Êxodo judaico dos países árabes

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Judeus do Iêmen voam em fuga para Israel durante a Operação Tapete Mágico (1949–1950).
Ficheiro:Bet Lid Immigration Camp1949.jpg
Campo de Refugiados Judeus de Bet Lid, em Israel, em foto de 1949.
Desembarque de judeus iraquianos em Tel Aviv, a caminho do campo de trânsito para refugiados de Ma'abarot, em 1951.

O êxodo judaico dos países árabes e muçulmanos (em árabe: التهجير الجماعي لليهود من الدول العربية والإسلامية; em hebraico: פליטים יהודים ממדינות ערב) foi o processo de expulsão em massa das comunidades judaicas estabelecidas nos países de maioria árabe e islãmica, a partir de 1948 e que durou até o início dos anos 70 do século 20. A expulsão dos judeus dos países árabes e muçulmanos teve como pretexto principal o restabelecimento do Estado de Israel.[1] [2]

Embora a migração judaica no Oriente Médio e nas comunidades norte-africanas tenha começado no final do século 19, tendo aumentado nos anos 1930 e 1940, ela só se tornou significativa a partir da Guerra de Independência de Israel. Até o início dos anos 70, entre 800 mil e um milhão de judeus fugiram ou foram expulsos de suas casas nos países árabes. 260 mil chegaram a Israel entre 1948 e 1951; 600 mil apenas em 1972,[3] mesmo ano do Massacre de Munique. O Líbano foi o único país árabe a aumentar a sua população judaica depois de 1948, devido a um afluxo de refugiados provenientes de outros países árabes que buscavam chegar ao território israelense. No entanto, após a eclosão da Guerra Civil Libanesa, estas comunidades judaicas também tiveram que deixar o país em busca de estabilidade e segurança em Israel. Em 2002 os judeus de países árabes e seus descendentes constituíam quase metade da população total do Estado de Israel.[4]

Antecedentes[editar | editar código-fonte]

Os judeus viveram no Oriente Médio, Norte da África e na região do Golfo Pérsico desde 2500 anos antes do nascimento dos modernos estados árabes. A partir do século 7, após o surgimento do Islã e da conquista daquelas regiões pelos muçulmanos, os judeus, juntamente com os chamados "Povos do Livro", (cristãos e zoroastrianos) receberam o estatuto jurídico de "dhimmis", que em árabe significa "aliança" ou "oblação". Este era um velho conceito da lei islâmica (Sharia), segundo a qual membros de outras religiões consideradas monoteístas, devem viver sob a "proteção" dos sultões muçulmanos, com direitos e deveres "diferenciados". Na prática, os "dhimmis" eram cidadãos de segunda classe. Eram dispensados do serviço militar e religioso e eram taxados com impostos especiais. Em troca, os dominantes muçulmanos lhes garantiam o direito de praticar sua fé (ainda que com limitações severas), além do direito de manterem seus próprios juízes e tribunais em matérias civis, como casamento, divórcio, herança etc. Na prática, estes tratados eram inseguros e instáveis, uma vez que os acordos poderiam ser suspensos a qualquer momento


Perseguições e assassinatos em massa de judeus eram regulares, principalmente devido à instabilidade política. No norte da África, especialmente no Marrocos, Líbia e na Argélia, os judeus foram forçados a viver em guetos[5] . Ao longo de toda a Idade Média foram promulgados decretos em que eram ordenadas a destruição de sinagogas no Egito, Síria, Iraque e Iêmen. Houve registros de casos de conversão forçada de judeus ao Islã no Iêmen, Marrocos e Bagdá[6] .

A partir dos primeiros anos do século 20, quando as aspirações dos sionistas em reconstruir a pátria judaica na Palestina começaram a tomar corpo, a situação piorou, ficando insustentável . O aumento da imigração judaica oriunda da Europa Oriental, o estabelecimento de cidades inteiramente judaicas, como Tel Aviv e o crescimento dos kibutzim passou a atrair a oposição de lideranças árabes. Não demoraria para surgirem os primeiros atos retaliatórios contra os judeus na Palestina, como o Massacre de Hebron, em 1929.[7] As hostilidades entre judeus e árabes começaram a se fazer sentir também nos países vizinhos, o que gerou um primeiro fluxo voluntário de retirada judaica nos anos 1930.

O surgimento do nazismo na Europa também significou uma deterioração na situação dos judeus dos países árabes, posto que muitos líderes muçulmanos se encantaram pela ideologia antissemita. Com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, houve uma maciça adesão dos árabes à causa alemã. Isto impeliu a uma nova onda de imigração judaica para a Palestina Britânica.

Mas seria após o fim da guerra e a derrota do nazi-fascismo que a situação dos judeus árabes iria se deteriorar em definitivo. O reconhecimento internacional do direito judaico ao estabelecimento de sua pátria independente em parte da Palestina gerou revolta entre os árabes, que declararam guerra no dia seguinte ao da independência de Israel. A derrota da coalizão árabe em 1948 foi seguida por retaliações contra os judeus daqueles países. Houve uma intensa campanha de perseguição, antissemitismo, instabilidade política e, por fim, a expulsão pura e simples[8] .

