Cabrália Paulista

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Município de Cabrália Paulista
Bandeira de Cabrália Paulista
Brasão de Cabrália Paulista
Bandeira Brasão
Hino
Fundação 1920
Gentílico cabraliense
Lema Perola do Centro Oeste
Prefeito(a) Odemil Ortiz de Camargo (Alemão do Leite) (PSB)
(2013–2016)
Localização
Localização de Cabrália Paulista
Localização de Cabrália Paulista em São Paulo
Cabrália Paulista está localizado em: Brasil
Cabrália Paulista
Localização de Cabrália Paulista no Brasil
22° 27' 21" S 49° 20' 16" O22° 27' 21" S 49° 20' 16" O
Unidade federativa  São Paulo
Mesorregião Bauru IBGE/2008 [1]
Microrregião Bauru IBGE/2008 [1]
Municípios limítrofes Duartina, Lucianópolis, Santa Cruz do Rio Pardo, Paulistânia, Piratininga
Distância até a capital Não disponível
Características geográficas
Área 239,210 km² [2]
População 4 365 hab. Censo IBGE/2010[3]
Densidade 18,25 hab./km²
Altitude 539 m
Clima Subtropical Cfb
Fuso horário UTC−3
Indicadores
IDH-M 0,743 alto PNUD/2000 [4]
PIB R$ 103 048,152 mil IBGE/2008[5]
PIB per capita R$ 23 420,03 IBGE/2008[5]
Página oficial

Cabrália Paulista é um município brasileiro do estado de São Paulo. Localiza-se a uma latitude 22º27'20" sul e a uma longitude 49º20'15" oeste, estando a uma altitude de 539 metros. Sua população estimada em 2004 era de 5.063 habitantes.

Possui uma área de 239,20 km².

História[editar | editar código-fonte]

O nascimento de Mirante, hoje Cabrália Paulista, teve sua origem quando as ferrovias Noroeste do Brasil e Paulista se emulavam pelo sertão, compreendido entre os rios Tietê e Paranapanema, rumo a oeste, para alcançar as barrancas do rio Paraná. Frutos naturais do progresso das vias férreas, varias cidade foram surgindo ao longo dos trilhos, dando margem à colonização do lugar, foi então que, em 1915, Antônio Consalter Longo, proveniente de Agudos, radicou-se em vasta área de terras, à margem esquerda do rio Alambari, 42 km de Bauru, pertencente originalmente ao coronel Rodrigues Alves. Antônio Consalter Longo, juntamente com Manoel Francisco Nascimento, doaram à Mítra Diocesana de Botucatu, uma área de vinte e dois Alqueires, onde foi criado o patrimônio de Mirante. Em 1920, foi inaugurado uma capela em louvor ao Senhor Bom Jesus, passando o povoado, a partir dessa data, á denominação de patrimônio do Senhor do Bom Jesus do Mirante. O povoado foi crescendo ao lado da igreja e, no ano de 1922, tornou-se Distrito de Paz com o nome de Mirante, do Município de Piratininga. O nome do Distrito foi alterado, em 1938, para Cabrália e posteriormente, Pirajaí. Voltou a adotar o Cabrália, acrescido de " Paulista "- Cabrália Paulista, quando foi elevado à categoria de Município, em 1948. FORMAÇÃO ADMINISTRATIVA Distrito criado com a denominação de Mirante, por Lei no 1893, de 16 de dezembro de 1922, no Município de Piratininga. Decreto-lei Estadual nº 9775, de 30 de novembro de 1938 o Distrito de Mirante passou a denominar-se Cabrália Decreto-lei Estadual no 14334, de 30 de novembro de 1944, altera a denominação do Distrito de Cabrália para Pirajaí. Elevado à categoria de Município com denominação de Cabrália Paulista, por Lei Estadual nº 233, de 24 de dezembro 1948, desmembrado de Piratininga. Constituído do Distrito Sede. Sua instalação verificou-se no dia 27 de março de 1949. Fixado o quadro territorial para vigorar no período de 1949-1953, o Município figura com o Distrito Sede. Em divisão territorial datada de 01-VII-1960, o Município é constituído do Distrito Sede. Assim permanecendo em divisão territorial datada de 15-VII-1997.

