Ana Paula Tavares

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Ana Paula Ribeiro Tavares (Lubango, província da Huíla, Angola, 30 de Outubro de 1952) é uma historiadora e poetisa angolana.[1] . Ana Paula Tavares é a única poetisa contemporânea do período pós-independência angolana (11 de Novembro de 1975).

Iniciou o seu curso de história na Faculdade de Letras do Lubango (hoje ISCED, Instituto Superior de Ciências da Educação do Lubango), terminando-o em Lisboa. Em 1996 concluiu o Mestrado em Literaturas Africanas. Atualmente vive em Portugal, faz o Doutoramento em literatura e leciona na Universidade Católica de Lisboa.

Sempre trabalhou na área da cultura, museologia, arqueologia e etnologia, património, animação cultural e ensino. Participou em simpósios, congressos, comissões de estudo e na elaboração de inúmeros projetos da área cultural. Foi Delegada da Cultura no Kwanza Norte, técnica do Centro Nacional de Documentação e Investigação Histórica (hoje Arquivo Histórico Nacional) do Instituto do Património Cultural.

Foi membro do júri do Prémio Nacional de Literatura de Angola, nos anos de 1988 a 1990, e responsável pelo Gabinete de Investigação do Centro Nacional de Documentação e Investigação Histórica em Luanda, de 1983 a 1985.

É também membro de diversas organizações culturais como o Comité Angolano do Conselho Internacional de Museus (ICOM), Comité Angolano do Conselho Internacional de Monumentos e Sítios (ICOMOS), da Comissão Angolana para a UNESCO.[2]

Tanto a prosa como a poesia de Ana Paula Tavares estão presentes em várias antologias publicadas em Portugal, no Brasil, em França, na Alemanha, em Espanha e na Suécia.

Influências[editar | editar código-fonte]

A escrita de Ana Paula Tavares sofreu influência de autores brasileiros, como Manuel Bandeira, Jorge Amado, Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Mello Neto, cujas obras chegavam a Angola por meio de viajantes. Segundo a poeta, não só a literatura, mas também a música brasileira influenciou sua escrita. A bossa nova, esteva sempre muito presente em seus momentos de criação. De acordo com Ana Paula, "depois da poesia brasileira, a música brasileira teve um papel muitíssimo importante na divulgação de seus textos. Começava-se por ouvir a música e então partia-se para outras coisas."

Obras[editar | editar código-fonte]

