Tomás das Quingostas

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Tomás Joaquim Codeço, mais conhecido como Tomás das Quingostas (Quingostas, São Paio, 15 de Agosto de 1808 - Quinta da Alota, São Paio, 30 de Janeiro de 1839) foi um pistoleiro, líder de quadrilha e fora-da-lei, nas terras do Norte de Portugal e da Galiza, durante o século XIX.

Considerado uma personagem lendária de Melgaço, amada por uns e odiada por outros, até à poucas décadas a sua existência não era confirmada, sendo hoje em dia finalmente comprovada através de várias referências documentais encontradas.[1]

Biografia[editar | editar código-fonte]

Nascido a 15 de Agosto de 1808, no lugar das Quingostas, na freguesia de São Paio, concelho de Melgaço, Tomás Joaquim Codeço era o quinto filho de José Codesso e Maria Teresa de Castro, proprietários de uma casa de lavoura relativamente abastada. Foi baptizado, dois dias depois do seu nascimento, sob o nome de Tomás de Aquino, contudo nunca utilizou esse nome, alterando-o mais tarde para Tomás Joaquim. Ficaria conhecido na história da terra como Tomás das Quingostas ou ainda «Leão das Montanhas».[2]

Na década de vinte do século XIX, sendo partidário de D. Miguel, participou em alguns combates das Guerras Liberais, contudo, devido a vários roubos efectuados, ficou detido na cadeia da Relação do Porto, até à entrada das tropas comandadas por D. Pedro naquela cidade.[3] Aproveitando-se do facto, escapou da prisão e regressou à região de Melgaço, onde começou a perpetuar uma série de crimes violentos com a sua quadrilha e o seu principal parceiro de crime Luís José Caldas, até à data da sua morte por fuzilamento. Atacando ora as povoações portuguesas, ora as galegas, muito rapidamente se tornou numa lenda, atraindo também a atenção dos soldados enviados pela Coroa para o prender.

Em 1834, evadiu-se das cadeias de Lamego, instalando-se novamente na sua terra natal. Mais uma vez continuou a realizar roubos, agressões e assassinatos, enquanto aliciava vários seguidores para a realização de ataques contra o governo liberal. Contava-se que em alguns golpes, Tomás comandava mais de quarenta pessoas bem armadas, sendo alguns dos seus membros mulheres e muitos outros de origem espanhola, apoiantes das forças inimigas de Isabel II.

Em 1837, após a captura de um criado galego de Tomás, em Paderne, e este confessar, durante o interrogatório, quem eram os cúmplices que albergavam a quadrilha assim como os percursos que estes geralmente percorriam, o bando de Tomás das Quingostas sofreu uma forte e intensa perseguição por todo o concelho, sendo muitos dos seus membros e aliados mortos ou aprisionados.[4][5]

Dois anos depois, a 30 de Janeiro de 1839, Tomás foi finalmente capturado na taverna de um amigo e levado pela Guarda Real. A caminho da cadeia, foi fuzilado na antiga ponte d'Alote (ou Alota), após tentar fugir sem êxito.[6]

Lendas[editar | editar código-fonte]

Contexto Histórico[editar | editar código-fonte]

No século XIX, e ainda antes, nas povoações ribeirinhas do rio Minho, quer do lado português, quer do lado galego, era comum que estas sofressem ataques por bandos de salteadores encapuzados, surgindo de dia e de noite, para roubar e causar o terror, intimidando as populações com tiros e ocupando as suas tabernas ou lojas, até terem aquilo que queriam e partirem para o próximo golpe. Alguns destes bandos tinham motivações políticas, outros pura ganância e uns ainda velhos ajustes de contas para resolver, contudo tal como a história medieval de Robin dos Bosques, onde os heróis fora-da-lei roubavam aos ricos para dar aos mais necessitados, também eles existiam, sobretudo nas zonas rurais, onde toda a povoação fazia questão de esconder ou proteger o seu herói das autoridades.