História a fundo[editar | editar código-fonte]

Nossa história começa no ano de 1719 e onde está o município de Cabrália Paulista,existia uma vasta floresta com predominância de arvores gigantescas,centenárias e muitas delas milenares, jatobas,perobas rosas, copaibas ,olho de cabras,eram as espécies que predominavam e não a vegetação de cerrado baixo como muitos imaginam. Rompia mais uma aurora naquele ano de 1719 e um gavião João Cacaó do ponteiro de uma peroba rosa,a beira de seu ninho em uma touceira de orquídea do tipo Chamburghia punha fim ao silêncio da mata.A pouco mais de um quilômetro floresta abaixo uma saracura três potes também anunciava o final da noite.

Azulões,bicudos,curiós,sabiás,trinca ferros entre outras aves começavam também a disputar os efeitos sonoros da mata.Uma onça pintada havia abatido uma anta naquela noite quando a mesma se aproximava da barranca do rio Alambari o que afugentou o bando de capivaras que subia.

Naquela época nossa região era habitada por duas etnias indígenas: Os Oti-Xavantes nos arredores do rio Turvo e os Caigangues nas imediações de onde está a cidade de Bauru. Apesar da pouca distância entre as etnias a densa floresta fazia com que vivessem em harmonia, já que a região de cada tribo era suficiente para a sobrevivência de ambas tendo em vista a fartura de recursos naturais que a floresta oferecia através de sua fauna e flora exuberante.

A região de Cabrália Paulista em específico ficava entre estas duas nações indígenas e raramente alguns desses índios por aqui passavam deixando assim a rotina da floresta totalmente virgem sem a presença humana.

O ano de 1719 seria marcado para sempre na história de nossa região devido a decisão da igreja católica em expandir seu projeto de catequização, de Botucatu a uma área próxima aos Oti-Xavantes e a transformá-la em fazenda jesuíta. As margens do Ribeirão São Domingos, afluente do Rio Turvo entre onde está hoje os limites territoriais dos municípios de Paulistânia e Agudos estava portanto fincada mais uma bandeira da colonização do homem branco rumo ao interior brasileiro onde ao redor da igrejinha de madeira começou a se formar um pequeno vilarejo até ser denominado de São Domingos de Tupá. No ano de 1873 o padre Francisco José Serôdio da Província de Santa Cruz do Rio Pardo realizou um censo demográfico e constatou que Tupá tinha 3629 habitantes. As edificações eram todas de madeira e as nascentes das minas foram decoradas com pedras até chegarem ao ribeirão São Domingos,dando assim a Tupá uma arquitetura invejável aos padrões da época.Apesar de uma prosperidade eminente,Tupá,seus habitantes e a igreja católica tinham um problema em comum.Os índios Oti-Xavantes que ora corrompidos se mostravam amigáveis e fiéis quanto a ocupação do homem branco,outrora cada vez mais encurralados dentro de seu território que a cada dia ficava menor se tornavam arredios e violentos.

A fama de Tupá se espalhava por várias regiões e a colonização chegava em ritmo acelerado e junto com ela a grilagem das terras indígenas cuja a legislação na época não as protegia,prevalecendo a lei dos mais forte.

Um grupo de colonizadores trabalhavam na retirada de toras de perobas a alguns quilômetros da sede de Tupá. Saiam de carro de boi bem de manhã e durante o dia os bois serviam na movimentação das toras. A tardezinha chegavam a Tupá e desde aquela época já era comum a passadinha na venda,conversar com os amigos e tirar a poeira da garganta com uma boa cachaça. Os Oti-Xavantes durante décadas estavam sendo estimulados a se confrontarem com os Caigangues que por sua vez também eram estimulados a confrontarem com os Oti-Xavantes pelos colonizadores de sua região.A demora para perceberem que lutavam contra si próprios em vão e que estes confrontos só interessava aos colonizadores acabou por enfraquecer as duas tribos e a revolta era nítida no olhar de todo índio.

O pequeno comércio já estava cheio de colonizadores em mais um final de tarde em Tupá e ao longe se ouvia o sinal sonoro típico dos carros de boi dos cortadores de madeira em seu regresso.