O êxodo[editar | editar código-fonte]

Em 1945, havia entre 758 mil e 881 mil judeus vivendo em comunidades espalhadas por todo o mundo árabe. Hoje, restam menos de 7000. Em alguns países árabes como a Líbia (cuja população judaica chegou a responder por 3% do total de habitantes), o número de judeus é zero. Em algumas outras nações, restaram poucas centenas ou mesmo dezenas. No Afeganistão, na primeira década do século 21, restavam apenas dois judeus[9] . A Partilha da Palestina pelas Nações Unidas detonou um processo de violência antijudaica em todo mundo árabe-muçulmano, com “pogroms” (massacres) registrados no Iêmen e na Síria. Em Alepo, metade da comunidade judaica local deixou a cidade[10] . Na Líbia, os judeus locais foram privados de todos os seus direitos de cidadania e no Iraque, os judeus tiveram suas propriedades encampadas. Os judeus que emigraram não foram autorizados a negociar suas propriedades antes da partida. De 1948 a 1949, o governo israelense transportou secretamente 50 mil judeus do Iêmen e entre 1950 e 1952, 130 mil judeus foram retirados do Iraque. De 1949 a 1951, 30 mil judeus fugiram da Líbia para Israel. Nestes casos, mais de 90% da população judaica optou por sair, apesar da necessidade de deixar para trás seus bens e suas propriedades[11] .

Em 2006, o órgão que representa oficialmente os refugiados judeus dos países árabes, a Organização Mundial dos Judeus dos Países Árabes (WOJAC, na sigla em inglês) avaliou que as propriedades judaicas abandonadas nos países árabes em mais de 100 bilhões de dólares. No ano seguinte, a mesma organização refez os cálculos e estimou um valor de 300 bilhões de dólares. Eles também avaliaram a extensão das terras abandonadas pelos judeus em 100 mil quilômetros quadrados (ou quatro vezes o tamanho total do estado de Israel)[12] [13] [14] [12] [15] [16] [17] [18] .

Grande Sinagoga de Oran, na Argélia, confiscada e convertida em mesquita após a retirada dos judeus argelinos.
População judaica nos países árabes: 1948 a 2001
País ou território população
judaica (1948)
 % de judeus sobre a população total (1948) Emigrados a Israel População judaica
estimada (2001)[19]
Aden 8.000[20] Véase Yemen ~0
Argélia 140.000[20] [21] 1,6% 24.000[22] ~0
Bahrein 550-600[23] 0,5% N/A 36
Egito 75.000[20] -80.000[21] 0,4% 37.000[24] ~100
Iraque 135.000[20] -140.000[21] 2.6% 130.000[24] ~200
Líbano 5.000[20] -20.000[25] 0,4-1,5% 4.000[24] < 100
Libia 35.000[21] -38,000[20] 3,6% 35.800[24] 0
Marrocos 250.000[21] -265,000[20] 2,8% 266.300[24] 5.230
Síria 15,000[21] -30,000[20] 0.4-0.9% 8.500[24] ~100
Túnis 50.000[21] -105,000[20] 1,4-3,0% 52.000[24] ~1.000
Iêmen 45.000[21] -55,000[20] 1,0% 50.600 (Iêmen e Aden somados)[24] ~200
Total 758.000 - 881.000 608.200 <6.500
População judaica no países muçulmanos não árabes: 1948 a 2001
País ou território População judaica
(1948)
População judaica
estimada (2001)
Afeganistão 5.000 1[26]
Irã 140.000–150.000 11.000-40.000
Paquistão 2,000 N/A
Turquia 80,000[27] 18,000-27,000[28]

Referências

  1. Benny Morris, Righteous Victims, chap. VI.
  2. Displaced Persons retrieved on 29 October 2007 from the US Holocaust Museum.
  3. Comunidades www.judeusdospaisesarabes.com.br. Página visitada em 14 de julho de 2012.
  4. Ada Aharoni "The Forced Migration of Jews from Arab Countries, Historical Society of Jews from Egypt website. Accessed February 1, 2009.
  5. Maurice Roumani, The Case of the Jews from Arab Countries: A Neglected Issue, 1977, pp. 26-27.
  6. Bat Ye'or, The Dhimmi, 1985, pág. 61.
  7. Você Sabia? www.morasha.com.br. Página visitada em 14 de julho de 2012.
  8. G.E. Von Grunebaum, 'Eastern Jewry Under Islam,' 1971, page 369.
  9. http://www.morasha.com.br/conteudo/ed35/dois.htm
  10. Colin Shindler. A history of modern Israel. [S.l.]: Cambridge University Press, 2008. p. 63. ISBN 978-0-521-61538-9 Página visitada em 18 October 2010.
  11. Aharoni, Ada. (2003). "The Forced Migration of Jews from Arab Countries". Peace Review: A Journal of Social Justice 15: 53–60. Routledge.
  12. a b The Palestinian Refugee Issue: Rhetoric vs. Reality by Sidney Zabludoff
  13. Jews forced out of Arab countries seek reparations www.jpost.com. Página visitada em 2011-01-16.
  14. Expelled Jews hold deeds on abandoned property in Arab lands www.jpost.com. Página visitada em 2011-01-16.
  15. ?.[ligação inativa]
  16. Justiceforjews.com
  17. Jeqishpolicycenter.org
  18. Jewishpolicycenter.org
  19. Shields, Jacqueline. Jewish Refugees from Arab Countries Jewish Virtual Library. Página visitada em 22-05-2006.
  20. a b c d e f g h i j Avneri, 1984, p. 276.
  21. a b c d e f g h Stearns, 2001, p. 966.
  22. Culla, 2005, p. 198.
  23. The Virtual Jewish History Tour - Bahrain
  24. a b c d e f g h Culla, 2005, p. 198.
  25. Jews of Lebanon
  26. BBC NEWS | World | South Asia | 'Only one Jew' now in Afghanistan
  27. http://ajcarchives.org/AJC_DATA/Files/1950_7_WJP.pdf
  28. The Jewish Community of Turkey
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