Doença holandesa

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Em economia, doença holandesa (do inglês Dutch disease) refere-se à relação entre a exportação de recursos naturais e o declínio do setor manufatureiro. A abundância de recursos naturais gera vantagens comparativas para o país que os possui, levando-o a se especializar na produção desses bens e a não se industrializar ou mesmo a se desindustrializar - o que, a longo prazo, inibe o processo de desenvolvimento econômico. [1] .

A expressão "doença holandesa" foi inspirada em eventos dos anos 1960, quando uma escalada dos preços do gás teve como consequência um aumento substancial das receitas de exportação dos Países Baixos e a valorização do florim (moeda da época). A valorização cambial acabou por derrubar as exportações dos demais produtos neerlandeses, cujos preços se tornaram menos competitivos internacionalmente, na década seguinte.

Assim, um aumento de receita decorrente da exportação de matérias primas pode prejudicar as exportações de bens manufaturados de um país, levando eventualmente ao declínio da indústria, dado que a valorização cambial pode tornar o setor manufatureiro menos competitivo externamente.

É difícil, porém, dizer exatamente quando é a doença holandesa é de fato a causa do declínio do setor manufatureiro, pois há outros fatores a considerar, além da taxa de câmbio - embora esta possa ter um impacto importante sobre a competitividade-preço. Além das variações da taxa de câmbio, outros fatores, como o custo da mão de obra e o custo do capital, devem ser considerados.

Embora seja mais comumente usado em referência à descoberta de recursos naturais, como petróleo e gás natural, a doença holandesa pode também se referir a "qualquer desenvolvimento que resulte em um grande fluxo de entrada de moeda estrangeira, incluindo aumentos repentinos de preços dos recursos naturais, ajuda externa ou volumosos investimentos estrangeiros".[2]

O modelo[editar | editar código-fonte]

As consequências estruturais de um "aumento da riqueza" de um país foram estudadas pelos economistas W. Max Corden e J. Peter Neary, em 1982.[3]

No modelo de Corden e Neary, a economia é dividida em três setores. Existe um setor "muito competitivo" internacionalmente (a exemplo da produção de petróleo), um setor pouco competitivo em termos internacionais e um terceiro setor não exposto à concorrência internacional (como o comércio de varejo, os serviços pessoais e a construção habitacional, por exemplo). Um aumento da rentabilidade do setor mais competitivo (decorrente de uma alta de preços de venda ou à descoberta de novas fontes de recursos naturais, por exemplo) pode afetar a economia de duas maneiras:

  1. Transferência da mão de obra para o setor mais competitivo, onde há maior demanda de trabalhadores, havendo também aumento dos salários em decorrência desse aumento da demanda por mão de obra. Este movimento de mão de obra, do setor estagnado para o setor florescente, é chamado de desindustrialização direta. Mas esse efeito pode, na realidade, ser pouco significativo, visto que as indústrias extrativas de hidrocarbonetos e minerais geralmente empregam poucas pessoas.
  1. O "efeito renda", que acontece em decorrência da renda adicional gerada pelo recurso abundante, em benefício dos vários agentes econômicos (inclusive o Estado), com decorrente aumento da demanda de bens, notadamente aqueles produzidos pelo setor não exportador, provocando uma alta geral de preços no país - em prejuízo do setor exportador menos competitivo, que deverá pagar insumos e salários mais caros e portanto, será obrigado a aumentar os preços de venda, perdendo competitividade internacional. Desta forma, o setor exportador menos competitivo tenderá a encolher (desindustrialização indireta).

Assim, o aumento das exportações de matérias primas traduzir-se-ia, num primeiro momento, em aumento do valor global das exportações e, portanto, em uma apreciação da moeda local (melhoria dos termos de troca). Mas isso acabaria por prejudicar a indústria local, que, diante da concorrência internacional, perderia fatias do mercado - até conseguir atingir um novo equilíbrio ou até que os fluxos de importação se tornassem aproximadamente iguais aos fluxos de exportação. Uma vez que as receitas geradas pela exportação de matérias primas diminuíssem (por esgotamento das fontes ou em razão da queda das cotações internacionais, por exemplo), a indústria local, cuja capacidade de produção estaria reduzida, poder-se-ia recompor - mas isso ocorreria muito lentamente.

Referências

  1. L. C. Bresser Pereira. "The Dutch disease and its neutralization: A Ricardian approach". Revista de Economia Política, 28:47–71 2008, apud Michele Polline Veríssimo et al. Taxa de Câmbio e Preços de Commodities: Uma Investigação sobre a Hipótese da Doença Holandesa no Brasil. EconomiA, Brasília(DF), v.13, n.1, p.93–130, jan/abr 2012
  2. Christine Ebrahim-Zadeh. Back to Basics – Dutch Disease: Too much wealth managed unwisely. Finance and Development, a quarterly magazine of the IMF, março de 2003, volume 40, n°1. "This syndrome has come to be known as "Dutch disease". Although the disease is generally associated with a natural resource discovery, it can occur from any development that results in a large inflow of foreign currency, including a sharp surge in natural resource prices, foreign assistance, and foreign direct investment."
  3. Booming Sector and De-Industrialisation in a Small Open Economy, por W. Max Corden e J. Peter Neary. The Economic Journal, v. 92, n° 368 (dezembro de 1982), pp. 825-848.

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