Quando avistado se percebeu que o carro não tinha condutor e os bois atraídos pela querência (querência é um termo usado no meio rural que quer dizer: amor ou saudade do lugar. Querência foi também o nome atribuído até nos dias atuais a uma grande fazenda próxima de onde o fato aconteceu) retornaram sozinhos. Ao se aproximar do carro percebeu-se então a dimensão da tragédia. Junto com a madeira estavam os corpos dos trabalhadores com ferimentos típicos de ataque indígena.

Com frieza poderia pairar a indagação no ar se a chacina não poderia ter sido feita por homens brancos e atribuída aos índios buscando a perfeição do crime.Porém a revolta age de maneira mais voraz que a razão e estava então decretada a guerra contra os Oti-Xavantes em uma verdadeira cruzada caipira.Diante da superioridade numérica e bélica dos colonizadores não demorou muito tempo para o total extermínio dos Oti-Xavantes e seus corpos como troféus enterrados em valas comuns no cemitério de Tupá.

Aos poucos a vida parecia voltar ao normal mas a razão do desaparecimento de Tupá ainda estava por vir. O padre responsável pela paróquia era Andréa Barra uma pessoa respeitada e querida por todos. Aquela época a figura do padre era de imensa importância a ponto de raramente se tomar alguma decisão sem seu conselho ,o que o tornava uma figura familiar e suas visitas nos lares comuns e frequentes.

Certo dia um italiano morador de Tupá chega do trabalho e entra em sua casa e no interior da residência de madeira o italiano encontra o padre onde se da início a uma acirrada discussão. Ouve-se um disparo de arma de fogo. Populares que estavam próximos ao local correm até a residência e pasmam com o acontecido,o padre Andréa Barra está morto.O italiano alega motivos passionais para o crime.O cemitério de Tupá quase todo ocupado por índios Oti-Xavantes sepultados,ficaria pequeno diante do número de pessoas que participariam do enterro do padre.O desabafo de outro padre vindo de outra localidade mudaria para sempre o destino de Tupá. Não seria abençoado por Deus um lugar em que um padre é assassinado.Daí por diante todos os acontecimentos negativos de Tupá eram atribuídos ao episódio e o desabafo do padre visto como profecia. As famílias amedrontadas começaram então a se mudar de Tupá de maneira que em pouco tempo o lugar parecia uma cidade fantasma.Aos poucos as casas de madeira iam sendo removidas e a extinção de Tupá estava decretada.

Com os antigos e legítimos ocupantes da terra os índios Oti-Xavantes dizimados e sem a presença dos colonizadores a região de Tupá ironicamente se transforma em um grande vazio geográfico.

Com o desaparecimento de Tupá novos vilarejos começavam a se formar pela região e na última década do século XIX a colonização já havia fincado sua bandeira em Agudos e Piratinga.Alavancados pela cafeicultura o desbravamento de nossa região ganhava força quando em 1905 os trilhos da noroeste do Brasil chegam a Santa Cruz dos Inocentes, o primeiro nome dado a cidade de Piratininga,que seria elevada a município o em 1913.

Em torno de 1915 dois imigrantes europeus o português Manoel Francisco do Nascimento e o italiano Antonio Consalter(a denominação Longo viria depois devido ter grande estatura) adquirindo grande quantidade de terras da família do coronel Virgílio Rodrigues Alves chegam a Cabrália Paulista. As terras de Manoel Francisco do Nascimento era toda a vastidão territorial da margem direita do rio Alambari para quem desce o rio e o lado esquerdo era de Antonio Consalter Longo até onde hoje está o município de Paulistânia.

As picadas na mata densa era o caminho que levava a região de Cabrália até Agudos e Piratininga,as únicas portas para a civilização naquela época.

Antonio Consalter Longo então resolve doar 22 alqueires a diocese de Botucatu na forma de aforamento de datas a fim de incentivar a nossa colonização já que toda a região ainda continuava com sua vegetação original e uma permanência solitária diante da hostilidade da floresta seria certamente uma sentença de morte.

Em 1920 a igreja católica inaugura uma capela de alvenaria onde nos dias atuais estão as escadarias da praça Antonio Pereira em louvor ao senhor Bom Jesus do Mirante.Denominação dada devido a cadeia montanhosa de Agudos que passa também por Piratininga,caminho obrigatório para se chegar em Cabrália aquela época.

