Em Busca do Tempo Perdido
Em busca do tempo perdido (do francês "À la recherche du temps perdu") é uma obra romanesca de Marcel Proust escrita entre 1908-1909 e 1922, publicada entre 1913 e 1927 em sete volumes, os três últimos postumamente.
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A Obra [editar]
Os sete volumes que constituem a obra são (os títulos em português são os da edição portuguesa da Relogio d'Água publicados entre 2003 e 2005 numa tradução de Pedro Tamen):
- Du côté de chez Swann (No caminho de Swann 1913)
- À l'ombre des jeunes filles en fleurs (À sombra das raparigas em flor, 1919, recebeu o prémio Goncourt desse ano)
- le Côté de Guermantes (O caminho de Guermantes, publicado em 2 volumes de 1920 e 1921)
- Sodome et Gomorrhe (Sodoma e Gomorra, publicado em 2 volumes em 1921-1922)
- la Prisonnière (A prisioneira, publicado postumamente em 1923)
- Albertine disparue (A Fugitiva - Albertine desaparecida, publicado postumamente em 1927) (título original: La Fugitive)
- le Temps retrouvé (O tempo reencontrado, publicado postumamente em 1927)
Pelas suas ambições (alcançar a substância do tempo para poder se subtrair de sua lei, a fim de tentar apreender, pela escrita, a essência de uma realidade escondida no inconsciente “recriada pelo nosso pensamento”), sua desproporção (quase 3500 páginas na coleção de bolso), e sua influência em trabalhos literários e nas pesquisas a vir (Proust é considerado como o primeiro autor clássico de seu tempo), "Em busca do tempo perdido" se classifica entre as maiores obras da literatura universal.
A tradução brasileira foi feita por Mário Quintana, o primeiro volume em 1948, o segundo em 1951 e os demais durante a década de 1950, e editada pela Editora Globo de Porto Alegre. Uma das traduções portuguesas é de Pedro Tamen, pela editora Relógio d'Água e Círculo de Leitores de Lisboa, entre 2003 e 2004.
Temas [editar]
Proust teceu a Primeira Grande Guerra na sua história, incluindo o bombardeamento aéreo de Paris; os pesadelos de juventude do narrador transformaram-se num campo de batalha, com 600.000 alemães mortos na luta por Méséglise, e com Combray dividida entre os dois exércitos.
Embora Proust fosse contemporâneo de Sigmund Freud, nenhum dos dois conhecia a obra do outro. O Dr. Howard Hertz, da Universidade de Pasadena City, comparou a obra de Proust com a de Melanie Klein, uma estudiosa das teorias freudianas.
O papel da memória é central no romance. Quando a avó do narrador morre, a sua agonia é retratada como um lento desfazer; em particular, as suas memórias parecem ir-se evaporando dela, até já nada restar. No último volume, O Tempo Reencontrado, o autor utiliza uma analepse, e faz com que o narrador recue no tempo das suas memórias, em episódios desencadeados por recordações de cheiros, sons, paisagens ou mesmo sensações tácteis.
Uma grande parte do romance debruça-se sobre a natureza da arte. Proust avança com uma teoria da arte em que todos somos potenciais artistas, se por arte entendemos transformar as experiências de vida do dia a dia em algo revelador de maturidade e entendimento. A música é também abordada extensamente. Morel, o violinista, é apresentado para exemplificar um certo tipo de carácter artístico, e o valor da música de Wagner é também debatido.
A homossexualidade é um dos temas principais do romance, especialmente em Sodoma e Gomorra e nos volumes seguintes. "Em Busca do Tempo Perdido" é o primeiro dos grandes romances em que a homossexualidade é tema central, tanto como conceito para discussão como pela descrição do comportamento dos seus personagens1 . Embora o narrador se descreva como heterossexual, suspeita constantemente das relações da sua apaixonada com outras mulheres. Também Charles Swann, a figura central de grande parte do primeiro volume, tem ciúmes da sua amante Odette (com quem mais tarde casará), que acabará por admitir ter realmente mantido relações sexuais com outras mulheres. Alguns personagens secundários, como o Barão de Charlus (inspirado em parte pelo o famoso Robert de Montesquiou), são abertamente homossexuais, enquanto outros, como o grande amigo do narrador, Robert de Saint-Loup, são mais tarde apresentados como homossexuais não assumidos. A monumental confrontação do tema da homossexualidade em "Em Busca do Tempo Perdido" permitiu aos leitores que a homossexualidade poderia ser mais que apenas actos lascivos de sodomitas ou os maneirismos afectados de homens obcecados em negar a sua masculinidade. Em vez disso, o romance de Proust apresentou a homossexualidade como um assunto complexo e multifacetado, que, se examinado de perto, derrota todos os estereótipos.2
Em 1949, o crítico literário Justin O'Brien, publicou um artigo denominado "Albertine the Ambiguous: Notes on Proust's Transposition of Sexes"3 ("A ambiguidade de Albertina; notas sobre a transposição de géneros sexuais em Proust"), que afirmava que alguns dos personagens femininos, nomeadamente a amante do narrador, Albertina, seriam melhor entendidos se se lhes mudasse o género sexual para o masculino: os nomes das amantes do narrador são todos possíveis no masculino: Albertine (Albert), Gilberte (Gilbert), Andrée (André). Esta teoria ficaria conhecida como a "teoria da transposição dos sexos" na análise crítica da obra literária de Proust, que seria mais tarde desafiada por Eve Kosofsky Sedgwick em "Epistemology of the Closet"4 (A Epistemologia do Armário).
Outros temas importantes nesta obra são a doença física e a crueldade.
