Psicoterapia gestaltista

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Psicoterapia Gestaltista é uma teoria e um método psicoterápico desenvolvido pela psicoterapeuta brasileira Vera Felicidade de Almeida Campos.[1] O termo foi utilizado pela primeira vez em língua portuguesa em seu livro Psicoterapia Gestaltista Conceituações, editado em 1972.[2] Neste primeiro livro, desenvolve os conceitos fundamentais da teoria.

A Psicoterapia Gestaltista, portanto, compreende:

  • um sistema teórico sobre o ser humano e seu comportamento e
  • um método psicoterápico



Criação[editar | editar código-fonte]

Vera Felicidade teve, desde a juventude, uma formação abrangente em filosofia e seus temas gerais, principalmente epistemologia, materialismo dialético, fenomenologia e existencialismo. Quando, em 1964, iniciou o curso de formação de psicólogo na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), já tinha experiência profissional com testes psicológicos, conhecia a psicanálise e iniciou intensas leituras de autores da Gestalt Psychology e suas experiências com percepção, pesquisas com as quais concordava completamente. Formou-se em Psicologia em 1968 sentindo-se insatisfeita com as abordagens na área de Psicologia Clínica, seja com as propostas behavioristas seja com as psicanalíticas, as duas correntes mais influentes da Psicologia. Consequentemente tinha uma crítica aos seguidores destas correntes, considerando-as incompatíveis com a Gestalt.

Os gestaltistas clássicos, de origem alemã, (Gestalt Psychology, Koffka, Koehler, Wertheimer e Kurt Lewin) [3] dedicaram-se a extensas pesquisas sobre percepção, publicando em 1912 um trabalho sobre percepção visual, considerado marco inicial[4] dos estudos de Gestalt. Seguem-se vários experimentos e publicações que foram em poucos anos interrompidas pelos acontecimentos políticos e grandes guerras na Europa[5] . Os gestaltistas migraram para os Estados Unidos, mas a Gestalt teve pouca divulgação. A Gestalt Psychology é uma teoria psicológica, não é uma psicoterapia.

Vera Felicidade, no final dos anos sessenta, inicia o desenvolvimento de uma psicoterapia fundamentada nas pesquisas da Gestalt e não nas experiências da Psicanálise que era base teórica da maioria das psicoterapias. Denomina sua criação de Psicoterapia Gestaltista, e essa se constitui em um corpo teórico explicativo do homem e seu comportamento e em um método psicoterápico próprio, baseado no diálogo entre psicoterapeuta e cliente (terapia individual). As bases de sua teoria são a Fenomenologia de Edmund Husserl,[6] a Gestalt (Gestalt Psychology) e o materialismo dialético.[7] O marco fundador da Psicoterapia Gestaltista é o livro Psicoterapia Gestaltista Conceituações, que descreve as bases da teoria e da prática psicoterápica. A autora inicia perguntando-se o que é o ser humano?

Nas palavras de sua própria criadora, a Psicoterapia Gestaltista deveria responder as questões básicas do que é o ser humano, como ele se desenvolve; como fundamentar o trabalho de transformação, abertura e visualização de uma estrutura humana, de uma outra individualidade.[8]

Neste primeiro livro, dedicou um capítulo à crítica ao conceito de inconsciente, dada a sua influência em praticamente todas as escolas da Psicologia Clínica, assim como nas Ciências Humanas em geral. O inconsciente é um conceito chave da Psicanálise em torno do qual desenvolve-se todo seu corpo teórico e prática terapêutica; influenciou inúmeras abordagens psicoterápicas como a Bioenergética, o Psicodrama, a Psicologia Analítica, a Gestalt Therapy, a Psicologia Transpessoal etc. Portanto, a Psicoterapia Gestaltista se diferencia e se constitui em antítese[9] a todas as propostas psicoterápicas que incorporam o conceito de inconsciente.[10] Esse diálogo crítico com as psicoterapias existentes à época era inevitável dada a originalidade da teoria proposta por Vera Felicidade para quem o ser humano não era um ser complexo a ser analisado, desvendado, mas sim um ser a ser conhecido, sem a priori.