Ao redor da capela de alvenaria se formando o patrimônio bom Jesus do Mirante através de lotes cedidos pela igreja.A decisão de Antonio Consalter Longo em doar os terrenos para a igreja estava dando certo.Rapidamente construções de alvenaria começaram a surgir em volta da igrejinha.Por sua vez os dois fundadores vendiam glebas de terras as muitas famílias que por aqui chegavam atraídas pela vastidão territorial,madeira de lei em abundância e terras férteis. As terras recém desmatadas produziam safras recordes,de coloração vermelha exuberante,enchia os olhos dos colonizadores.Porém o que poucos sabiam,era que nossa formação geológica fazia com que o solo fosse pouco resistente ao efeito das chuvas que a transformava rapidamente em areia. Semelhante ao solo de grande parte de florestas tropicais o solo é rico apenas com sua vegetação nativa e se enfraquece quando se torna nu. O efeito das chuvas fazia com que voçorocas também fossem aparecendo e após o enfraquecimento do solo ao invés da regeneração das espécies que predominavam anteriormente outras de crescimento mais rápido iam aparecendo. Começava então a se formar os campos de gabiroba e barba timão no lugar que outrora estavam as madeiras de lei. Desmatava-se outras glebas e novas safras excelentes viriam e novos campos de cerrado iam aparecendo após o abandono das culturas agrícolas. A peroba rosa em espécie era considerada o ouro das florestas e em Cabrália existia em grande quantidade e apesar da vastidão territorial sua extração aos poucos ia mudando o perfil da flora da região.

Em 1922 pela lei 1893 o patrimônio Bom Jesus do Mirante,torna-se distrito do mirante município de Piratininga e no início de 1924 começa a ser servido pela linha férrea onde é construído o prédio que receberia a denominação de Estação Cabrália.

Com a chegada da ferrovia a colonização do futuro município se acelerou de maneira significativa e casas comerciais começavam a surgir.


FOTO: Estação ferroviária de Cabrália Paulista no início de sua colonização. À frente tronco de peroba-rosa parcialmente destruído. Nos faz lembrar da letra da música Meu País: "Se a natureza nunca reclamou da gente, do corte do machado, a foice, o fogo ardente, e se nessa terra tudo que se planta dá..."

Antonio Consalter Longo e sua mulher eram italianos e fixaram seu domicílio em uma grande construção de alvenaria próximo de onde nos dias atuais está o prédio da prefeitura municipal de Cabrália Paulista. Era um homem com visão política o que explica o lado esquerdo do rio Alambari ter se urbanizado. Para a ferrovia seria mais viável o curso dos trilhos seguirem pelo lado direito do rio o que evitaria a construção de um pontilhão para chegar até Duartina. Porém o distrito do Mirante já estava formado o que obrigou a condução da malha ferroviária até ele.

Manoel Francisco do Nascimento fixou seu domicílio em área rural do distrito do Mirante já que suas terras ficaram fora do que seria o perímetro urbano mais precisamente a esquerda da foz do rio Preto afluente do Alambari.Era homem de hábitos simples e sua esposa descendente indígena,provavelmente de etnia Oti-Xavante ou Caigangue que estiveram mais próximas.

O atual cemitério de Cabrália Paulista seria inaugurado em 1926 e não existe inscrições de sepultamento da família de Manoel Francisco do Nascimento o que leva a crer que o casal faleceu antes desta data e provavelmente foram sepultados no antigo cemitério de Cabrália que ficava mais adiante do atual, pouco além da a Água da Jacuba ou então em sua própria propriedade, naquela época era comum as pessoas serem sepultadas próximas de suas residências.

Manoel Francisco do Nascimento não tinha nenhum parentesco com o comerciante Manoel Francisco que viria depois, tendo os dois seus nomes perpetuados em vias públicas da cidade de Cabrália Paulista.

Os filhos de Manoel Francisco do Nascimento após a morte de seus pais venderam o restante de suas terras e se mudaram para a região de Lucianópolis e nada mais soube-se deles.

Fato curioso que deve ser destacado foi quando a esposa de Manoel Francisco do Nascimento, que provavelmente já era viúva, avistou a locomotiva “Maria Fumaça” pela primeira vez se embrenhou mata afora com medo do “grande cavalo de ferro que fuma”.