Os Cenários [editar]
Em Busca do Tempo Perdido tem cinco cenários principais: a aldeia de Combray, Paris, Balbec, Doncières e Veneza.
Em Combray se passa as primeiras 200 páginas do romance. É onde estão as raízes da família - e da civilização francesa -, é o campo em oposição a dois caminhos tomados na narrativa: o caminho de Guermantes (ou da aristocracia), e o caminho de Swann (ou da arte e da depravação).
Paris é onde quase todo o romance se desenvolve. Primeiro nos jardins dos Champs-Élysées, onde o narrador conhece Gilberte Swann, e depois no apartamentoda família junto ao duque e à duquesa de Guermantes. É no emaranhado de salões, pátios e ruas dessa parte da cidade que o narrador conhecerá tanto a aristocracia quanto a depravação.
Balbec é uma cidade de veraneio imaginária no litoral da Normandia. É onde fica o estúdio de Elstir e onde se materializam as "raparigas em flor".
Doncières é uma cidade militar onde o narrador vive sua primeira experiência longe da família.
E Veneza, que fica na memória do narrador pela viagem planejada, desejada e cancelada pelo pai, e emerge anos depois com a visita que faz na companhia da mãe.
Lista de Personagens Principais [editar]
- Família do narrador:
- O Narrador: jovem sensível, de saúde frágil, que deseja se tornar escritor
- Pai do narrador: um diplomata que inicialmente desestimula o narrador da escrita
- Mãe do Narrador: afetuosa, enche o narrador de mimos
- Bathilde ou Madame Amédée: avó do narrador, sobre o qual tem grande influência
- Tia Leonie: tia-avó de saúde frágil a quem o Narrador visita durante suas estadias em Combray
- Tio Adolphe: tio-avô do Narrador, tinha muitas amigas/amantes atrizes
- Françoise: cozinheira da família do narrador, fiel e teimosa
- Os Guermantes:
- Barão de Charlus, ou Palamède: aristocrata decadente, é um esteta
- Duquesa de Guermantes, ou Sra. De Guermantes, ou Oriane: pertence a alta sociedade, seu salão é um dos mais disputados de Paris
- Duque de Guermantes, ou Bacin: homem pomposo com uma sucessão de amantes, é marido de Oriane e irmão de Charlus
- Robert de Saint-Loup: oficial do exército e melhor amigo do narrador, sobrinho da Duquesa de Guermantes
- Marquesa de Villeparisis: Tia do Barão de Charlus e da Duquesa de Guermantes. Ela é uma velha amiga da avó do narrador
- Sr de Norpois, ou Marques de Norpois: diplomata e amigo do pai do narrador. É amante da Sra. de Villeparisis
- Sra. de Marsantes: mãe de Robert de Saint-Loup, irmã do Duque e do Barão de Charlus
- Os Swann:
- Charles Swann: amigo da família do narrador. Suas opiniões políticas favoráveis no Caso Dreyfus e seu casamento com Odette vão afastá-lo de grande parte da alta sociedade
- Odette de Crécy: uma bela cortesã parisiense, esposa de Charles Swann
- Gilberte Swann: filha de Swann e Odette, primeiro amor do narrador
- Os Artistas:
- Elstir: pintor famoso pelas interpretações do mar e do céu
- Bergotte: escritor cujas obras o narrador admirava desde a infância
- Sr. Vinteuil: músico obscuro que ganhará reconhecimento póstumo
- Berma: famosa atriz
- "O Pequeno clã" dos Verdurin:
- Madame Sidonie Verdurin: senhora arrogante que mantém um grupo social a base de interesse
- Sr. Verdurin: marido da Sra. Verdurin, seu cúmplice fiel
- Conde de Forcheville: esnobe e grosseiro, desperta ciúmes em Swann
- Dr. Cottard: médico idiota na primeira fase no salão dos Verdurin, torna-se repeitável
- Brichot: pomposo professor da Sorbone
- Saniette: paleógrafo humilde, é ridicularizado pelo clã Verdurin
- Sr. Biche: um pintor, que mais tarde será revelado como Elstir
- As raparigas em flor de Balbec:
- Albertine Simonet: órfã privilegiada de beleza e inteligência, por quem o narrador se apaixona
- Andrée: amiga Albertine, a quem o Narrador ocasionalmente se sente atraído
- Gisele: outra moça do grupo das raparigas
- Octave: um menino rico, que leva uma existência ociosa de Balbec
- Outros:
- Albert Bloch: pretensioso amigo judeu do narrador
- Sr. Legrandin: amigo esnobe da família do narrador
- Marquês e Marquesa de Cambremer: aristocratas provinciais de Balbec, ela é irmã de Legrandin
- Jupien: alfaiate que tem uma loja no pátio do Hotel Guermantes
- Charles Morel: um violinista talentoso, filho de um ex-funcionário do tio do narrador
- Madame Bontemps: tia e guardiã de Albertine
- Rachel: Amante de Robert de Saint-Loup, atriz e ex-prostituta
- Senhorita Vinteuil: filha lésbica do compositor Vinteuil
- Lea: uma atriz lésbica famosa em Balbec
Ver também [editar]
Referências
- ↑ Woods, Gregory, "The Male Tradition, a History of Gay Male Literature", 1998, Yale University Press, New Haven and London.
- ↑ Fone, Bryan R. S., "The Columbia Anthology of Gay Literature", 1998, Columbia University Press, New York
- ↑ PMLA: revista da Modern Language Association of America, vol. XLIV, de Dezembro de 1949, pp. 933-952
- ↑ edição da University of California Press (1990), 258 p. ISBN 978-0520078741
Ligações externas [editar]
- Livro completo (em francês)