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Conceituações[editar | editar código-fonte]

Alguns conceitos importantes da Psicoterapia Gestaltistas são: o ser humano é possibilidade de relacionamento, perceber é conhecer, problemas psicológicos são problemas perceptivos, autorreferenciamento, não aceitação etc.

Dualismo versus unidade[editar | editar código-fonte]

Observamos na Psicoterapia Gestaltista uma preocupação em resolver o dualismo característico do pensamento ocidental, encontrado nas inúmeras polaridades como: mente-corpo; sujeito-objeto; percepção-sensação; consciência-inconsciente; homem-mundo; interior-exterior; essência-aparência etc. Toda a obra de sua criadora expressa o enfrentamento do problema do dualismo em psicologia (principalmente no livro Terra e Ouro são Iguais), desenvolvendo um pensamento no qual é fundamental seu conceito de percepção como relação.[11]

Perceber é conhecer[editar | editar código-fonte]

O conceito de percepção é de suma importância na Psicoterapia Gestaltista e pode servir como um fio condutor no seu estudo. Partindo do ponto onde os gestaltistas deixaram as pesquisas sobre percepção, partindo de suas afirmações de que a percepção das formas (gestalten) é instantanea,[12] Vera Felicidade dinamiza esse conceito unitário dos gestaltistas sobre percepção, afirmando que perceber é conhecer, que perceber que se percebe é categorizar e que pensamentos são prolongamentos perceptivos.[13] O desenvolvimento do conceito de percepção deixa claro que vida psicológica é vida perceptiva, estar vivo é perceber.[14] As implicações dessas conceituações são fundamentais na sua obra, tanto na definição de ser humano quanto na psicoterapia; permite entender o ego como um sistema de referência, de arquivos vivenciais. Em seu quinto livro, continuando seus desenvolvimentos anteriores sobre percepção, ela diz que não existe mente, nem consciência,[15] tais conceitos dicotomizam a totalidade ser-no-mundo; para ela o ser humano é uma totalidade, uma gestalt e é o estudo da percepção que permite entendê-lo; a trajetória humana pode ser expressa como: relacionamentos geram posicionamentos, geradores de novos relacionamentos, que por sua vez geram novos posicionamentos indefinidamente. Os problemas psicológicos se caracterizam pela quebra dessa dinâmica, pelo enrijecimento, pela coisificação, pela parada no posicionamento.

Autorreferenciamento e não aceitação[editar | editar código-fonte]

Toda percepção se dá em termos de Figura e Fundo, esse é o princípio básico dos gestaltistas que também dizem que sempre percebemos a Figura, o Fundo nunca é percebido mas existe uma reversibilidade entre Figura e Fundo: quando percebemos o Fundo, este vira Figura e vice-versa.[16] A perda desta reversibilidade é uma das características do autorreferenciamento. Vera Felicidade desenvolve a noção de que a relação com o outro nos constitui e é o contexto no qual desenvolvemos aceitação ou não aceitação. Quando existe aceitação, existe disponibilidade, quando se desenvolve não aceitação, existe autorreferenciamento, problemas psicológicos.[17]

O processo psicoterápico[editar | editar código-fonte]

Em Psicoterapia Gestaltista, mudando a percepção, muda-se o comportamento. De acordo com sua criadora, consegue-se isso pelo questionamento, pela reestruturação do campo estruturante dos problemas.[18] Segundo a Psicoterapia Gestaltista, somos o que percebemos, o que a relação com o outro nos possibilita ser. Ao mudar quaisquer um destes referenciais, muda nossa percepção, nosso comportamento.

Tudo o que era explicado pelo inconsciente, pelos instintos, pelos traumas é explicado na Psicoterapia Gestaltista pela percepção, pelas dinâmicas relacionais. Por exemplo: não perceber o próprio problema não é porque o problema seja inconsciente, mas sim porque ele é o Fundo estruturante de todo o comportamento e o Fundo nunca é percebido (lei fundamental da percepção[19] ). O questionamento psicoterápico possibilita novas percepções, possibilita mudança.