A história indígena no continente americano mostra uma imposição do homem branco invadindo o território e ditando o ritmo da colonização, mudando o rumo de uma cultura milenar que harmoniosamente com o ecossistema, sobreviviam como qualquer outra espécie.

A resposta ditada pelo cacique norte americano Seatle em 1854 a um mensageiro do presidente daquele país que insistia para que os índios desocupassem a área onde viviam mostra claramente esta realidade.

“ A CARTA COMPLETA DO CACIQUE SEATLE”

SEATLE 1854

No ano de 1928 o distrito do Mirante impressionava pelo seu crescimento rápido a ponto da empresa comercial de propaganda Brasil Sp fazer o seguinte comentário”Todo município de Piratininga é riquíssimo ,mas a perola desse município é o distrito do Mirante,com lavouras novíssimas,em franca prosperidade,pertencentes á agricultores competentes,terras muito boas e produtivas. Situa-se a 28 km da sede em um lindo planalto. A montanha era o caminho para se chegar ao distrito do Mirante mas por ironia do destino no distrito do Mirante não existia montanhas, ficava em um planalto.

Apitava mais uma vez o trem chegando á estação ferroviária de Piratininga.Pessoas desciam a perguntar onde ficava o distrito do Mirante e eram informados que ficava bem depois daquele mirante(cadeia de montanhas existentes em Piratininga). Voltavam para o trem que os levariam a 28 km adiante.Mal sabiam que a altitude média do lugar que iriam era de 511 metros em um planalto. A Vila do Mirante, que ainda era bairro de Piratininga, dava fortes indícios que seria um lugar que explodiria rapidamente em crescimento econômico e demográfico. Começava a atrair investimentos de proporções consideráveis. Com projeto elaborado pelo engenheiro da Companhia Paulista de Estrada de Ferro, eram abertas largas avenidas que já projetavam o novo vilarejo para a cidade grande que provavelmente seria. A zona rural era onde a população se concentrava e surgiam os pequenos bairros como Floresta, Jiboia, etc.

Muitas casas eram construídas, casas comerciais e enormes barracões para o armazenamento de produtos agrícolas que eram escoados pela ferrovia (no trem de carga) e também por caminhões.

Ouvi o testemunho de um senhor natural de Cabrália, que se recorda em sua infância, de uma fila de caminhões desde o início da Rua Francisco Bueno dos Reis até a santinha do Asilo para carregar algodão nos barracões. O mundo católico, por sua vez, também via o vilarejo com esses olhos. Substituía a pequenina igrejinha de madeira com a construção de uma das maiores igrejas da região. Construía na mesma época, um enorme seminário no final de onde hoje é a Rua Mário Amaral Gurgel, mais precisamente nas imediações da Creche e Berçário Santa Maria Goretti até a entrada da Granja Céu Azul.

Com a ajuda da população da época, as duas obras foram terminadas. O mesmo morador que testemunhou a fila de caminhões, diz se lembrar que brincava no Seminário quando era menino. “Era um prédio enorme e quase todo de azulejo no seu interior”.

Outra atração de Cabrália na época que pode ser um observado na foto acima era o virador de locomotivas, o único da região. (ver foto)

Ao mesmo tempo em que o vilarejo era a “galinha dos ovos de ouro” para a sede do município, passava também a ser uma ameaça e preocupação, porque já existiam lideranças na Vila do Mirante clamavam pela emancipação política (que se tivesse acontecido com uma década de antecedência, as previsões citadas no início do texto, se concretizariam). Além de perder a galinha dos ovos de ouro, existia também a preocupação das consequências que isso poderia trazer à sede do município. Portanto, a resistência obviamente era grande para que continuasse a ser distrito.

A família que foi citada no capítulo anterior, apesar de ser descendente de italianos, primeiramente foi trabalhar de meieiros num sítio de portugueses na cabeceira do Rio Preto. Estavam otimistas. Em pouco tempo já conseguiram dinheiro para dar entrada em uma chácara perto do vilarejo e já tinham se mudado para lá. Continuavam a plantar algodão, arrendando sítios nas redondezas onde trabalhavam com toda a família, inclusive a mulher, que só deixava o serviço nos últimos dias de gravidez (foram 18 no total) e nos 40 dias de dieta. Outro negócio que começava a dar bons lucros para a família era a extração de casca de árvore barbatimão e sementes de capim que o trem de caga levaria para diversos lugares.