  • Ritos de passagem (poesia). Luanda: UEA, 1985 [2ª ed. Lisboa: Caminho, 2007]. A primeira edição de Ritos de Passagem ocorreu em Angola, em 1985. A reedição vem enriquecida por ilustrações de Luandino Vieira, um escritor que lê a poesia de Paula Tavares através de manchas de café e tinta-da-china.
  • Sangue da buganvília: crônicas (prosa). Centro Cultural Português Praia-Mindelo, 1998. As pouco mais de setenta crônicas que compõem o volume, editado em 1998 pelo Centro Cultural Português de Cabo Verde, foram em princípio escritas para serem lidas em um programa da Radiodifusão Portuguesa, com transmissão para os países africanos de língua portuguesa.
  • O Lago da Lua (poesia). Lisboa: Caminho, 1999. De acordo com a crítica, é um dos mais belos livros publicados em língua portuguesa, no ano de 1999. O texto pode ser descrito como a associação de uma serena, quente e sensível natureza africana, à mais vibrante, dolorosa, misteriosa sensibilidade feminina. Lá estão Angola e Cabo Verde, o Sul da África, a relação entre a água e o sangue menstrual, o sofrimento e o prazer, a velhice e a memória. Tudo isto numa cadência delicada e forte ao mesmo tempo, em metáforas ricas, que conotam os astros e os sentidos e se espraiam por textos hiperintimistas ou pela descrição carinhosa, sendo agreste, do mundo primitivo dos medos e dos feitiços, dos gados transumantes, das horas verdes da seiva. A evocação das máscaras, das escarificações, das fogueiras, dos colares dos dias de luto está num pólo, não muito longe das citações da Bíblia; no outro pólo está o Japão de Mishima e Kawabata. Por toda parte, disseminada, está também a cultura europeia de Paula Tavares. E tudo isto por vezes se mistura e faz a universalidade, a candente harmonia e a originalidade da sua poesia .
  • Dizes-me coisas amargas como os frutos' (poesia). Lisboa: Caminho, 2001. Nessa obra, a escrita poética deixa visível a intenção de povoar o texto com dados concretos da realidade que pousa no texto, muitas vezes, com seus sentidos expandidos ou apenas sugere relações que demandam um olhar mais cuidadoso sobre os costumes da terra angolana. Talvez seja esse transbordar de sensações, de toques suaves, que apreende o leitor, mesmo aquele que desconhece os dados concretos que habitam os versos de Paula Tavares. Encanta o leitor a exploração de recursos próprios da escrita poética, o trabalho cuidadoso com a plasticidade das cenas, das elaborações sensuais que organizam os poemas, comedidos, sintéticos, avessos ao excesso.
  • Ex- votos, 2003
  • A Cabeça de Salomé (prosa). Lisboa: Caminho, 2004. "Deslizar os dedos por manuscritos antigos" é o que fazem as vozes enunciadoras das crônicas de A Cabeça de Salomé, cujo corpo poético apreende, por entre o fluir de sons, tradições, cheiros e sabores, a arquitetura insondável dos mistérios da vida, da terra, da magia das letras do mundo angolano de Ana Paula Tavares. Palavras borbulham, transgressoras, no avesso do mito bíblico subvertido: é a cabeça de Salomé a ofertada, mas num cesto cokwe… Tecido por intenso erotismo da linguagem, novos olhares femininos se impõem, seja pela saudade amorosa do velho Kinaxixe, seja pela cartografia dos sonhos de Felícia, seja ainda pela crítica à demolição do palácio de Ana Joaquina. Este livro trata, em última instância, da sedução: da mulher, da terra, da palavra.
  • Os olhos do homem que chorava no rio (romance), em coautoria com Manuel Jorge Marmelo. Lisboa: Caminho, 2005. Um romance que é mais uma prosa poética, quase sem enredo, que trata de um tipógrafo brasileiro que, à beira do rio Douro, faz um devaneio em que procura recuperar a vida perdida e descobre que ainda pode amar. Escrito a quatro mãos, pela angolana Ana Paula e pelo portuense Manuel Jorge Marmelo, o livro mais parece feito por uma só alma, embora tenha tido o seu tema sugerido por um terceiro escritor, o brasileiro Paulinho Assunção. Assim, a exemplo de um antigo romance de Adonias Filho (1915-1990), Luanda Beira Bahia, de 1971, refaz-se uma triangulação nas literaturas de expressão portuguesa, desta vez, reunindo Huíla, Porto e Belo Horizonte. Segundo Paulinho Assunção (1971), amigo dos autores, este é um livro-música-de-câmara. E o define muito bem, pois é mais uma fantasia onírica. Afinal, de sua leitura podem-se ouvir sons mágicos, o som que vem da correnteza do rio, do fluxo de pensamento. Como não se sabe quem escreveu o quê, o que se pode dizer é que os autores produziram um romance que é também uma prova prática das ideias do pensador francês Gaston Bachelard (1884-1962), autor A água e os sonhos : ensaio sobre a imaginação da matéria (São Paulo, Martins Fontes, 1989, tradução de Antônio de Pádua Danesi), para quem "contemplar a água é escoar-se, dissolver-se, é morrer". Até porque não há quem, ao se sentar perto de um riacho, não caia em devaneio profundo nem deixe de rever a sua ventura.
  • Manual Para Amantes Desesperados (poesia). Lisboa: Caminho, 2007. Segundo um dito umbundu, "um cesto faz-se de muitos fios". Também uma teia. Teia é o poema fabricado pelos fios das palavras que lhe tecem, minuciosos, o corpo. Assim é a poesia de Ana Paula Tavares, voz depurada da literatura africana de expressão portuguesa. Manual para Amantes Desesperados e Ritos de Passagem (o título inaugural da autora) são duas urdiduras poéticas. A teia que a poeta tece é feita de fogo e sede, de areia e vento, de sangue e febre, de sons e de segredos. Tecedeira exímia, Ana Paula mostra que é oriunda de um lugar onde "há pedras antigas /gastas das mãos das mulheres /que inventam a farinha de levedar /os dias".

Poemas[editar | editar código-fonte]

  • Mukai [3]
  • Canto de nascimento[4]
  • Não conheço nada do país do meu amado
  • Vieram muitos[5]
  • Tratem-me com a massa[6]
  • November without water[7]
  • A abóbora menina[8]
  • O mirangolo
  • Rapariga
  • Amargos como os frutos
  • Entre os lagos
  • História de amor da princesa Ozoro e do húngaro Ladislau Magyar
  • A manga
  • A mãe e a irmã
  • O cercado

Referências

Ligações externas[editar | editar código-fonte]