Livros sobre Psicoterapia Gestaltista[editar | editar código-fonte]

  • Psicoterapia Gestaltista - Conceituações, Edição da Autora, Rio de Janeiro-RJ, 1972
  • Mudança e Psicoterapia Gestaltista, Zahar Editores, Rio de Janeiro-RJ, 1978
  • Individualidade, Questionamento e Psicoterapia Gestaltista, Editora Alhambra, Rio de Janeiro-RJ, 1983
  • Relacionamento - Trajetória do Humano, Edição da Autora, Salvador-BA, 1988
  • Terra e Ouro são Iguais - Percepção em Psicoterapia Gestaltista, Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro-RJ, 1993
  • Desespero e Maldade - Estudos Perceptivos - Relação Figura/Fundo, Edição da Autora, Salvador-BA, 1999
  • A Questão do Ser, do Si Mesmo e do Eu, Relume Dumará, Rio de Janeiro - RJ, 2002
  • Mãe Stella de Oxóssi – Perfil de uma Liderança Religiosa, Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro-RJ, 2003
  • A realidade da ilusão, a ilusão da realidade, Relume Dumará, Rio de Janeiro – RJ, 2004

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. "Ao pensarmos em processos psicológicos internos – e a palavra “mentais” remete essencialmente a isso -, estamos mais uma vez no terreno do mais elementar dualismo cartesiano. Idéia e matéria, dentro e fora, interno e externo. As correntes derivadas da Fenomenologia de Husserl têm evitado, ou mesmo abandonado inteiramente esse tipo de divisão. Veja-se, especialmente, toda a abordagem dada à questão pela psicóloga gestaltista Vera Felicidade de Almeida Campos, criadora da Psicoterapia Gestaltista - Indicamos aqui, a propósito, alguns de seus livros, apesar de a questão, por ser básica, perpassar toda a sua obra: Psicoterapia Gestaltista – Conceituações, Rio de Janeiro, Ed da Autora, 1973; Individualidade, Questionamento e Psicoterapia Gestaltista, Rio de Janeiro, Ed.Alhambra, 1984; Terra e Ouro: são iguais, Rio de Janeiro, Ed Jorge Zahar, 1994; A questão do ser, do si mesmo e do eu, Rio de Janeiro, Ed Relume Dumará, 2002 - veja-se também seu site [1] Psicoterapia Gestaltista - Esta citação é do artigo: Por que Fisicalismo?, Betty Malin, Revista Litteris, Número 4, Rio de Janeiro, março de 2010
  2. Psicoterapia Gestaltista - Conceituações, Edição da Autora, Rio de Janeiro-RJ, 1972
  3. os pesquisadores Kurt Koffka, Wolfgang Kohler, Max Wertheimer e Kurt Lewin são considerados os clássicos da Gestalt Psychology, são responsáveis por pesquisas na área da percepção e a publicação de seus ensaios sobre este tema, marcam o início da Gestalt Psychology. Ver os seguintes livros com artigos destes autores: A Source Book of Gestalt Psychology, prepared by Willis D. Ellis, Routledge and Kegan Paul LTDA, London, 1969; ver também o livro Readings in Perception, written by Max Wertheimer, book organized by David C. Beardslee and Michael Wertheimer, D.Van Nostrand Company Inc. New York, 1964; e o livro Thinking: from Association to Gestalt, organized by Jean Matter Mandler and George Mandler, John Wiley and Sons Inc. New York, 1964
  4. Este artigo de Max Wertheimer, publicado em 1912, é considerado o marco inicial dos estudos de Gestalt Experimental Studies on the Seeing of Motion
  5. Tanto a 1ª quanto a 2ª Guerra Mundial interromperam vários projetos de pesquisas e carreiras acadêmicas principalmente na Alemanha. Os gestaltistas, na maioria alemães ou tchecos de origem judaica, migraram para os Estados Unidos