O pai da família sabia tocar sanfona, e já ensinava ao filho mais velho os segredos do acordeom. Faziam “bicos” tocando bailinhos na zona rural. Porém, para ir e vir da Vila do Mirante para a chácara que moravam tinham que passar obrigatoriamente em frente outra zona... a das meretrizes, que ficava no final de onde hoje fica a Rua Francisco Bueno dos Reis. E eram sempre convidados para tocar nos bailes de lá. As gorjetas eram super interessantes, porém a esposa se irritava com a possibilidade de ver seu marido e seu filho tocarem em bailes num local que na época sofria ainda mais preconceito do que nos dias atuais. O “Não”, cheio de desculpas inventadas eram sempre as respostas para as meretrizes. Infelizmente meus caros leitores, esta narrativa baseia-se na tentativa de, ao máximo, trazer a verdadeira história que o município de Cabrália viveu, e até mesmo os personagens que começam aparecer por essas “entrelinhas” não são ficção. Viveram de fato, e os acontecimentos narrados foram reais. A calmaria parecia fazer morada na Vila do Mirante. Os negócios agropecuários continuavam a ser a alavanca do futuro município. Na grande igreja recentemente construída ainda faltava o planejamento para o acabamento de sua torre e nos finais de semana parecia ter sido construída muito pequena diante de grande número de pessoas, principalmente vindas da zona rural. Foi-me relatado que onde hoje está a Praça Antonio Pereira, havia se formado uma grande erosão em forma de Y, que de maneira curiosa e provisória acabou se tornando um curral natural onde cercaram as pontas do Y. O curral servia para as pessoas guardarem seus animais e aos domingos, segundo os relatos, chegou a existir um tipo de feirão de rolo de animais.

FOTO: Cabrália já teve um seminário semelhante ao de Agudos e foi demolido sem nunca ter sido inaugurado.

Naquela época, se referindo à animais, tropa ...era moeda forte e de troca. As quadrilhas de ladrões de cavalo, como eram chamadas, existiam por todos os municípios e fronteiras como Piratininga, Agudos, Lucianópolis, etc, eram consideradas como hoje levar um carro para o Paraguai e vice-versa.

Um dos fundadores de nosso município e dono de grande parte de terras existentes por aqui na época havia doado os terrenos para a construção da igreja e do seminário. Pelo que percebi, era um homem centrado e firme. Vivia intensamente as necessidades da época. Por sinal, época de quem “não almoçasse, iria ser jantado”. O padre responsável pela paróquia do Senhor Bom Jesus dependia em decisões de outras paróquias, de sedes já emancipadas e diversos padres da região, em datas especiais, também apareciam por aqui esporadicamente. Segundo consta, muitos desses padres eram proprietários rurais e nos municípios vizinhos participavam também das políticas locais(naquela época era comum padres e bispos serem também proprietários rurais, etc). O padre , quando por aqui estava, tinha bom relacionamento com o fundador, inclusive, de acordo com relatos, chegaram até a fazer negócios particulares ligados ao ruralismo entre si.

Um belo dia, o fundador teria revelado ao padre que em uma data marcada iria se ausentar com a família e revelou ainda que por motivos particulares provavelmente demoraria a voltar. Pasmem meus caros leitores! Quando nosso fundador retornou de viagem se deparou com o seminário todo demolido, carregado em caminhões e levado embora. “Às vezes o inimigo mais perigoso é aquele que ninguém tem medo” Várias versões percorreram os ouvidos dos cabralienses sobre este episódio ao longo dos anos.

