I-Juca-Pirama

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Gonçalves Dias, poeta, autor de I-Juca-Pirama

I-Juca-Pirama é um poema Indianista brasileiro escrito pelo poeta Gonçalves Dias. Publicado em 1851 nos Últimos Cantos[1] , está escrito sobre versos decassilábicos e alexandrinos, e dividido em dez cantos. É um dos mais famosos poemas Indianistas do Romantismo Brasileiro. Considerado por muitos a obra prima do poeta maranhense. O poema possui 484 versos.

Etimologia[editar | editar código-fonte]

I-Juca-Pirama é um termo doTupi que originalmente sofre as seguintes alterações: I-Juká Pyr-ama; I Îuká-pyr-ama; Y Yuká Pyr-ama; Y-Îuká Pyr-ama podendo ainda o k ser substituído por c dependendo do gramático. Gonçalves Dias grafou Y-Juca-Pyrama.

  • "Y" ou "Î" é em Tupi o pronome pessoal da segunda série (existem duas) que indica tanto a 3ª pessoa do singular quanto do plural. (no tupi só há 3ª pessoa e é o verbo que vai determinar se está no singular ou no plural)[2] .
  • "Yuká", ou "îuká" ou "Juká" é o verbo correspondende ao nosso "matar"[3] . No entanto, o verbo em tupi é ativo se o sujeito é o próprio agente[4] , isto é. O verbo"Yuká" quer é literalmente "fazer matar", enquanto que o verbo correspondente para "matar" (a gente) é apiti[5] .
  • "Pyr-ama"; para compreender "Pyrama" é preciso percebermos que em Tupi há vários sufixos de nomes verbais e particípios: bae, (s)ara, (s)aba, pyra, pora, bora, sûara, sûera, tyba. Pyra é o particípio passivo à semelhança de t-e-mi, enquanto que o ativo é bae, (s)ara; o "a" final de pyr-a é sufixo nominal. Assim o-îuká-bae é "o que mata"[6] . Os substantivos tupis entretanto tem futuro e passado e formam-se com as partículas rama e pûera[7] . Assim sendo, o passado de i-îuká-pyr-ama é i-îuká-pyr-ûera. Acontece que se tem n ou r, no futuro se junta ama; no passado, aqueles que têm r, faz-se era e às vezes ûera[8] . Sendo assim temos i-îuká-pyr-ama ao invés de i-îuká pyra-rama.

Barbora e Navarro traduzem i-îuká-Pyr-ama, apenas por "O que será morto"[9] [10] . Em termos gerais, significa aquele que deve ser matado.

Enredo[editar | editar código-fonte]

O poema relata a história de um guerreiro tupi sobrevivente e fugitivo da destruição na costa que cai aprisionado por uma tribo antropófaga dos Timbiras e que deve ser sacrificado conforme o rito. Antes dos sacrifícios o chefe Timbira propõe que àquele que vai ser morto deve cantar às suas façanhas para que os bravos Timbiras tenham maior gosto em sacrificá-lo; e assim inicia o seu canto:


Meu canto de morte,
guerreiros, ouvi:
Sou filho das selvas,
nas selvas cresci,
Guerreiros, descendo
Da tribo Tupi. (112-117)

Entretanto, a cena que se segue é um pedido de clemência em virtude de ser o último sobrevivente da sua tribo e ter ainda a responsabilidade de cuidar do velho pai, velho e cego. Depois do seu canto os Timbiras não querem mais sacrificá-lo e então o jovem parte triste com à recusa, entretanto quando chega para junto do velho pai, este percebe que o filho está com cheiro da tinta com que este está ungido para efeitos de sacrifício, então ambos travam uma conversa porque o velho pai interessado na bravura do filho quer saber como fugiu à massa. Quando descobre que o filho não terminou o ritual nem tampouco matou os seus agressores decide que devem ir à tribo terminar o ritual.

Entretanto, ao chegarem na tribo Timbira o velho Tupi descobre o engodo, que o filho em verdade havia chorado em presença da morte[11] e então o pai amaldiçoa o filho:


Tu choraste em presença da morte?
Na presença de estranhos choraste?
Não descende o covarde do forte:
Pois choraste, meu filho não és. (370-374).

O pai pragueja uma sequencia de desgraças para o filho, que manchara a honra e o nome na raça Tupi. O filho, não podendo suportar o ódio do pai, se enche de valentia e num súbito ato, declara ataque a toda a tribo Timbira. O cego reconhece o brado do filho, e ouvindo os barulhos da que se formou entendeu que o filho lutava com bravura. A confusão acabou quando o chefe Timbira gritou:

"— Basta, guerreiro ilustre! Assaz lutaste, — E para o sacrifício é mister forças. — " (451-452).

Ouvindo isso, o velho Tupi caiu em choro copioso. Choro de alegria.

O caso virou história contada nas noites por um velho Timbira.

Referências

  1. DIAS, 1851, 12-35.
  2. NAVARRO, 2005, 33-34.
  3. BARBOSA, 1956, 67 (114).
  4. BARBOSA, 1956, 121 (283).
  5. BARBOSA, 1956, 159 (396).
  6. BARBOSA, 1956, 254 (702).
  7. BARBOSA, 1956, 100 (216)
  8. BARBOSA, 1956, 100 (221).
  9. BARBOSA, 1956, 101 (222)
  10. NAVARRO, 2005, 221.
  11. Juca-Pirama. dominiopublico.gov.br. Página visitada em 23/11/2011.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • ACKERMANN, Fritz, A obra poética de António Gonçalves Dias, Trad. Egon Schaden, São Paulo, Conselho Estadual de Cultura, 1964.
  • BANDEIRA, Manuel, «A poética de Gonçalves Dias» in DIAS, A. G.,Poesia e prosa completas org. Alexei Bueno,1998. 57-70, b.
  • BARBOSA, Pe. A. Lemos. 1956. Curso de Tupi Antigo: Gramática, Exercícios, Textos. Rio de Janeiro: Livraria São José.
  • BOSI, Alfredo,Dialética da colonização, 4ª Ed. São Paulo, Companhia das Letras, 2001.
  • DIAS, A. Gonçalves, Últimos Cantos, Rio de Janeiro, Typographia de F. de Paula Brito, 1851.
  • GRIZOSTE, Weberson Fernandes, A dimensão anti-épica de Virgílio e o Indianismo de Gonçalves Dias, Coimbra, Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos, 2011.
  • LEAL, Antonio Henriques, Pantheon Maranhense: Ensaios bibliográphicos dos maranhenses illustres já falecidos, T. 3, Lisboa, Imprensa Nacional, 1874.
  • NAVARRO, Eduardo de Almeida, Método moderno de Tupi antigo, São Paulo, Global, 2005.


Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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