  6. Edmund Husserl (1859-1938) era um filósofo alemão e a figura central do movimento fenomenológico. O termo fenomenologia foi usado pela primeira vez em 1764, na Alemanha, pelo filósofo Johann Heinrich Lambert, contemporâneo de Kant. Continuou sendo usado por outros filosófos alemães como Hegel, mas tornou-se o nome de uma Escola de Filosofia nos anos precedentes à I Guerra Mundial, na Alemanha. Um grupo de filósofos de várias universidades alemãs, iniciaram a publicação de estudos fenomenológicos, cujo editor e principal figura era Edmund Husserl, considerado o mais original e mais influente pensador do grupo. Ver por exemplo, The Encyclopedia of Philosophy, página 135, verbete: Phenomenology, The Macmillan Company and The Free Press, New York, 1967
  7. No prefácio de seu livro Psicoterapia Gestaltista Conceituações, Vera Felicidade deixa claro quais são as bases teóricas de seu trabalho, afirmando que ele se fundamenta no gestaltismo como teoria a respeito do comportamento humano, na fenomenologia e no materialismo dialético (que não deve ser confundido com o marxismo como ideologia) enquanto abordagem metodológica, na página 11 da edição de 1972
  8. ver Individualidade Questionamento e Psicoterapia Gestaltista, página 11, Vera Felicidade de Almeida Campos, Alhambra, 1983
  9. ver reportagem no Jornal A Tarde, 16 de maio de 1988, Formada em Psicologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, a psicoterapeuta gestaltista baiana Vera Felicidade, 45 anos, lança seu quarto livro, intitulado "Relacionamento-Trajetória do Humano". Há 20 anos, ela revolucionou a Psicologia ao negar a idéia de inconsciente no livro "Psicoterapia Gestaltista-conceituações" (agora relançado) e criou um método psicoterápico próprio, a partir dos fundamentos da Gestalt alemã e da Fenomenologia de Husserl. Numa entrevista exclusiva para A TARDE, ela fala de sua teoria e faz antítese a uma série de conceitos da Psicologia atual".
  10. ver o livro Psicoterapia Gestaltista Conceituações, O Mito do Inconsciente, pátina 71, Vera Felicidade de Almeida Campos, Rio de Janeiro, 1972
  11. ver o capítulo A essência humana é uma unidade que se polariza enquanto sujeito e objeto, página 87, e Percepção unidade vivencial, página 67 in Terra e Ouro são Iguais Percepção em Psicoterapia Gestaltista, Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 1993
  12. ver Laws of organization in perceptual forms, Max Wertheimer, pag. 71, in ‘’A Source Book of Gestalt Psychology” prepared by Willis D. Ellis, Routledge and Kegan Paul Ltda, London, 1969
  13. ver Estruturação do Processo Perceptivo, página 15, em Desespero e Maldade, Salvador, 1999
  14. ver Vida Psicológica é Vida Perceptiva, página 23 em A Questão do Ser, do Si Mesmo e do Eu, Relume Dumará, Rio de Janeiro, 2002
  15. Terra e Ouro são Iguais, capítulo A Polaridade Resulta da Unidade, página 23, Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 1993
  16. Laws of Organization in Perceptual Forms, Max Wertheimer, pag. 71, in A Source Book of Gestalt Psychology, prepared by Willis D. Ellis, Routledge and Kegan Paul Ltd, London, 1969
  17. ver Dinâmicas da não aceitação, página 57, em Terra e Ouro são Iguais, Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 1993 e Estruturação de Identidade, Aceitação e Não-Aceitação, página 60 em A Questão do Ser, do Si Mesmo e do Eu, Relume Dumará, Rio de Janeiro, 2002
  18. ver Ser Psicoterapeuta, página 125, em Terra e Ouro são Iguais, Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 1993
  19. Relacionamento Trajetória do Humano, página 21, Salvador, 1988