Porém, as versões vindas de fontes ligadas a Igreja sempre prevaleceram. Se hoje analisarmos friamente a natureza do episódio, veremos certamente que teve caráter político duplo. Foi um balde de água fria frente às pretensões de emancipação política e aos seus defensores na Vila do Mirante. Mesmo que o seminário pouco alterasse a parte econômica do lugar, o fator negativo psicológico falou muito alto, e ainda pela infelicidade de se aproximar a 2ª Guerra Mundial, fato que viria a parar o mundo e principalmente onde a base populacional era de europeus e descendentes, como era o caso da Vila do Mirante. Com poucas informações sobre os acontecimentos que recaiam sobre a Vila do Mirante e do mundo, a família citada nos capítulos anteriores havia centrado seus negócios para a extração de semente de capim gordura que se avermelhava em flor no final do mês de maio pelas terras recém desmatadas tinham colhido a última safra de algodão (a terra se enfraqueceu e as colheitas já não eram mais as mesmas) e devolvido o arrendamento a um português proprietário da terra que fica a margem direita do Rio Alambari. Fato curioso foi que no dia em foram colher a última soqueira de algodão o pai da família plantou por brincadeira, cerca de meia dúzia de mudas de eucalipto que havia sobrado dos que plantou em sua chácara. A terra que nunca mais foi explorada para cultivo teve a mata regenerada e as toras de eucalipto podem hoje ser vistas de longe quase 80 anos depois de seu plantio no meio da nova mata que ressurgiu.

O capim braqueara, como é popularmente conhecido, é natural do continente africano e naquela época ainda não era difundida no Brasil e a formação de pastagens era com capim nativo, como o caso do gordura, famoso para o gado leiteiro.


Mudança de nome[editar | editar código-fonte]

Começava o horror da Segunda Guerra Mundial. E por aqui, através de um decreto governamental, substituiu-se o nome “Mirante” por “Cabrália”, em homenagem ao descobridor do Brasil, Pedro Álvares Cabral.

Na verdade, dois fatores foram decisivos para o decreto. Mirante não tinha nada a ver com as características do lugar (e ainda estava trazendo problemas de natureza postal com Mirante “do Paranapanema”). O outro fator, também decisivo, foi que, diziam, estando a Companhia de Estrada de Ferro no seu auge, havia dirigentes que sonhavam compor o abecedário em suas paradas do trem, começando, assim, com Alba e continuando com Brasília, Cabrália, Duartina, Esmeralda, Fernão Dias, Gália, …, Tupã ....etc., até o final da linha (como se tivessem o poder de manter vivas as economias internas de todos os lugares.... Era muita pretensão).


FOTO: A igreja matriz ainda sem sua torre: O povo rezava pelo fim da guerra. À direita da foto, o prédio da cadeia de Cabrália na época.


CURIOSIDADE: Certa vez foi detido no prédio da cadeia acima, um senhor negro por nome de Zé Bernardo que estava bêbado. No outro dia, Zé Bernardo que era serrador de madeira com trançador arrancou a porta da cadeia com batente e tudo e saiu gritando pela rua com a porta na cabeça: "Zé Bernardo é nego duro!"


HERÓIS CABRALIENSES

Três cabralienses foram convocados para compor a força expedicionária brasileira na Segunda Guerra Mundial: João Antônio de Lucas, Pio Gonsalves Ruiz e Antônio Aparecido (morador da Fazenda Arizona e que infelizmente morreu em combate na famosa Tomada de Monte Castelo). Na década anterior, outro cabraliense já havia dado a vida – pela Constituição. Fernando Brancolino foi combatente na Revolução de 1932 e merece ser lembrado o fato de que, quando os soldados cabralienses retornaram, como Severino Coquemala, entre outros, o Brancolino não apareceu. Nem vivo nem morto.

FOTO: João Antônio de Lucas, um dos cabralienses que participaram da 2ª Guerra Mundial


A família, muito conhecida em Cabrália, pediu, então, na época, ajuda a um senhor de Cabrália (que não era o pai dele), que tomou a iniciativa de escrever ao batalhão de Caçapava, do qual ele fazia parte. Após algum tempo, receberam a resposta abaixo:

O narrador desta história não podia deixar esquecida a cena do filme Platoom (muito conhecido dos americanos em geral), onde o personagem principal, soldado norte-americano na Guerra do Vietnã, em meio a uma tempestade na selva vietnamita, reflete sobre a guerra em si, e em pensamento relata no filme sua surpresa que seus colegas, em grande maioria, eram de distritos e cidadezinhas pouco conhecidas. Concluímos então que a política – Guerra – e a conduta humana devem ser quase iguais em qualquer lugar do planeta.

