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]