Curiosamente, o caso do pistoleiro e líder de quadrilha Tomás das Quingostas, reflecte ambas as versões, sendo um vilão para muitos e um herói para outros, com várias lendas associadas aos seus golpes e fugas milagrosas. Em Melgaço, até inícios do século XX, era costume dizer-se "És pior que o Tomás" como algo insultuoso.

O Caso de João Vicente[editar | editar código-fonte]

Nos tempos em que Melgaço vivia dias agitados, vítima dos ataques de Tomás das Quingostas, havia um bom rapaz da terra, de nome João Vicente, que apesar de não ter muitas posses, ajudava a sua família nas pesqueiras e na administração da Casa da Misericórdia, ambicionando um dia seguir uma carreira clerical.

Eis que na noite de 21 de Março de 1829, os dois cruzariam os seus caminhos. Era uma noite chuvosa, de intenso nevoeiro, e João, que usava uma croça, trilhava o caminho que o levava ao rio. Não se via um palmo à frente do nariz, mas como conhecia bem aquelas terras o jovem acreditava que não haveria qualquer problema. Ao chegar perto das pesqueiras, verificou as redes e confirmou que estava tudo em ordem. Horas antes, no mesmo dia, a quadrilha de Tomás tinha combinado um assalto a uma aldeia galega e para evitar as estradas principais, decidiram ir pelas encostas até chegarem ao ponto de encontro combinado com outros pistoleiros galegos. O seu intuito era o de atravessar o rio numa batela e fazer o dito golpe, mas chegados ao local, e após esperarem até a noite cair, não obtiveram qualquer sinal dos seus amigos. Pensando que os outros tinham sido capturados, Tomás decide alterar os seus planos para a noite e diz aos seus homens para irem às pesqueiras ver se havia peixe.

O jovem rapaz de Melgaço, que continuava nas pesqueiras, ao aperceber-se dos sons dos homens, perguntou por quem ali ia, sendo respondido por Tomás, astuto como uma raposa, que era apenas «Gente de bem e de paz!». Sem receio e feliz por ter companhia, João aproximou-se dos homens, quando inesperadamente o líder do bando, sem conseguir ver quem era, devido ao nevoeiro, apontou-lhe o bacamarte e disparou sem hesitar, sendo seguido pelos seus homens que descarregaram as suas armas no corpo do pobre rapaz. Após, Tomás aproximou-se do cadáver e com as suas botas de militar virou-o, confirmando a sua morte. «Agora temos o caminho livre, vamos ao trabalho!».[7]

A Romaria da Peneda[editar | editar código-fonte]

Reza a história que a 7 de Setembro de 1838, durante a romaria da Peneda, Tomás das Quingostas e a sua quadrilha interromperam a festa religiosa, em frente à antiga capela, montados a cavalo e com uma chuva de tiros, causando o total caos e desordem na pequena povoação. Motivados ao que parece por uma questão de «rapazes», fosse devido a um ajuste de contas ou pura provocação, nunca ninguém conseguiu realmente deslindar, visto que nada foi dado como roubado, excepto as vidas de algumas pobres almas que por ali estavam. Durante o ataque, o líder da quadrilha matou sem dó nem piedade, Joaquim Cerqueira, conhecido como "Amarelo", da Gavieira, um dos melhores jogadores de pau do seu tempo, e João Manuel Domingues, o "Marado", presidente da Câmara Municipal de Soajo, em pleno Largo do Pretório.[8][9]

O Fim de Tomás das Quingostas[editar | editar código-fonte]

Em tempos que já lá vão, viveu no lugar de Sante, em Melgaço, um líder de uma quadrilha, chamado Tomás Joaquim Codeço, mais conhecido por Tomás das Quingostas, famoso por roubar aos ricos e distribuir o seu saque pelos pobres. Destemido e forte, contava-se que Tomás enfrentava tudo e todos, mas também sabia quando se retirar, procurando refúgio, sobretudo da Guarda Real, em uma mina labiríntica que por ali havia, indo de Sante até ao cruzeiro de São Paio. Encorajado pela sorte e pela força, Tomás das Guingostas sentia-se intocável, apesar de ter a cabeça a prémio, tanto pela coroa portuguesa como pela espanhola.