Centrados na vida simples de Cabrália, a família que extraía as sementes do capim gordura, moídos pelo cansaço da luta naquele dia, não perceberam que um balão junino de grande porte caíra incandescente ao lado da tulha estocada de sacas do produto. Tudo se queimou. Desde a safra até as ferramentas de trabalho da família. Fome? Não. Quem conheceu o nosso Rio Alambari naquela época e em se tratando de uma família que vivia à sua margem, mudaria a palavra fome por dificuldades. Quando acabava o curimba... vinha a tabarana. Acabava a tabarana vinha o cardume de ximboré. Dificuldades ainda iriam passar.

Certa vez um menino hindu perguntou a um velho sábio indiano. “Mestre, qual é o pior dos crimes sobre a terra?” - E o velho mestre respondeu: “Só existe um crime sobre a terra – é o crime de roubar”. O menino então lhe indagou novamente: “Matar não é pior do que roubar?”. - E o mestre respondeu: “Quem mata rouba o direito do outro de viver, meu filho! Só existe um crime sobre a terra. É roubar”. Talvez sem querer, a pessoa que, sorrindo em uma cidade distante, soltou aquele balão, roubou algo muito importante daquela família naquela madrugada de junho. Depois de alguns dias, desolado pelo acontecido, o pai da família, deitado em sua casa, olhou para cima do guarda-roupas e ficou feliz ao perceber que uma de suas ferramentas não havia sido queimada pelo fogo. Ele ia trabalhar. Levantou-se e foi para o distrito de Cabrália. No sábado seguinte podia-se ouvir de longe a sanfona “chorar” no Bailão da Zona das Meretrizes. Não se sabe ao certo o gênero musical que era tocado naquela noite, mas provavelmente podemos imaginar nos dias atuais uma letra parecida com esta:

"Deixa o pau cai a fôia sanfoneiro Primeiro eu pego a nêga e vou dançar Depois eu tomo mais uma pro Santo Largo a guela e canto Poeira vai levantar

Hoje eu tô que tô xonado E a paixão que se recôia Não rezo sem ter pecado Eu to que to xonado E o pau que caia a fôia

Hoje eu vou partir pro crime To perdido e sem escôia Vou sair desse regime Eu vou partir pro crime E o pau que caia a fôia"

Geografia[editar | editar código-fonte]

Demografia[editar | editar código-fonte]

Dados do Censo - 2000

População Total: 4.656

  • Urbana: 3.992
  • Rural: 664
  • Homens: 2.332
  • Mulheres: 2.324

Densidade demográfica (hab./km²): 19,46

Mortalidade infantil até 1 ano (por mil): 19,32

Expectativa de vida (anos): 69,47

Taxa de fecundidade (filhos por mulher): 2,56

Taxa de Alfabetização: 88,64%

Índice de Desenvolvimento Humano (IDH-M): 0,743

  • IDH-M Renda: 0,655
  • IDH-M Longevidade: 0,741
  • IDH-M Educação: 0,834

(Fonte: IPEADATA)

Hidrografia[editar | editar código-fonte]

Rodovias[editar | editar código-fonte]

Religião[editar | editar código-fonte]

O município pertence à Diocese de Bauru, tendo como bispo Dom Frei Caetano Ferrari.

Educação[editar | editar código-fonte]

Escola Técnica

  • ETEC Astor de Mattos Carvalho

Escola Estadual

  • EE Senador Rodolfo Miranda

Escola Municipal

  • EMEF Professor Ivani Cotobias Pimentel Maranho

Escola Particular

  • Creche e Berçário Santa Maria Goretti

Referências

  1. a b Divisão Territorial do Brasil. Divisão Territorial do Brasil e Limites Territoriais. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) (1 de julho de 2008). Página visitada em 11 de outubro de 2008.
  2. IBGE (10 out. 2002). Área territorial oficial. Resolução da Presidência do IBGE de n° 5 (R.PR-5/02). Página visitada em 5 dez. 2010.
  3. Censo Populacional 2010. Censo Populacional 2010. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) (29 de novembro de 2010). Página visitada em 11 de dezembro de 2010.
  4. Ranking decrescente do IDH-M dos municípios do Brasil. Atlas do Desenvolvimento Humano. Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) (2000). Página visitada em 11 de outubro de 2008.
  5. a b Produto Interno Bruto dos Municípios 2004-2008. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Página visitada em 11 dez. 2010.

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