Eis que a 30 de Janeiro de 1839, encontrava-se o nosso herói na tasca do seu vizinho e amigo Policarpo José de Fontes, do lugar do Cruzeiro, quando foi cercado por uma escolta militar que ali apareceu para o prender. Surpreendido, respondeu com uma rápida fuga pelo alçapão, mas foi agarrado pelas pernas e levado, perante a consternação de todos os presentes.

Ao chegar a escolta à ponte d' Alote, o prisioneiro apontou para o outro lado da margem e exclamou que ali havia feito o seu primeiro crime. Curiosos, os jovens militares, olharam para o dito lugar, dando a Tomás das Quingostas uma oportunidade para tentar escapar. De mãos atadas, este lutou como lhe era possível, entre empurrões, pontapés, cotoveladas, pisadelas e cabeçadas. Diz-se que a escaramuça foi tal, que da violência dos seus arremessos ficou a marca dos seus dedos numa das pedras da ponte.

Furioso, o comandante da guarda, vendo tal cena, mandou-o logo ali fuzilar, sem mais demoras ou julgamento. E assim foi que à queima-roupa, o nosso herói encontrou o seu fim, sendo depois decapitado, enviada a sua cabeça como troféu para a rainha Isabel II e o seu corpo sepultado nas traseiras da capela de S. Bento. Reza a lenda que quando a rainha viu o rosto sem vida de Tomás, repreendeu fortemente os guardas pelo seu acto e lamentou o seu desfecho.[10][11]

Poema de Autor Anónimo[editar | editar código-fonte]

No século XX, um poeta anónimo, escreveu alguns versos acerca de Tomás das Quingostas:


"Homem de muitas matanças,

na guerra civil andou;

herói das extravagâncias

vidas sem conta ceifou!

Mais dum século decorreu

sobre a morte do malvado;

que, por ironia, morreu

sob as balas dum soldado!"

Referências[editar | editar código-fonte]

  1. ESTEVES, Augusto César. Melgaço e as Lutas Civis 1820-1910, 1º Volume. Melgaço: [s.n.] pp. p. 87 – 92 
  2. ROCHA, Joaquim. «Tomaz das Quingostas». Melgaço, Minha Terra 
  3. ALVES, Valter. «Tomás das Quingostas: herói do povo ou salteador? (história completa)». Melgaço, entre o Minho e a Serra 
  4. Ler história. [S.l.]: Centro de Estudos de História Contemporânea Portuguesa. 1999 
  5. Ferreira, Maria de Fátima Sá e Melo (2002). Rebeldes e insubmissos: resistências populares ao liberalismo, 1834-1844. [S.l.]: Edições Afrontamento. ISBN 9789723606133 
  6. ALVES, Valter. «Os soldados da Rainha em busca do Tomás das Quingostas (1837)». Voz de Melgaco 
  7. ROCHA, Joaquim. «O Assassino Tomás das Quingostas». Melgaço, do Monte à Ribeira, História e Narrativas duma Terra Raiana 
  8. ROCHA, Joaquim. «Vida e Morte de Tomás Joaquim Condeço». Melgaço, do Monte à Ribeira, História e Narrativas duma Terra Raiana 
  9. CALDAS, Eugénio de Castro (1994). Terra de Valdevez e Montaria do Soajo. [S.l.]: Verbo 
  10. CAMPELO, Álvaro (2002). Lendas do Vale do Minho. Valença: Associação de Municípios do Vale do Minho 
  11. «Tomás das Quingostas». Montes de Laboreiro